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Fandom: A casa do Dragão

Criado: 14/08/2026

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Sombras e Segredos na Fortaleza Vermelha

O perfume de pão quente e ervas secas costumava ser o único consolo de Clara nos dias longos e exaustivos na Fortaleza Vermelha. Suas mãos, sempre ocupadas em esfregar pratarias ou carregar bandejas pesadas, estavam avermelhadas pelo esforço, e o suor fazia com que alguns fios castanhos grudassem em sua testa. Ela sabia que não possuía a elegância etérea das damas da corte, com suas cinturas de vespa e vestidos de seda que custavam mais do que Clara ganharia em dez vidas. Ela era feita de curvas generosas, de uma força terrena que muitos ignoravam, mas que um homem, em especial, parecia adorar entre quatro paredes.

Jacaerys Velaryon. O príncipe herdeiro, o filho perfeito de Rhaenyra, o rapaz de olhos sérios e deveres pesados. Nos aposentos dele, quando a lua estava alta e as portas trancadas, ele a tocava como se ela fosse feita de ouro, sussurrando promessas que o sol da manhã sempre se encarregava de dissipar.

Naquela tarde, Clara atravessava o pátio interno carregando um cesto de lençóis limpos. O sol de Porto Real estava implacável, e ela sentia o peso de seu próprio corpo enquanto caminhava. Foi então que ouviu a risada. Uma risada arrastada, embebida em vinho e malícia.

— Vejam só o que temos aqui — ecoou a voz de Aegon Targaryen.

Clara sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ela tentou apressar o passo, mantendo a cabeça baixa, mas o príncipe Aegon, acompanhado de dois guardas que pareciam achar a situação divertida, bloqueou seu caminho. Ele balançava um cálice de prata, o rosto já ruborizado pelo álcool, os cabelos platinados em uma bagunça desleixada.

— Para onde tanta pressa, gracinha? — Aegon deu um passo à frente, forçando-a a parar. — O cesto parece pesado. Ou talvez seja apenas você que está pesada demais para essas pernas curtas?

Clara apertou as alças do cesto, os nós dos dedos ficando brancos.

— Com licença, meu príncipe. Tenho deveres a cumprir na ala leste — disse ela, a voz saindo mais trêmula do que pretendia.

Aegon soltou um som de deboche, circulando-a como um predador avaliando uma presa lenta.

— Deveres... sei bem quais são os seus deveres. Ouvi dizer que meu sobrinho, o certinho do Jacaerys, tem passado muito tempo "estudando" nos aposentos dele. — Ele se aproximou mais, o hálito quente de vinho atingindo o rosto de Clara. — Diga-me, o que ele vê em você? Há carne de sobra para agarrar, eu admito, mas você parece mais uma novilha pronta para o abate do que uma amante de príncipe.

As lágrimas arderam nos olhos de Clara. Ela estava acostumada com o trabalho duro, mas a crueldade gratuita de Aegon cortava como uma lâmina cega.

— Por favor, senhor... deixe-me passar.

— E se eu não deixar? — Aegon esticou a mão, tocando o ombro de Clara e descendo os dedos de forma invasiva pelo decote do seu vestido de linho áspero. — Jacaerys sempre foi um colecionador de coisas sem valor. Mas talvez eu devesse testar para ver se você é tão macia quanto parece. Deve ser como afundar em um colchão de penas, não é?

— Pare com isso! — Clara recuou, mas acabou tropeçando nos próprios pés, derrubando o cesto de lençóis no chão empoeirado.

A gargalhada de Aegon preencheu o pátio.

— Olhe só, a porquinha se atrapalhou! — Ele se inclinou sobre ela, a voz baixando para um sussurro cruel. — Você realmente acha que ele se importa? Para ele, você é apenas um lugar quente para descarregar o desejo antes de se casar com uma lady de verdade. Você é o segredo sujo dele, Clara. E segredos sujos a gente descarta quando começam a cheirar mal.

— O que está acontecendo aqui?

A voz era firme, cortante como aço valiriano. Clara olhou para cima e viu Jacaerys parado na entrada do corredor. Ele estava impecável em seu gibão escuro, mas seus olhos estavam fixos em Aegon com uma intensidade furiosa.

Aegon endireitou o corpo, um sorriso petulante surgindo em seus lábios.

— Ora, sobrinho! Estava apenas conversando com a sua... servente. Ela deixou cair os lençóis. Estava prestes a ajudá-la a se levantar. Ou talvez a deitá-la de novo, quem sabe?

Jacaerys caminhou até eles, cada passo ecoando no silêncio tenso que se seguiu. Ele olhou para Clara, caída no chão, com o rosto banhado em lágrimas e as roupas sujas, e depois para Aegon. Por um momento, Clara esperou que ele a defendesse, que a pegasse pela mão e dissesse a Aegon para nunca mais tocar em sua mulher.

Em vez disso, Jacaerys parou a dois passos de distância, o rosto tornando-se uma máscara de indiferença fria.

— Ela é apenas uma empregada, Aegon. Não perca seu tempo com ninharias — disse Jacaerys, a voz desprovida de qualquer emoção. — Clara, recolha isso e volte ao trabalho. Você está atrasada com as obrigações.

O coração de Clara se estilhaçou. As palavras de Aegon, por mais cruéis que fossem, agora pareciam verdades absolutas validadas pelo próprio Jacaerys. Ela começou a recolher os lençóis freneticamente, com as mãos tremendo, enquanto Aegon soltava uma última risada triunfante.

— Viu só? — Aegon piscou para ela antes de se afastar com seus guardas. — Nem ele quer admitir que toca em você.

Jacaerys permaneceu ali por um momento, observando-a. Quando Aegon sumiu de vista, ele deu um passo em direção a ela, a voz agora um sussurro urgente.

— Clara, eu...

— Não — interrompeu ela, levantando-se com o cesto nos braços, recusando-se a olhar para ele. — O príncipe foi muito claro. Sou apenas uma empregada. Com licença, meu senhor.

Ela passou por ele sem esperar resposta, sentindo o peso do olhar dele em suas costas.

Horas depois, quando a noite caiu e o castelo mergulhou em um silêncio inquietante, Clara estava em seu pequeno quarto nos alojamentos dos servos. Ela encarava a única vela acesa, perguntando-se por quanto tempo mais conseguiria suportar aquela humilhação.

Uma batida suave na porta a fez pular. Ela sabia quem era. Ela sempre sabia.

— Clara, abra a porta — pediu Jacaerys do outro lado.

Ela hesitou, mas a vontade de confrontá-lo foi maior do que a dor. Ela abriu a porta, e ele entrou rapidamente, fechando-a atrás de si. Ele tentou alcançá-la, mas ela recuou.

— O que faz aqui, meu senhor? — perguntou ela, a voz carregada de sarcasmo. — Não deveria estar preocupado com suas "ninharias"?

Jacaerys fechou os olhos, uma expressão de agonia cruzando seu rosto jovem.

— Eu sinto muito pelo que aconteceu no pátio. Aegon é um verme, ele estava tentando me provocar. Se eu tivesse reagido, se eu tivesse defendido você como queria... ele saberia. O castelo inteiro saberia.

— E o que haveria de tão terrível nisso? — Clara deu um passo à frente, a raiva finalmente superando a tristeza. — Que o grande Jacaerys Velaryon gosta de uma mulher gorda? Que ele encontra conforto nos braços de alguém que não tem um título? É isso que o envergonha?

— Não é vergonha, Clara! É proteção! — Ele exclamou, segurando-a pelos ombros. — Minha mãe está em uma posição precária. Meus inimigos procuram qualquer fraqueza, qualquer escândalo para nos destruir. Se eles souberem que você significa algo para mim, você se torna um alvo. Aegon não teria apenas zombado de você; ele teria feito algo muito pior para me ferir através de você.

— Então a solução é me humilhar na frente dele? — Ela se soltou do aperto dele. — Você me chamou de nada, Jace. Você olhou para mim como se eu fosse o lixo sob suas botas.

Jacaerys baixou a cabeça, o silêncio confirmando a covardia do momento.

— Eu não sou uma lady, eu sei disso — continuou Clara, as lágrimas voltando a cair. — Eu sei que meu corpo não é o que os poetas cantam. Eu sei que minhas mãos são ásperas. Mas eu achei que, quando estávamos sozinhos, você via além disso. Eu achei que você me via.

— Eu vejo você! — Ele deu um passo à frente, encurtando a distância e segurando o rosto dela com as duas mãos. — Eu vejo a única pessoa nesta fortaleza que não quer nada de mim além do meu tempo. Eu vejo a mulher que me faz esquecer que o peso de um reino vai cair sobre meus ombros. Eu amo o toque das suas mãos, Clara. Eu amo cada curva sua, cada centímetro que Aegon tentou insultar.

— Mas você nunca vai dizer isso em voz alta para ninguém além das sombras deste quarto — sussurrou ela.

Jacaerys encostou a testa na dela. O cheiro de sabão e suor dela era, para ele, mais inebriante do que qualquer perfume caro.

— Eu não posso. Não agora.

— Então talvez não deva haver um "agora" para nós — disse Clara, embora seu coração implorasse pelo contrário.

Jacaerys a beijou então, um beijo desesperado, faminto, que tentava apagar as palavras cruéis ditas sob a luz do sol. Ele a conduziu até a cama estreita, suas mãos explorando o corpo dela com uma reverência que beirava a adoração. Ele beijou as dobras de sua barriga, a curva de seus quadris, sussurrando palavras de amor que morriam no ar frio do quarto.

Clara fechou os olhos, deixando-se levar pela sensação. Ela sabia que, pela manhã, ele seria novamente o príncipe distante e ela seria a servente invisível. Ela sabia que a zombaria de Aegon continuaria, e que Jacaerys continuaria a desviar o olhar.

Mas ali, na escuridão, ela era a rainha dele. E, por enquanto, aquela mentira era a única coisa que a mantinha inteira em um mundo feito de fogo e sangue, onde o amor era a mercadoria mais perigosa de todas.

— Prometa-me — sussurrou ela, enquanto ele se deitava ao seu lado, exausto. — Prometa que, um dia, eu não serei apenas um segredo.

Jacaerys olhou para o teto de madeira, o peso da coroa invisível parecendo esmagá-lo.

— Eu farei o que for preciso para manter você segura, Clara. Mesmo que isso signifique que você tenha que me odiar um pouco todos os dias.

Ele não prometeu. E Clara, abraçando o travesseiro enquanto ele se vestia para sair antes do amanhecer, percebeu que, na dança dos dragões, as pessoas como ela eram apenas o chão sobre o qual os grandes pisavam. E o chão, embora suporte tudo, nunca é convidado para o banquete.

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