Fanfy
.studio
Imagem de fundo

Naquela estancia

Fandom: A casa das sete mulheres

Criado: 16/08/2026

Tags

RomanceDramaAngústiaHistóricoGravidez Não Planejada/IndesejadaEstudo de PersonagemCenário CanônicoRecontarDor/ConfortoDivergênciaGótico SulistaLirismo
Índice

O Fruto do Silêncio e das Sombras

A lua de prata pendia sobre a Estância da Barra como uma sentinela silenciosa, banhando os campos do Rio Grande com uma luz pálida e melancólica. Dentro da casa grande, o silêncio era apenas quebrado pelo estalar da lenha na lareira e pelo vento que uivava nas frestas das janelas de madeira. Joana estava sentada perto da janela de seu quarto, a mão repousando instintivamente sobre o ventre ainda plano, mas que ela já sentia pulsar com uma vida nova.

Ser irmã de Estevão, um capitão fiel ao Império, e viver sob o teto da família de Bento Gonçalves já era, por si só, um equilíbrio perigoso. Mas carregar o filho do General, o homem que liderava a revolução e que já era unido a Caetana por laços sagrados, era caminhar sobre brasas vivas.

A porta do quarto rangeu suavemente. Joana não precisou se virar para saber quem era. O perfume de fumo de corda, couro e o cheiro másculo do campo anunciavam a presença dele antes mesmo que seus passos pesados tocassem o assoalho.

— Joana — sussurrou Bento, a voz carregada de um cansaço que ele só se permitia mostrar entre aquelas quatro paredes.

— Você não deveria estar aqui, Bento — disse ela, embora seu corpo traísse suas palavras ao inclinar-se na direção dele. — As outras... Manuela, Ana Joaquina... elas têm olhos de águia.

Bento aproximou-se, envolvendo os ombros dela com suas mãos grandes e calejadas pela lida da guerra. Ele a virou lentamente, obrigando-a a encarar seus olhos profundos, onde a autoridade do líder cedia lugar à vulnerabilidade do homem.

— Esta casa é meu refúgio, mas este quarto... este quarto é a minha paz — ele murmurou, encostando a testa na dela. — O mundo lá fora está em chamas, Joana. A República exige meu sangue, e o Império quer minha cabeça. Só aqui eu sinto que ainda sou dono de mim mesmo.

Joana sentiu um aperto no peito. Ela amava a causa dele, acreditava na liberdade que ele pregava, mas o peso daquela traição a esmagava.

— E se souberem? — perguntou ela, a voz trêmula. — Estevão me renegaria. Ele é imperial até a medula, Bento. Se souber que sua irmã não só apoia os farroupilhas, mas que se entregou ao líder deles...

— Estevão não saberá — cortou ele, com firmeza. — Eu protegerei você, como protejo esta terra.

Joana soltou um suspiro amargo e afastou-se um passo, olhando para o ventre.

— Não poderá proteger o que está por vir, Bento. O tempo não para. E o que cresce em mim logo será visível para todos.

O silêncio que se seguiu foi denso. Bento Gonçalves, o homem que não temia canhões ou cargas de cavalaria, empalideceu sob a luz da vela. Ele deu um passo à frente, a mão estendida, hesitando antes de tocar a cintura de Joana.

— Você tem certeza? — perguntou ele, a voz quase um fio.

— Tenho — respondeu ela, os olhos marejados. — Eu sinto, Bento. É um filho da guerra, nascido do nosso pecado e do nosso amor.

Bento ajoelhou-se diante dela, um gesto de humildade que nenhum de seus soldados jamais presenciaria. Ele encostou o rosto no ventre dela, fechando os olhos. Por um momento, ele não era o General da Revolução Farroupilha, era apenas um homem aterrorizado e maravilhado pela vida que ajudara a criar.

— Um filho — sussurrou ele contra o tecido do vestido dela. — Um filho nosso.

— Um filho que nunca poderá ter o seu nome — lembrou ela, as lágrimas finalmente rolando. — Um filho que terá que se esconder, assim como nós nos escondemos.

Bento levantou-se e a abraçou com força, escondendo o rosto no pescoço dela. O calor do corpo dele era o único conforto que Joana conhecia naquela guerra sem fim. Ele a conduziu até a cama, onde a escuridão os acolhia e as diferenças políticas ou sociais deixavam de existir.

Naquela noite, o amor deles foi urgente, desesperado. Havia uma necessidade mútua de reafirmar que estavam vivos, apesar de cercados pela morte. Cada beijo de Bento era uma promessa silenciosa, e cada toque de Joana era uma oração por sua segurança. Entre lençóis de linho e suspiros abafados, eles tentavam esquecer que, do lado de fora, o mundo exigia que fossem inimigos.

Na manhã seguinte, a realidade voltou com a luz cinzenta da alvorada. Joana desceu para o café, tentando manter a expressão neutra que praticara durante meses. Na mesa comprida, as mulheres da família Gonçalves e suas agregadas já estavam reunidas.

— Você parece pálida, Joana — comentou Ana Joaquina, enquanto servia o café. — Não dormiu bem?

— O vento estava forte, Dona Ana — mentiu Joana, sentando-se e evitando o olhar de Manuela, que sempre parecia enxergar através das pessoas. — O barulho nas árvores me manteve alerta.

— São tempos difíceis — disse Manuela, com aquele olhar melancólico que sempre carregava por causa de seu amor por Giuseppe Garibaldi. — A incerteza nos rouba o sono. Mas você, Joana, parece carregar um peso diferente.

Joana sentiu o coração disparar.

— É apenas a preocupação com meu irmão — apressou-se a dizer. — Recebi notícias de que o regimento de Estevão está se movendo para o sul. Temo o dia em que ele e o General se encontrem no campo de batalha.

— Rezamos para que esse dia não chegue — disse Maria, a irmã de Bento, com um suspiro. — Mas a guerra não escolhe laços de sangue.

Bento entrou na sala pouco depois, já vestido com sua farda, as botas tinindo as esporas no chão de pedra. Ele cumprimentou a todos com a cortesia habitual, mas seus olhos buscaram os de Joana por um breve segundo — um relance que continha todo o segredo do mundo.

— Parto para o acampamento em uma hora — anunciou ele, dirigindo-se à irmã. — As notícias são de que os imperiais estão se reorganizando perto do Rio Pardo.

— Tenha cuidado, Bento — pediu Ana Joaquina. — Esta casa parece mais vazia a cada vez que você sai por aquela porta.

— Eu voltarei — disse ele, e então olhou diretamente para Joana. — Eu sempre volto para o que é meu.

A frase soou como uma promessa de comando para os outros, mas para Joana, foi um acalento na alma.

Após o café, Joana saiu para o pátio, buscando o ar fresco. Ela encontrou Manuela sentada sob a sombra da grande figueira, observando o horizonte. A jovem aproximou-se da amiga, sentindo a necessidade de falar, mas a trava do segredo era pesada demais.

— Ele a ama, não é? — perguntou Manuela, sem desviar os olhos do campo.

Joana estacou, o sangue fugindo de seu rosto.

— De quem você está falando, Manuela?

— Do meu tio — Manuela virou-se, e não havia julgamento em seu olhar, apenas uma tristeza profunda e compreensiva. — Eu vejo como ele olha para você quando pensa que ninguém está vendo. E vejo como você olha para ele. Como se ele fosse o seu sol e a sua tempestade ao mesmo tempo.

Joana sentou-se ao lado dela, as mãos tremendo.

— Eu não queria que fosse assim, Manuela. Eu acredito na República, eu amo esta terra... mas eu nunca deveria ter permitido que meu coração se envolvesse com o dele. Ele é casado, ele tem uma vida, ele tem uma revolução para liderar.

— O amor não pede permissão para as circunstâncias, Joana — disse Manuela suavemente, pegando a mão da amiga. — Olhe para mim e para o meu italiano. O amor é a única coisa que nos mantém humanos no meio desta barbárie.

— Mas há algo mais — confessou Joana em um sussurro, as lágrimas voltando. — Manuela, eu estou esperando um filho dele.

O silêncio de Manuela não foi de choque, mas de uma aceitação solene. Ela apertou a mão de Joana com mais força.

— Então você carrega o futuro desta terra no seu ventre — disse Manuela. — Mas você sabe o que isso significa, não sabe? Se a Caetana descobrir... se o seu irmão descobrir...

— Eu sei — interrompeu Joana. — Estevão me levaria de volta para a Corte, ou pior, me trancaria em um convento para esconder a vergonha da família. E Bento... Bento ficaria dividido entre o dever e o que sente por mim.

— Nós vamos proteger você — afirmou Manuela, com uma determinação que surpreendeu Joana. — Nós, as mulheres desta casa, sabemos guardar segredos. Homens fazem a guerra com espadas e cavalos, Joana. Nós fazemos a nossa guerra no silêncio, protegendo o que amamos.

Joana olhou para a casa grande, aquela estrutura de pedra que abrigava tantas dores e esperanças. Ela era a irmã de um imperial, a amante de um revolucionário e a mãe de uma criança que pertencia a dois mundos em conflito.

Naquela tarde, ela viu Bento partir. Montado em seu cavalo baio, ele parecia a própria encarnação da revolução. Antes de sumir na curva da estrada, ele parou e olhou para trás. Joana estava no parapeito da varanda, uma mão no ventre e a outra acenando discretamente.

Ela sabia que os dias que viriam seriam marcados pelo medo e pela ocultação. Cada batida de seu coração era agora um compasso de espera. Ela teria que enfrentar a desconfiança de Ana Joaquina, a distância de Estevão e a sombra constante de Caetana. Mas, ao sentir um leve calor em seu interior, Joana soube que faria tudo novamente.

Porque, no meio daquela terra ensanguentada pela guerra dos Farrapos, ela havia encontrado algo que nenhuma batalha poderia destruir: um refúgio nos braços do inimigo de seu irmão, e uma promessa de vida que florescia contra todas as probabilidades.

— Que Deus nos proteja — sussurrou ela para o vento. — Porque a partir de hoje, a minha guerra começou.

E enquanto o sol se punha, tingindo o céu de um vermelho que lembrava tanto a bandeira da República quanto o sangue dos caídos, Joana voltou para dentro da casa. Ela era agora uma das sete mulheres, mas carregava consigo um segredo que poderia mudar o destino de todos eles.

Índice

Quer criar seu próprio fanfic?

Cadastre-se na Fanfy e crie suas próprias histórias!

Criar meu fanfic