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Criado: 13/08/2026
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Desejos Sob o Sol do Sertão
A poeira levantada pelos pneus da caminhonete de Emanuel parecia dançar sob a luz dourada do fim de tarde na Fazenda Santa Edwiges. O casarão colonial dos avós, com suas varandas largas e redes balançando ao sabor do vento, era o cenário de todos os verões da família, mas este ano o ar parecia carregar uma eletricidade diferente.
Emanuel estacionou o veículo e respirou fundo, sentindo o cheiro de terra molhada e mato. Ao seu lado, Sara retocava o batom vermelho vibrante no espelho do quebra-sol. Ela usava um vestido justo de oncinha que realçava as curvas acentuadas pelo silicone e a pequena saliência, quase imperceptível para olhos estranhos, de sua barriga de um mês.
— Chegamos, amor — disse Emanuel, colocando a mão sobre a coxa dela. — Pronta para enfrentar o clã dos Albuquerque?
Sara guardou o batom na bolsa de grife e sorriu, um sorriso largo e despreocupado que sempre desarmava Emanuel.
— Eu nasci pronta, Manu. E agora que carrego um herdeiro aqui dentro, ninguém vai ousar me olhar torto.
Emanuel riu e a beijou com vontade. Ele amava Sara. Amava o jeito espalhafatoso dela, a forma como ela gesticulava ao falar da sua loja de roupas no centro da cidade, e até mesmo a vulgaridade honesta que chocava as tias mais conservadoras. Mas, conforme desciam do carro, seus olhos buscaram instintivamente outra figura na varanda.
Lá estava Eduarda.
Sua prima estava sentada em um dos degraus, lendo um livro. Ela era o oposto de Sara: a pele clara e delicada, os cabelos castanhos presos em um coque perfeito de bailarina, e uma aura de serenidade que parecia emanar de cada movimento seu. Eduarda não era apenas uma estudante de Direito dedicada; ela era a professora de ballet mais requisitada da cidade, uma mulher que parecia flutuar em vez de andar.
Emanuel sentiu aquele aperto familiar no peito. Ele não entendia como, mas seu coração era grande o suficiente para abrigar dois mundos opostos. Ele queria a intensidade carnal e a parceria sem filtros de Sara, mas também desejava a pureza e a elegância etérea de Eduarda.
— Ela está linda hoje, não está? — sussurrou Sara ao pé do ouvido dele, percebendo o olhar do marido.
Emanuel não se assustou. Não havia segredos entre eles. Meses atrás, em uma noite de vinhos e confissões, ele admitira para a esposa o fascínio que sentia pela prima. Sara, em sua sabedoria prática e desprovida de ciúmes possessivos, apenas dera de ombros.
— Se é ela que completa o que falta em você, Manu, eu não vou lutar contra — Sara dissera na época. — Eu quero você feliz. E se para ser feliz você precisa das duas, a gente dá um jeito.
Emanuel apertou a mão de Sara, grato pela compreensão dela.
— Ela é um anjo, Sara.
— Pois vamos lá cumprimentar o seu anjo — disse Sara, ajeitando o decote.
A recepção foi o caos habitual de uma família grande. Os pais de Eduarda, Rodrigo e Helena, que mais pareciam irmãos mais velhos da filha devido à jovialidade, vieram abraçá-los. Helena, sempre elegante, trocou um olhar rápido com o vestido de Sara, mas manteve a polidez.
— Emanuel, meu querido! E Sara, como vai o bebê? — perguntou Helena.
— Crescendo e aparecendo, tia! — respondeu Sara, dando um tapinha na barriga. — Esse aqui vai ter o gênio do pai e o bom gosto da mãe.
Eduarda se aproximou, fechando o livro com um sorriso tímido.
— Oi, Emanuel. Oi, Sara. Parabéns pela gravidez, ficamos muito felizes com a notícia.
— Obrigada, Duda! — Sara deu um abraço apertado na prima, que pareceu um pouco sufocada pelo perfume doce e forte da loira. — Você precisa passar na loja, chegou uma coleção de sedas que é a sua cara. Nada dessas coisas curtas que eu uso, algo bem... "professora de ballet".
Eduarda riu, as bochechas ganhando um tom rosado.
— Vou passar sim, Sara. Obrigada.
Emanuel ficou apenas observando, o olhar fixo na nuca de Eduarda, onde alguns fios de cabelo escapavam do coque. Ele sentia uma vontade avassaladora de protegê-la e, ao mesmo tempo, de desvendá-la.
A noite caiu sobre a fazenda, trazendo o som dos grilos e o cheiro do jantar sendo preparado no fogão a lenha. Após a refeição farta, as mulheres se dispersaram. Eduarda e as primas mais novas, Bia e Marcela, correram para o quarto grande no andar de cima, trancando a porta como faziam desde crianças.
Lá dentro, o ambiente era de confidências. Deitadas sobre as colchas de retalhos, as meninas começaram o assunto favorito das reuniões de família: a vida alheia e as descobertas da vida adulta.
— Gente, vocês viram o tamanho do decote da Sara? — cochichou Bia, rindo. — Eu achei que os peitos dela fossem saltar na sopa.
— Deixa ela, Bia — defendeu Eduarda, embora estivesse rindo baixo. — Ela é autêntica. O Emanuel parece adorar.
— Adorar é pouco — disse Marcela, sentando-se em posição de lótus. — Ele olha para ela como se ela fosse um banquete. Mas vocês viram como ele olha para a Duda também?
Eduarda sentiu o coração dar um salto.
— Para mim? Impressão sua, Marcela. Somos primos, crescemos juntos.
— Não é impressão não, prima — continuou Marcela, baixando o tom de voz para algo mais picante. — É um olhar diferente. Um olhar de quem quer saber o que tem debaixo desse coque de bailarina. E falando nisso... Duda, você ainda é... você sabe?
Eduarda escondeu o rosto no travesseiro, sentindo o calor subir pelo pescoço. Apesar de ser a mais velha ali, sua dedicação à dança e aos estudos a mantivera em uma redoma de timidez.
— Sou — murmurou ela. — Não apareceu ninguém que fizesse eu querer mudar isso.
— Mas você tem curiosidade, não tem? — Bia se aproximou, os olhos brilhando. — A gente ouviu as histórias da Sara lá embaixo. Ela conta tudo! Ela disse que o Emanuel é... bem, digamos que ele é muito "atencioso" na cama.
Eduarda ouvia tudo em silêncio, o coração acelerado. A ideia de sexo sempre fora algo abstrato, uma coreografia que ela ainda não havia aprendido. Mas ouvir as primas falarem sobre o prazer, sobre o toque e sobre como Emanuel tratava Sara, despertava nela uma curiosidade latente, quase proibida.
— Ela disse que ele gosta de ter o controle — continuou Bia, empolgada. — Mas que ele também sabe ser doce. Imagina, Duda, um homem desses...
— Parem com isso — disse Eduarda, embora não fizesse menção de sair do quarto. — Ele é casado. E ela está grávida.
— Mas a Sara é moderna — comentou Marcela. — Eu ouvi ela dizendo na cozinha que não acredita em posse. Que o amor de verdade é livre.
Enquanto isso, na varanda térrea, Emanuel e Sara compartilhavam uma rede. Ele fumava um cigarro de palha, observando as estrelas, enquanto ela descansava a cabeça em seu ombro.
— Elas estão lá em cima falando de nós — disse Sara, com um sorriso de canto.
— Como você sabe? — perguntou Emanuel.
— Eu conheço o olhar daquelas meninas. Elas morrem de curiosidade sobre como é a nossa vida. E a sua prima... a Eduarda... ela é um diamante bruto, Manu.
Emanuel suspirou, soltando a fumaça lentamente.
— Ela é perfeita demais para mim, Sara. Às vezes sinto que se eu tocar nela, eu a quebro.
— Você não quebra, você molda — disse Sara, virando-se para encará-lo. — Eu vi como ela te olha quando você não está vendo. Ela te admira. Ela só precisa de um empurrãozinho para sair desse casulo de disciplina e descobrir que o mundo é muito mais do que passos de ballet.
— Você realmente não se importa? — perguntou ele, pela milésima vez.
Sara pegou a mão dele e a colocou sobre seu ventre.
— Eu amo você, Emanuel. Você me deu tudo o que eu sempre quis: respeito, uma loja, e agora esse filho. Se você tem esse fogo por ela, e se ela puder nos fazer mais felizes, por que eu seria contra? Eu quero que nossa casa seja cheia de vida. E a Eduarda... ela traria uma paz que eu não tenho.
Emanuel beijou a testa da esposa, sentindo-se o homem mais sortudo e, ao mesmo tempo, o mais confuso do mundo. Ele queria a luxúria de Sara e a pureza de Eduarda. Queria o barulho da loja de roupas e o silêncio do estúdio de dança.
Lá no andar de cima, Eduarda apagou a luz do quarto, mas o sono não vinha. As palavras das primas ecoavam em sua mente. Ela imaginou as mãos de Emanuel, mãos grandes e calejadas do trabalho na fazenda, tocando sua pele com a mesma delicadeza com que ele segurava uma rédea de cavalo.
Ela se levantou e foi até a janela, olhando para a varanda. Viu os dois na rede, uma silhueta única sob o luar. Ela sentiu uma pontada de algo que não sabia identificar se era inveja ou desejo.
Emanuel, como se sentisse o olhar dela, olhou para cima. Seus olhos se encontraram no escuro por um breve segundo. Não houve acenos, apenas o reconhecimento silencioso de uma tensão que vinha sendo construída há anos.
Sara, percebendo o movimento do marido, sorriu para a escuridão. O plano dela era simples: o amor não deveria ser uma divisão, mas uma soma. E naquela fazenda, sob o calor do verão, ela estava decidida a fazer Emanuel ter tudo o que desejava.
— Amanhã — sussurrou Sara para Emanuel —, amanhã você vai levar ela para ver o pôr do sol na cachoeira. Só vocês dois.
— Sara... — Emanuel tentou protestar, mas o desejo em sua voz o traiu.
— Vai, Manu. Confia na sua mulher.
Emanuel fechou os olhos, imaginando a cena. Eduarda na água, os cabelos soltos, e ele finalmente podendo dizer o que guardava no peito. O verão estava apenas começando, e as regras da família Albuquerque estavam prestes a ser reescritas pelo desejo de um homem e pela generosidade de uma mulher que não conhecia limites para o amor.
