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Amor e sangue

Fandom: A casa das sete mulheres

Criado: 14/08/2026

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Entre o Dever e o Desejo: O Sangue nas Mãos da Liberdade

A noite no pampa gaúcho tinha um cheiro particular: terra molhada, cavalos e o aroma acre da pólvora que parecia nunca abandonar a pele dos homens. Bento Gonçalves, o líder da Revolução Farroupilha, o homem cuja voz movia exércitos, sentia-se, naquele momento, apenas um homem rendido.

Ele observava Joana através da penumbra da pequena cabana de apoio, longe dos olhos vigilantes de Caetana e da agitação do acampamento principal. Joana, a irmã de Estevão — o capitão imperial que representava tudo o que Bento jurara combater. A ironia do destino era um punhal cego; Estevão amava Rosário, a sobrinha de Bento, e por esse amor, permitia que a irmã frequentasse a estância dos Gonçalves, acreditando que a liberdade do Rio Grande era um sonho que Joana tinha o direito de partilhar com as outras mulheres daquela família.

— Você está distante, Bento — sussurrou Joana, aproximando-se dele. A luz da lareira dançava em seus olhos castanhos, os mesmos olhos do irmão que, naquele exato momento, Bento sabia que não respirava mais.

Bento sentiu um aperto no peito que nenhuma batalha lhe causara. Seus filhos haviam feito o que a guerra exigia: vingança. Estevão estava morto. O pai de Rosário também caíra, e o ciclo de sangue se fechava, deixando apenas cicatrizes abertas.

— O mundo lá fora é pesado demais para este momento, Joana — respondeu Bento, a voz rouca, puxando-a para perto. — Deixe que a noite seja apenas nossa.

— Estevão não voltou hoje — comentou ela, com uma sombra de preocupação no rosto. — Ele prometeu que encontraria Rosário perto do riacho. Ele é um homem de palavra, Bento. Onde ele está?

Bento não respondeu com palavras. Ele não podia. Em vez disso, selou os lábios dela com um beijo urgente, desesperado, como se quisesse apagar a realidade através da carne. Joana correspondeu com a mesma intensidade, a mão subindo pela nuca do general, os dedos enroscando-se em seus cabelos grisalhos.

Ele a conduziu até o leito improvisado de peles e mantas. Ali, o general e a irmã do inimigo fundiram-se. Bento a despiu com uma reverência quase religiosa, admirando a pele alva que contrastava com a rudeza de suas mãos calejadas pela espada. Cada carícia dele era carregada de uma culpa silenciosa e de um desejo avassalador.

— Bento... — ela arqueou as costas quando os lábios dele encontraram o vale entre seus seios.

— Shh... — ele murmurou contra sua pele. — Esqueça os exércitos. Esqueça as bandeiras.

Bento a possuiu com a força de um homem que sabe que o amanhã trará a ruína. Ele explorou cada centímetro do corpo de Joana, seus beijos descendo pelo ventre, fazendo-a gemer o nome dele em um transe de prazer e entrega. A paixão entre eles era um incêndio no meio do inverno; ele sentia o calor dela, o aperto de suas coxas em torno de sua cintura, e a urgência com que ela o buscava. Quando ele entrou nela, o mundo exterior deixou de existir. O ritmo era selvagem, sincronizado pelo pulsar de dois corações que batiam em lados opostos de uma trincheira, mas que, na alcova, falavam a mesma língua.

Joana arranhou as costas dele, buscando âncora naquele homem que era seu porto e seu perigo. O êxtase veio como uma explosão, deixando-os exaustos, suados e envoltos no silêncio pesado da madrugada. Bento a abraçou por trás, escondendo o rosto em seus cabelos, sabendo que aquele era, talvez, o último momento de paz que ela teria.


Dias depois, a estância de Bento Gonçalves estava incomumente cheia. O jantar fora organizado para reunir os oficiais e a família, um breve respiro entre as incursões militares. A mesa longa de madeira estava posta. Caetana presidia com sua elegância austera, enquanto Rosário, pálida e com os olhos vermelhos de tanto chorar a morte do pai, mal tocava na comida. Joana estava sentada ao lado das filhas de Bento, seu olhar buscando constantemente a entrada, esperando ver a farda imperial de seu irmão surgir com um pedido de trégua.

Bento, na cabeceira, mantinha a expressão de pedra. Ele olhou para Rosário. Apenas eles dois sabiam da verdade completa sobre Estevão. Rosário sofria em silêncio a perda do amante e do pai, um fardo pesado demais para uma alma tão jovem.

O som de cascos de cavalo interrompeu a conversa baixa. Um oficial imperial, sob bandeira de trégua, entrou no salão. O silêncio caiu como uma mortalha.

— General Bento Gonçalves — disse o oficial, retirando o quepe. — Peço licença para me dirigir à senhorita Joana.

Joana levantou-se, o coração batendo na garganta.

— Sou eu. O que houve com meu irmão?

O oficial caminhou até ela, seu rosto expressando uma solenidade fúnebre. Ele retirou do bolso uma pequena caixa de veludo e uma medalha de ouro, o brasão do Império brilhando sob a luz das velas.

— É meu dever informar que o Capitão Estevão tombou em combate. Ele lutou com bravura até o fim. O Imperador lhe concede esta medalha de honra póstuma por seus serviços à Coroa.

Um grito abafado escapou de Rosário, que se levantou bruscamente e saiu correndo da sala, incapaz de conter a agonia.

Joana, porém, ficou estática. Seus dedos tocaram o metal frio da medalha. Ela olhou para o oficial, depois para Bento. O general não desviou o olhar, mas Joana viu, nas profundezas daqueles olhos escuros, a confirmação que temia.

— Onde... onde está o corpo dele? — perguntou ela, a voz falhando.

— Ele foi enterrado no campo, senhorita. Não houve tempo para mais nada — respondeu o oficial, com um aceno respeitoso antes de se retirar.

Joana sentiu o chão sumir. A medalha caiu de suas mãos, tilintando no chão de pedra. Ela olhou para Bento, a traição começando a queimar em seu peito com mais força do que o amor que sentira noites atrás.

— Você sabia — disse ela, num sussurro que cortou o salão.

— Joana... — Bento começou, levantando-se.

— Você sabia! — ela gritou, as lágrimas finalmente transbordando. — Enquanto você me tocava, enquanto dizia que a noite era nossa, você sabia que seus filhos tinham matado o meu irmão!

Caetana olhou de Bento para Joana, a compreensão do romance secreto surgindo em seu rosto como uma bofetada, mas ela permaneceu em silêncio, a dignidade da dona da casa sobrepondo-se à dor da descoberta.

— Era a guerra, Joana — disse Bento, sua voz firme, mas carregada de uma tristeza infinita. — Estevão escolheu o lado dele. Meus filhos escolheram o deles.

— E eu? — Joana soluçou, recuando quando ele tentou se aproximar. — O que eu escolhi? Eu escolhi amar o homem que lavou as mãos no sangue da minha família.

Ela não esperou por uma resposta. Joana virou-se e correu para a escuridão da noite, deixando para trás a medalha de ouro no chão e um general que, apesar de liderar uma nação, nunca se sentira tão derrotado.

Bento Gonçalves permaneceu parado, observando a porta aberta. O vento do pampa soprou para dentro da casa, apagando algumas velas, deixando o salão em uma penumbra que refletia exatamente o estado de sua alma. A liberdade tinha um preço, e ele acabara de pagar com o coração da única mulher que o fizera esquecer, por algumas horas, que ele era um carrasco em nome da pátria.

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