Fanfy
.studio
Imagem de fundo

Mom

Fandom: Descendentes 5

Criado: 14/08/2026

Tags

FantasiaDor/ConfortoDramaFatias de VidaCenário CanônicoConsertoAventuraRecontar
Índice

Uivos e Cartolas: O Peso do Legado

A névoa matinal de Auradon costumava ser mágica, mas para Cerise Wolf, ela cheirava a metal e incerteza. Desde que a Rainha de Copas fora detida e as linhas temporais se estabilizaram após a última grande confusão, o reino parecia ter encontrado uma paz frágil. No entanto, para alguns, o final feliz não passara de um mito.

Cerise ajustou a gola de sua capa vermelha escura, sentindo o peso familiar do amuleto de prata em seu pescoço. O pingente, moldado como uma presa de lobo, pulsava levemente contra sua pele, um lembrete constante da herança que ela carregava do Lobo Mau. Ela não era apenas uma garota da Ilha que encontrara um lugar em Auradon; ela era a alfa de seu próprio pequeno bando, e um de seus membros estava quebrando.

— Ele não comeu nada hoje de novo — a voz rouca de Harry Hook surgiu atrás dela, acompanhada pelo som metálico de seu gancho batendo contra a amurada da ponte.

Cerise se virou, os olhos brilhando com uma intensidade âmbar que denunciava seu lado lupino.

— Onde ele está, Harry? — perguntou ela, a voz baixa e carregada de autoridade.

— No jardim de chá. Onde mais ele estaria? — Harry deu de ombros, mas seu olhar revelava uma preocupação genuína que ele raramente mostrava a qualquer pessoa fora do círculo íntimo de Uma. — Ele está tentando "consertar" o relógio de bolso do pai. De novo.

Cerise não esperou por mais explicações. Ela disparou em direção aos jardins internos da Academia Auradon, seus sentidos aguçados captando o cheiro de chá de hibisco e óleo de engrenagem.

Desde que o Chapeleiro Maluco fora levado de volta para o País das Maravilhas para cumprir pena por sua conivência involuntária com os planos da Rainha de Copas, Max Hatter parecia ter perdido a cor. O garoto, que antes era uma explosão de risadas e enigmas sem sentido, agora era uma sombra silenciosa escondida sob uma cartola grande demais para sua cabeça.

Ao chegar ao gazebo, Cerise parou. Max estava sentado no chão, cercado por peças de relógio espalhadas. Suas mãos tremiam levemente enquanto ele tentava encaixar uma mola minúscula em um mecanismo de ouro.

— Max — chamou ela suavemente, aproximando-se com passos leves de predadora.

O garoto não levantou o olhar.

— Está atrasado, Cerise. Tudo está atrasado. O tempo parou no País das Maravilhas, mas aqui ele insiste em correr. É uma falta de educação terrível da parte dele, não acha?

Cerise sentou-se no chão sujo, ignorando o fato de que sua capa era de veludo caro. Ela colocou uma mão firme sobre as mãos trêmulas de Max.

— Max, olhe para mim.

Ele finalmente ergueu o rosto. Seus olhos estavam fundos, e a alegria caótica que costumava brilhar ali fora substituída por uma exaustão profunda.

— Ele está sozinho lá, Cerise — sussurrou Max, a voz falhando. — Meu pai não sabe ser sozinho. Ele precisa de alguém para servir o chá. Ele vai esquecer quem é se não tiver ninguém para fazer perguntas difíceis.

— Nós vamos dar um jeito — afirmou Cerise, sentindo o lobo dentro de si rosnar em proteção. — Uma está conversando com o Rei Ben. Harry e Gil estão de vigia nas fronteiras. Você não está sozinho.

Max soltou uma risada seca, que soou mais como um soluço.

— Eu sou o filho do Chapeleiro, Cerise. Eu deveria ser louco, não triste. A tristeza é tão... comum. Tão sem cor.

— A tristeza faz parte da matilha, Max — disse ela, apertando a mão dele. — Quando um lobo se perde, os outros uivam até que ele encontre o caminho de volta. Eu não vou deixar você se perder no escuro.

Nesse momento, passos pesados anunciaram a chegada de Gil, que trazia uma bandeja com sanduíches de pepino e uma jarra de suco.

— Eu trouxe comida! — anunciou Gil com seu entusiasmo habitual, embora tenha baixado o tom ao ver o estado de Max. — Harry disse que se você não comesse, ele ia te obrigar a engolir um anzol. Mas eu acho que sanduíches são melhores.

Max esboçou um sorriso fraco, o primeiro em dias.

— Obrigado, Gil. Mas acho que os anzóis do Harry têm muito ferro para a minha dieta.

Cerise se levantou, sentindo uma presença familiar se aproximar. Uma caminhava em direção a eles com sua postura de capitã, as tranças azul-turquesa balançando ao vento. Sua expressão era séria.

— Temos notícias? — perguntou Cerise, ficando em pé e cruzando os braços.

Uma parou diante do grupo e suspirou, olhando diretamente para Max.

— Ben conseguiu uma permissão especial — começou ela, e Max se levantou num salto, derrubando várias engrenagens. — Mas não é o que você espera, garoto. Você não pode ir para o País das Maravilhas agora. A magia lá ainda está instável depois da viagem no tempo da Red e da Chloe.

O brilho de esperança nos olhos de Max vacilou.

— Então o que...?

— Mas — interrompeu Uma, com um meio sorriso — ele autorizou que seu pai envie correspondência mágica. E mais do que isso: o Chapeleiro foi transferido para uma custódia domiciliar no palácio da Rainha Branca. Ele não está mais em uma cela, Max. Ele está cuidando dos jardins de Mirana.

Max soltou o ar que nem sabia que estava segurando. Ele se deixou cair de volta no banco do gazebo, as lágrimas finalmente rolando livremente por seu rosto.

— Ele está seguro? — perguntou ele, a voz embargada.

— Está — confirmou Uma, aproximando-se e colocando a mão no ombro do garoto. — E ele enviou isso para você.

Ela estendeu um pequeno envelope que cheirava a lavanda e loucura. Max o pegou como se fosse feito de cristal fino.

Cerise sentiu uma onda de alívio percorrer seu corpo. Ela tocou o amuleto de lobo no pescoço, sentindo o metal esfriar. Sua natureza superprotetora era uma faca de dois gumes; ela lutaria contra exércitos por aqueles que amava, mas a batalha contra a solidão de um amigo era a mais difícil de todas.

— O que diz o bilhete? — perguntou Gil, curioso, enquanto mastigava um dos sanduíches.

Max abriu o papel e leu em voz alta, com a voz recuperando um pouco de sua cadência rítmica:

— "Meu caro Max, não se esqueça de desaniversariar todos os dias. O chá aqui é bom, mas as xícaras não têm a mesma graça sem você para quebrá-las. Mantenha sua cartola alta e seu coração curioso. O tempo é apenas um palpite, e logo estaremos atrasados juntos novamente."

Max limpou os olhos com a manga da camisa e olhou para Cerise.

— Você sabia que eles iam conseguir, não sabia?

Cerise deu de ombros, um lampejo selvagem passando por seus olhos.

— Eu sabia que, se eles não conseguissem, eu mesma atravessaria o espelho e traria seu pai de volta, nem que tivesse que morder alguns guardas de baralho no caminho.

Harry Hook, que acabara de se juntar ao grupo, soltou uma gargalhada sombria.

— Eu pagaria para ver isso. A loba contra as cartas.

— Não seria uma luta — comentou Uma, sorrindo para seu bando. — Seria um massacre.

Max Hatter colocou sua cartola de volta, ajustando-a com um floreio que não mostrava há semanas. O peso em seus ombros parecia ter diminuído, embora a saudade ainda estivesse lá.

— Cerise? — chamou ele, enquanto o grupo começava a se dispersar para o almoço.

— Sim, Max?

— Obrigado por não me deixar virar apenas uma sombra.

Cerise parou e olhou para o horizonte, onde a floresta de Auradon se encontrava com as montanhas. Ela sentiu o instinto de proteção sempre presente, a chama que ardia em seu peito por causa de sua linhagem.

— Lobos não deixam ninguém para trás, Max — disse ela com firmeza. — Especialmente os que usam chapéus engraçados.

Ela caminhou ao lado dele, os sentidos sempre alertas, a capa vermelha flutuando atrás dela como uma bandeira de guerra e lealdade. O País das Maravilhas podia ter levado o Chapeleiro por um tempo, mas em Auradon, Max Hatter tinha uma matilha que ninguém ousaria desafiar.

— Ei, Max! — gritou Gil lá na frente. — Você acha que seu pai me ensinaria a fazer um chá que muda de cor?

Max riu, um som claro que pareceu espantar a última névoa da manhã.

— Gil, meu pai pode te ensinar a fazer um chá que faz você falar em rimas por uma semana.

— Oh, por favor, não — resmungou Harry, embora estivesse sorrindo. — Uma rima do Gil já é tortura suficiente.

Cerise observou seus amigos, seu bando de desajustados e vilões regenerados. O amuleto em seu pescoço brilhou sob o sol de meio-dia. Ela sabia que os desafios não tinham acabado — nunca acabavam em um mundo de magia e espelhos —, mas enquanto eles estivessem juntos, o lobo mau não teria do que ter medo.

— Vamos — disse Cerise, empurrando Max levemente. — Temos um desaniversário para celebrar.

E, pela primeira vez em muito tempo, o relógio no bolso de Max Hatter voltou a tiquetaquear no ritmo certo.

Índice

Quer criar seu próprio fanfic?

Cadastre-se na Fanfy e crie suas próprias histórias!

Criar meu fanfic