
Voltando pra ela
Fandom: House of the dragon
Criado: 13/08/2026
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O Crepúsculo das Rainhas
O cheiro de Porto Real nunca mudou, mas para Alicent Hightower, ele parecia mais pútrido do que o habitual. O ar pesado da capital, impregnado de salitre e decadência, subia pelas narinas da Rainha Viúva enquanto sua carruagem atravessava os portões da Fortaleza Vermelha. Ela estivera fora em uma breve e infrutífera missão diplomática, mas seu coração, sempre um pássaro enjaulado por pressentimentos, batia contra as costelas com uma urgência dolorosa.
Havia um silêncio antinatural nos pátios. Os servos caminhavam de cabeça baixa, e até o vento parecia carregar um lamento.
Ao descer da carruagem, Alicent não encontrou o rei, nem seus filhos homens. Encontrou o Meistre Orwyle, cujas mãos tremiam dentro das mangas largas de sua túnica. O rosto do homem era uma máscara de tragédia cinzenta.
— Minha Rainha — sussurrou ele, a voz falhando.
Alicent parou, a mão apertando o tecido verde de seu vestido com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— Onde ela está? — perguntou Alicent, a voz estranhamente calma, embora o mundo ao seu redor começasse a girar. — Onde está Helaena?
Orwyle não conseguiu olhar nos olhos dela.
— A princesa... ela se lançou das janelas do Forte de Maegor, Vossa Graça. A morte foi instantânea. O Estranho a levou antes que pudéssemos intervir.
O mundo não acabou com um estrondo, mas com um vácuo. Alicent sentiu o ar ser sugado de seus pulmões. Helaena. Sua doce, inocente e incompreendida Helaena. A única flor que restava em um jardim de espinhos e fogo. O luto, que já era seu companheiro constante desde a morte de Viserys e a coroação sangrenta de Aegon, agora se transformava em algo mais sombrio: uma fúria fria e cortante.
Ela não chorou. Não ali, na frente dos guardas e dos servos. Ela caminhou. Seus passos ecoavam pelos corredores de pedra como batidas de um tambor de guerra. Ela não foi para os aposentos da filha, nem para o Grande Salão. Ela foi para a Sala do Trono, onde sabia que a encontraria.
Rhaenyra Targaryen estava de pé diante do Trono de Ferro. A luz do entardecer filtrava-se pelas janelas altas, banhando seu cabelo prateado em um brilho espectral. Ela parecia uma estátua de gelo e fogo, a coroa de seu pai pesando sobre sua testa. Ao ouvir o estrondo das portas se abrindo, Rhaenyra virou-se.
— Alicent — disse Rhaenyra. Havia dor em sua voz, mas também uma distância intransponível.
Alicent parou a poucos metros dela. A ruiva e a prateada. O sol poente e a lua fria.
— Você a matou — disse Alicent. Não era uma pergunta. Era um veredito.
— Eu não dei ordem alguma para que Helaena morresse — respondeu Rhaenyra, dando um passo à frente, as mãos estendidas em um gesto que, anos atrás, teria sido de conforto. — Foi uma tragédia, Alicent. O peso da coroa, a dor da perda de Jaehaerys... ela não suportou.
— Não ouse falar o nome dela! — gritou Alicent, sua voz ricocheteando nas paredes de pedra. — Você trouxe a guerra para a nossa porta. Você trouxe o sangue e a loucura. Onde está a menina que eu conhecia? Onde está a Rhaenyra que lia comigo sob a árvore-coração?
Rhaenyra soltou um riso amargo, um som que parecia vidro quebrado.
— Ela morreu no dia em que você colocou aquela coroa na cabeça do seu filho, Alicent. Ela morreu quando você decidiu que a nossa amizade não valia mais do que a ambição do seu pai. Você fala de perda? Eu perdi Lucerys! Eu perdi Jace! Meus filhos queimaram enquanto você se escondia atrás de protocolos e orações!
— Eu protegi minha família! — Alicent avançou, o rosto a centímetros do de Rhaenyra. — Eu sacrifiquei minha juventude, meu corpo e minha alma para um rei que só via você! E o que eu ganhei? Meus filhos são monstros ou cadáveres, e minha única filha se jogou para a morte porque não suportava viver em um mundo governado por você!
— O mundo nunca foi nosso, Alicent — disse Rhaenyra, a voz agora baixa e perigosa. — Nós fomos apenas as peças. Mas você escolheu o tabuleiro. Você escolheu o verde.
— Eu escolhi o dever! — Alicent sentiu as lágrimas finalmente queimarem seus olhos, mas eram lágrimas de ácido. — Eu amei você. Mais do que a vida, mais do que a minha própria honra. E você me retribuiu com traição e morte.
Rhaenyra vacilou por um segundo. O olhar de aço amoleceu, revelando a cicatriz de uma ferida que nunca fechou.
— Eu também amei você. Mas o amor não sobrevive ao fogo, Alicent. Ele vira cinzas. E olhe para nós agora... rainhas de um reino de cinzas.
O silêncio que se seguiu foi mais pesado que qualquer palavra. O ar entre elas vibrava com a memória de toques antigos, de segredos compartilhados em sussurros e promessas de infância. Mas o cheiro da morte de Helaena ainda estava impregnado nas roupas de Alicent. A dor era insuportável, um animal selvagem rasgando seu peito.
Em um movimento frenético, impulsionado por um delírio de agonia que remetia àquela noite terrível em Driftmark, Alicent levou a mão ao cinto. O metal brilhou sob a luz das tochas. A adaga de aço valiriano — a mesma que outrora pertencera a Viserys — estava em sua mão.
— Alicent, não... — Rhaenyra recuou, os olhos arregalados.
— Você tirou tudo de mim! — Alicent avançou, a adaga erguida. — Pelo sangue de Helaena! Pela minha vida desperdiçada!
Alicent desferiu o golpe, não com a perícia de um guerreiro, mas com o desespero de uma mãe que perdeu a razão. Rhaenyra tentou segurar seus pulsos, e por um momento, as duas ficaram presas em um abraço violento, uma dança de ódio e desejo reprimido.
— Pare com isso! — gritou Rhaenyra, lutando para desviar a lâmina de seu pescoço. — Alicent, olhe para mim!
— Eu só vejo um monstro! — Alicent rugiu, a força vindo de um lugar de pura escuridão.
A adaga cortou o ar, rasgando o tecido do vestido de Rhaenyra e deixando um rastro de sangue no ombro da Rainha. Rhaenyra soltou um gemido de dor e tropeçou para trás.
— Guardas! — a voz de Rhaenyra não foi um comando, mas um reflexo de sobrevivência.
As portas da Sala do Trono se escancararam. Sor Lorent Marbrand e outros três cavaleiros da Guarda Real invadiram o salão. Ao verem a Rainha ferida e a Rainha Viúva com uma adaga ensanguentada na mão, eles não hesitaram.
— Não a matem! — gritou Rhaenyra, caindo de joelhos enquanto pressionava o ferimento no ombro. — Não a matem!
Os guardas cercaram Alicent, desarmando-a com brutalidade. A adaga caiu no chão de pedra com um som metálico e final. Alicent não resistiu. Ela caiu de joelhos, os cabelos ruivos desgrenhados sobre o rosto, o peito arfando. Ela olhou para as próprias mãos, manchadas com o sangue de Rhaenyra, e começou a rir — um riso histérico e quebrado que logo se transformou em soluços violentos.
Rhaenyra, pálida e trêmula, olhou para a mulher que um dia foi sua luz. A dor em seu ombro não era nada comparada ao abismo que acabara de se abrir entre elas. Não havia mais volta. O ciclo de sangue havia consumido a última ponte.
— Levem-na — ordenou Rhaenyra, a voz oca. — Para as celas negras.
— Rhaenyra, por favor... — Alicent murmurou, a lucidez retornando por um breve e cruel momento enquanto era arrastada pelos guardas.
— Você tentou me assassinar diante do Trono de Ferro, Alicent — disse Rhaenyra, sem olhar para trás. — Eu não posso salvá-la de si mesma.
A descida para as celas negras foi longa e fria. Alicent foi jogada em uma câmara úmida, onde a única luz vinha de uma pequena fresta na porta de ferro. O silêncio ali era absoluto, interrompido apenas pelo gotejar de água nas paredes.
Ela se encolheu em um canto, abraçando os próprios joelhos. A imagem de Helaena, caída no pátio como uma boneca quebrada, fundia-se com a imagem de Rhaenyra, sangrando e horrorizada. Ela havia perdido tudo. Seus filhos, seu propósito e, finalmente, a única pessoa que realmente a conhecera.
No andar de cima, nos aposentos reais, Rhaenyra Targaryen permitiu que o Meistre tratasse seu ferimento. Quando ficou sozinha, ela caminhou até a janela e olhou para a cidade escura.
— Nós fomos as arquitetas da nossa própria ruína — sussurrou ela para a noite.
Rhaenyra tocou o colar que ainda usava, uma joia simples que Alicent lhe dera quando eram meninas. Com um puxão seco, a corrente se partiu.
Nas celas negras, Alicent Hightower fechou os olhos e tentou rezar, mas os deuses não respondiam mais. Ela só conseguia ouvir o som do vento e o eco de uma risada de infância que o tempo e a coroa haviam transformado em um grito de agonia.
Duas rainhas, separadas por andares de pedra e séculos de mágoa, choravam a mesma perda: a perda de quem poderiam ter sido se o mundo não fosse feito de ferro e fogo. E no silêncio da Fortaleza Vermelha, o amor que um dia as uniu deu seu último suspiro, sufocado pelo peso de coroas que ninguém mais queria carregar.
