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Fandom: Nenhum
Criado: 16/08/2026
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Desejos, Conflitos e o Amargo do Chocolate
O estúdio de tatuagem em casa, no andar superior da mansão, exalava o cheiro característico de tinta e antisséptico, mas o coração de Emanuel estava lá embaixo, na sala de estar, onde o equilíbrio de seu mundo particular residia. Ser um dos tatuadores mais renomados do mundo e gerir um império de estúdios exigia uma mente fria e racional, mas lidar com Sara e Eduarda exigia algo que ele raramente tinha sobrando: paciência emocional.
Emanuel desceu as escadas, ajeitando a camiseta preta funcional que usava. Seus olhos percorreram o ambiente, encontrando a cena que já se tornara rotina. Sara, com seus cabelos loiros impecavelmente escovados e um vestido justo que realçava suas curvas — e a sutil, quase imperceptível, mudança em seu corpo devido ao primeiro mês de gravidez —, estava jogada no sofá de couro. Ao lado dela, Eduarda, com um coque de bailarina meio solto e um cardigã bege oversized, parecia uma boneca de porcelana, mergulhada em um livro de História da Arte.
A dinâmica era atípica para o mundo, mas perfeita para eles. Sara, a força da natureza, a mulher que administrava sua própria loja de roupas com punho de ferro e não levava desaforo para casa; e Eduarda, a doçura em pessoa, a bailarina que flutuava pela casa e trazia paz aos dias tensos de Emanuel. Elas não competiam. Elas se entendiam. Sabiam que Emanuel era um homem de grandes capacidades, mas com um coração que precisava de dois portos seguros diferentes.
— Você está muito quieta, Duda — comentou Sara, a voz carregada de seu tom provocador habitual, enquanto lixava uma unha perfeita. — O que os seus pais te deram naquela caixa hoje cedo? Vi que você subiu correndo com ela.
Eduarda levantou os olhos castanhos, tímida, com um brilho travesso.
— Ah, meus pais passaram na doceria artesanal nova. Me trouxeram uma caixa de bombons de avelã. Estavam maravilhosos.
Sara parou de lixar a unha. Seus olhos brilharam.
— Bombom? De avelã? Duda, você sabe que eu estou com desejo de tudo que tenha açúcar desde que esse pequeno parasita decidiu se instalar aqui — ela brincou, batendo levemente na barriga ainda lisa.
— Eu te dei um, Sara! — Eduarda defendeu-se baixinho, encolhendo os ombros de forma manhosa. — Lembra? Você provou um quando eu estava na cozinha.
— Um não é nada! — Sara bufou, e de repente, seus olhos começaram a marejar. A montanha-russa hormonal da gravidez a atingia sem aviso prévio. — Eu queria outro. Eu queria mais um agora. Duda, me dá a caixa.
Eduarda mordeu o lábio inferior, ficando vermelha.
— Eu... eu comi todos, Sara. Eles eram pequenos e eu estava com fome depois da aula de ballet...
O silêncio que se seguiu foi interrompido por um soluço dramático de Sara. Ela não era de chorar, mas a gravidez a transformara em uma criatura de impulsos incontroláveis.
— Você comeu tudo? — Sara choramingou, cobrindo o rosto com as mãos. — Eu só queria um pedacinho... Emanuel, olha o que ela fez!
Emanuel, que observava da porta, sentiu o estresse subir pela nuca. Ele era protetor ao extremo, e ver Sara naquele estado — vulnerável e grávida — ativou seu modo mais rígido. Ele caminhou até o centro da sala, a expressão fechada e o olhar severo direcionado à Eduarda.
— Eduarda, você foi egoísta — disse ele, a voz firme e fria. — Você sabe que a Sara está passando por uma fase difícil, que os desejos dela são intensos. Custava ter guardado alguns?
Eduarda encolheu-se no sofá, os olhos grandes e expressivos enchendo-se de lágrimas instantaneamente. Ela era sensível, e o tom de voz de Emanuel sempre a atingia como um golpe físico.
— Mas Emanuel... ela não me pediu mais — sussurrou Eduarda, a voz trêmula. — Eu não tenho culpa se ela não falou nada. Eu achei que ela só queria aquele um...
— Não tente se justificar com lógica rasa — Emanuel rebateu, o cansaço do dia transformando-se em irritação. — A prioridade agora é o bem-estar dela e do bebê. Você deveria ter sido mais atenciosa.
— Não precisa falar assim com ela, Manu... — Sara tentou intervir entre um soluço e outro, embora ainda estivesse chateada pelo chocolate. Ela não odiava Eduarda; pelo contrário, gostava da presença leve da menina, mas o desejo falava mais alto.
— Não, Sara. Ela precisa entender — Emanuel cortou, já pegando as chaves do carro. — Eu vou sair agora e vou comprar todos os chocolates que encontrar. E Eduarda, escute bem: esses chocolates serão apenas para a Sara. Não toque em um sequer.
Eduarda sentiu um nó na garganta. Ela observou Emanuel sair batendo a porta, deixando um rastro de autoridade e tensão. Sara, vendo a tristeza no rosto da mais nova, suspirou e limpou as lágrimas.
— Duda, não fica assim... ele está estressado com a abertura do novo estúdio em Tóquio.
Eduarda não respondeu. Ela se levantou silenciosamente, sentindo-se injustiçada e magoada. Ela amava Emanuel, amava o jeito que ele a protegia, mas odiava quando ele a tratava como uma criança irresponsável. Ela subiu para o quarto, mas antes que pudesse se trancar, a campainha tocou.
Como Emanuel tinha saído e Sara estava esparramada no sofá, Eduarda desceu e abriu a porta. Era o vizinho, um homem gentil que ela havia ajudado semanas atrás, traduzindo alguns documentos antigos de sua família, aproveitando seus conhecimentos da faculdade de História da Arte.
— Olá, Eduarda — disse o homem, sorrindo e estendendo uma sacola elegante. — Eu viajei para a Suíça a trabalho e lembrei de como você foi prestativa. Trouxe esses chocolates finos para você. Espero que goste.
Eduarda sentiu um calorzinho no peito.
— Oh, muito obrigada! Não precisava, de verdade.
— É o mínimo. Aproveite.
Ela fechou a porta e voltou para a sala com a sacola. Poucos minutos depois, Emanuel entrou, carregando várias sacolas de uma confeitaria famosa. Ele colocou tudo na mesa de centro, diante de Sara, com um ar de "problema resolvido".
— Aqui, Sara. Tudo o que você quiser. E como eu disse: Eduarda, você não encosta.
Eduarda, que até então estava quieta, sentiu uma faísca de pirraça nascer em seu peito sensível. Ela sentou-se na poltrona lateral, abriu a sacola do vizinho com calma e tirou uma barra de chocolate suíço com folhas de ouro. O cheiro era divino, muito superior aos que Emanuel trouxera.
Ela quebrou um pedaço devagar, saboreando-o com uma expressão de deleite exagerada.
— Nossa... — Eduarda murmurou, alto o suficiente para que os dois ouvissem. — Que delícia.
Emanuel franziu o cenho, observando a cena.
— Onde você conseguiu isso?
— O vizinho me deu — Eduarda respondeu, sem olhar para ele, a voz carregada de uma mágoa que ela tentava disfarçar com desdém. — Ele é muito gentil e observador. Sabe agradecer quando alguém o ajuda.
Emanuel sentiu uma pontada de ciúme e irritação.
— Coma os seus então. A Sara tem os dela aqui.
Eduarda deu um sorriso pequeno e ácido, algo raro em seu rosto doce.
— Sabe, Emanuel... esses chocolates que o vizinho me deu são muito melhores do que esses que você comprou. São mais refinados, têm um sabor mais... genuíno. Acho que ele tem um gosto excelente, muito superior ao seu para essas coisas.
O silêncio na sala tornou-se pesado. Sara, que já estava atacando uma torta de chocolate, olhou de um para o outro, percebendo a faísca. Ela deu uma risadinha abafada.
— Ih, Manu... acho que ela te pegou nessa.
Emanuel apertou o maxilar. Ele odiava perder o controle, e a pequena Eduarda, geralmente tão submissa e manhosa, estava desafiando sua autoridade de uma forma que ele não esperava. Ele deu um passo em direção a ela, a presença alta e imponente tentando intimidá-la, mas Eduarda apenas sustentou o olhar, com os olhos marejados, mas a postura firme.
— O que você disse? — ele perguntou, a voz baixa e perigosa.
— Eu disse que os chocolates dele são melhores — Eduarda repetiu, a voz embargada. — Talvez porque ele os deu por gratidão, e não para me punir ou me excluir.
Ela se levantou, deixando o chocolate de lado, e subiu as escadas correndo. O som da porta do quarto batendo ecoou pela casa.
Emanuel ficou parado no meio da sala, a respiração pesada. Ele olhou para Sara, que agora o encarava com uma expressão de reprovação.
— Você pegou pesado, Emanuel — disse Sara, limpando o canto da boca com um guardanapo. — Ela é sensível, você sabe disso. E ela tem razão, o vizinho foi um fofo.
— Eu só estava tentando cuidar de você! — Emanuel exclamou, frustrado.
— Cuidar de mim não significa pisar nela — Sara rebateu, levantando-se com dificuldade. — Eu amo que você seja esse brutamontes protetor, mas a Duda é o nosso equilíbrio. Vá lá consertar isso. E aproveita e traz um daqueles chocolates suíços dela para mim, porque o cheiro estava realmente melhor que esses aqui.
Emanuel bufou, passando a mão pelo cabelo curto. Ele era um homem de lógica, mas ali, entre a loira impulsiva que carregava seu filho e a bailarina sensível que lhe dava paz, a lógica não servia de nada. Ele sabia que teria que subir aquelas escadas, pedir desculpas e, provavelmente, admitir que o chocolate do vizinho era, de fato, muito bom — mesmo que isso ferisse seu orgulho.
Ele subiu os degraus lentamente, sentindo o peso da responsabilidade de manter aquelas duas mulheres felizes. Porque, no fundo, ele sabia: sua felicidade dependia inteiramente da harmonia entre a força de Sara e a delicadeza de Eduarda. E, naquele momento, a delicadeza estava ferida.
Ao chegar na porta do quarto, ele ouviu um soluço baixo. O coração de Emanuel apertou. Ele abriu a porta sem bater, encontrando Eduarda encolhida na cama, envolta em seus edredons claros.
— Duda... — ele chamou, a voz agora desprovida de qualquer rigidez.
Ela não respondeu, apenas se encolheu mais. Emanuel sentou-se na beira da cama e suspirou.
— Eu fui um idiota. O estresse do trabalho e a preocupação com a gravidez da Sara me deixaram cego.
Eduarda colocou o rosto para fora, os olhos vermelhos.
— Você me tratou como se eu fosse má, Emanuel. Eu nunca faria mal à Sara ou ao bebê.
— Eu sei, meu anjo. Eu sei — ele disse, puxando-a para um abraço, sentindo o corpo esguio e leve dela se moldar ao seu. — E sobre o chocolate...
— É melhor mesmo — ela insistiu, manhosa, escondendo o rosto no pescoço dele.
Emanuel soltou uma risada curta, beijando o topo da cabeça dela.
— Tudo bem, talvez seja. Mas eu prometo que amanhã trago um carregamento inteiro da Suíça só para você. E para a Sara também, antes que ela tenha um colapso.
Eduarda sorriu contra a pele dele, o conflito se dissipando na segurança dos braços de Emanuel. A paz estava voltando, um pedaço de chocolate por vez.
