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Fandom: Nenhum

Criado: 16/08/2026

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RomanceDramaDor/ConfortoFatias de VidaHistória DomésticaGravidez Não Planejada/IndesejadaEstudo de PersonagemNoir GóticoFofuraRealismo
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Entre Névoas e Desejos Ocultos

A neblina de Paranapiacaba rastejava pelas ruas de paralelepípedos como um fantasma silencioso, envolvendo as construções históricas de influência inglesa em um abraço frio e úmido. O clima melancólico da vila ferroviária parecia contrastar drasticamente com a energia do grupo que acabara de desembarcar dos carros.

Emanuel respirou fundo, sentindo o ar gelado preencher seus pulmões. Ele ajustou a gola de seu casaco escuro, seus olhos percorrendo o ambiente com a precisão de quem está acostumado a observar cada detalhe antes de cravar uma agulha na pele de alguém. Ao seu lado, Sara exibia um sorriso radiante, ignorando completamente a temperatura baixa. Ela usava um vestido de tricô ajustado que marcava cada curva de seu corpo, especialmente a protuberância de cinco meses de sua barriga, onde Ágata crescia. As botas de salto alto estalavam no chão, e o perfume doce que ela exalava cortava o cheiro de terra molhada.

— Finalmente! — exclamou Sara, passando o braço pelo de Emanuel e colando seu corpo ao dele. — Se eu ficasse mais dez minutos naquele carro, a Ágata ia começar a chutar meu fígado por falta de espaço.

Emanuel sorriu de canto, um gesto raro e contido, e pousou a mão sobre a de Sara.

— Você que escolheu o carro menor, querida. O conforto não era a prioridade, lembra? — A voz dele era profunda, carregada de uma autoridade natural que ele exercia sem esforço.

— Eu escolhi o que combinava com o meu look, Emanuel. Prioridades — ela retrucou com uma piscadela, a ironia sempre afiada na ponta da língua.

Nesse momento, o som de uma porta de carro batendo um pouco mais atrás chamou a atenção de ambos. Gabriel, o melhor amigo de Emanuel, ajudava sua irmã caçula a sair do veículo.

Eduarda parecia uma pintura pré-rafaelita em meio à névoa. Vestia um casaco de lã cor de creme, longo e macio, que a fazia parecer ainda mais delicada. A barriga de cinco meses, onde Maya repousava, era um volume suave sob o tecido claro. Ela segurava a mão do irmão com certa hesitação, os olhos grandes e expressivos observando o cenário com uma mistura de admiração e timidez.

O coração de Emanuel deu um solavanco, uma reação física que ele já tinha desistido de tentar controlar. Ver Eduarda era como observar uma obra de arte rara em um de seus museus de história da arte favoritos; ela era fluida, sensível e carregava uma aura de pureza que o desarmava.

— Cuidado com o degrau, Duda — disse Gabriel, a voz carregada de proteção. — O chão está escorregadio.

— Eu estou bem, Biel. Não sou de vidro — Eduarda respondeu com uma voz baixa e doce, embora seu corpo esguio e o jeito manhoso de se inclinar contra o irmão sugerissem o contrário.

Sara, percebendo o olhar fixo de Emanuel, não se retesou. Pelo contrário, ela apertou o braço do marido e sussurrou perto de seu ouvido, com um tom que misturava diversão e cumplicidade.

— Ela está linda hoje, não está? Parece uma bonequinha de porcelana grávida.

Emanuel não desviou o olhar, mas sentiu a tensão nos ombros diminuir. Ele e Sara não tinham segredos. Ele havia confessado a ela, meses atrás, a fascinação quase magnética que sentia por Eduarda. E Sara, com sua autoconfiança inabalável e pragmatismo, não viu naquilo uma ameaça, mas sim uma extensão do homem complexo com quem era casada. Para ela, se Emanuel precisava daquela doçura para ser completo, ela não se importava em dividir o espaço, desde que continuasse sendo a rainha do império dele.

— Ela é... diferente — Emanuel limitou-se a dizer, sua voz soando mais rouca do que o normal.

— Oi, pessoal! — Sara gritou, acenando para os irmãos. — Vamos entrar logo antes que a gente vire picolé aqui fora!

O grupo se dirigiu ao casarão antigo que Emanuel havia alugado. A casa era espaçosa, com lareiras de pedra e móveis de madeira maciça. Assim que entraram, o calor do ambiente começou a descongelar os ânimos.

Eduarda sentou-se em uma poltrona perto da janela, observando a neblina lá fora. Ela se sentia deslocada. Desde que o pai de Maya a abandonara ao saber da gravidez, ela sentia que carregava uma marca invisível de rejeição. A faculdade de História da Arte e suas aulas de ballet eram seus únicos refúgios, além do carinho dos pais e de Gabriel.

— Você quer um chá, Duda? — Emanuel se aproximou, sua presença ocupando o espaço ao redor dela de forma esmagadora, porém segura.

Eduarda levantou os olhos, as bochechas corando instantaneamente. Ela sempre se sentia pequena perto de Emanuel. Ele era tão seguro, tão bem-sucedido, tão... homem. E o fato de ele ser o melhor amigo de seu irmão só tornava tudo mais confuso.

— Eu... eu aceito, obrigada, Emanuel — ela respondeu, a voz quase um sussurro.

— Camomila? — ele perguntou, já sabendo a resposta. Ele observava os hábitos dela há muito tempo.

— Sim, por favor.

Emanuel se afastou para a cozinha, onde Sara estava abrindo uma garrafa de vinho, apesar dos protestos de Gabriel sobre ela estar grávida.

— É só um gole, Gabriel! Deixa de ser chato — Sara dizia, rindo. — Minha médica disse que o estresse de não beber é pior que uma taça de tinto.

Emanuel passou por ela e começou a preparar o chá de Eduarda. Sara se encostou no balcão, observando-o com um olhar analítico.

— Você vai lá sentar com ela? — perguntou ela, a voz baixa para que apenas ele ouvisse.

— Ela parece cansada da viagem. Quero garantir que ela esteja confortável — Emanuel respondeu, concentrado na água fervendo.

— Você é tão protetor, querido. É uma das coisas que eu mais amo em você — Sara se aproximou e beijou o pescoço dele, deixando uma marca de batom vermelho na pele clara. — Vá lá. Cuide da sua pequena bailarina. Eu vou cuidar do Gabriel antes que ele tenha um ataque cardíaco de tanta preocupação.

Emanuel voltou para a sala com a caneca fumegante. Eduarda ainda olhava para a janela, a mão acariciando a barriga de forma inconsciente.

— Aqui está — disse ele, entregando a caneca.

— Obrigada — ela pegou o objeto, sentindo o calor passar para suas mãos frias. — A Sara não se importa? De você estar aqui comigo?

Emanuel sentou-se no braço da poltrona ao lado dela, uma proximidade que fez o coração de Eduarda disparar.

— Sara sabe exatamente quem eu sou e o que eu sinto, Eduarda. Não há segredos entre nós.

Eduarda baixou a cabeça, sentindo-se insegura.

— Eu me sinto um pouco boba. Grávida, sozinha... O pai da Maya nem quis saber o nome dela. E aqui estou eu, em uma viagem com casais felizes.

Emanuel sentiu uma pontada de raiva pelo homem que a deixara, mas também um impulso protetor quase violento. Ele estendeu a mão e, com extrema delicadeza, tocou o rosto de Eduarda, forçando-a a olhar para ele.

— Você não está sozinha. Nunca vai estar — ele afirmou, a voz firme como uma promessa. — E Maya terá tudo o que precisar. Eu vou garantir isso.

Eduarda sentiu uma lágrima solitária escorrer. A intensidade no olhar de Emanuel a assustava e a atraía ao mesmo tempo. Ela não entendia por que um homem como ele, que tinha tudo — dinheiro, sucesso, uma esposa vibrante e linda como Sara —, dedicaria um olhar tão carregado de significado a alguém tão quebrada quanto ela.

— Por que você é tão bom comigo? — ela perguntou, a voz embargada.

Emanuel chegou mais perto, o cheiro de tinta de tatuagem e perfume caro envolvendo-a.

— Porque há coisas que a lógica não explica, Eduarda. E o que eu sinto quando vejo você... não cabe em palavras.

Do outro lado da sala, Sara observava a cena enquanto bebia seu vinho lentamente. Ela não sentia ciúmes. Ela via a fragilidade de Eduarda e a força de Emanuel, e sabia que, no fundo, eles eram peças de um quebra-cabeça que ela mesma estava disposta a montar. Ela queria a felicidade de Emanuel acima de tudo, e se o coração dele era grande o suficiente para abrigar a exuberância dela e a delicadeza de Eduarda, quem era ela para impedir?

— Ei, Gabriel! — chamou Sara, distraindo o irmão protetor que já começava a olhar torto para a proximidade de Emanuel e Eduarda. — Venha aqui me ajudar a escolher a música. Deixe os dois conversarem sobre bebês e chás.

A noite em Paranapiacaba estava apenas começando. Lá fora, a neblina escondia o mundo, mas dentro daquela casa, as verdades começavam a emergir, tão densas e inevitáveis quanto o frio da serra. Emanuel olhou para as duas mulheres em sua vida — uma que era seu porto seguro e sua parceira de crimes, e a outra que era sua alma sensível e sua necessidade de proteção.

Ele sabia que o caminho à frente seria complexo, especialmente com a superproteção de Gabriel e a própria insegurança de Eduarda. Mas Emanuel nunca foi um homem de desistir do que queria. E ele queria as duas.

— Você está tremendo — notou Emanuel, sua mão agora descendo para cobrir a de Eduarda sobre a barriga dela. — Está com frio?

— Um pouco — ela admitiu, sentindo o chute suave de Maya sob a palma da mão dele.

Emanuel não disse nada. Ele simplesmente se levantou, buscou uma manta de lã grossa e a envolveu nos ombros dela, apertando o tecido com cuidado. Ele permaneceu ali por um momento, as mãos apoiadas nos ombros dela, transmitindo uma estabilidade que Eduarda nunca conhecera.

— Tente descansar um pouco — ele sussurrou perto do ouvido dela. — Amanhã o dia será longo.

Eduarda fechou os olhos, deixando-se levar pelo conforto daquele gesto. Ela tentava fugir dele, tentava se convencer de que era apenas a irmã do melhor amigo, mas a cada toque, a cada olhar, as barreiras que ela construíra em torno de seu coração ferido pareciam desmoronar.

Emanuel voltou para o lado de Sara, que o recebeu com um sorriso cúmplice.

— Ela está mais calma? — perguntou a loira, encostando a cabeça no ombro dele.

— Sim. Ela só precisa de paz — Emanuel respondeu, passando o braço pela cintura de Sara e sentindo o volume de Ágata.

— Ela terá paz — Sara afirmou, olhando para Eduarda com uma simpatia genuína. — Nós vamos dar isso a ela.

Na penumbra da sala, entre o crepitar da lareira e o silêncio da vila ferroviária, um novo tipo de família começava a se desenhar. Um desenho complexo, cheio de sombras e luzes, tão detalhado quanto as tatuagens que cobriam os braços de Emanuel. E ele estava pronto para finalizar aquela obra, não importava o preço.

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