
Sonho
Fandom: Sem fand
Criado: 15/08/2026
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Fora de Rota
O asfalto parecia derreter sob o calor de fevereiro enquanto o carro avançava pela rodovia. Brian estava afundado no banco do passageiro, os fones de ouvido isolando o som do motor, mas não o suficiente para calar o entusiasmo de sua mãe, que batucava no volante ao som de uma marchinha antiga que tocava no rádio.
— Brian, querido, você vai ficar com essa cara de quem está indo para um enterro em pleno Carnaval? — ela perguntou, lançando um olhar rápido para o filho.
Brian nem desviou os olhos da tela do celular. Seus dedos voavam pelo teclado, respondendo e-mails de suporte técnico e atualizando planilhas.
— Não é cara de enterro, mãe. É cara de quem está financiando a própria liberdade — ele respondeu, a voz tingida pelo sarcasmo habitual. — Cada hora que eu trabalho aqui é um quilômetro a mais que eu garanto no meu mochilão.
Sua mãe soltou um suspiro dramático.
— Você e essa ideia de sumir pelo mundo. O Brasil é enorme, Brian. Você vai acabar perdido em algum lugar do interior, sem sinal de celular e tendo que trocar seu notebook por um prato de comida.
Brian deu um meio sorriso, o primeiro do dia.
— Se eu me perder, pelo menos vai ser uma história boa para contar. Melhor do que a história de como eu passei a vida inteira sentado num escritório em São Paulo esperando as férias chegarem.
— Você é teimoso demais — ela murmurou, mas havia carinho em sua voz.
— Eu prefiro "determinado".
A cidade litorânea para onde viajavam estava entupida. O cheiro de maresia misturava-se ao de cerveja e protetor solar. Assim que fizeram o check-in no hotel, Brian sentiu a necessidade visceral de escapar. Ele amava a mãe, mas a energia caótica de famílias em férias e o som alto das caixas de som de rua o deixavam em estado de alerta.
— Vou dar uma volta — avisou ele, já trocando o tênis por um par de chinelos e pegando sua mochila pequena.
— Juízo! E atende esse celular se eu ligar!
Brian caminhou sem rumo, tentando se afastar do epicentro do barulho. Ele buscava o silêncio, ou pelo menos um lugar onde pudesse ouvir os próprios pensamentos sobre o roteiro que estava traçando para a Chapada Diamantina. Ele estava tão concentrado no mapa mental das trilhas que não viu o obstáculo à sua frente até que o impacto aconteceu.
O ombro de Brian colidiu com algo sólido e quente. O celular escapou de sua mão, caindo na areia fofa da calçada.
— Ei! Olha por onde anda, porra! — Brian disparou, agachando-se rapidamente para resgatar o aparelho, o coração disparado pelo susto.
— Eu estava parado, garoto. Você que veio feito um trator — uma voz grave e irritantemente calma respondeu.
Brian se levantou, limpando a areia da tela do celular e encarando o sujeito. O cara era um pouco mais alto, tinha os cabelos escuros levemente bagunçados pelo vento e uma expressão que Brian só conseguiu definir como "insuportavelmente convencida". Ele usava uma camisa de botão aberta sobre uma regata, e parecia perfeitamente à vontade no caos.
— Trator? Você está no meio da passagem com essa pose de quem é o dono da calçada — Brian retrucou, estreitando os olhos.
O desconhecido cruzou os braços, um sorriso de canto surgindo em seus lábios.
— A calçada é pública. E, pelo que eu vi, você estava mais interessado no Google Maps do que no mundo real. Cuidado, desse jeito você vai acabar caindo no mar.
— Se eu cair, eu sei nadar. Mas valeu pelo conselho não solicitado, fiscal de trânsito — Brian rebateu, já se virando para sair.
Uma risada alta ecoou logo atrás do estranho. Um rapaz loiro e bronzeado se aproximou, dando um tapa no ombro do sujeito convencido.
— Caramba, Dante! Finalmente alguém que não cai no seu charme de "observador misterioso". O garoto te jantou vivo!
Dante, o nome do cara, não tirou os olhos de Brian. Ele parecia intrigado, como se estivesse tentando decifrar um código difícil.
— Ele é só mal-humorado, Caio — disse Dante, embora o brilho em seus olhos sugerisse que ele não achava aquilo ruim.
— Mal-humorado é pouco — Brian disse, ajeitando a mochila nas costas. — Eu sou ocupado. Passar bem.
Mas o destino, ou talvez o fato de que a cidade só tinha três ruas principais, tinha outros planos. Dez minutos depois, enquanto Brian tentava comprar uma água de coco em um quiosque mais afastado, o mesmo grupo apareceu.
— Olha só quem está aqui! O tratorzinho! — Caio exclamou, aproximando-se com mais duas pessoas. — Vem cá, senta com a gente. O Dante está se sentindo culpado por quase ter quebrado seu celular.
— Eu não estou me sentindo culpado — Dante murmurou, puxando uma cadeira de plástico.
— Está sim, você não para de olhar para o caminho por onde ele foi — uma garota de olhar afiado, que Brian mais tarde saberia se chamar Lívia, comentou com um sorriso cúmplice.
Contra seu próprio julgamento, Brian acabou se sentando. Havia algo na energia daquele grupo — formado por Caio, Lívia e o brincalhão Rafa — que era magnético. Eles não o trataram como um estranho; em cinco minutos, Brian já estava inserido em uma discussão acalorada sobre qual era o melhor sabor de coxinha.
Brian, que normalmente levava tempo para se abrir, viu-se respondendo às provocações de Rafa com um sarcasmo tão afiado que o grupo inteiro caiu na gargalhada.
Dante, no entanto, permanecia mais silencioso. Ele observava Brian. Observava como ele gesticulava quando ficava empolgado, como ajeitava o boné a cada dez minutos e como seus olhos brilhavam quando falava de algo que gostava.
Quando o sol começou a baixar e o grupo se dispersou um pouco para buscar bebidas, Dante e Brian ficaram sozinhos na mesa.
— Então, você trabalha com o quê? — Dante perguntou, quebrando o silêncio. A arrogância inicial tinha dado lugar a uma curiosidade genuína.
— TI e suporte. Basicamente resolvo problemas de pessoas que não sabem reiniciar um roteador — Brian respondeu, mexendo no canudo da água de coco. — Faço tudo remoto.
— Prático. Dá para fazer de qualquer lugar.
— Esse é o objetivo. Estou juntando cada centavo para um mochilão. Quero atravessar o Brasil de ponta a ponta e depois sair do país. Liberdade total. Sem raízes, sem horários.
Dante arqueou uma sobrancelha, apoiando os cotovelos na mesa.
— Sozinho? Não tem medo?
Brian deu de ombros, embora o estômago desse um pequeno nó.
— Tenho. Mas tenho mais medo de passar a vida inteira no mesmo lugar, vendo as mesmas pessoas e fazendo as mesmas coisas. O medo de ficar parado é maior do que o medo de me perder.
Dante desviou o olhar para o horizonte por um momento.
— Eu já sou o contrário. Gosto de saber onde vou dormir, gosto de ter minhas coisas por perto. Estabilidade me faz sentir seguro.
— Estabilidade parece uma palavra bonita para "tédio" — Brian provocou, dando um sorriso rápido.
— Ou para "paz" — Dante rebateu, e por um segundo, o contato visual entre eles durou mais do que o necessário.
A tensão foi quebrada por Caio, que voltou saltitando com um cooler.
— Gente, o Rafa está tentando convencer um turista de que ele é um guia oficial de mergulho. Precisamos ir lá antes que ele seja preso.
Enquanto caminhavam pela orla, Brian percebeu que um dos conhecidos de Caio, um rapaz alto que se juntara ao grupo, estava flertando descaradamente com ele. Brian, acostumado a ler as entrelinhas, apenas retribuía com respostas curtas, mas percebeu que Dante tinha ficado subitamente rígido.
Dante tentava manter a conversa com Lívia, mas seus olhos disparavam na direção de Brian a cada vez que o outro rapaz ria de uma piada.
— O que foi, Dante? Perdeu o brilho? — Caio sussurrou, alto o suficiente para Brian ouvir.
— Não enche, Caio. Não perdi nada.
Brian, sentindo uma pontada de diversão, decidiu testar as águas. Ele se inclinou mais para perto do rapaz que flertava e fez um comentário sarcástico sobre o Carnaval, arrancando uma gargalhada alta.
Dante bufou, apressando o passo.
— Algum problema, Dante? A "estabilidade" está abalada? — Brian perguntou, passando por ele com um sorriso vitorioso.
Dante parou e o encarou, as pupilas levemente dilatadas.
— Você é insuportável, sabia?
— Sabia. É o meu maior charme.
A noite avançou e o grupo acabou em uma parte mais calma da praia, sentados na areia, longe das caixas de som potentes. O som das ondas era o único fundo musical agora. A conversa tornou-se mais baixa, mais íntima.
Brian contou sobre como era ser um homem trans tentando navegar um mundo que muitas vezes exigia explicações que ele não queria dar. Ele falou sobre a necessidade de ser independente, de nunca deixar que ninguém decidisse seus passos por ele. Dante ouviu tudo em silêncio, sem julgamento, apenas processando cada palavra.
Dante, por sua vez, falou sobre a pressão de ser o "porto seguro" da sua família na cidade vizinha, sobre como ele às vezes sentia que não podia falhar.
— Sabe — Brian disse, desenhando círculos na areia com o dedo —, eu realmente achei que você era um idiota completo naquela calçada.
— E eu achei que você era um projeto de ditador mal-humorado — Dante riu, uma risada baixa e rouca que fez os pelos dos braços de Brian se arrepiarem. — E agora?
— Agora eu ainda acho que você é um idiota. Mas talvez seja um idiota com quem dá para conversar.
— Eu aceito isso.
O celular de Brian vibrou no bolso. Era uma mensagem da mãe, preocupada com o horário.
— Preciso ir. Minha mãe vai mandar a Interpol atrás de mim se eu não aparecer no hotel em dez minutos.
Dante se levantou junto com ele.
— Eu te acompanho até a esquina do hotel.
Eles caminharam em um silêncio confortável, quebrado apenas pelo som dos chinelos no asfalto. Quando chegaram ao ponto de despedida, o ar parecia carregado de algo que nenhum dos dois sabia nomear.
— Bom — começou Dante, as mãos nos bolsos da calça —, provavelmente nunca mais vou te ver. Você vai estar em algum lugar no meio do nada e eu vou estar na minha rotina estável.
Brian deu um meio sorriso, olhando para o chão e depois para os olhos intensos de Dante.
— Talvez seja melhor assim. Você parece ser do tipo que dá muito trabalho, Dante.
Dante soltou uma risada curta e se aproximou um passo, invadindo levemente o espaço pessoal de Brian.
— Me manda uma mensagem quando chegar no hotel.
— Você nem me conhece direito — Brian retrucou, a voz um pouco mais baixa.
— Então começa agora — Dante respondeu, mantendo o olhar fixo.
Brian não disse nada. Apenas virou as costas e caminhou em direção ao hotel, mas seu coração estava batendo em um ritmo que não tinha nada a ver com a caminhada.
No dia seguinte, a viagem de volta foi silenciosa. Brian tentou focar no trabalho, mas sua mente voltava constantemente para a conversa na areia. Ao chegar em casa, ele jogou a mochila no canto do quarto e se atirou na cama. O silêncio do seu apartamento parecia estranho depois do barulho do Carnaval.
Seu celular vibrou na mesa de cabeceira.
Dante: Chegou?
Brian olhou para a tela por um longo tempo. Um sorriso involuntário surgiu em seu rosto. Ele digitou rapidamente.
Brian: Infelizmente.
A resposta veio quase instantaneamente.
Dante: Ótimo.
As semanas que se seguiram foram um borrão de notificações e luzes de tela no escuro da madrugada. O que deveria ter sido um encontro passageiro de Carnaval transformou-se em uma presença constante.
Brian mostrava a Dante as fotos das barracas de camping que estava pesquisando. Dante mandava fotos dos pratos que cozinhava, reclamando que Brian provavelmente só comia macarrão instantâneo. Havia videochamadas que duravam horas, onde Brian trabalhava em silêncio enquanto Dante estudava, apenas para sentirem a presença um do outro.
Houve brincadeiras sobre quem era mais teimoso e discussões bobas sobre músicas. Houve momentos em que Dante ficava em silêncio quando Brian mencionava conhecer pessoas novas em suas futuras viagens, um ciúme disfarçado que Brian percebia, mas decidia ignorar com uma piada ácida.
Certa noite, Brian abriu seu arquivo de planejamento do mochilão. Ele olhou para a lista de destinos: Minas Gerais, Bahia, Tocantins... O plano era o mesmo. A liberdade continuava sendo seu norte.
Mas, ao olhar para o celular que brilhava com uma nova mensagem de Dante, Brian percebeu que havia um novo elemento na equação. Ele não tinha planejado Dante. Ele não tinha planejado querer compartilhar suas rotas com alguém que morava a centenas de quilômetros de distância.
Ele fechou o notebook e suspirou. Pela primeira vez em dezenove anos, a ideia de estar "perdido em algum lugar" não parecia tão ruim, desde que houvesse alguém esperando pela mensagem de "cheguei".
