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Saudades dela

Fandom: Vida pessoal

Criado: 14/08/2026

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RomanceFatias de VidaFofuraHistória DomésticaRealismo
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O Silêncio da Cozinha e o Eco da Saudade

O relógio de parede do Restaurante Popular de Juiz de Fora parecia girar mais devagar do que o normal. Para Karen, cada minuto limpando as mesas de metal e organizando as bandejas era um lembrete silencioso de que o balcão da cozinha estava incompleto. Não era apenas a falta de uma auxiliar de cozinha ágil; era a ausência do sorriso tímido por trás dos óculos de armação escura e da presença firme de Karina.

Karina havia completado seu primeiro ano de registro na empresa. Um marco celebrado com um beijo apaixonado e uma jantinha especial que as duas dividiram no pequeno apartamento que já começavam a chamar de lar. Mas a recompensa daquele ano de trabalho duro veio na forma de férias, e o destino de Karina foi a roça, no interior de Minas, para reencontrar os avós e os primos. Como Karen havia entrado no serviço alguns meses depois, o calendário de férias não bateu. Agora, o que restava era a distância de alguns quilômetros e uma saudade que parecia pesar toneladas.

Karen passou o pano úmido por uma das mesas, observando o movimento do almoço. Ali, naquele mesmo salão, meses atrás, seus olhares se cruzaram pela primeira vez. Karen, sempre impecável com seu estilo "paty", mesmo usando o uniforme da limpeza, e Karina, com seu jeito desfem, de boné e avental, focada em servir as porções exatas de feijão e arroz. O amor nasceu entre o vapor das panelas industriais e o cheiro de comida caseira feita para o povo.

O celular no bolso do avental de Karen vibrou. Ela olhou rapidamente para os lados, certificando-se de que o supervisor não estava por perto, e deslizou a tela. Era uma foto. Karina estava sentada em uma cerca de madeira, o sol da tarde batendo em sua pele clara, os óculos levemente caídos no nariz e um sorriso que Karen conhecia bem: aquele que ela só dava quando estava em paz.

"Queria você aqui para ver esse pôr do sol. O café da vó cheira igual ao seu abraço", dizia a legenda.

Karen sentiu um aperto no peito. Sorriu, mas os olhos ficaram marejados.

— Não vai chorar em cima da mesa limpa, menina! — A voz de Dona Cida, a cozinheira-chefe, soou divertida logo atrás dela. — A morena volta logo. É só uma semana.

— Parece uma eternidade, Cida — respondeu Karen, guardando o celular e suspirando fundo. — A casa fica tão vazia. O silêncio da cozinha lá de casa é o que mais dói.

— É o amor, minha filha. Aproveita que a saudade é sinal de que o tempero tá bom — disse a senhora, voltando para os caldeirões.

Ao final do turno, Karen fez o caminho de volta para casa a pé. Juiz de Fora tinha aquele ar de cidade grande com alma de interior, mas sem Karina ao seu lado para comentar sobre o movimento do calçadão, tudo parecia cinza. Quando chegou ao apartamento, o cheiro do perfume de Karina ainda impregnava o travesseiro. Karen tomou um banho demorado, cuidou dos seus cabelos curtos com o capricho de sempre e deitou-se, pegando o celular para ligar por vídeo.

A conexão na roça era instável, mas, após três tentativas, o rosto de Karina apareceu na tela, iluminado por uma lamparina ou luz fraca de varanda.

— Oi, meu amor — disse Karina, a voz rouca pelo cansaço do dia no campo. — Consegui sinal perto do curral. Como foi o dia?

— Foi horrível — confessou Karen, fazendo um bico que sempre desarmava a namorada. — O restaurante está sem graça. Eu quase limpei a mesma mesa cinco vezes só de distração. Por que você tem que ser tão essencial na minha vida, hein?

Karina riu do outro lado, um som que fez o coração de Karen errar a batida.

— São só mais quatro dias, preta. Eu também estou morrendo de saudade. Hoje de manhã eu vi uma flor amarela no pasto e lembrei daquele vestido que você usou no nosso primeiro encontro no parque. Quase trouxe ela na mão, mas ia murchar até eu chegar aí.

— Eu não quero flor, Ka. Eu quero você. Quero suas mãos geladas nas minhas costas quando você chega do serviço. Quero você reclamando que eu demoro demais no banho.

— Prometo que vou reclamar de tudo isso assim que eu pisar na rodoviária — disse Karina, o olhar ficando mais sério e profundo através da tela. — Você está se cuidando? Comendo direito?

— Estou, mas a comida não tem o mesmo gosto. Você sabe que eu sou da limpeza, não da cozinha. Meu arroz ficou pregado hoje cedo.

— Ah, não! — Karina brincou. — Quando eu voltar, vou ter que te dar um curso intensivo de sobrevivência culinária.

As duas ficaram em silêncio por alguns segundos, apenas observando a imagem uma da outra, lutando contra o atraso do sinal de internet. Era difícil para Karen, aos 22 anos, e para Karina, aos 21, lidar com aquela intensidade. Elas viviam um amor jovem, mas com a solidez de quem já planejava o futuro, os móveis da casa, a carreira dentro da empresa.

— Aqui o céu está tão estrelado, Karen — disse Karina, virando a câmera para mostrar a imensidão escura salpicada de pontos brilhantes. — Em Juiz de Fora a gente quase não vê as estrelas por causa das luzes da rua. Mas aqui... parece que eu posso tocar nelas. Eu escolhi uma pra ser nossa.

— Qual? — perguntou Karen, sentindo o calor subir pelo rosto.

— Aquela mais brilhante ali perto da lua. Toda vez que você sentir saudade e eu não puder atender, olha pra ela. É o meu jeito de te dizer "eu te amo" em silêncio.

— Isso foi muito brega, Karina — riu Karen, limpando uma lágrima que escapou. — Mas eu amei. Vou olhar pra ela agora mesmo da janela da área de serviço.

— Olha lá. Eu vou ter que desligar, meu tio está chamando para o jantar e o sinal está caindo. Dorme bem, tá? Sonha comigo.

— Sonho sempre. Te amo, morena.

— Também te amo, paty mais linda desse mundo.

A tela ficou preta. O silêncio retornou ao quarto, mas, desta vez, não era um silêncio vazio. Karen levantou-se, foi até a pequena janela e buscou a estrela que Karina havia indicado. Ali, no meio do frio de Minas, ela sentiu que a distância era apenas um detalhe geográfico.

Os dias seguintes foram um exercício de paciência. Karen focou no trabalho, polindo o chão do restaurante com uma dedicação renovada. Ela queria que tudo estivesse perfeito para quando Karina voltasse, queria contar as novidades, os fofocas da cozinha, as mudanças no cardápio.

No último dia de férias de Karina, Karen não aguentou. Ela sabia o horário do ônibus que vinha do interior. Pediu para sair meia hora mais cedo, compensando no horário de almoço, e correu para a rodoviária. Ela estava com seu melhor conjunto, os cabelos perfeitamente finalizados e o perfume que Karina mais gostava.

O desembarque estava lotado. Karen buscava freneticamente por aquele boné surrado e pela mochila de lona. Quando finalmente viu a figura morena, de óculos, caminhando com um jeito meio desajeitado entre as pessoas, seu coração disparou como se fosse a primeira vez que se vissem no Restaurante Popular.

Karina parou bruscamente ao ver a namorada. Ela largou a mochila no chão, sem se importar com quem passava.

— Karen? — perguntou, como se não acreditasse.

Karen não respondeu com palavras. Ela correu e se jogou nos braços de Karina, envolvendo o pescoço da morena com força. O cheiro de terra, mato e sabão de coco que vinha de Karina era o melhor perfume que Karen já sentira na vida.

— Você veio — sussurrou Karina no ouvido dela, apertando-a pela cintura. — Eu ia te fazer uma surpresa em casa.

— Eu não aguentava mais um minuto, Ka — disse Karen, afastando-se apenas o suficiente para olhar nos olhos castanhos por trás das lentes. — Uma semana longe de você é tempo demais para uma vida inteira.

— Eu trouxe queijo da roça, doce de leite e... — Karina fez uma pausa, enfiando a mão no bolso da jaqueta e tirando uma pequena pedra de quartzo branco, polida pelo rio. — E isso aqui. Para você colocar na sua estante. É um pedaço do lugar onde eu estava, mas meu coração estava aqui o tempo todo.

Ali, no meio do vaivém de passageiros, entre chegadas e partidas, as duas se beijaram. Não era um beijo de cinema, era um beijo real, com gosto de saudade matada e promessa de reencontro.

— Vamos para casa? — perguntou Karina, pegando sua mochila.

— Vamos. Eu fiz arroz. E juro que desta vez não pregou no fundo da panela — brincou Karen, entrelaçando seus dedos nos de Karina.

Enquanto caminhavam em direção ao ponto de ônibus, o sol começava a se pôr em Juiz de Fora. A rotina no restaurante começaria cedo no dia seguinte, as bandejas voltariam a ser servidas e o chão voltaria a ser limpo, mas agora tudo teria o brilho de novo. Porque, para elas, o serviço era apenas o lugar onde ganhavam a vida, mas o amor era o lugar onde elas realmente moravam.

— Sabe, Ka — disse Karen, enquanto subiam no ônibus —, a estrela que você me mostrou... eu olhei para ela todas as noites.

— Eu sabia que você ia olhar — respondeu Karina, encostando a cabeça no ombro de Karen. — Mas agora eu prefiro olhar para você. É muito mais brilhante.

E assim, entre o barulho do motor e o movimento da cidade, a distância de uma semana se tornou apenas uma história para contar, enquanto o futuro se abria diante delas, tão vasto e cheio de luz quanto o céu daquela roça mineira.

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