Fanfy
.studio
Imagem de fundo

D

Fandom: Nenhum

Criado: 13/08/2026

Tags

RomanceDramaDor/ConfortoPsicológicoEstudo de PersonagemCiúmesMenção de IncestoLinguagem ExplícitaFatias de VidaGravidez Não Planejada/IndesejadaHistória DomésticaGótico Sulista
Índice

Entre o Verniz e o Veludo

O sol de final de tarde banhava a fazenda dos avós em tons de âmbar e ouro velho, conferindo à propriedade uma aura de nostalgia que Emanuel raramente se permitia sentir. Ele estava encostado na caminhonete, observando o movimento da família com o olhar analítico de quem gerencia impérios, mas com o cansaço de quem carrega o mundo nos ombros. Aos vinte e cinco anos, ele não era apenas um tatuador renomado com estúdios em Londres, Paris e Nova York; ele era a âncora de todos ali.

Sentiu um par de braços envolver sua cintura por trás, e o perfume doce, forte e caro de Sara o atingiu instantaneamente.

— Você está com aquela cara de quem está calculando o lucro do próximo trimestre, Manu — a voz dela era um ronronar provocante.

Emanuel relaxou os ombros, virando-se nos braços da namorada. Sara era uma visão impactante: os cabelos loiros platinados perfeitamente escovados, o vestido justo de seda vermelha que acentuava cada curva — inclusive a leve e quase imperceptível saliência de um mês de gravidez — e aquele sorriso de quem conhece todos os segredos do mundo. Ela era exuberante, direta e, para muitos, vulgar. Para Emanuel, ela era o seu porto seguro e sua tempestade favorita.

— Só estou garantindo que ninguém se mate antes do jantar — respondeu ele, beijando-a com uma possessividade calma.

— Você sabe que eu não me importo de dividir sua atenção com os negócios, desde que eu seja a prioridade — Sara disse, ajeitando a gola da camisa dele. Ela se inclinou, sussurrando perto do ouvido dele: — E a Duda? Já viu sua pequena bailarina hoje?

Emanuel sentiu um aperto familiar no peito. Não era culpa, pois Sara sabia de tudo. Ele havia confessado a ela meses atrás, em uma noite regada a vinho e honestidade brutal, que o que sentia por Eduarda, sua prima, transcendia o afeto familiar. Era um encantamento silencioso, uma necessidade de proteger aquela doçura que parecia não pertencer a este mundo bruto. Sara, em sua sabedoria prática e desprovida de ciúmes convencionais, apenas sorriu e disse que ele tinha coração suficiente para ambas.

— Ela chegou com os pais agora pouco — Emanuel respondeu, a voz baixando um tom. — Está lá dentro, ajudando com as malas.

— Vá falar com ela — Sara deu um tapinha no peito dele, os olhos brilhando com uma inteligência social aguçada. — Ela parece um passarinho assustado toda vez que a família se reúne. Eu vou ver se sua avó precisa de ajuda na cozinha, ou melhor, vou ver se encontro algum vinho que preste, embora eu só possa olhar a garrafa agora.

Sara se afastou com seu andar confiante, os quadris balançando de forma a atrair todos os olhares, mas sem se importar com nenhum deles. Ela era a rainha do seu próprio mundo.

Emanuel caminhou em direção à casa grande. Ao entrar na sala de estar, o contraste foi imediato. Se Sara era o sol do meio-dia, Eduarda era o luar de uma noite de primavera.

Ela estava de pé junto à janela, conversando com a mãe. Usava um vestido de algodão leve, cor de lavanda, que caía suavemente sobre seu corpo esguio. Eduarda tinha vinte anos, estudava História da Arte e passava os dias ensinando ballet para crianças, e cada movimento seu refletia essa delicadeza. Quando ela viu Emanuel, um sorriso tímido e genuíno iluminou seu rosto fino.

— Emanuel! — Ela deu alguns passos em direção a ele, hesitando antes de se aproximar demais, como sempre fazia.

— Duda. — Ele estendeu a mão, e ela a aceitou, permitindo que ele a puxasse para um abraço rápido e protetor. Ela cheirava a sabonete de flores e papel antigo. — Como foi a viagem?

— Um pouco cansativa, mas estou feliz de estar aqui — disse ela, a voz suave e melodiosa. — A fazenda é o único lugar onde o tempo parece parar, não acha?

— Para mim, o tempo nunca para, Duda. Ele só corre mais devagar quando você está por perto — Emanuel disse, e a honestidade em sua voz fez as bochechas da prima ganharem um tom rosado.

Ele a observou com atenção. Eduarda era a personificação da fragilidade que ele sentia necessidade de blindar. Enquanto Sara era sua parceira de guerra, Eduarda era a paz pela qual ele lutava. Ele amava Sara com uma intensidade carnal e intelectual; amava Eduarda com uma devoção quase religiosa e protetora. E o fato de Sara aceitar — e até incentivar — esse equilíbrio era o que mantinha Emanuel são.

— As meninas estão nos chamando lá em cima — Eduarda disse, apontando para a escadaria onde duas outras primas faziam sinal. — Acho que vamos ter uma "reunião de cúpula" antes do jantar.

— Vá lá. Eu vou resolver umas coisas com meu avô no escritório.

Emanuel a viu subir, a leveza de bailarina fazendo-a parecer flutuar nos degraus. Ele sentiu o peso da responsabilidade aumentar. Ele queria as duas. E, de alguma forma, ele faria aquilo funcionar, porque não conseguia conceber uma existência onde tivesse que abrir mão do fogo de Sara ou da luz de Eduarda.


No andar de cima, o quarto de Eduarda havia se tornado um refúgio. As portas estavam trancadas e as quatro primas estavam espalhadas pela cama de casal e pelo tapete felpudo. O ar estava carregado de uma cumplicidade feminina que sempre deixava Eduarda um pouco nervosa, mas curiosa.

— Vocês viram o corpo da Sara? — Lúcia, a prima mais velha e desbocada, comentou enquanto lixava as unhas. — Um mês de gravidez e ela continua usando aqueles vestidos que parecem pintados no corpo. Se eu comer um pão a mais, já fico parecendo um balão.

— Ela é linda — Eduarda disse baixinho, sentada com as pernas cruzadas na posição de lótus, a postura impecável de bailarina. — Parece uma estrela de cinema.

— Ela é vulgar, isso sim — retrucou outra prima, Beatriz. — Mas o Emanuel parece hipnotizado. E agora com o bebê... ele vai dar o mundo para ela. Literalmente, já que ele é podre de rico.

Eduarda sentiu uma pontada estranha no peito ao ouvir sobre o bebê. Ela estava feliz por Emanuel, é claro, mas a ideia dele formando uma família tão sólida com Sara trazia uma melancolia que ela não sabia explicar.

— E você, Duda? — Lúcia a provocou, jogando uma almofada nela. — Vinte anos, faculdade de artes, cercada de quadros e música clássica... Já deixou algum daqueles intelectuais da faculdade chegar perto desse seu corpinho de boneca de porcelana?

Eduarda sentiu o rosto queimar.

— Eu... eu não tive muito tempo. O ballet e os estudos tomam tudo.

— Ah, para com isso! — Beatriz se inclinou para frente, os olhos brilhando de malícia. — Vamos falar de coisa séria. Sexo. Você já teve curiosidade, Duda? Ou ainda está esperando o príncipe encantado no cavalo branco?

Eduarda baixou o olhar, brincando com a barra do vestido. Ela era tímida, sim, mas não era desprovida de desejos. Muitas vezes, em seus sonhos mais profundos e inconfessáveis, o rosto do homem que a tocava não era o de um estranho, mas sim o de alguém com olhos sérios e mãos grandes, marcadas por tatuagens e história.

— Eu gosto de ouvir vocês falarem — Eduarda admitiu, a voz quase um sussurro. — Mas parece tudo tão... intenso.

— E é para ser intenso! — Lúcia riu. — Menina, não tem nada melhor do que quando você encontra alguém que sabe exatamente onde tocar. O Emanuel, por exemplo... ele tem cara de quem é um animal na cama. Aquela postura de controle dele? Aposto que ele domina tudo.

Eduarda apertou os dedos entrelaçados. A imagem de Emanuel, tão racional e contido, perdendo o controle em um momento de paixão era algo que fazia seu estômago dar voltas.

— Vocês acham que... que ele é feliz com ela? — Eduarda perguntou, tentando soar casual.

— Ele a adora — disse Beatriz. — Mas o Emanuel é um homem complicado. Ele tem muita pressão sobre ele. Às vezes acho que ele precisava de alguém que fosse o oposto da Sara para equilibrar. Alguém suave.

O silêncio caiu sobre o quarto por um momento, as primas trocando olhares que Eduarda não soube decifrar. Ela se sentia pequena, uma espectadora da vida dos outros, enquanto seu próprio coração batia em um ritmo que ela mal ousava reconhecer.


Enquanto isso, na varanda térrea, Sara estava sentada em uma balança de vime, observando a lua começar a surgir. Emanuel aproximou-se e sentou-se ao lado dela, o peso de seu corpo fazendo a balança ranger levemente.

— Elas estão trancadas lá em cima falando de coisas que fariam seus ouvidos sangrarem — Sara disse, soltando uma risadinha.

— Eu imagino. A Lúcia não tem filtro.

— A Duda está lá. Ela é tão pura, Manu. Às vezes me dá vontade de colocá-la em uma redoma de vidro, e olha que eu não sou do tipo maternal com ninguém além do que está crescendo aqui dentro — ela tocou o ventre discretamente.

Emanuel passou o braço pelos ombros de Sara, puxando-a para perto.

— Ela é especial.

— Eu sei que é. E eu sei que você a quer tanto quanto me quer, de um jeito diferente, mas com a mesma profundidade — Sara olhou nos olhos dele, sem sombra de dúvida ou ressentimento. — Eu não sou uma mulher comum, Emanuel. Eu não quero um homem que se sinta incompleto. Se para você ser plenamente feliz, você precisa daquela doçura ao seu lado, então nós vamos dar um jeito.

— Você fala como se fosse simples, Sara. A família, a sociedade... a própria Eduarda. Ela não tem ideia.

— Ela sente, Manu. Ela pode ser tímida, mas é intuitiva. Ela olha para você como se você fosse o centro da gravidade dela. E eu? Eu sou a rocha onde você constrói suas fundações. A gente não precisa seguir as regras de ninguém. A gente tem o dinheiro, o poder e, acima de tudo, a gente tem a verdade entre nós.

Emanuel olhou para a janela do andar de cima, onde a luz do quarto de Eduarda ainda brilhava. Ele sentia a tensão em seus músculos, o eterno conflito entre a razão que lhe dizia para manter as coisas como estavam e o instinto que clamava por possessão.

— O que você está sugerindo? — ele perguntou, a voz rouca.

— Estou sugerindo que este feriado na fazenda seja o começo de algo novo — Sara sorriu, um sorriso predatório e ao mesmo tempo generoso. — Vamos trazê-la para o nosso mundo, devagar. Vamos mostrar a ela que ela não precisa escolher entre a segurança e a paixão. Ela pode ter os dois. Ela pode ter você. E ela pode ter a mim também, como uma aliada.

Emanuel respirou fundo, sentindo o cheiro do mato e o perfume de Sara. Ele pensou na fragilidade de Eduarda e na força de Sara. Ele era o elo entre o caos e a ordem, entre o desejo e a proteção.

— Você é uma mulher perigosa, Sara.

— Eu sou a mulher que te ama o suficiente para não te querer pela metade — ela respondeu, selando a promessa com um beijo que prometia mudanças irrevogáveis.

Lá em cima, Eduarda encostou a testa no vidro frio da janela, observando os dois vultos na varanda. Ela não conseguia ouvir o que diziam, mas sentia a eletricidade no ar. Ela não sabia que, naquele momento, sua vida de bailarina solitária e estudante dedicada estava prestes a ser invadida por uma tempestade de sentimentos que ela nunca imaginou ser capaz de suportar — ou de desejar tanto.

A noite na fazenda estava apenas começando, e as sombras traziam consigo segredos que o amanhecer teria dificuldade em esconder. Emanuel, o homem que controlava impérios de tinta e pele, estava prestes a começar sua obra mais complexa: a união de dois mundos opostos sob o seu comando, movido por um amor que não aceitava definições.

Índice

Quer criar seu próprio fanfic?

Cadastre-se na Fanfy e crie suas próprias histórias!

Criar meu fanfic