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Fandom: D
Criado: 15/08/2026
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Entre o Verniz e a Tinta
O ar no loft de Emanuel estava pesado, impregnado com o cheiro de café forte e o aroma doce do perfume importado de Sara. O final de tarde trazia uma luz alaranjada que atravessava as grandes janelas de vidro, iluminando a tensão que se desenhava na sala de estar. Emanuel, com as mangas da camisa social dobradas até os cotovelos, revelando as tatuagens intrincadas que subiam por seus braços, andava de um lado para o outro. Seus olhos, geralmente serenos, mas agora nublados pelo cansaço e pela irritação, estavam fixos na figura pequena sentada no sofá de couro.
Eduarda parecia ainda menor do que era. Encolhida, com as pernas puxadas contra o peito e vestindo um cardigã de tricô bege por cima do seu collant de ballet, ela mantinha o olhar fixo nos próprios dedos. Ela tinha acabado de chegar da faculdade de História da Arte, e o cansaço das aulas e dos ensaios na ponta dos pés parecia ter exaurido sua disposição para interações sociais.
— Duda, eu não estou pedindo muito — Emanuel disse, sua voz saindo mais rouca do que o pretendido. — É um fim de semana na casa de praia. O lugar é calmo, os meninos são tranquilos. Você precisa sair dessa bolha de livros e sapatilhas.
Eduarda fungou, um som miúdo e manhoso que costumava desarmar Emanuel instantaneamente, mas que hoje parecia apenas aumentar a frustração dele.
— Eu não quero ir, Manu... — sussurrou ela, os olhos castanhos brilhando com uma umidade incipiente. — Eu tenho um ensaio extra no domingo e preciso terminar a análise daquela gravura do século XVIII. E lá vai ter muita gente, muito barulho...
— Não vai ter barulho nenhum! — Emanuel elevou o tom, perdendo a paciência. — Eu organizei isso justamente para a Sara descansar. Ela está grávida, Eduarda! Um mês de gestação e ela não para um segundo naquela loja de roupas. Eu preciso que ela relaxe, e eu quero você lá comigo para eu não ter que me dividir em dois estados diferentes!
Sara, que até então estava encostada no balcão da cozinha americana, bebendo um copo de água gelada, observava a cena com um sorriso irônico nos lábios perfeitamente pintados de vermelho. Ela usava um vestido justo de animal print que realçava suas curvas e o silicone generoso, uma imagem de confiança absoluta que contrastava radicalmente com a fragilidade de Eduarda.
— Deixa a menina, Emanuel — Sara interveio, a voz arrastada e provocadora. — Se a bonequinha de porcelana quer ficar em casa brincando de museu, deixa ela. Eu dou conta de você sozinha na praia, sabe disso.
Emanuel lançou um olhar severo para Sara, mas não havia raiva real ali. Ele a amava justamente por aquela força caótica, da mesma forma que amava Eduarda pela doçura quase etérea. O problema era que, naquele momento, sua necessidade de controle e proteção estava em curto-circuito.
— Não é questão de "dar conta", Sara. É questão de estarmos juntos — Emanuel bufou, passando a mão pelo cabelo curto. — Eduarda, pare de ser pirracenta. Você está fazendo isso só porque sabe que eu fico preocupado.
Eduarda levantou o rosto, o lábio inferior tremendo levemente. Ela era mestre em uma resistência passiva que enlouquecia Emanuel.
— Eu não estou sendo pirracenta. Eu só... eu prefiro o meu canto. Você vai estar ocupado cuidando dela, e eu vou sobrar.
— Sobrar? — Emanuel parou na frente dela, as mãos nos quadris. — Quando foi que eu deixei você sobrar? Eu passo o dia inteiro equilibrando os estúdios, as contas e vocês duas. Eu só queria um final de semana onde eu pudesse ver as duas mulheres da minha vida descansando sob o meu teto. Mas se você quer ser difícil, seja.
Eduarda desviou o olhar, teimosa. Ela se sentia insegura, embora soubesse que Sara não a via como uma ameaça. Sara, com toda a sua exuberância e formação em administração que ela se recusava a usar para trabalhar seriamente, tratava Eduarda quase como uma irmã mais nova ou uma protegida. Elas tinham um entendimento silencioso: ambas queriam a felicidade de Emanuel, e sabiam que ele só era completo tendo o caos de uma e a paz da outra.
— Quer saber? — Emanuel explodiu, o estresse acumulado de uma semana gerenciando três estúdios internacionais transbordando. — Chega. Se você não quer ir, não vá! Fique aqui com seus livros e sua solidão. Eu vou com a Sara. Ela precisa de ar puro, precisa de cuidado por causa do bebê, e eu não vou ficar aqui implorando para você aceitar o meu carinho.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Eduarda encolheu-se ainda mais, o coração batendo rápido. Emanuel raramente falava assim com ela. Ele sempre era o porto seguro, o homem que a carregava no colo quando seus pés doíam do ballet.
— Manu... — ela tentou chamar, a voz falhando.
— Não, Eduarda. Agora chega — ele disse, pegando as chaves do carro sobre a mesa. — Sara, termine de arrumar sua mala. Saímos em dez minutos.
Sara caminhou até Emanuel, colocando uma mão no peito dele, sentindo a respiração acelerada do homem. Ela olhou por cima do ombro para Eduarda, não com malícia, mas com uma espécie de compreensão mundana.
— Você pegou pesado, garanhão — Sara disse baixinho para ele, antes de se virar para a sala. — Duda, querida, não morra de tédio. Se mudar de ideia, o Uber para o litoral é por conta do Emanuel.
Sara subiu para o quarto com o rebolado confiante de quem sabia exatamente o poder que exercia. Emanuel permaneceu parado, a mandíbula tensa, evitando olhar para o sofá.
— Eu só queria proteger vocês — ele murmurou, mais para si mesmo do que para Eduarda.
— Você está me punindo porque eu tenho responsabilidades com a faculdade — Eduarda disse, a voz embargada.
— Eu estou te dando a chance de respirar! — ele rebateu, voltando a encará-la. — Mas você prefere se fechar. Então fique fechada.
Ele saiu da sala em direção ao quarto, deixando Eduarda sozinha com o som do relógio de parede. Ela sentiu uma lágrima quente escorrer. Não era ódio, não era ciúme de Sara. Era apenas o medo de que, em sua teimosia, ela estivesse empurrando Emanuel para longe, mesmo sabendo que ele era o sol em torno do qual seu mundo girava.
Dez minutos depois, o som da porta da frente batendo ecoou pelo loft. O silêncio que ficou para trás era pesado e frio.
Eduarda levantou-se lentamente, caminhando até a janela. Lá embaixo, viu o carro de luxo de Emanuel manobrando. Ele dirigia com uma mão só, a expressão rígida, enquanto Sara falava animadamente ao celular no banco do passageiro, provavelmente resolvendo alguma pendência da sua loja de roupas.
Ela sabia que Emanuel estaria furioso durante toda a viagem, mas também sabia que ele ligaria para ela de hora em hora para saber se ela tinha comido ou se tinha trancado a porta. Era o jeito dele. E Sara, com seu jeito expansivo, acabaria fazendo-o rir em algum momento, aliviando a tensão que Eduarda, em sua timidez e insegurança, tinha ajudado a criar.
— Ele precisa delas — Eduarda sussurrou para o vidro embaçado pela sua respiração. — E nós precisamos dele.
Ela caminhou até o quarto de hóspedes, que Emanuel tinha transformado em um pequeno estúdio de dança para ela. O chão de madeira clara, as barras de alongamento e o grande espelho eram seu refúgio. Ela calçou as sapatilhas de ponta, as fitas de cetim se cruzando sobre seus tornozelos finos com uma precisão cirúrgica.
Enquanto Emanuel acelerava pela estrada, sentindo o perfume de Sara preencher o carro e a preocupação com Eduarda apertar seu peito, Eduarda começava uma sequência de pliés.
Naquela dinâmica incomum, o amor não era uma linha reta, mas um triângulo complexo. Sara era a força, o fogo que o desafiava; Eduarda era a suavidade, a água que o acalmava. E Emanuel era a estrutura que segurava tudo, o homem que, mesmo em meio à fúria, não conseguia deixar de ser o escudo de ambas.
Longe dali, no carro, Sara tocou a mão de Emanuel no câmbio.
— Ela vai ligar antes do jantar, Manu. Você conhece a sua pequena. Ela não aguenta ficar longe de você nem quando está fazendo pirraça.
Emanuel relaxou os ombros apenas um milímetro.
— Eu sei. Só me irrita que ela não entenda que tudo o que eu faço é por vocês. Especialmente agora, com esse pequeno ou pequena a caminho.
— Ela entende — Sara disse, encostando a cabeça no banco. — Ela só expressa isso de um jeito irritantemente fofo. Agora foca na estrada, porque eu quero ver o mar e você vai ter que me fazer uma massagem nos pés. Gravidez cansa, sabia?
Emanuel soltou um suspiro que era metade riso, metade exaustão. Ele tinha uma mulher grávida e exigente ao seu lado e uma bailarina melancólica em casa. Sua vida era um caos controlado, uma obra de arte inacabada que ele tatuava na própria alma todos os dias. E, apesar da raiva momentânea, ele não mudaria um único detalhe.
Enquanto isso, no loft, Eduarda parou no meio de um pirouette. O silêncio da casa a incomodava mais do que qualquer barulho na praia incomodaria. Ela olhou para o celular sobre o banco. Talvez Sara tivesse razão. Talvez o Uber para o litoral não fosse uma ideia tão ruim assim.
Afinal, a felicidade de Emanuel dependia de ter as duas por perto, e a dela, de estar onde ele pudesse alcançá-la com seu olhar protetor. Ela sorriu, uma expressão doce e decidida, e começou a desamarrar as sapatilhas. A noite ainda era jovem, e Emanuel ainda tinha muito o que se irritar — e muito o que amar — antes do amanhecer.
