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Sombras

Fandom: Animais fantásticos

Criado: 14/08/2026

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Traição de Vidro e Cinzas

O ar no castelo de Nurmengard sempre fora frio, mas nos braços de Gellert Grindelwald, Clara encontrava um calor que desafiava a própria natureza. Ela, a bruxa que crescera ao lado de Newt Scamander cuidando de tronquilhos e hipogrifos, agora se via enredada na teia do homem mais perigoso do século. O amor deles era uma tempestade: destrutivo, intenso e absoluto.

Naquela noite, o quarto de Gellert estava banhado pela luz prateada da lua. O silêncio era quebrado apenas pelo estalar da lareira e pela respiração pesada de ambos. Gellert a possuía com uma urgência que parecia beirar o desespero, como se quisesse fundir a alma dela à dele. Suas mãos, as mesmas que empunhavam a Varinha das Varinhas com frieza letal, eram agora gentis e possessivas sobre a pele de Clara.

— Você é minha bússola, Clara — sussurrou ele contra o pescoço dela, enquanto seus corpos se moviam em um ritmo febril e coreografado pelo desejo. — Sem você, o futuro que eu vejo é apenas cinzas.

Clara arqueou as costas, sentindo o toque gélido do anel de Gellert contra sua cintura, contrastando com o calor de sua pele. Ela se entregou àquela intensidade, esquecendo-se de Newt, de Dumbledore e da guerra que se aproximava. Naquele momento, só existia o toque dele, o cheiro de sândalo e magia antiga, e a promessa de um mundo onde eles não precisariam se esconder.

No entanto, a perfeição é uma ilusão frágil.

Alguns dias depois, o peso da traição caiu sobre Clara como um feitiço de desilusão que se quebra violentamente. Ela voltava de uma breve viagem a Paris, onde fora buscar ingredientes raros para as poções de Gellert. O coração batia acelerado, ansiosa para reencontrá-lo. Ela subiu as escadarias de pedra, ignorando os olhares cautelosos dos seguidores de Grindelwald.

Ao abrir a porta pesada do carvalho do quarto dele, o mundo de Clara desabou.

A cena era uma adaga cravada no peito. Gellert estava na cama, os lençóis de seda em desalinho. Ao lado dele, uma mulher de cabelos escuros e olhar vago — uma de suas seguidoras mais fiéis — repousava a mão sobre o peito nu do bruxo. Gellert parecia estar em um transe, seus olhos heterocromáticos fixos no teto, mas ele não a afastara.

O som do frasco de cristal caindo da mão de Clara e se estilhaçando no chão de pedra ecoou como um trovão.

Gellert sentou-se abruptamente, seus olhos encontrando os dela. Por um breve segundo, a máscara de líder inabalável caiu, revelando um pavor genuíno.

— Clara... — A voz dele saiu rouca, desprovida de sua habitual autoridade.

— Como você pôde? — A voz de Clara era um sussurro trêmulo, carregado de uma dor que ela nunca imaginou sentir.

— Não é o que parece — disse ele, levantando-se da cama com uma pressa que quase o fez tropeçar. Ele nem se deu ao trabalho de cobrir a nudez, sua mente focada inteiramente na mulher à sua frente. — Clara, escute-me.

A outra mulher na cama começou a se mover, mas Gellert nem sequer olhou para ela. Seu foco era total e absoluto em Clara.

— Não é o que parece? — repetiu Clara, uma risada histérica escapando de seus lábios. — Eu vi, Gellert. Eu vi o que você faz quando eu não estou aqui para ser sua "bússola".

— Ela não significa nada! — gritou ele, avançando um passo, mas parando quando Clara recuou, a varinha já em sua mão, embora tremesse violentamente. — Foi uma fraqueza, um momento de distração causado pela pressão... Eu precisava de silêncio na minha mente!

— E o corpo dela trouxe esse silêncio? — Clara sentiu as lágrimas queimarem seus olhos. — Newt me avisou. Ele disse que você usava as pessoas. Eu achei que eu era diferente.

— Você É diferente! — Gellert rugiu, a magia ao redor dele oscilando, fazendo as chamas da lareira crescerem em tons de azul sinistro. — Eu amo você, Clara. Eu nunca amei ninguém assim, nem mesmo...

Ele parou, a menção implícita a Alvo Dumbledore morrendo em sua garganta. Mas para Clara, aquilo não importava mais.

— Se você me amasse, não haveria espaço para mais ninguém — disse ela, limpando as lágrimas com as costas da mão, um gesto de desafio que escondia seu coração partido. — Você fala de um mundo melhor, de liberdade, mas você é escravo de seus próprios impulsos e do seu ego.

— Eu não queria que isso acontecesse — disse ele, a voz agora baixa, quase suplicante. — Foi um erro, um cálculo errado. Eu estava sozinho com minhas visões, a escuridão estava me sufocando...

— A escuridão é quem você é, Gellert — interrompeu ela. — Eu apenas fui tola o suficiente para achar que poderia ser a sua luz.

Gellert deu mais um passo à frente, as mãos estendidas como se pudesse agarrar os fragmentos do que haviam construído.

— Não vá. Clara, se você sair por aquela porta, eu não poderei protegê-la. O mundo lá fora é cruel para quem está sozinho.

— Eu prefiro a crueldade do mundo à sua "proteção" — respondeu ela com firmeza. — Eu voltarei para Newt. Voltarei para as criaturas que, ao contrário de você, conhecem a lealdade.

— Você não vai a lugar nenhum — a voz de Gellert mudou, voltando a ser o tom frio do mestre das artes das trevas. — Eu não permitirei que você me deixe.

— Você vai me prender aqui? — Clara o encarou, o medo sendo substituído por um desprezo gélido. — Vai me transformar em mais um de seus troféus? Se fizer isso, Gellert, você terá meu corpo, mas eu garanto que minha alma estará morta para você para sempre.

Grindelwald hesitou. O homem que pretendia dominar o mundo bruxo e trouxa estava paralisado pela simples ideia de ser odiado pela única mulher que o via como um homem, e não como um deus ou um monstro.

— Eu a amo — repetiu ele, mas a frase soou vazia diante do cenário de traição.

— Então me deixe ir — pediu Clara. — Se restar um pingo de humanidade em você, deixe-me partir.

Gellert fechou os olhos por um longo momento. O silêncio no quarto era sufocante. A mulher na cama já havia se retirado discretamente, percebendo que aquele era um campo de batalha onde ela não tinha lugar.

— Vá — disse ele, finalmente, sem abrir os olhos. — Vá antes que eu mude de ideia. Antes que eu decida que prefiro você odiando-me em uma cela a livre em qualquer outro lugar.

Clara não esperou. Ela virou as costas e correu pelos corredores de Nurmengard, o som de seus passos ecoando como batidas de um coração quebrado. Ela não olhou para trás, nem mesmo quando atravessou os portões de ferro e sentiu o ar frio da montanha atingir seu rosto.

Lá dentro, no quarto luxuoso, Gellert Grindelwald caminhou até a janela e observou a pequena figura de Clara desaparecer na névoa. Ele socou a parede de pedra com tanta força que seus nós dos dedos sangraram, mas a dor física não era nada comparada ao vazio que se instalava em seu peito.

Ele a amava. E, pela primeira vez em sua vida de conquistas, ele havia perdido algo que nenhuma magia no mundo poderia trazer de volta.

— Eu farei este mundo queimar por você, Clara — sussurrou ele para a escuridão. — E quando as cinzas baixarem, você verá que eu era o único que poderia ter lhe dado tudo.

Mas, enquanto ele falava, no fundo de sua mente visionária, ele sabia que aquela era a única visão que nunca se tornaria realidade. Clara estava voltando para a luz, para a simplicidade de Newt Scamander, deixando-o sozinho em seu trono de gelo e segredos.

A traição não fora apenas um ato físico; fora o prego final no caixão de sua redenção. E enquanto Grindelwald se vestia para enfrentar seus seguidores, ele enterrou o que restava de seu coração sob camadas de gelo e ambição, tornando-se, enfim, o monstro que o mundo tanto temia.

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