
Amigos?
Fandom: Naruto
Criado: 13/08/2026
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A Fronteira Invisível das Notificações
O pátio do Colégio Konoha High fervilhava com o barulho típico do intervalo, mas para Lis, o mundo parecia ter se reduzido à tela de 6,1 polegadas que ela segurava com as duas mãos. Ela estava sentada no banco de cimento, praticamente fundida à lateral de Itachi. Ele, como sempre, parecia uma estátua de gelo sob o sol de meio-dia, com os fones de ouvido no pescoço e a postura impecável de quem nunca havia amassado o uniforme na vida.
— Você acabou de investigar meu celular por dez minutos — comentou Itachi, a voz calma e profunda cortando o barulho das conversas alheias. Ele nem sequer olhou para ela, mantendo os olhos escuros fixos no movimento do corredor.
— Eu estava procurando uma coisa — rebateu Lis, os dedos ágeis deslizando pela lista de conversas do WhatsApp dele. O contraste entre eles era gritante: o cabelo dela, com as raízes tingidas de um vermelho vibrante, caía em cachos rebeldes sobre os ombros dele.
— O quê?
— Não sei.
— Então você estava investigando.
— Cala a boca, Itachi.
Ele soltou um suspiro curto, o tipo de som que qualquer outra pessoa interpretaria como tédio, mas que Lis sabia ser apenas a forma dele de dizer que estava achando graça. Ele não tentou pegar o aparelho de volta. Nunca tentava. Na verdade, Itachi era a única pessoa no mundo que deixava Lis invadir sua privacidade digital sem sequer piscar.
— Quem é essa "Izumi" que te mandou um link de cafeteria no sábado? — Lis disparou, estreitando os olhos para a tela.
— Uma colega do curso de literatura. Ela queria discutir um ensaio sobre realismo.
— Sei. Realismo. — Lis bufou, jogando o corpo para trás e encostando a cabeça no ombro dele, ainda segurando o celular. — Ela tem cara de quem usa emoji de coração branco pra parecer "estética" e depois tenta roubar o namorado, quer dizer, o amigo dos outros.
Itachi finalmente virou o rosto para ela. A proximidade era tanta que a ponta do nariz dele quase roçou na têmpora de Lis.
— Ela é apenas uma colega, Lis. E você sabe que eu não gosto de café gelado.
— Eu sei. Você gosta de chá quente e de me irritar. — Ela guardou o celular dele no bolso da própria saia, um gesto possessivo que faria qualquer psicólogo ter um dia de campo. — Vou ficar com isso por enquanto. O meu descarregou.
— Você sabe a minha senha. Não é como se eu estivesse escondendo segredos de Estado.
— Exatamente por isso que é divertido. Se você escondesse, eu teria que me esforçar.
Nesse momento, uma sombra barulhenta se projetou sobre eles. Naruto se aproximou com um sorriso que ia de orelha a orelha, equilibrando um suco de caixinha e um sanduíche que parecia prestes a desmontar.
— E aí, casal do ano! — Naruto exclamou, sentando-se no banco da frente. — De novo nessa melação? Itachi, como você aguenta ela mexendo nas suas coisas? Se a Sakura pega o meu celular, eu sinto que minha alma sai pelo corpo.
Lis revirou os olhos, mas não se afastou um milímetro de Itachi.
— Não é melação, Naruto. É amizade sincera. O Itachi confia em mim, ao contrário de você, que provavelmente tem histórico de busca comprometedor.
— Amizade, sei... — Naruto deu uma mordida gigante no sanduíche e falou com a boca cheia. — Amigos que se pegam no fundo do ônibus na excursão do mês passado?
Lis sentiu o rosto esquentar, a cor vermelha de suas raízes parecendo se espalhar pelas bochechas.
— Foi um momento de tédio! O ônibus estava escuro e a gente estava dividindo o mesmo fone. Acontece.
— Comigo nunca aconteceu de beijar o Sasuke por tédio — rebateu Naruto, rindo.
Itachi, que até então permanecia em silêncio, apenas ajustou o relógio no pulso.
— Naruto, a sua lógica é falha. Mas a sua capacidade de ser inconveniente é impecável.
— Viu só? — Lis apontou para Itachi. — Ele nem liga. A gente é só amigo.
Sakura, que chegava logo atrás de Naruto, soltou uma risadinha cética. Ela observou como a mão de Lis estava descansando naturalmente sobre a coxa de Itachi, e como ele, de forma quase imperceptível, havia inclinado o corpo para acomodar melhor o peso da garota.
— Lis, querida — disse Sakura, sentando-se ao lado de Naruto —, vocês dois são o maior "estudo de caso" dessa escola. Se o Itachi fosse apenas seu amigo, ele já teria te dado um bloqueio por essa investigação de celular há três anos.
— Ele gosta da minha companhia — insistiu Lis, cruzando os braços (mas ainda mantendo o contato físico com Itachi). — E eu cuido dele. O Itachi é muito parado, se eu não checasse quem fala com ele, ele acabaria saindo com uma psicopata.
— Ou com alguém que realmente admita que gosta dele — murmurou Sasuke, surgindo do nada como uma aparição sombria. O irmão mais novo de Itachi tinha aquele olhar de quem sabia demais e se importava de menos.
Itachi lançou um olhar de advertência para o irmão, mas Sasuke apenas deu de ombros.
— O que foi? O Naruto está certo pelo menos uma vez na vida. Vocês dois são ridículos.
— Cala a boca, Sasuke! — Lis jogou uma bala de goma nele, que o garoto desviou com facilidade. — Vai procurar o que fazer.
O sinal tocou, anunciando o fim do intervalo. Naruto e Sakura se afastaram, ainda trocando risadinhas, enquanto Sasuke seguiu para o prédio das salas do segundo ano. Lis e Itachi se levantaram em sincronia, como se estivessem coreografados pelos anos de convivência.
— Me devolve o celular — pediu Itachi, estendendo a mão.
— No final da aula. Quero ver se a Izumi do "Realismo" vai te mandar mais alguma coisa.
Ele não insistiu. Apenas começou a caminhar em direção à sala de aula, com Lis saltitando ao seu lado, agarrando-se ao braço dele como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Durante a aula de Física, o tédio de Lis atingiu níveis críticos. O professor falava sobre vetores, mas a mente dela estava em um vetor muito específico: a pasta de mensagens arquivadas de Itachi. Ela sabia que era errado, mas a curiosidade era o seu motor. Aproveitando que o professor estava de costas escrevendo no quadro, ela tirou o celular de Itachi do bolso e desbloqueou a tela.
Ela pretendia apenas ver se havia algo novo de Izumi, mas seus olhos foram atraídos para uma notificação de um grupo que Itachi tinha com Shisui e mais alguns primos da família Uchiha.
O nome dela apareceu em uma das prévias de mensagem.
O coração de Lis deu um solavanco. Ela abriu a conversa, sentindo o suor frio nas mãos.
Shisui: "E aí, cara? Vai levar a Lis na festa do sábado ou vai continuar fingindo que vocês são só 'bons companheiros'?"
Lis prendeu a respiração. Ela deslizou para baixo para ver a resposta de Itachi.
Itachi: "Ela ainda não decidiu se quer ir. E você sabe como ela é. Se eu pressionar, ela nega só por teimosia."
Shisui: "Kkkkkk você é muito paciente. Se fosse eu, já teria desistido dessa negação dela há eras. Todo mundo vê, Itachi. Até o Sasuke, que é um porta, vê."
Lis sentiu o sangue latejar nas têmporas. Ela continuou descendo.
Itachi: "Eu não me importo com o que os outros veem. Eu me importo com o que ela está pronta para admitir. Por enquanto, ser o 'melhor amigo' dela é o suficiente para me manter por perto. Não vou estragar o que temos forçando um rótulo que a assusta."
A garota sentiu o mundo girar. Itachi... ele sabia. Ele não estava apenas sendo paciente por ser uma pessoa calma. Ele estava sendo paciente com ela. Ele estava esperando que ela parasse de fugir.
— Lis? — A voz sussurrada de Itachi veio do lado dela. Ele estava sentado na carteira vizinha, observando-a com aquele olhar analítico que ela sempre tentava decifrar.
Ela rapidamente bloqueou a tela e colocou o celular sobre a mesa, as mãos tremendo levemente.
— O que foi? — ela perguntou, tentando manter o tom de voz casual, mas falhando miseravelmente.
Itachi olhou para o celular e depois para o rosto dela. Ele percebeu a mudança na respiração dela, a forma como ela evitava o contato visual direto. Ele sabia que ela tinha lido algo que não devia. Ou talvez, algo que ela precisava ler.
— Você está pálida — comentou ele, a voz tão baixa que apenas ela podia ouvir. — Quer ir à enfermaria?
— Não... eu estou bem. Só... a Física é um saco.
Ele esticou a mão e, de forma deliberada, tocou a mão dela que estava sobre a mesa. Não foi um toque acidental. Foi firme, quente e carregado de um significado que Lis não podia mais ignorar.
— Você terminou sua investigação? — perguntou ele, com um leve erguer de sobrancelha.
Lis olhou para a mão dele sobre a sua. Ela pensou em todas as vezes que o beijou e agiu como se fosse nada. Pensou em como investigava a vida dele por puro medo de perdê-lo para outra pessoa. Pensou na frase dele na mensagem: "Não vou estragar o que temos forçando um rótulo que a assusta."
Ela não estava assustada com o rótulo. Ela estava assustada com o fato de que, se admitisse, não haveria mais volta.
— Itachi — sussurrou ela, virando a mão para entrelaçar os dedos nos dele, ignorando completamente a aula de vetores.
— Sim?
— A Izumi... — Ela fez uma pausa, engolindo em seco. — O café que ela sugeriu. É aquele perto da livraria que você gosta?
Itachi deu um meio sorriso, algo raro que iluminava seu rosto de uma forma que sempre fazia o coração de Lis errar a batida.
— É esse mesmo.
— Ótimo. Porque a gente vai lá no sábado. Mas você vai pagar o meu milkshake de morango.
— "A gente"? — provocou ele. — Achei que você tivesse planos de ficar em casa negando seus sentimentos para as paredes.
Lis apertou a mão dele, sentindo uma onda de coragem que nunca tinha sentido antes.
— As paredes são péssimas ouvintes. E eu cansei de ser teimosa. Pelo menos por hoje.
Itachi não disse nada. Ele não precisava. Ele apenas manteve a mão dela presa na sua durante o restante da aula, ignorando os olhares curiosos de Naruto e os sorrisos cúmplices de Sakura do outro lado da sala.
Quando a aula terminou e o sinal tocou, Lis não soltou a mão dele. Ela se levantou, pegou sua mochila e olhou para ele com um desafio nos olhos.
— Então, "melhor amigo"... vamos embora?
Itachi levantou-se com sua calma habitual, mas havia um brilho diferente em seus olhos escuros.
— Vamos, Lis.
Enquanto caminhavam pelo corredor, Naruto passou correndo por eles.
— E aí, ainda são "só amigos"? — gritou o loiro, rindo.
Lis parou, olhou para Itachi, e então, diante de todo o corredor lotado, puxou-o pela gola do uniforme e o beijou. Não foi um beijo de "tédio" ou um beijo rápido de despedida. Foi um beijo que dizia exatamente o que ela vinha tentando esconder há anos.
Quando se separaram, ela olhou para o Naruto, que estava de queixo caído, e depois para Itachi, que parecia perfeitamente satisfeito.
— A gente é amigo — disse ela, com um sorriso travesso —, mas com benefícios exclusivos que nenhum de vocês vai ter.
Itachi soltou uma risada baixa, passando o braço pelos ombros dela e puxando-a para perto.
— Você é impossível, Lis.
— E você me ama por isso.
— Eu nunca disse o contrário.
Eles saíram do prédio escolar sob o sol da tarde, deixando para trás as dúvidas e as negações. Lis ainda tinha o celular dele no bolso, e Itachi ainda tinha toda a paciência do mundo. A única diferença era que, agora, a fronteira invisível entre eles tinha sido finalmente atravessada.
E, para Lis, admitir que estava errada nunca tinha sido tão bom.
