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Dor

Fandom: Desenfreados

Criado: 13/08/2026

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O Eco do Sapatinho Vazio

O apartamento estava impregnado com o aroma doce de baunilha e canela. Clara tinha passado a tarde inteira na cozinha, uma forma de canalizar a ansiedade que fazia suas mãos tremerem levemente. Ela alisou o vestido solto que usava, olhando-se no espelho do corredor. Seus dedos traçaram as curvas do próprio corpo, aquele volume no quadril e nos seios que Raphael sempre insistia em dizer que era sua perdição.

— Você é perfeita, gordinha — ele costumava sussurrar, a voz rouca de desejo, enquanto a envolvia em abraços que faziam o mundo lá fora desaparecer.

Mas hoje, a insegurança habitual de Clara sobre sua aparência tinha dado lugar a algo muito maior. Algo que pulsava dentro dela, um segredo que mudaria a vida dos dois para sempre.

Sobre a mesa de centro da sala, repousava uma pequena caixa de madeira clara, decorada com um laço de fita azul-marinho. Dentro, aninhados em papel de seda branco, estavam um par de sapatinhos de tricô cinza e o exame de sangue com o resultado positivo. Clara sorriu, sentindo as lágrimas arderem nos olhos. Raphael seria o melhor pai do mundo. Ele era intenso, protetor, um pouco imprudente às vezes, mas o coração dele pertencia inteiramente a ela.

Ela verificou o relógio. Ele já deveria ter chegado. O treino dos Desenfreados geralmente terminava àquela hora. Clara sentou-se no sofá, as mãos repousando sobre o ventre ainda plano, e começou a imaginar a reação dele. Ele a pegaria no colo? Ele choraria? Com certeza ele faria alguma piada safada sobre como eles teriam que "praticar" ainda mais agora que sabiam que eram férteis.

O som de batidas na porta a sobressaltou. Não era o giro da chave de Raphael. Eram batidas pesadas, hesitantes.

Clara se levantou, o coração acelerando sem motivo aparente. Talvez ele tivesse esquecido as chaves? Ou talvez fosse um dos meninos da equipe trazendo alguma notícia sobre a próxima corrida.

Ao abrir a porta, o sorriso que ela ensaiara morreu instantaneamente.

Ryen estava parada no corredor. Suas roupas estavam sujas de graxa e poeira, mas era o seu rosto que contava a história. Os olhos de Ryen estavam vermelhos, inchados, e sua postura, geralmente tão firme e desafiadora, parecia ter colapsado sob um peso invisível.

— Ryen? — O nome saiu como um sussurro quebrado. — O que aconteceu? Onde está o Rapha?

Ryen não respondeu de imediato. Ela deu um passo para dentro do apartamento, fechando a porta atrás de si com uma lentidão torturante. O silêncio que se seguiu foi o som mais aterrorizante que Clara já ouvira.

— Clara... — A voz de Ryen falhou. Ela respirou fundo, mas o som saiu como um soluço sufocado.

— Não. — Clara deu um passo para trás, as mãos subindo para o peito. — Não faz isso. Cadê ele? Ele se machucou na pista? Ele está no hospital? Vamos, eu pego a minha bolsa, a gente vai agora...

— Clara, escuta — disse Ryen, aproximando-se e tentando segurar as mãos da amiga.

— Não! — Clara recuou novamente, batendo com as costas na mesa de centro. A caixinha com o laço azul estremeceu. — Ele está bem. O Raphael é teimoso demais para morrer, Ryen. Você sabe disso. Ele sempre dá um jeito. Ele sempre volta para mim.

— Ele não vai voltar desta vez — disse Ryen, e as palavras pareceram rasgar o ar entre elas. — Foi rápido, Clara. Uma falha mecânica... a curva... ele não sofreu.

O mundo de Clara girou. O cheiro de baunilha na casa tornou-se enjoativo, sufocante. Ela sentiu os joelhos cederem e, se Ryen não a tivesse segurado, teria desabado no chão.

— Não, não, não... — Clara soluçava, o rosto enterrado no ombro de Ryen. — Ele prometeu. Ele disse que ia ter cuidado. Ele disse que a gente ia envelhecer juntos e que eu ia ter que aguentar ele reclamando de dor nas costas...

Ryen a apertou com força, as próprias lágrimas caindo livremente agora.

— Eu sinto muito. Eu sinto tanto, Clara.

Por alguns minutos, o único som no apartamento era o pranto das duas mulheres. Clara sentia como se um buraco negro tivesse se aberto em seu peito, sugando toda a alegria, toda a segurança e todo o futuro que ela havia planejado. A insegurança que ela sempre sentira sobre si mesma agora parecia uma piada cruel; o que importava o tamanho de seu quadril ou a maciez de sua barriga se o único homem que a fazia se sentir uma rainha não estava mais lá para tocá-la?

Lentamente, Clara se afastou de Ryen, seus olhos vagando pela sala até pararem na pequena caixa sobre a mesa.

— Ryen — sussurrou ela, a voz desprovida de qualquer emoção agora, apenas um vazio gélido.

— Sim?

— Eu ia contar para ele hoje.

Ryen seguiu o olhar de Clara. Ela viu a caixa, o laço perfeito, a promessa de uma vida nova que agora estava irremediavelmente ligada à morte.

— O que tem na caixa, Clara? — perguntou Ryen, embora no fundo já soubesse.

Clara esticou a mão trêmula e puxou a fita. A tampa caiu no tapete com um baque surdo. Ela pegou um dos sapatinhos cinzas, tão pequeno que cabia na palma de sua mão.

— Eu estou grávida — disse Clara, e a revelação pareceu um golpe físico em Ryen.

Ryen cobriu a boca com a mão, deixando escapar um gemido de dor pura.

— Meu Deus, Clara...

— Ele nunca vai saber — continuou Clara, as lágrimas voltando a escorrer, quentes e abundantes. — Ele morreu sem saber que ia ser pai. Ele morreu sem saber que o maior sonho dele estava acontecendo.

— Ele sabia que você o amava — disse Ryen, caindo de joelhos ao lado de Clara no chão. — Ele amava você mais do que a própria vida, Clara. Todo mundo via isso. Nos boxes, na pista... ele só falava de você. De como você era o porto seguro dele.

— Mas eu precisava dele aqui — soluçou Clara, apertando o sapatinho contra o peito. — Como eu vou fazer isso sozinha? Eu sou insegura, Ryen. Eu sou atrapalhada. Eu não sou forte como você. Eu não sei ser mãe sem ele para me dizer que eu sou capaz.

Ryen segurou o rosto de Clara com as duas mãos, forçando-a a olhar em seus olhos.

— Você não está sozinha. Você ouviu? Os Desenfreados... nós somos uma família. Aquele bebê... é o sangue do Raphael. É uma parte dele que ficou aqui. E nós vamos cuidar de você. Eu vou cuidar de você.

Clara olhou para o sapatinho em sua mão e depois para a sala vazia, onde o fantasma do riso de Raphael parecia ainda ecoar. A dor era insuportável, uma agonia que parecia que nunca teria fim. Mas, ao sentir a pressão firme das mãos de Ryen e ao pensar na vida minúscula que agora crescia dentro dela, um instinto novo, feroz e desesperado, começou a surgir em meio aos escombros de seu coração.

— Ele ia querer que fosse um menino — disse Clara, com um sorriso triste e quebrado. — Para ensinar a correr.

— Pois se for uma menina, ela vai ser a piloto mais rápida que este mundo já viu — respondeu Ryen, com uma determinação sombria. — Eu mesma vou ensinar.

Clara fechou os olhos, abraçando a si mesma, segurando o sapatinho e a memória do homem que a amou sem reservas. O silêncio voltou a reinar no apartamento, mas agora, não era mais o silêncio da morte, e sim o silêncio pesado e sagrado de um novo começo, batizado em lágrimas e luto.

— Eu te amo, Rapha — sussurrou ela para o vazio. — E eu vou cuidar do nosso pequeno piloto. Eu prometo.

Lá fora, a noite caía sobre a cidade, indiferente à tragédia, mas dentro daquele apartamento, entre o cheiro de baunilha e a dor dilacerante, uma chama frágil de esperança teimava em não se apagar.

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