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A volta dos Dois L

Fandom: Real People

Criado: 14/08/2026

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RomanceDramaAngústiaPsicológicoRealismoEstudo de PersonagemLinguagem Explícita
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O Ouro Pálido do Sol do Centro

O mormaço de Fortaleza ao meio-dia não perdoava ninguém. No cruzamento da Rua Guilherme Rocha com a Liberato Barroso, o ar parecia sólido, carregado com o cheiro de café torrado, poluição e o suor da multidão que se acotovelava entre os camelôs. Gabriel Lima caminhava como se tentasse atravessar uma parede invisível. Ele era uma figura dissonante naquele cenário: excessivamente magro, a pele alva contrastando com o sol inclemente que parecia querer devorá-lo, e o cabelo loiro, quase platinado, bagunçado pelo vento quente que soprava do mar.

Ele odiava o Centro. Odiava a pressa, o barulho das caixas de som anunciando promoções de eletrônicos e, principalmente, odiava o fato de que cada esquina ali tinha o cheiro dela.

Gabriel parou em frente a uma banca de revistas, fingindo interesse em qualquer coisa que não fosse o próprio batimento cardíaco acelerado. Ele a viu antes que ela o visse.

Livia estava parada perto de uma lanchonete, esperando o sinal fechar. Ela usava um vestido floral que abraçava suas curvas generosas, realçando a maciez de seus braços e a linha suave do seu colo. Ela sempre fora assim, uma presença que ocupava espaço não apenas fisicamente, mas na alma de quem a olhava. Para Gabriel, que era apenas ossos e ângulos agudos, Livia sempre pareceu um porto seguro, um excesso de vida onde ele podia se esconder.

Ele tentou endurecer o rosto. O término tinha sido escolha dele. Ele tinha dito que precisava de espaço, que a intensidade dela o sufocava, que queria estar sozinho. Mentiras que ele contou para si mesmo enquanto observava as costelas no espelho.

— Gabriel? — A voz dela o alcançou, doce e hesitante, cortando o barulho das buzinas.

Ele se virou lentamente, afetando uma indiferença que não sentia.

— Ah, oi, Livia. Não sabia que você ainda frequentava esse lado da cidade.

Livia baixou os olhos, um hábito que ele conhecia bem. Ela era submissa por natureza, sempre moldando sua vontade à dele, sempre esperando um comando, um sinal.

— Eu comecei a trabalhar por aqui — disse ela, ajeitando a alça da bolsa. — Você está... mais magro, Gabriel.

— Estou ótimo — mentiu ele, cruzando os braços para esconder o leve tremor nas mãos. — A vida de solteiro me fez bem. Tenho mais tempo para mim, menos drama. Você sabe como é.

Livia assentiu, o lábio inferior tremendo levemente.

— Fico feliz por você. Eu só... eu sinto falta das nossas conversas.

— Não sinta — disparou ele, a voz saindo mais áspera do que pretendia. — O que passou, passou. Não faz sentido ficar remoendo o que a gente teve. Eu segui em frente, Livia. Você deveria fazer o mesmo.

Ele viu a dor atravessar o rosto dela como uma sombra, e por um segundo, sentiu-se um monstro. Mas a necessidade de manter a fachada era maior. Ele deu um passo para o lado, pronto para ir embora, mas o fluxo da multidão o empurrou contra ela. O contato físico foi como um choque elétrico. O calor da pele de Livia, o perfume de baunilha que ela sempre usava, tudo o atingiu com a força de um soco.

— Gabriel, por favor — sussurrou ela, os olhos castanhos úmidos. — Só me olha de verdade uma vez.

Ele olhou. E desmoronou por dentro.

Sem dizer uma palavra, Gabriel segurou o pulso dela e a puxou para um beco estreito entre dois prédios antigos, um desses corredores esquecidos onde o som do trânsito ficava abafado e as sombras ofereciam um esconderijo precário.

Assim que as costas dela tocaram a parede de tijolos aparentes, Gabriel a prensou com o próprio corpo. Ele era tão magro que podia sentir cada curva do corpo dela contra o seu, o contraste entre sua fragilidade e a abundância dela.

— Eu disse que não queria você de volta — rosnou ele, o rosto a centímetros do dela.

— Eu sei — respondeu Livia, a voz sumindo. Ela inclinou a cabeça para trás, expondo o pescoço, em total rendição. — Você sempre manda, Gabriel.

A submissão dela, aquela entrega absoluta, foi o que quebrou a última resistência dele. Gabriel a beijou. Não foi um beijo de saudade romântica, foi um beijo de fome, de desespero. Suas línguas se encontraram com uma urgência selvagem, o gosto de café e desejo se misturando.

As mãos de Gabriel, antes tão controladas, agora agiam por conta própria. Ele desceu as palmas pelos flancos largos de Livia, apertando a carne macia de seus quadris com uma força que deixaria marcas. Ele precisava sentir que ela era real, que ela ainda era dele.

— Você é tão macia — murmurou ele contra a boca dela, a voz rouca. — Tão cheia de tudo que me falta.

Livia soltou um gemido baixo, as mãos agarrando os ombros estreitos de Gabriel, puxando-o para mais perto, se é que isso era possível. Gabriel desceu uma das mãos, ignorando o pudor do local público, e a levou para entre as pernas dela, por cima do tecido fino do vestido. Ele a tocou com possessividade, sentindo o calor que emanava dela.

— Diga que você é minha — ordenou ele, os olhos loiros faiscando de uma necessidade doentia. — Diga que ninguém mais te tocou desse jeito.

— Só você, Gabriel — ofegou ela, o corpo tremendo sob o toque dele. — Sempre foi só você. Eu faço o que você quiser. Só não me deixa de novo.

Ele a apertou com mais força, uma pegada firme e íntima que a fez arquear as costas. O prazer era agudo, misturado com a adrenalina de estarem ali, à vista de quem passasse pela entrada do beco. Gabriel enterrou o rosto no pescoço dela, aspirando o cheiro de suor e perfume, sentindo-se, pela primeira vez em meses, preenchido.

Mas, à medida que o ápice da adrenalina passava, o peso da realidade voltava a cair sobre seus ombros magros.

Gabriel se afastou lentamente, as mãos ainda trêmulas, mas os olhos agora carregados de uma tristeza profunda. Ele olhou para Livia, que estava com os lábios inchados, o cabelo desarrumado e o olhar cheio de esperança e devoção.

— Isso não muda nada — disse ele, a voz agora fria, embora o peito subisse e descesse com esforço.

Livia piscou, a confusão nublando seu rosto.

— Mas... Gabriel, a gente...

— A gente se usou, Livia — interrompeu ele, ajeitando a camisa que parecia grande demais para o seu corpo esguio. — Eu ainda sou o mesmo cara que não consegue te dar o que você precisa. Eu ainda sou vazio. E você... você é demais para mim.

Ele deu um passo para trás, saindo da sombra do beco para a luz ofuscante da calçada.

— Gabriel, volta aqui! — pediu ela, a voz embargada pelo choro iminente.

Ele não voltou. Ele se misturou à multidão do Centro, o loiro de seu cabelo desaparecendo entre as sombrinhas e os chapéus dos transeuntes. Gabriel caminhava rápido, as mãos nos bolsos, sentindo o vazio no estômago retornar com força total. Ele queria voltar, ele queria se perder na doçura de Livia para sempre, mas a sua própria natureza, tão quebradiça quanto seus ossos, não permitia.

Livia ficou ali, no beco úmido e quente, encostada na parede fria. Ela ajeitou o vestido, sentindo ainda o calor das mãos dele em sua pele, o peso da marca que ele deixara em sua alma. O sol de Fortaleza continuava a brilhar, impiedoso, iluminando a solidão que agora parecia definitiva.

No Centro, a vida continuava barulhenta e indiferente, enquanto dois corações se perdiam um do outro, separados por um orgulho tão magro e pálido quanto o homem que acabara de fugir.

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