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Fandom: Vida pessoal

Criado: 17/08/2026

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Entre o Retiro e Matias: Onde o Coração Cria Raízes

A estrada entre Matias Barbosa e o bairro Retiro, em Juiz de Fora, não era longa em quilômetros, mas parecia um abismo emocional para Karen. No banco do carona do carro de Karinna, ela ainda fungava discretamente, limpando o canto dos olhos escuros para não borrar o pouco de maquiagem que restava. O fim de semana em família sempre a deixava assim: com o coração exposto, pulsando do lado de fora do peito.

Karinna, ao volante, mantinha o olhar atento na pista, mas sua mão direita repousava sobre a coxa de Karen, um ancoradouro seguro. Karinna era o contraste visual e temperamental da noiva. Enquanto Karen, aos 23 anos, ostentava seu corte chanel perfeitamente alinhado e aquele estilo bad girl que intimidava quem não a conhecia, Karinna, aos 22, era a personificação da desfem raiz: cabelos longos que ela raramente prendia, óculos de grau que davam um ar intelectual e uma postura protetora que parecia muito mais madura do que sua idade sugeria.

— Já parou de soluçar, minha chorona? — perguntou Karinna, com a voz suave, desviando o olhar por um segundo para dar um sorriso de canto.

— Não é soluço, Ka. É só que... você sabe como é lá em casa. Minhas irmãs grudam em mim e parece que eu nunca saí de lá — Karen respondeu, a voz ainda levemente embargada. — A gente cresce, mora junto, planeja casamento, mas quando eu entro na casa da minha mãe no Retiro, eu volto a ter dez anos.

— Eu sei, meu amor. E é por isso que eu te amo. Esse seu coração de manteiga derretida é o que equilibra a minha marra — Karinna brincou, apertando levemente a perna da noiva.

Karinna tinha passado o fim de semana em Matias, na casa de sua própria mãe, um ambiente mais silencioso e contido. Mas agora, ao buscar Karen, ela sabia que a "missão resgate" envolvia mais do que apenas colocar as malas no porta-malas. Envolvia mergulhar, mesmo que por algumas horas, no caos amoroso da família da noiva.

Quando o carro finalmente embicou na rua da casa da mãe de Karen, o movimento já era visível da calçada. As tias estavam sentadas em cadeiras de fio, os primos corriam com um cachorro vira-lata e o cheiro de café fresco com pão de queijo parecia impregnado nas paredes de tijolinho.

Assim que Karinna desligou o motor, Karen já estava abrindo a porta, quase saltando para fora.

— Olha ela aí! A motorista chegou! — gritou uma das tias, levantando-se para abrir o portão.

Karinna desceu do carro com calma, ajeitando os óculos no rosto e sentindo o sol da tarde. Antes que pudesse dar dois passos, Karen já estava nos braços de uma das irmãs mais novas, em um abraço apertado que parecia durar uma eternidade.

— Uai, Karen, mas você não foi embora ainda e já tá chorando de novo? — a irmã brincou, rindo contra o ombro dela.

— Deixa ela, menina! — interveio a mãe de Karen, saindo da cozinha com um pano de prato no ombro. — Ela é sensível, puxou à avó. Vem cá, Karinna, dá um abraço na sua sogra.

Karinna sorriu, sentindo aquele calor humano que só a família de Karen possuía. Ela foi recebida com a mesma intensidade. Ali, a aceitação não era apenas uma palavra, era um gesto. As tias, os primos, todos a tratavam como se ela sempre tivesse feito parte daquela árvore genealógica.

— E aí, Ka, como foi lá em Matias? Sua mãe tá boa? — perguntou um dos primos, aproximando-se para um cumprimento de mão.

— Tudo tranquilo por lá, primo. Minha mãe mandou um queijo pra vocês, tá lá no porta-malas — respondeu Karinna, sentindo-se em casa.

— Pois então tira logo, que a gente já vai passar outro café — disse a tia, puxando Karinna pelo braço para dentro da varanda.

Enquanto Karinna interagia com os parentes, contando as novidades do apartamento novo e dos planos para o casamento, seu olhar buscava Karen constantemente. A noiva estava sentada no sofá da varanda, cercada pelas irmãs, segurando a mão de cada uma como se estivesse tentando absorver toda a energia delas para levar na viagem de volta.

Karen era a força visual da relação — a pele negra clara contrastando com as roupas escuras, o cabelo chanel que lhe dava um ar de modelo alternativa —, mas Karinna sabia que, por dentro, ela era pura vulnerabilidade. E Karinna amava proteger essa vulnerabilidade.

— Você cuida bem da nossa menina, viu, Karinna? — a mãe de Karen comentou baixinho, aproximando-se da nora enquanto observava a cena das filhas juntas. — Ela finge que é durona com esse estilo dela, mas você sabe que ela é a que mais sente a nossa falta.

— Eu cuido, sogra. Pode ficar tranquila — Karinna respondeu com sinceridade, os olhos brilhando por trás das lentes. — A Karen é o meu mundo. E ver como vocês nos aceitam aqui... isso não tem preço.

— Família é família, minha filha. Se ela te escolheu, a gente te escolheu também.

O final da tarde caiu sobre o Retiro com aquele tom alaranjado típico de Juiz de Fora. O momento da partida real se aproximava, e a melancolia de Karen começava a subir novamente.

— Ah, não... já vai? Fica mais um pouco, Ka! — pediu a irmã caçula, agarrando-se ao braço de Karinna agora.

— A gente precisa ir, pequena. Amanhã cedo as duas trabalham, e ainda temos que organizar as coisas em casa — explicou Karinna, com paciência.

— Mas volta logo! — Karen disse, abraçando a mãe pela terceira vez em dez minutos.

— A gente volta, meu bem. Final de semana que vem vocês podem ir lá em casa, eu faço aquela lasanha que vocês gostam — prometeu Karinna, ganhando um coro de aprovação dos primos.

Após mais uma rodada de abraços, beijos e recomendações de "avisem quando chegarem", elas finalmente conseguiram entrar no carro. O banco de trás agora estava cheio de potes de comida, o queijo de Matias e algumas plantas que a tia de Karen insistira que elas levassem.

Assim que Karinna deu a partida e dobrou a esquina, o silêncio se instalou no veículo, quebrado apenas pelo som da respiração de Karen, que tentava se recompor.

— Foi bom, não foi? — perguntou Karinna, alcançando a mão da noiva novamente.

— Foi maravilhoso. Eu sinto que renovo minha alma quando vou lá — Karen respondeu, encostando a cabeça no banco e fechando os olhos. — Obrigada por ter paciência comigo, Ka. Eu sei que eu demoro pra me despedir.

— Eu nunca vou ter pressa de te tirar de onde você é feliz, Karen. Sua família agora é minha também. Ver o jeito que suas tias me contam fofoca e como seus primos me respeitam... isso me faz sentir que a gente está construindo algo muito sólido.

Karen abriu os olhos e olhou para a noiva. Karinna estava concentrada no trânsito, o perfil decidido, o cabelo longo caindo sobre os ombros. Ela era a rocha de Karen.

— Sabe o que eu estava pensando lá na varanda? — Karen disse, com um sorrisinho surgindo.

— O quê?

— Que a gente é muito diferente, né? Eu toda chorona e você aí, toda centrada, dirigindo como se nada te abalasse.

— É a lei da física, amor. Os opostos se atraem e se completam. Se as duas fossem choronas, o carro ia inundar antes de chegar na curva do Lacet — Karinna brincou, fazendo Karen soltar uma risada alta, a primeira depois de tantas lágrimas.

— Boba. Mas é verdade. Eu amo o fato de você se enturmar com eles. Minha família é simples, barulhenta... e você, com esse seu jeito de intelectual desfem, parece que se encaixa perfeitamente no meio daquela bagunça.

— É porque não é bagunça, Karen. É amor. E de amor eu entendo, porque eu tenho o melhor do mundo bem aqui do meu lado.

Karen se inclinou e beijou o ombro de Karinna, sentindo o cheiro do perfume dela misturado ao cheiro de casa que ainda carregava na pele. A viagem de volta para a rotina das duas estava apenas começando, mas o coração de ambas estava cheio.

Enquanto o sol sumia no horizonte de Minas Gerais, as duas noivas seguiam caminho. Uma carregando a sensibilidade à flor da pele, a outra carregando a segurança de quem sabe exatamente onde pertence. Entre o Retiro e Matias, elas haviam descoberto que o lar não era apenas um endereço, mas qualquer lugar onde pudessem ser exatamente quem eram, cercadas por quem as amava.

— Ka? — chamou Karen, já quase chegando ao destino.

— Oi, vida.

— A gente vai ser muito feliz no nosso casamento, não vai?

Karinna sorriu, olhou pelo retrovisor e depois para a mulher da sua vida.

— A gente já é, Karen. O resto é só a festa pra comemorar o que a gente já construiu.

E no silêncio confortável do carro, Karen finalmente parou de chorar, percebendo que, embora estivesse deixando a casa da mãe, ela estava voltando para casa com a pessoa que era o seu verdadeiro destino.

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