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Fandom: Nenhum
Criado: 14/08/2026
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Entre o Equilíbrio e o Capricho
O estúdio de tatuagem de Emanuel, localizado na cobertura de um dos prédios mais caros da cidade, exalava o cheiro característico de tinta, álcool e o couro dos móveis de design. Ele estava sentado em sua mesa de carvalho negro, massageando as têmporas enquanto revisava os relatórios financeiros de suas unidades em Berlim e Tóquio. Aos vinte e cinco anos, Emanuel construíra um império, mas a estabilidade que vendia ao mundo era frequentemente testada pelas duas mulheres que ocupavam seu coração.
A porta do escritório se abriu com um estrondo suave, mas decidido. Sara entrou como um furacão de perfume caro e presença magnética. O cabelo loiro platinado estava impecável, e o vestido justo de seda vermelha deixava claro que, mesmo no primeiro mês de gestação, ela não pretendia abrir mão de sua imagem provocadora.
— Manu, querido, você ainda está nessas planilhas? — Sara se aproximou, sentando-se no colo dele com a confiança de quem sabe que é dona do espaço. — O casal Bittencourt confirmou a festa para sábado. Vai ser a inauguração da mansão nova deles. Você sabe que eles são meus clientes vips na loja e seus amigos de longa data. Temos que estar impecáveis.
Emanuel suspirou, as mãos descendo automaticamente para a cintura de Sara, um gesto de proteção que se tornara instintivo desde que souberam da gravidez.
— Eu sei, Sara. Eu não esqueci. Só estou tentando adiantar o trabalho para ter o fim de semana livre para vocês duas.
— Ótimo — ela sorriu, dando um selinho rápido nele. — Vou ligar para a Duda. Ela precisa escolher um vestido que não a faça parecer uma criança de dez anos, embora eu ache aquela carinha de anjo dela uma graça.
Emanuel sorriu levemente. A dinâmica entre as duas era algo que poucos entenderiam. Sara, com sua exuberância e língua afiada, não via em Eduarda uma ameaça. Pelo contrário, sentia um carinho quase fraternal pela doçura da garota, uma espécie de proteção compartilhada. Ambas sabiam que Emanuel era um homem complexo, cuja alma precisava tanto do fogo de Sara quanto da paz de Eduarda.
No entanto, a paz era exatamente o que Emanuel não encontraria naquela noite ao chegar em casa.
Eduarda estava na sala de ensaio do apartamento, uma sapatilha de ponta descartada no chão e o corpo esguio curvado enquanto ela alongava os músculos. Aos vinte anos, a estudante de História da Arte e bailarina parecia uma pintura de Degas sob a luz suave do entardecer. Quando ouviu os passos de Emanuel, ela se levantou, os olhos castanhos expressivos brilhando com uma expectativa tímida.
— Manu! — Ela correu para os braços dele, enterrando o rosto em seu peito. — Você demorou.
— Muito trabalho, pequena — ele murmurou, beijando o topo da cabeça dela, sentindo o cheiro de lavanda que ela sempre exalava. — Mas cheguei.
— Que bom... — Ela se afastou um pouco, fazendo um biquinho manhoso que Emanuel conhecia bem. — Os meninos da faculdade e o pessoal da companhia de ballet vão ao teatro no sábado. É uma peça experimental sobre o Renascimento, e eu queria tanto ir com você...
Emanuel sentiu o estresse começar a latejar na base do crânio. Ele a conduziu até o sofá, sentando-se e puxando-a para o seu colo, tentando manter a voz calma e racional.
— Duda, meu amor, nós temos o jantar dos Bittencourt no sábado. Eu já tinha comentado com você.
O rosto de Eduarda mudou instantaneamente. A doçura deu lugar a uma expressão de desapontamento profundo, e ela se encolheu, tornando-se pequena contra ele.
— Mas eu não conheço ninguém lá, Manu — protestou ela com a voz embargada. — São amigos seus e da Sara. Eles são... barulhentos. Eu vou ficar num canto sem saber o que falar, e você sabe que eu odeio isso.
— Eu vou estar com você o tempo todo — Emanuel tentou mediar, a mão acariciando as costas dela de forma protetora. — E a Sara também. Ela gosta da sua companhia.
— A Sara vai estar ocupada sendo a Sara — Eduarda rebateu, cruzando os braços e virando o rosto. — Ela adora essas festas. Eu quero ir ao teatro. Eu já tinha planejado.
— Duda, por favor, seja razoável — o tom de Emanuel subiu um oitavo, a rigidez começando a transparecer em sua postura. — É um compromisso social importante para os meus negócios e para a loja da Sara. Não é só diversão.
— Para você tudo é lógica e negócios! — Eduarda exclamou, levantando-se do colo dele com um movimento fluido de bailarina, mas carregado de pirraça. — Você nunca quer fazer o que eu gosto porque acha que meus interesses são bobos. Eu não vou. Pode ir com a sua loira perfeita, eu vou ao teatro com meus amigos!
Ela caminhou em direção ao quarto, os passos leves fazendo um contraste irônico com a força com que ela bateu a porta. Emanuel soltou um palavrão baixo, passando as mãos pelo cabelo curto. O controle que ele tanto prezava estava escorrendo pelos dedos.
Minutos depois, a porta da frente se abriu. Sara entrou carregando sacolas de compras, radiante. Ela percebeu o clima pesado imediatamente.
— Ué, cadê a bonequinha de porcelana? — perguntou Sara, deixando as sacolas no balcão da cozinha e pegando um copo de água. — E por que você está com essa cara de quem acabou de fazer uma tatuagem na testa de um cliente difícil?
— A Eduarda está fazendo pirraça — Emanuel disse, a voz ríspida. — Ela decidiu que não quer ir à festa. Quer ir ao teatro com os amigos da faculdade.
Sara arqueou uma sobrancelha perfeitamente desenhada, um sorriso irônico brincando nos lábios.
— Ah, a fase da rebeldia. Que fofa.
— Não tem nada de fofo nisso, Sara! — Emanuel explodiu, levantando-se e começando a andar de um lado para o outro. — Eu tenho mil coisas na cabeça, a sua gravidez, os estúdios, e agora tenho que lidar com crise de ciúmes de agenda?
Sara caminhou até ele, colocando a mão no peito dele. O toque era firme, desprovido da timidez de Eduarda, mas carregado de uma compreensão profunda.
— Calma, grandão. Você está estressado demais. A Duda é sensível, você sabe. Ela se sente deslocada no nosso mundo às vezes. E você, sendo esse ogro racional, só piora as coisas.
— Eu só quero que as duas estejam comigo — confessou ele, a voz baixando para um tom de exaustão. — Eu não sou completo se não tiver vocês duas lá.
— Eu sei disso. E ela também sabe — Sara disse, suavizando a expressão. — Deixa que eu falo com ela.
— Não, Sara. Deixa. Ela precisa entender que nem tudo é como ela quer.
Emanuel caminhou até o quarto. A luz estava apagada, mas ele conseguia ver o vulto de Eduarda deitada na cama, enrolada no edredom como se fosse um casulo. Ele se sentou na beirada do colchão, o silêncio pesando entre eles.
— Duda? — chamou ele, a voz mais suave.
Nenhuma resposta. Apenas o som da respiração dela, um pouco acelerada.
— Eduarda, olhe para mim.
Lentamente, ela se virou. Os olhos estavam vermelhos, e uma lágrima solitária escorria pela bochecha. O coração de Emanuel apertou. Sua racionalidade sempre falhava diante das lágrimas dela.
— Eu me sinto invisível nessas festas, Manu — sussurrou ela, a voz falhando. — Todo mundo fala de milhões, de contratos, de moda... Eu só sei falar de arte e de dança. Eu sinto que não pertenço ao seu lado quando você está naquele modo "empresário".
— Você pertence a qualquer lugar onde eu esteja — ele disse, puxando-a para um abraço apertado. — Você é a minha paz, Duda. Se eu aguento aquele barulho todo, é porque sei que posso olhar para o lado e ver você.
— Mas e o teatro? — ela insistiu, fazendo um biquinho, a manha voltando agora que sentia a guarda dele baixar. — Meus amigos disseram que o diretor vai estar lá...
— Nós podemos ir ao teatro no domingo — propôs Emanuel. — Eu compro os melhores ingressos, levo você e quem mais você quiser para jantar depois. Mas no sábado, eu preciso da minha pequena comigo. E a Sara também precisa. Você sabe que ela fica mais calma quando você está por perto para equilibrar a energia dela, especialmente agora com o bebê.
Eduarda suspirou, apoiando o queixo no ombro dele. Ela olhou para a porta e viu Sara encostada no batente, observando a cena com um olhar terno, apesar da postura desleixada.
— Duda, se você for, eu deixo você escolher o meu sapato — provocou Sara, piscando. — E prometo que não deixo nenhuma daquelas peruas da administração chegar perto de você com perguntas idiotas.
Eduarda soltou uma risadinha fraca, o clima de tensão se dissipando.
— O sapato mais confortável que você tiver, Sara. Nada de saltos de quinze centímetros enquanto você estiver grávida.
— Viu? — Emanuel disse, beijando a testa de Eduarda. — Ela já está cuidando de você.
— Tá bom... eu vou — cedeu Eduarda, apertando o braço de Emanuel. — Mas eu quero um sorvete de pistache agora. E quero que você assista ao documentário sobre o Louvre comigo.
Emanuel soltou uma risada curta, a primeira da noite.
— Sorvete de pistache e documentário. É um preço justo pela paz.
— E eu quero massagem nos pés! — gritou Sara da sala. — O herdeiro está exigindo mimos!
Emanuel balançou a cabeça, sentindo o peso do estresse diminuir. Ele era um homem de lógica, mas ali, entre a fragilidade manhosa de Eduarda e a força vibrante de Sara, ele entendia que a verdadeira gestão de sua vida não estava nos contratos internacionais, mas na capacidade de manter aquelas duas órbitas distintas girando em torno de si.
— Eu vou buscar o sorvete — disse Emanuel, levantando-se. — E depois, quero as duas aqui. Sem brigas, sem pirraça.
— Sem promessas, Manu — Eduarda disse, cobrindo-se novamente, um brilho travesso nos olhos. — Você sabe que eu gosto de testar sua paciência.
— E eu gosto de testar os limites dele — completou Sara, entrando no quarto e se jogando do outro lado da cama. — É o que mantém ele jovem.
Emanuel saiu do quarto com um sorriso discreto. Ele sabia que a festa de sábado seria um desafio, que Sara provavelmente causaria um escândalo com algum comentário sarcástico e que Eduarda passaria metade da noite escondida em seu braço. Mas, enquanto caminhava em direção à cozinha, ele percebeu que não trocaria aquele caos por nenhuma paz solitária no mundo. Elas eram o seu equilíbrio, e ele faria qualquer coisa para protegê-las, inclusive assistir a dez documentários sobre o Renascimento.
