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Minha princesa

Fandom: Sintonia

Criado: 16/08/2026

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Vermelho é a Cor da Audácia

A luz do sol da Vila Áurea refletia no espelho do salão dos Gêmeos, fazendo meus olhos castanhos brilharem enquanto eu observava o progresso no meu cabelo. Eu sempre gostei de mudar, de trazer um pouco de cor para a rotina, e dessa vez decidi que as mechas vermelhas seriam a marca da minha nova fase. O contraste com o meu cabelo preto liso estava ficando impecável, realçando minha pele clara de um jeito que eu não esperava.

— Vai ficar pesadão, Hanna! — um dos gêmeos comentou, passando o pincel com cuidado. — O vermelho combina com a sua energia, guria.

Eu ri, balançando as pernas enquanto esperava o tempo da tinta.

— Eu cansei do básico, sabe? Quero chegar chegando.

Nesse momento, o barulho da porta abrindo e o som de risadas conhecidas interromperam o silêncio do salão. Pelo reflexo, vi a figura de Doni entrando com aquele jeito marrento de quem sabe que é o astro da quebrada. Ele estava com a mochila nas costas, mas o horário entregava que a escola era o último lugar onde ele pretendia estar.

— E aí, família! — Doni cumprimentou, já indo em direção à cadeira ao lado da minha. — O pai precisa de um trato nesse topete hoje, que o show mais tarde vai ser estouro.

Ele parou o olhar em mim e deu um sorriso de lado, aquele sorriso que ele usava quando estava prestes a soltar alguma brincadeira.

— Ué, Hanna? Não era dia de prova hoje? — ele perguntou, fingindo uma cara de preocupação. — O que a aluna exemplar está fazendo pintando o cabelo em pleno horário de aula?

— Falou o mestre da presença, né? — respondi, arqueando uma sobrancelha e rindo. — Eu já terminei minhas tarefas, Donizete. E você? Matando aula de novo para cuidar da beleza?

— Estética faz parte do marketing, loira... quer dizer, ruiva agora? — Ele se inclinou para ver melhor as mechas. — Ficou da hora, de verdade. Combina com esse seu jeito de "não me cutuca que eu sou brava".

— Eu sou um amor, Doni. Você que é um chato — brinquei, dando um leve empurrão no braço dele enquanto ele se acomodava para fazer o famoso topete.

Ficamos ali conversando por um tempo. Doni falava sobre as novas batidas que o DJ Cassiano estava montando e eu contava sobre os livros que estava lendo, embora soubesse que ele preferia ouvir o som do paredão. A vibe era leve, como sempre era entre a gente. Quando o cabelo ficou pronto, me olhei no espelho e me senti outra pessoa. O short jeans curto e o cropped que eu tinha escolhido para o dia pareciam ter ganhado um novo sentido com o visual novo.

— Bom, a conversa está ótima, mas eu tenho corre para fazer — disse, levantando-me e pegando minha bolsa.

— Juízo nessa cabeça vermelha, Hanna! — Doni gritou enquanto o barbeiro começava a passar a navalha.

Saí do salão sentindo o vento no rosto. O caminho até o ponto onde o Nando ficava era familiar, mas sempre exigia atenção. Eu não era de me envolver com o crime, mas na Vila, todo mundo se conhecia. Minha mãe tinha me pedido para passar lá e pegar a "encomenda" dela — a única coisa que acalmava os nervos dela depois de um dia duplo de faxina. E, claro, eu precisava do meu maço de cigarros.

Ao chegar na área onde o movimento era mais intenso, avistei Nando conversando com alguns moleques. Ele estava com aquela postura de liderança, o olhar sempre atento a tudo o que acontecia ao redor. Perto dele, Pulga e Formiga estavam sentados em uns caixotes, rindo de alguma coisa.

— Olha só quem apareceu — Nando disse, abrindo um sorriso sincero quando me viu. — E esse cabelo aí? Tá querendo chamar atenção dos tiras ou o quê?

— É para eles saberem quem é que manda na rua, Nando — respondi, aproximando-me do grupo. — Vim buscar o da minha mãe. E o meu maço de sempre.

— Pode deixar. Formiga, pega lá o kit da dona Maria e o cigarro da Hanna — ordenou Nando.

Enquanto o Formiga se afastava, senti um olhar pesado sobre mim. Era o Pulga. Ele estava quieto, o que era raro, apenas me observando com uma intensidade que eu não sabia bem como interpretar. Para mim, o Pulga era apenas mais um dos meninos que cresceram com a gente, brincalhão e às vezes meio perdido no corre. Eu não tinha a menor ideia de que, toda vez que eu passava, o coração dele batia num ritmo diferente do funk que tocava nos radinhos.

— E aí, Hanna... — Pulga disse, a voz um pouco mais baixa que o normal. — Ficou... ficou bonito o cabelo. De verdade.

— Valeu, Pulga! — sorri para ele, sendo gentil como sempre. — Achei que precisava de uma cor. Tá muito parado por aqui hoje?

— O movimento não para, né? — Ele deu de ombros, tentando parecer descolado, mas sem desviar os olhos de mim. — Mas agora que você chegou, a vista melhorou cem por cento.

Os outros amigos dele, que estavam vendendo maconha ali perto, começaram a assobiar e a dar risadinhas.

— Ih, olha o Pulga, tá todo romântico! — um deles gritou, fazendo o garoto ficar vermelho na hora.

— Cala a boca aí, parça! Foca no trampo — Nando cortou, percebendo o desconforto do amigo, mas dando um sorrisinho de canto para mim.

Eu apenas ri, achando que era a zoeira típica deles.

— Vocês não valem nada — comentei, pegando o pacote que o Formiga me entregou. — Quanto te devo, Nando?

— Deixa baixo, Hanna. Por conta da casa hoje, presente pelo visual novo — Nando piscou. — Só não deixa a sua mãe saber que eu tô te dando mole, senão ela vem aqui me dar vassourada.

— Pode deixar, vai ser nosso segredo.

Fiquei ali mais uns minutos, encostada no muro, conversando com eles sobre as fofocas da vila. Eu me sentia segura ali. Apesar do perigo que cercava a vida do Nando e dos meninos, para mim eles eram família. Eu era a Hanna — a menina inteligente que lia livros, mas que sabia exatamente como caminhar no asfalto quente da favela.

— Você vai no baile sexta? — Pulga perguntou, aproximando-se um pouco mais enquanto eu acendia um cigarro.

— Talvez. Depende se o Doni vai cantar ou se vai ser só som de carro — respondi, soltando a fumaça lentamente. — Por quê? Vai me tirar para dançar?

Eu disse brincando, mas vi o brilho nos olhos dele vacilar por um segundo.

— Se você quiser, eu tiro — ele respondeu, sério.

Eu ri e dei um tapinha no ombro dele.

— Vamos ver, Pulga. Vamos ver.

Me despedi do pessoal e comecei a descer a ladeira. Eu sentia que aquele dia tinha algo diferente. Talvez fosse o vermelho no meu cabelo, ou talvez fosse a forma como o mundo parecia vibrar mais forte na Vila Áurea. O que eu não sabia era que, enquanto eu caminhava tranquila com meu short jeans e meu jeito brincalhão, tinha deixado para trás um rastro de admiração que ia muito além de uma simples amizade de infância.

A vida na Sintonia era assim: música, corre, lealdade e, às vezes, um sentimento que a gente nem sabia que existia, escondido atrás de uma nuvem de fumaça e um sorriso de canto de boca. E eu, Hanna, estava apenas começando a descobrir o meu papel naquele jogo.

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