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Fandom: Nenhum

Criado: 13/08/2026

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RomanceDramaFatias de VidaHistória DomésticaGravidez Não Planejada/IndesejadaEstudo de PersonagemNoirPsicológicoSombrioCiúmesLinguagem Explícita
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Entre Tinta, Cetim e Desejos Ocultos

O neon azul do bar "Esquina do Porto" refletia nas poças de água da chuva fina que caíra mais cedo. Era quase meia-noite, e o movimento no centro da cidade começava a diminuir, dando lugar a uma calmaria urbana que Emanuel raramente aproveitava. Ele estava encostado em seu carro, um SUV preto fosco que exalava o sucesso de seus inúmeros estúdios de tatuagem, enquanto observava a movimentação. O cansaço pesava em seus ombros — gerenciar um império de arte na pele e outros empreendimentos exigia uma frieza racional que, às vezes, o deixava exausto.

Mas a tensão em sua mandíbula relaxou no instante em que ele a viu.

Eduarda estava sentada em uma banqueta alta, na calçada do barzinho, concentrada em um espetinho de carne que parecia ser a coisa mais importante do mundo naquele momento. Ela usava um vestido de malha leve cor creme e um cardigã por cima, os cabelos castanhos caindo em ondas naturais sobre os ombros. Ela parecia pequena, quase etérea, sob a luz amarelada do estabelecimento. A delicadeza de seus traços, a forma como ela balançava os pés — provavelmente cansados de horas ensaiando ballet —, tudo nela gritava paz.

Emanuel sentiu aquele puxão familiar no peito. Não era apenas amizade de infância. Era algo mais profundo, uma necessidade de proteção que beirava o possessivo, mas que ele camuflava com sua postura séria e protetora.

— Você sabe que é perigoso ficar aqui sozinha a essa hora, Duda — disse ele, aproximando-se com passos firmes.

Eduarda deu um leve sobressalto, os olhos grandes e expressivos encontrando os dele. Um sorriso tímido e doce iluminou seu rosto instantaneamente.

— Emanuel! — Ela limpou o canto da boca com um guardanapo, parecendo uma criança pega em uma travessura. — Eu estava com um desejo incontrolável de comer esse espetinho. Saí da faculdade, fui para o ensaio e esqueci de jantar. Não briga comigo.

Emanuel suspirou, sentindo a irritação lógica ser substituída por uma ternura inevitável. Ele se aproximou, tocando levemente o ombro dela. A pele era macia, exatamente como ele imaginava toda vez que a via dançar.

— Eu não estou brigando. Só me preocupo. Seus pais sabem que você está aqui?

— Eles acham que eu ainda estou no estúdio de dança — murmurou ela, fazendo um biquinho manhoso. — Você não vai contar, vai?

— Sabe que eu não consigo negar nada a você.

Emanuel sentou-se ao lado dela, o corpo robusto e tatuado criando um contraste gritante com a fragilidade de Eduarda. Ele era o caos controlado; ela era a harmonia silenciosa. Ele a amava. De um jeito diferente, talvez, mas com uma intensidade que o assustava.

O problema — ou a solução, dependendo do ponto de vista — era que ele já tinha uma dona para o seu coração.


Enquanto isso, no loft luxuoso de Emanuel, Sara terminava de retocar o batom vermelho vibrante. Ela usava um vestido de seda preta extremamente justo, que realçava suas curvas generosas e os seios volumosos, agora ainda mais sensíveis devido à gravidez de um mês. Sara era o oposto da sutileza. Ela era barulhenta, vibrante, vulgar para alguns, mas absolutamente magnética para Emanuel.

Ela ouviu o barulho da chave na fechadura e sorriu. Quando Emanuel entrou, o rosto marcado pelo cansaço e pelos resquícios do encontro com Eduarda, Sara não precisou de palavras para entender.

— Encontrou a sua pequena bailarina? — perguntou ela, caminhando até ele com um rebolado provocante.

Emanuel fechou a porta e suspirou, envolvendo a cintura de Sara com os braços, puxando-a para perto. O perfume caro e doce dela invadiu seus sentidos.

— Ela estava em um barzinho, sozinha, comendo espetinho. Quase tive um infarto.

Sara riu, uma risada rouca e confiante, jogando a cabeça para trás. Ela acariciou o rosto de Emanuel, os dedos longos e bem feitos traçando a linha de sua mandíbula.

— Ela é um anjo, Emanuel. E você é um pecador que quer guardar o anjo em uma redoma de vidro.

— Sara... — Ele tentou protestar, mas ela colocou um dedo sobre seus lábios.

— Não precisa se explicar. Nós já conversamos sobre isso. Eu sei que você a ama. E eu não me importo. Na verdade, eu até gosto da ideia.

Emanuel olhou para a esposa, admirado com a segurança dela. Sara era formada em administração, embora preferisse gastar o dinheiro dele e gerenciar sua loja de roupas de grife como um hobby de luxo. Ela era prática, direta e, acima de tudo, devotada a ele.

— Você está grávida, Sara. Deveria estar preocupada com... sei lá, concorrência? — Ele brincou, embora houvesse um fundo de verdade na sua confusão emocional.

— Concorrência? Com a Duda? — Sara soltou outra risada. — Aquela menina não tem um osso de malícia no corpo. Ela é doce, é sensível... é tudo o que eu não sou e que você precisa para não explodir de estresse. Eu sou o seu fogo, Emanuel. Ela é a sua água. E eu quero que você tenha os dois. Um homem como você, com o império que construiu, merece ter tudo o que deseja.

— Ela nem desconfia — murmurou Emanuel, enterrando o rosto no pescoço de Sara, aspirando o calor da pele dela. — Ela me vê como o "irmão" mais velho protetor. O amigo da família.

— Então a gente muda isso — Sara disse, com um brilho astuto nos olhos. — A gente vai trazendo ela para perto. Aos poucos. Ela é manhosa, gosta de carinho, de atenção. E quem melhor do que nós dois para dar isso a ela?


Alguns dias depois, o sol da tarde entrava pelas janelas da faculdade de História da Arte. Eduarda estava sentada na biblioteca, cercada por livros sobre o Renascimento, mas sua mente divagava. Ela pensava no encontro com Emanuel na outra noite. A forma como ele a olhava... havia algo ali que ela não conseguia decifrar. Uma intensidade que a fazia sentir borboletas no estômago, um sentimento que ela rapidamente tentava reprimir por respeito a Sara.

Eduarda gostava de Sara. Achava-a incrível, poderosa e, apesar do jeito expansivo e às vezes vulgar, Sara sempre fora gentil com ela.

O celular de Eduarda vibrou sobre a mesa. Era uma mensagem de Sara.

"Oi, boneca! O Emanuel me contou que você está ensaiando demais e mal tem tempo de comer. Estou passando aí na faculdade para te pegar. Vamos almoçar e depois você vem para o estúdio ver o Emanuel trabalhar. Sem desculpas!"

Eduarda mordeu o lábio inferior, sentindo uma mistura de ansiedade e alegria.

— Ela é tão decidida — sussurrou para si mesma, começando a guardar os materiais.

Meia hora depois, o carro de luxo de Sara estacionou em frente ao prédio. Quando Eduarda saiu, viu Sara encostada no veículo, usando óculos escuros gigantes e um conjunto de alfaiataria rosa choque que atraía todos os olhares dos estudantes.

— Aqui, gracinha! — gritou Sara, acenando sem se importar com a discrição.

Eduarda caminhou até ela, sentindo-se pequena diante daquela presença monumental.

— Oi, Sara. Não precisava se incomodar...

— Bobagem! — Sara a puxou para um abraço apertado, o cheiro de perfume importado envolvendo Eduarda. — Você está muito pálida. Precisa de comida de verdade e de um pouco de diversão. E o Emanuel está de um humor terrível hoje, só você para acalmar aquele homem.

— Ele está estressado de novo? — perguntou Eduarda, genuinamente preocupada, enquanto entrava no carro.

— O de sempre. Muitos estúdios, muitos contratos. E agora com o bebê vindo, ele está mais controlador do que nunca.

Sara deu partida, dirigindo com uma confiança agressiva pelas ruas da cidade. Ela olhou de soslaio para Eduarda, observando o perfil delicado da garota.

— Você sabe que ele te adora, não sabe, Duda?

Eduarda sentiu as bochechas esquentarem.

— Ele é um grande amigo. Nossas famílias são muito ligadas.

— É mais que isso — Sara disse, sua voz perdendo um pouco da ironia e tornando-se quase suave. — Ele se importa com você de um jeito que eu nunca vi ele se importar com ninguém além de mim. E eu acho isso lindo.

Eduarda não soube o que responder. O silêncio que se seguiu não foi desconfortável, mas carregado de uma tensão nova, uma possibilidade que ela nunca se permitira explorar.

Ao chegarem ao estúdio principal de Emanuel, um espaço amplo com decoração industrial e arte urbana de alto nível, encontraram-no concentrado em um desenho complexo em um tablet digital. Ele levantou os olhos quando a porta se abriu, e a expressão rígida sumiu no ato.

— Chegaram — disse ele, levantando-se.

Ele caminhou até elas, beijando Sara nos lábios com posse e paixão, e depois virando-se para Eduarda, depositando um beijo demorado em sua testa, a mão repousando na nuca dela por um segundo a mais do que o estritamente platônico.

— Como foi a aula, pequena? — perguntou ele, a voz baixando um tom.

— Foi boa... — Eduarda respondeu, sentindo o coração disparar. — Sara disse que você estava trabalhando muito.

— Ele é um viciado em trabalho — Sara interrompeu, jogando a bolsa sobre o sofá de couro. — Mas agora vamos dar uma pausa. Duda, venha ver os desenhos que ele fez para a nova convenção. São incríveis.

Emanuel observou as duas. Sara, com sua exuberância, guiando Eduarda, que se movia com a leveza de quem poderia começar a dançar a qualquer momento. Ele sentiu uma satisfação profunda. O plano de Sara de integrar Eduarda à vida deles estava funcionando.

— Duda — chamou Emanuel, fazendo-a olhar para ele. — Eu estava pensando... o estúdio precisa de uma nova curadoria para as artes das paredes. Algo que misture o clássico com o moderno. Você, como futura historiadora da arte, não gostaria de me ajudar com isso?

Os olhos de Eduarda brilharam.

— Eu adoraria, Emanuel! Mas... você acha que eu consigo?

— Eu tenho certeza — disse ele, aproximando-se e ficando a poucos centímetros dela. — Eu confio no seu gosto. Eu confio em você.

Sara, observando a cena de longe, sorriu para si mesma. Ela sabia que Eduarda era a peça que faltava para completar o equilíbrio daquela família que estava começando a se formar. Ela não via Eduarda como uma ameaça, mas como um presente.

— Ótimo! — exclamou Sara. — Agora que os negócios foram resolvidos, vamos comer. Estou morrendo de fome, e esse bebê aqui também.

Emanuel estendeu as mãos. Uma para Sara, que a segurou com força e entrelaçou os dedos nos dele. A outra para Eduarda, que hesitou por um segundo antes de colocar sua mão pequena e delicada na palma grande e calejada dele.

— Vamos — disse Emanuel, sentindo-se, pela primeira vez em muito tempo, em completo controle de sua felicidade.

Caminhando entre as duas mulheres, o tatuador sentia o peso de seu império, o peso da responsabilidade do filho que viria, mas, acima de tudo, a leveza de saber que não precisaria escolher. O mundo de Emanuel era feito de sombras e tintas, mas Eduarda era a luz que ele não sabia que precisava, e Sara era a fundação que permitia que ele alcançasse essa luz.

Eduarda, ainda confusa com a torrente de emoções, deixou-se guiar. Ela se sentia protegida, querida e, estranhamente, em casa. Ela olhou para Emanuel e depois para Sara, encontrando neles uma segurança que nunca sentira em nenhum outro lugar.

O caminho à frente seria complexo, cheio de nuances e desafios sociais, mas ali, naquele momento, sob o teto do estúdio que cheirava a tinta e possibilidade, o futuro parecia uma obra de arte esperando para ser pintada. E Emanuel, o mestre das formas, estava pronto para desenhar cada linha daquele novo destino.

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