
Só quero
Fandom: Harry potter
Criado: 13/08/2026
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O Segredo sob as Sombras de Little Hangleton
As mãos de Harry tremiam enquanto ele segurava o diário de couro velho, mas não era o diário de Tom Riddle que o preocupava naquele momento. Era a memória de uma conversa sussurrada na Torre da Astronomia, momentos antes da queda de Alvo Dumbledore. O diretor, com a voz embargada pelo veneno e pela fraqueza, havia pronunciado um nome que não constava em nenhum livro de história da magia: Clara.
— Harry, você precisa encontrá-la — dissera Dumbledore, os olhos azuis perdendo o brilho, mas fixos em uma urgência sobrenatural. — Ela é o único fio de humanidade que resta, a única que ele nunca ousou corromper porque... porque ele a ama da única forma que um monstro consegue amar.
O trio estava escondido em uma tenda, o som da chuva batendo contra a lona criando um ritmo hipnótico. Hermione folheava freneticamente os registros de Hogwarts que conseguira "pegar emprestado".
— Achei! — exclamou ela, apontando para uma foto amarelada de 1943. — Clara Riddle. Nascida trouxa. Mas Harry, aqui diz que ela desapareceu no sétimo ano. E o sobrenome...
— Ele deu o nome dele a ela — concluiu Rony, pálido. — Mas como ela pode estar viva? Isso foi há cinquenta anos.
Harry olhou para o mapa que haviam traçado. Havia uma propriedade, protegida por feitiços tão antigos e complexos que nem mesmo o Ministério sabia de sua existência. Um lugar onde o tempo parecia ter esquecido de passar.
Longe dali, em uma mansão escondida pelas brumas de uma floresta que não aparecia em nenhum mapa trouxa, o sol da tarde entrava suavemente pelas janelas de cristal. Clara Riddle estava sentada em uma poltrona de veludo, os dedos gordinhos e ágeis tricotando um cachecol de lã macia. Ela tinha o rosto redondo, bochechas coradas e uma expressão de serenidade que parecia deslocada em um mundo à beira do colapso.
A porta da biblioteca se abriu sem ruído. Um homem entrou. Ele era alto, de uma beleza aristocrática e sombria, com cabelos negros perfeitamente alinhados e olhos que, embora escuros, brilhavam com uma intensidade possessiva. Ele não era a criatura ofídica que aterrorizava o mundo bruxo; ele era Tom, o jovem de vinte e dois anos que Clara conhecera nos corredores de Hogwarts.
— Você está atrasado para o chá, Tom — disse ela, sem desviar os olhos das agulhas de tricô.
Tom Riddle aproximou-se, o manto negro flutuando atrás dele. Ele se ajoelhou aos pés de Clara, um gesto que nenhum de seus Comensais da Morte acreditaria ser possível. Ele pegou uma das mãos dela e a beijou com uma reverência quase religiosa.
— Peço perdão, minha querida — disse ele, a voz aveludada, escondendo a frieza que costumava usar para ditar sentenças de morte. — Assuntos administrativos. Os negócios da família exigem muito tempo ultimamente.
Clara sorriu e acariciou o cabelo dele. Ela não envelhecera um dia sequer desde que Tom encontrara uma forma de amarrar a força vital de ambos. Ela era sua âncora, seu segredo mais bem guardado. Para Clara, o mundo lá fora ainda era o mesmo de 1945. Tom cuidava para que nenhum jornal bruxo entrasse na casa, para que nenhuma coruja trouxesse notícias de guerras ou de Lorde Voldemort.
— Você trabalha demais — comentou ela, levantando-se com um pouco de dificuldade, o corpo curvilíneo movendo-se com uma graça lenta. — Às vezes sinto falta de Hogwarts. Por que nunca mais voltamos lá? E por que não posso usar minha varinha para as tarefas domésticas? Você sabe que sou perfeitamente capaz.
Tom levantou-se rapidamente e envolveu a cintura dela com os braços, puxando-a para perto. Ele adorava o contraste entre a pele quente dela e a sua, que sempre parecia um pouco fria demais.
— O mundo bruxo tornou-se um lugar perigoso e instável, Clara — mentiu ele, a voz suave como seda. — Há doenças, revoltas... Eu protejo você aqui. Você não precisa de magia quando tem a mim. Eu faço tudo o que você desejar.
— Eu queria ver o céu de Londres — suspirou ela, encostando a cabeça no ombro dele. — Sinto falta do cheiro da chuva na cidade.
Tom estreitou os olhos. Londres era um campo de batalha disfarçado, mas ele faria qualquer coisa para manter o brilho nos olhos dela.
— Eu trarei Londres até você — prometeu ele. — Amanhã, o jardim terá o perfume das ruas de Westminster e eu farei com que os elfos tragam os melhores doces daquela confeitaria que você gostava.
Clara riu, um som cristalino que era o único som capaz de acalmar a tempestade de ódio que habitava o peito de Voldemort.
— Você me mima, Tom.
— Eu apenas dou a você o que é seu por direito — respondeu ele, beijando-lhe a testa. — O mundo inteiro não é nada comparado ao seu conforto.
Naquela noite, enquanto Clara dormia um sono profundo induzido por uma poção sutil misturada ao seu chá — apenas para garantir que ela não acordasse com os gritos de algum Comensal da Morte sendo punido no porão — Tom Riddle caminhava pelo escritório.
Ele olhou-se no espelho. A aparência humana era um esforço de vontade constante, uma máscara que ele sustentava apenas para ela. Ele não podia permitir que ela visse o que ele se tornara. Para Clara, ele ainda era o monitor-chefe brilhante, o órfão que encontrara nela o seu único porto seguro. Se ela soubesse da guerra, se ela soubesse das Horcruxes... ele a perderia. E Tom Riddle preferia ver o mundo queimar a perder a única posse que ele realmente valorizava.
De repente, um estalo de aparatação ecoou do lado de fora das proteções. Tom sentiu a intrusão imediatamente. Seus olhos brilharam em um vermelho escarlate por um segundo antes de voltarem ao castanho profundo.
Ele saiu para a varanda, observando as sombras na borda da floresta. Três figuras jovens, exaustas e cobertas de lama, tentavam romper as barreiras. Ele reconheceu a cicatriz de Potter mesmo à distância.
— Tolos — sibilou ele para si mesmo.
Ele estava pronto para erguer a varinha e aniquilá-los ali mesmo, mas a porta do quarto de Clara se abriu atrás dele. Ela apareceu esfregando os olhos, vestida em uma camisola de seda branca.
— Tom? Ouvi um barulho. Está tudo bem?
A fúria assassina no rosto de Tom desapareceu instantaneamente. Ele se virou com um sorriso reconfortante.
— Apenas alguns animais na floresta, querida. Volte para a cama.
— Pareciam vozes — disse ela, caminhando até a varanda.
Tom bloqueou a visão dela com seu próprio corpo, as mãos segurando os ombros dela com firmeza, mas sem machucar.
— É apenas o vento entre as árvores velhas. Eu vou verificar, só por precaução. Por favor, entre.
Clara olhou para ele, uma ponta de dúvida cruzando seus olhos castanhos.
— Você está me escondendo algo, Tom? Desde que saímos da escola, sinto que o mundo ficou pequeno demais. Só esta casa, só este jardim...
— Eu estou protegendo você — repetiu ele, a voz ganhando uma nota de desespero contido. — O mundo lá fora é cruel, Clara. Eles não entenderiam nós dois. Eles tentariam separar você de mim. Você quer isso?
— Não — sussurrou ela, tocando o rosto dele. — Eu nunca quero deixar você.
— Então confie em mim.
Ele a conduziu de volta para dentro e fechou a porta com um feitiço de selagem silencioso. Ao voltar para a varanda, Potter e os outros haviam recuado, provavelmente percebendo que as proteções eram impenetráveis por meios convencionais.
Tom Riddle olhou para a escuridão. Dumbledore fora esperto. Ele deixara a pista sobre Clara sabendo que ela era o único ponto fraco na armadura do Lorde das Trevas. Se Potter chegasse até ela, se ela soubesse a verdade sobre os assassinatos, sobre o medo que o nome de Tom inspirava, ela olharia para ele com horror. E esse horror seria a única coisa que Tom Riddle não conseguiria suportar.
— Eles não vão chegar perto de você — murmurou ele para o ar frio da noite. — Eu matarei cada um deles antes que uma única palavra de verdade chegue aos seus ouvidos.
Lá dentro, Clara Riddle deitou-se novamente, mas o sono não veio. Ela olhou para as próprias mãos, que não tinham uma única ruga, apesar das décadas que sentia terem passado. Ela amava Tom, mas às vezes, no silêncio da noite, ela se perguntava por que os pássaros que voavam sobre a mansão pareciam estar fugindo de algo que ela não conseguia ver.
— Tom — sussurrou ela para o quarto vazio —, o que você fez com o mundo para ter tanto medo de me deixar vê-lo?
A resposta estava nas cinzas de um país em guerra, mas naquela mansão de tempo parado, o chá continuaria sendo servido às quatro, e Tom Riddle continuaria sendo, para sempre, o homem que faria qualquer coisa para manter sua rainha em uma gaiola de ouro, protegida da própria escuridão que ele criara.
