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Fandom: Nenhum
Criado: 14/08/2026
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Entre a Tinta e a Seda
O som ambiente do "Iron & Ink", o bar preferido de Emanuel e seus sócios, era uma mistura densa de rock clássico, o tilintar de copos de cristal e o burburinho constante de conversas animadas. O lugar exalava o mesmo estilo de seu dono: industrial, sofisticado e imponente. Sentado em uma das mesas centrais de couro escuro, Emanuel soltou um suspiro pesado, massageando as têmporas. Aos vinte e cinco anos, ele carregava o peso de um império de estúdios de tatuagem e outros investimentos, mas nada o cansava mais do que o equilíbrio delicado entre as duas mulheres que ocupavam seu coração.
À sua direita, Sara era a imagem da exuberância. Com seus cabelos loiros platinados perfeitamente ondulados caindo sobre os ombros e um vestido vermelho justo que acentuava cada curva — incluindo o leve, quase imperceptível, volume de sua gestação de um mês —, ela dominava a conversa com um grupo de amigas.
— Eu já disse para a decoradora que o quarto do bebê não vai ter nada de tons pastéis entediantes — dizia Sara, a voz carregada de uma ironia divertida, enquanto gesticulava com uma taça de água gaseificada. — Se for puxar ao pai, vai nascer com uma máquina de tatuagem na mão, então vamos de cinza espacial e detalhes em neon.
Emanuel esboçou um sorriso de canto, deslizando a mão pelas costas de Sara, sentindo a pele quente dela. Ele era intensamente protetor com ela, um instinto que triplicara desde a descoberta da gravidez. Sara era um furacão, impaciente e provocadora, mas ele sabia que, por trás daquela fachada de mulher fatal e da vulgaridade consciente que ela usava como armadura, havia uma lealdade feroz.
No entanto, sua atenção logo foi desviada para o lado esquerdo. Eduarda, sua "Duda", estava estranhamente silenciosa. A jovem de vinte anos, com sua beleza delicada e traços finos, parecia um anjo perdido em um antro de pecadores. Vestia um cardigã de tricô leve cor de creme sobre um vestido floral miúdo, o cabelo castanho solto caindo em ondas naturais sobre o rosto. Ela brincava com o canudo de seu suco de frutas, os olhos grandes e expressivos fixos em algum ponto distante.
Emanuel conhecia aquele olhar. Era o prelúdio da manha.
— Duda? — chamou ele, a voz baixando o tom para uma frequência mais suave. — Você mal tocou na comida. Quer que eu peça outra coisa?
Eduarda virou o rosto devagar, fazendo um biquinho que Emanuel sabia ser perigoso para sua sanidade.
— Não quero comer, Manu — murmurou ela, a voz doce e arrastada. — Minhas pernas estão doendo do ensaio de hoje. O assoalho da academia estava frio.
Emanuel sentiu a primeira fisgada de irritação misturada com preocupação. Ele sabia que ela estava sendo pirracenta; Eduarda tinha esse jeito de testar os limites dele quando se sentia um pouco deixada de lado pelo caos da vida profissional dele.
— Eu te disse para usar as perneiras térmicas que eu te dei, Eduarda — repreendeu ele, tentando manter a voz firme, embora sua mão já estivesse descendo para massagear o joelho dela por baixo da mesa. — Você é teimosa. Sabe que o ballet exige muito do seu corpo.
— Eu esqueci — ela respondeu, inclinando-se para frente e apoiando o queixo no ombro dele, buscando o contato físico que era seu oxigênio. — E agora dói. Você podia me levar para casa, não podia?
Sara, que parecia não estar prestando atenção, soltou uma risada curta e virou-se para os dois, os olhos azuis brilhando com diversão.
— Deixa de ser manhosa, garota. O Manu acabou de chegar. Ele precisa relaxar um pouco com os amigos antes de voltar para aquela rotina de CEO estressado.
Eduarda não se sentiu ofendida. Pelo contrário, ela olhou para Sara com uma admiração genuína. Elas não competiam; elas se completavam no caos que era a vida de Emanuel. Duda sabia que Sara era o fogo que mantinha Emanuel alerta, e Sara sabia que Duda era a paz que impedia que ele desmoronasse.
— Mas Sara, está barulhento aqui — Duda insistiu, agora olhando para Emanuel com os olhos brilhando, quase como se estivesse prestes a chorar, embora ele soubesse que era puro teatro. — E eu tenho aula de História da Arte amanhã cedo.
— Eduarda, chega — Emanuel disse, o tom agora mais rígido. Ele odiava quando ela usava essa passividade-agressiva para conseguir o que queria. — Nós vamos ficar mais meia hora. Senta direito e para de fazer pirraça.
Duda se encolheu levemente, não por medo, mas porque adorava a autoridade dele. Ela se afastou um centímetro, cruzou os braços e virou o rosto, o lábio inferior trêmulo.
— Você é grosso comigo — sussurrou ela, baixinho o suficiente para que apenas ele ouvisse.
Emanuel fechou os olhos por um segundo, contando até dez. Ele era um homem de lógica, de planos e execuções precisas, mas aquelas duas mulheres o levavam ao limite da razão.
— Eu não sou grosso, eu sou prático — rebateu ele, voltando-se para Sara. — E você, amor, não deveria estar bebendo nada com tanto gelo. O médico disse que seu estômago está sensível.
Sara revirou os olhos, ajeitando o decote generoso.
— Ah, por favor, Emanuel! É água. E eu estou grávida, não doente. Pare de tentar controlar até a temperatura do que eu bebo. Se continuar assim, vou acabar te dando um soco na frente dos seus sócios.
— Tenta a sorte — provocou ele, embora o brilho em seus olhos denunciasse o quanto ele a adorava.
A dinâmica entre os três era um espetáculo à parte. Os amigos de Emanuel, acostumados com a cena, apenas observavam de longe. Era um equilíbrio improvável: o tatuador rico e sério, a loira vulcânica e grávida, e a bailarina sensível e teimosa.
Eduarda, percebendo que o silêncio não estava funcionando, decidiu mudar de tática. Ela deslizou a mão por baixo da mesa, encontrando a coxa de Emanuel e apertando levemente.
— Manu... — chamou ela, agora com a voz mais firme, mas ainda carregada de doçura. — Se a gente ficar, você promete que faz aquela massagem com óleo de arnica quando chegarmos?
Emanuel olhou para ela, a irritação começando a ceder diante da vulnerabilidade da menina. Duda tinha esse poder; ela o desarmava com a mesma facilidade com que Sara o incendiava.
— Faço, Duda. Eu faço. Mas só se você prometer que vai comer pelo menos metade desse sanduíche.
— Inteiro não dá? — Sara interveio, piscando para Eduarda. — Ela está muito magrinha, Manu. Se ela continuar assim, o vento vai levar nossa bailarina embora quando ela sair da faculdade.
Eduarda riu, uma risada cristalina que iluminou seu rosto delicado.
— Eu como, Sara. Mas só se você me ajudar com a parte do pão.
— Fechado — disse a loira, pegando um pedaço do prato e levando à boca. — Administração me ensinou a dividir lucros, mas dividir comida é muito mais gratificante.
Por um momento, o estresse acumulado nos ombros de Emanuel pareceu dissipar-se. Ele olhou para as duas — Sara, vibrante e cheia de vida, carregando o futuro deles no ventre; e Eduarda, a personificação da ternura e da arte, o seu porto seguro de delicadeza. Ele sabia que o mundo lá fora jamais entenderia o que eles tinham. Diriam que ele era controlador, que Sara era vulgar, que Eduarda era dependente demais.
Mas, ali, naquele bar escuro, a verdade era outra. Eles eram um ecossistema.
— Vocês duas vão me levar à loucura antes dos trinta — murmurou Emanuel, embora suas mãos estivessem agora ocupadas: uma segurando a mão de Sara sobre a mesa e a outra repousando protetoramente sobre o ombro de Eduarda.
— Você ama a nossa loucura — Sara retrucou, inclinando-se para beijá-lo no rosto, deixando uma marca de batom vermelho perfeitamente definida. — Admita, sua vida seria um tédio sem a gente para bagunçar seus planos.
— É verdade, Manu — concordou Eduarda, encostando a cabeça no peito dele, fechando os olhos ao sentir o batimento cardíaco firme do homem que amava. — Você gosta de cuidar da gente.
Emanuel não respondeu, porque não precisava. O silêncio que se seguiu não era tenso, era de aceitação. Ele olhou para o relógio, depois para o rosto cansado de Eduarda e para a postura levemente mais protegida de Sara.
— Certo. Chega de bar por hoje — decretou ele, levantando-se e puxando a carteira. — Sara, pegue seu casaco. Eduarda, pegue sua bolsa. Estamos indo para casa.
— Mas a conversa estava ótima! — reclamou Sara, embora já estivesse se levantando e ajeitando o vestido.
— Eu estou com dor nas pernas, Sara... — choramingou Eduarda, aproveitando a deixa para se apoiar totalmente em Emanuel enquanto ele a ajudava a levantar.
— Eu sei, Duda, eu sei — disse Sara, passando o braço pela cintura da outra jovem de forma protetora. — Vamos logo, antes que o "Papai Urso" aqui comece a rosnar de verdade.
Emanuel apenas balançou a cabeça, guiando as duas em direção à saída. Ele sentia os olhares sobre eles, mas não se importava. Enquanto caminhavam para o carro, com o ar frio da noite batendo em seus rostos, ele sentiu a mão de Eduarda procurar a sua, e o braço de Sara se enroscar no seu outro lado.
Ele era o protetor delas, o porto seguro. Mas, secretamente, ele sabia que eram elas que o mantinham no chão. Sara com sua força e Eduarda com sua sensibilidade.
Ao chegarem no luxuoso apartamento que compartilhavam, o clima de pirraça de Eduarda pareceu se transformar em um cansaço real. Ela se jogou no sofá de linho claro, soltando um suspiro longo.
— O óleo, Manu. Você prometeu.
— Eu vou buscar — disse ele, retirando o paletó e jogando-o sobre uma poltrona. — Sara, você vai direto para o banho. Nada de ficar acordada até tarde revisando as contas da loja de roupas.
— Sim, senhor, capitão — ironizou Sara, mas havia um brilho de afeto em seus olhos. Ela se aproximou de Eduarda e deu um beijo no topo da cabeça da menina. — Durma bem, pequena. Amanhã eu te levo na faculdade, quero passar na boutique antes de abrir.
— Obrigada, Sara — respondeu Eduarda, com um sorriso sonolento.
Emanuel observou a interação, o peito aquecido. Ele sabia que a jornada com um bebê a caminho e duas personalidades tão distintas sob o mesmo teto seria um desafio logístico e emocional imenso. Sara exigiria sua atenção com sua impaciência e necessidades físicas, enquanto Eduarda exigiria sua alma com sua carência e inseguranças.
Mas, enquanto ele se ajoelhava no tapete para cuidar dos pés da bailarina, sob o olhar atento e cúmplice da futura mãe de seu filho, Emanuel percebeu que não mudaria absolutamente nada.
— Você está sendo muito boazinha hoje, Duda — comentou ele, começando a massagem rítmica. — O que você quer de verdade?
Eduarda abriu um olho, um sorriso travesso surgindo em seus lábios finos.
— Quero que você admita que sentiu saudade da gente hoje, mesmo tendo passado o dia todo no estúdio.
Emanuel soltou uma risada curta, a primeira risada genuína e relaxada da noite.
— Eu sempre sinto saudade — confessou ele, a voz rouca. — Agora fique quieta e relaxe. A manhã chega cedo para todos nós.
E assim, entre o aroma de óleo essencial e o som suave da respiração de Sara no andar de cima, o caos do mundo exterior parecia não ter poder algum sobre o santuário que Emanuel havia construído para suas duas mulheres.
