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Fandom: Vida pessoal

Criado: 13/08/2026

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Silêncio de Pimenta e Vapor

O Restaurante Popular de Juiz de Fora, no coração pulsante do centro da cidade, era um ecossistema de caos organizado. O cheiro de feijão fresco, o tilintar metálico das bandejas e o burburinho constante dos clientes criavam uma sinfonia que, para Karinna, costumava ser o pano de fundo perfeito para o seu dia a dia. Mas hoje, o som das conchas batendo nas panelas industriais parecia um trovão dentro de sua cabeça.

Karinna, com seu estilo inconfundível de "paty desfem" — óculos de armação grossa, cabelos morenos impecavelmente presos e aquela postura de quem comanda o mundo com um olhar —, estava na linha de frente da cozinha. Ela era a eficiência em pessoa, mas seus movimentos hoje eram bruscos, quase agressivos.

Do outro lado do balcão, na área de circulação e limpeza, Karen tentava entender o que tinha dado errado. Karen era o oposto solar: comunicativa, de sorriso fácil, sempre pronta para resolver qualquer imprevisto com um pano de prato no ombro e uma piada na ponta da língua. Elas namoravam há pouco tempo, um romance que nasceu entre os intervalos de almoço e as trocas de turno, mas que já carregava a intensidade de uma vida inteira.

O problema tinha nome, sobrenome e um crachá de "Treinamento": Lucas, o novato da equipe de limpeza.

Mais cedo, uma das mesas do setor sul havia sido palco de um desastre com uma jarra de suco de caju. Karen, sendo a veterana responsável, teve que ensinar Lucas a manusear a enceradeira industrial e a técnica correta de secagem rápida para evitar acidentes. O problema não foi o trabalho em si, mas o fato de que, para Karinna, que observava tudo pela fresta da janela da cozinha, as risadas de Lucas e a proximidade física de Karen enquanto ela guiava as mãos dele na máquina pareciam um ultraje pessoal.

Agora, o turno de almoço estava chegando ao fim, e o silêncio de Karinna era mais barulhento do que o refeitório lotado.

Karen se aproximou do balcão de entrega, tentando buscar o olhar da namorada.

— Ka, você viu onde colocaram o detergente concentrado? O estoque tá uma bagunça — disse Karen, com um tom de voz leve, tentando testar o terreno.

Karinna nem sequer levantou os olhos da planilha de controle de temperatura. Ela apenas apontou com a caneta para a prateleira de baixo, sem emitir um som.

— Ué, perdeu a voz, foi? — Karen riu, ainda sem perceber a gravidade da situação. — O vapor da panela de pressão cozinhou suas cordas vocais?

Karinna soltou um suspiro pesado, fechou a pasta com um estalo seco e caminhou em direção à câmara fria, deixando Karen falando sozinha no meio do salão.

— Ah, não. De novo não — resmungou Karen para si mesma, sentindo o sangue subir às bochechas.

Karen terminou de organizar os carrinhos de bandeja e esperou o intervalo obrigatório. Ela sabia que Karinna estaria no pequeno pátio nos fundos do restaurante, onde os funcionários costumavam descansar longe do calor das caldeiras. Quando chegou lá, encontrou a namorada sentada em um caixote de plástico, mexendo no celular com uma expressão de absoluta indiferença.

— Dá para você me explicar o que está acontecendo? — Karen parou na frente dela, cruzando os braços. — Você está me ignorando desde as onze da manhã.

Karinna continuou deslizando o dedo pela tela do celular, como se estivesse lendo a notícia mais fascinante do mundo, embora estivesse apenas na tela inicial.

— Karinna, eu estou falando com você! — Karen deu um passo à frente, bloqueando a luz do sol. — O que foi que eu fiz agora? Foi o jeito que eu arrumei as cadeiras? Foi porque eu cheguei cinco minutos atrasada?

Karinna finalmente levantou a cabeça. Ajustou os óculos no nariz com uma elegância gélida e olhou para Karen como se ela fosse um cliente reclamando de um fio de cabelo na sopa. Ela não disse nada. Apenas sustentou o olhar por três segundos e voltou a atenção para o celular.

— Ah, para com isso! — Karen explodiu, gesticulando com as mãos. — Essa greve de silêncio é a coisa mais infantil do mundo. Se você tem um problema, fala. A gente namora, Karinna. Namorados conversam. Eles não fazem mímica ou telepatia.

Karinna guardou o celular no bolso do avental, levantou-se e começou a caminhar em direção à porta da cozinha.

— Espera aí! — Karen segurou o braço dela suavemente. — É por causa do Lucas? O novato?

Karinna estacou. Ela virou o rosto lentamente, e Karen viu a faísca de ciúme queimando por trás das lentes dos óculos.

— Ah, então é isso! — Karen soltou uma risada incrédula. — Você está brava porque eu estava ensinando o menino a usar a enceradeira? O garoto mal sabe segurar uma vassoura, Ka! Se eu não ajudasse, ele ia acabar quebrando a máquina ou se machucando.

Karinna desvencilhou o braço e, pela primeira vez, abriu a boca, mas não para falar. Ela soltou um "tsc" sonoro, carregado de desdém, e apontou para o próprio peito, depois para a cozinha, e por fim fez um gesto de "tanto faz" com as mãos antes de entrar no prédio.

— "Tanto faz"? — Karen gritou para as costas da namorada. — Não é tanto faz! Eu trabalho aqui, Karinna! Eu não posso simplesmente ignorar os outros funcionários porque você decidiu que é a dona da razão.

O restante do expediente foi um suplício. Karinna era uma profissional impecável, então o trabalho não sofreu, mas o clima estava pesado. Toda vez que Karen passava pela cozinha, Karinna se ocupava subitamente com alguma tarefa urgente, como contar quantos grãos de arroz havia em um saco ou polir as cubas de inox pela décima vez.

Quando o relógio marcou o fim do turno, Karen estava exausta. Ela trocou de roupa rapidamente, decidida a resolver aquilo antes que as duas pegassem o ônibus para casa. Ela encontrou Karinna na saída dos funcionários, já com sua bolsa de marca tiracolo e o visual "paty" restaurado, parecendo que nunca tinha chegado perto de uma cozinha industrial na vida.

— A gente vai conversar agora — disse Karen, bloqueando o caminho de Karinna na calçada estreita do centro de Juiz de Fora.

Karinna tentou desviar, mas Karen foi mais rápida e segurou suas mãos.

— Chega, Ka. Eu não vou para casa desse jeito. Eu amo você, mas esse seu ciúme está ficando impossível. O Lucas é um moleque, ele tem dezenove anos e morre de medo de você, sabia? Ele me perguntou se você era a dona do restaurante porque você olha para ele como se fosse mandar ele para o paredão.

Karinna suspirou, os ombros caindo um pouco. Ela olhou para os lados, verificando se alguém conhecido passava pela rua.

— Você não precisava ter pegado na mão dele — disse Karinna finalmente, a voz rouca pelo tempo que passou calada.

— Eu não peguei na mão dele por prazer, Karinna! — Karen exclamou, aliviada por finalmente ouvir a voz da namorada. — A enceradeira tem um tranco. Se ele solta, ela sai batendo em tudo. Eu tive que segurar para mostrar o peso.

— Ele estava rindo — Karinna rebateu, cruzando os braços sobre o peito. — Você dá corda, Karen. Você é simpática demais com todo mundo.

— E você é antipática demais com todo mundo! — Karen retrucou, mas com um sorriso começando a brotar nos lábios. — Equilíbrio, lembra? É por isso que a gente funciona.

Karinna desviou o olhar, tentando manter a pose de brava, mas o canto de sua boca traiu sua resolução.

— Ele é um tonto — resmungou Karinna.

— Ele é um tonto que não sabe limpar um chão — concordou Karen, aproximando-se mais. — E eu sou a sua namorada que está com os pés matando e querendo ganhar um beijo antes de ir para o ponto de ônibus. Vai continuar com a greve ou o sindicato das namoradas já entrou em acordo?

Karinna olhou para Karen, a morena de óculos finalmente deixando a armadura de "Karen" (a gíria, não a namorada) cair por terra. Ela puxou Karen pela cintura, ignorando o movimento de pessoas saindo do trabalho ao redor delas.

— A greve acabou — sussurrou Karinna, antes de selar os lábios nos de Karen em um beijo calmo, que carregava o gosto do alívio. — Mas se eu vir ele rindo para você de novo, eu vou colocar pimenta extra no almoço dele.

— Você não teria coragem — Karen riu entre o beijo.

— Experimenta para ver — Karinna sorriu, finalmente relaxando.

Elas caminharam juntas em direção à Avenida Rio Branco, o sol se pondo entre os prédios antigos de Juiz de Fora. O silêncio agora era outro: era o silêncio confortável de quem se entendia, mesmo quando as palavras falhavam ou o ciúme tentava ocupar espaço na cozinha do coração.

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