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Vida pessoal

Fandom: Karen e karinna

Criado: 13/08/2026

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Entre Temperos e Silêncios

O ar no Restaurante Popular de Juiz de Fora estava mais pesado que o habitual naquela manhã de terça-feira. O som metálico das panelas industriais e o burburinho das pessoas na fila costumavam ser a trilha sonora da rotina de Karen, mas hoje, cada ruído parecia amplificar a dor de cabeça que se instalara atrás de seus olhos.

Karen apertou o cabo do rodo com força, os nós dos dedos negros contrastando com o plástico azul. Seu cabelo chanel, perfeitamente alinhado mesmo sob a rede de proteção, emoldurava um rosto que não escondia a exaustão. Ela sempre fora a "paty" do grupo, mesmo trabalhando na limpeza, nunca perdia a pose, mas naquela semana, o brilho nos olhos tinha dado lugar a uma névoa de mágoa.

Do outro lado do balcão, na área da cozinha, Karinna mexia um caldeirão de feijão com movimentos automáticos. Seus óculos insistiam em escorregar pelo nariz devido ao vapor, e ela os empurrava com o dorso da mão, suspirando. Os cabelos longos e morenos estavam presos em um coque alto e bagunçado. Ela sentia o olhar de Karen queimar suas costas, mesmo que a namorada — ou ex-namorada, a palavra ainda travava em sua garganta — não estivesse olhando diretamente para ela.

Juliana, que cortava legumes ao lado de Karinna, trocou um olhar preocupado com Lolo, que organizava as bandejas. O silêncio entre as duas protagonistas daquela drama era ensurdecedor.

— Você vai acabar furando o fundo dessa panela, Ka — sussurrou Juliana, aproximando-se de Karinna. — Já faz cinco dias. Ninguém aguenta mais esse clima de velório.

— Ela que quis o tempo, Ju — Karinna respondeu em voz baixa, a voz embargada. — Eu já pedi desculpas pela situação com a Vanessa. Eu não tenho culpa se ela apareceu do nada.

— Mas você deu corda, Karinna — Lolo interveio, passando por elas com uma pilha de pratos. — A Karen é insegura com essa garota desde que vocês começaram. E você sabe que a Vanessa adora provocar.

Karinna baixou a cabeça. Ela sabia que Lolo tinha razão. O início do relacionamento delas não tinha sido fácil. Karen, com seu jeito decidido e apaixonado, tinha tomado a iniciativa, mas Karinna passara meses negando o que sentia, escondendo-se atrás de desculpas esfarrapadas enquanto todos ao redor já percebiam que ela estava perdidamente apaixonada pela garota do chanel curto. Quando finalmente cedeu, foi como se o mundo ganhasse cor, mas a sombra da ex-namorada lésbica de Karinna sempre parecia pairar sobre a bissexualidade de Karen como um teste constante.

A discussão de uma semana atrás tinha sido feia. Gritos, acusações sobre as amizades "modernas demais" de Karinna e, por fim, o ultimato de Karen após ver uma mensagem carinhosa de Vanessa no celular da namorada.

Karen, que terminava de passar o pano no setor do refeitório, sentiu uma presença ao seu lado. Era Juliana, trazendo um copo de água gelada.

— Bebe um pouco, preta. Você tá pálida — disse Juliana, com carinho.

— Eu estou bem, Ju. Só quero terminar aqui e ir embora — Karen respondeu, a voz ríspida, mas os olhos marejados entregavam sua fragilidade.

— Não está nada bem. Vocês duas se amam e estão se matando aos poucos por causa de orgulho — Juliana se encostou na parede, observando a amiga. — A Karinna está um trapo. Ela errou em não cortar a Vanessa de vez, mas você sabe que ela é lerda para essas coisas, não é por maldade.

— Não é maldade, é falta de respeito — Karen rebateu, virando-se para Juliana. — Eu lutei tanto por ela, Ju. Esperei o tempo dela, aguentei ela dizendo que não gostava de mim quando os olhos dela gritavam o contrário. E agora que estamos juntas, ela deixa essa mulher entrar na nossa vida de novo?

— Ela sentiu sua falta ontem à noite — Lolo chegou perto, baixando o tom de voz para que os outros funcionários não ouvissem. — Ela me ligou chorando porque viu uma foto de vocês no Instagram e quase teve um treco. Karen, o tempo de uma semana acaba hoje. Vocês vão mesmo jogar tudo fora?

Karen olhou para a cozinha. Karinna estava de costas, mas seus ombros tremiam levemente. A imagem daquela mulher forte, desfem, que sempre a protegia, agora parecendo tão pequena, quebrou a última barreira de gelo no coração de Karen.

O expediente terminou às 14h. O sol de Juiz de Fora ardia do lado de fora, mas dentro do vestiário o ar estava gélido. Karen trocava de roupa lentamente, colocando seu conjunto de alfaiataria rosa seco, retocando o batom com a precisão de quem usa a estética como armadura.

Karinna entrou logo depois, ainda de uniforme, com os olhos vermelhos atrás das lentes dos óculos. Ela parou diante do armário ao lado do de Karen. O silêncio durou uma eternidade.

— Você esqueceu seu casaco na minha casa — Karinna disse, a voz falhando. — Eu... eu trouxe na mochila. Se você quiser.

Karen parou de guardar suas coisas e olhou para ela.

— Só trouxe o casaco, Karinna?

Karinna virou-se, as lágrimas finalmente vencendo a gravidade.

— Não. Eu trouxe um pedido de desculpas que eu ensaiei a semana inteira, mas que some da minha cabeça toda vez que eu te vejo. Eu sou uma idiota, Karen. Eu demorei tanto para admitir que te amava e agora eu quase te perdi porque não soube colocar limites em quem não importa mais.

Karen suspirou, fechando a porta do armário com um estalo seco. Ela se aproximou de Karinna, o cheiro de perfume importado misturando-se ao aroma de sabão neutro do uniforme da outra.

— Eu senti sua falta — Karen confessou, a voz suave agora, despida de raiva. — Mas eu não posso ser a única a lutar por nós, Ka. Ver aquela mulher te mandando mensagem, ver você rindo das piadas dela como se nada tivesse acontecido... isso me dói.

— Ela não é nada, Karen — Karinna deu um passo à frente, diminuindo a distância entre elas. — Ninguém é nada perto do que você é para mim. Eu bloqueei ela. De verdade, dessa vez. Eu não quero amizades que coloquem em risco o que eu tenho com você.

Karinna estendeu a mão, tocando timidamente o rosto de Karen. A pele negra e macia sob seus dedos era o porto seguro que ela sentira falta em cada noite em claro daquela semana.

— Eu não consigo ficar longe de você — Karinna sussurrou. — A casa está vazia, o meu café não tem gosto e eu odeio não ter você para reclamar do meu estilo desleixado.

Karen soltou um riso fraco, uma lágrima solitária escapando.

— Você é desleixada mesmo. Olha esse coque, Karinna, está todo torto.

— Então conserta para mim? — pediu Karinna, aproximando o rosto. — Conserta tudo?

Karen não respondeu com palavras. Ela envolveu o pescoço de Karinna com os braços, puxando-a para um beijo que carregava toda a saudade, a frustração e o amor acumulado daqueles sete dias de silêncio. Karinna a segurou pela cintura, apertando-a contra o armário, sentindo o encaixe perfeito de seus corpos. Era ali que elas pertenciam.

— Nunca mais me dê um tempo desses — Karinna murmurou contra os lábios de Karen. — Eu achei que ia morrer.

— Então não me dê motivos para querer ir embora — Karen respondeu, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos castanhos atrás dos óculos. — Eu te amo, sua boba. Mas eu me amo primeiro.

— Eu sei. E é por isso que eu sou louca por você — Karinna sorriu, limpando o rosto com a manga da camisa. — Vamos para casa? Eu compro aquela pizza que você gosta.

— E um vinho? — Karen arqueou a sobrancelha, recuperando seu ar de paty.

— E o melhor vinho que o meu salário de auxiliar permitir — prometeu Karinna, rindo.

Elas saíram do vestiário de mãos dadas. Juliana e Lolo, que esperavam do lado de fora do restaurante, trocaram um "toca aqui" vitorioso ao verem o casal caminhando em direção ao ponto de ônibus, unidas novamente.

— Eu disse que elas não duravam uma semana — Lolo comentou, sorrindo.

— O amor é brega, mas é lindo — completou Juliana, observando as amigas desaparecerem na esquina da rua movimentada.

No ônibus, Karen encostou a cabeça no ombro de Karinna, fechando os olhos enquanto a morena acariciava sua mão. As discussões e as ex-namoradas eram ruídos externos; o que importava era o silêncio compartilhado agora, que não era mais de mágoa, mas de paz. Elas sabiam que ainda teriam muito o que conversar, mas, por enquanto, o calor do toque era o suficiente para curar as feridas daquela semana perdida.

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