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Fandom: Alien stage
Criado: 17/08/2026
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Espelhos de Vidro Quebrado
O sinal da última aula ecoou pelos corredores da escola, um som estridente que parecia vibrar diretamente nos nervos de Till. Ele jogou o caderno de qualquer jeito na mochila, as alças pretas já gastas pelo uso constante. Seus dedos, levemente sujos de grafite, tremiam de leve enquanto ele tentava fechar o zíper.
— Que porra de sinal barulhento — resmungou Till, a voz rouca carregada de sua irritação habitual.
— Você diz isso todo santo dia, Till — comentou Hyuna, ajeitando o cabelo castanho enquanto se levantava. Ela deu um sorriso leve, mas seus olhos azuis logo se desviaram para o outro lado da sala, onde um certo loiro guardava seus livros com uma elegância irritante. — Vamos logo, a Sua já deve estar esperando a gente no portão.
Till apenas grunhiu em resposta. Ele não precisava olhar para saber que o "trio de ouro" do outro lado da sala também estava se retirando. Mizi, com aquele cabelo rosa vibrante que parecia brilhar sob as luzes fluorescentes, ria de algo que Ivan dizia. Luka, como sempre, mantinha uma expressão de serenidade absoluta, como se estivesse acima de qualquer conflito mundano.
Os dois grupos não se misturavam. Era uma regra não escrita, uma barreira invisível que separava os seis estudantes em dois mundos distintos que, por acaso, dividiam o mesmo oxigênio por seis horas ao dia.
No corredor, a temperatura parecia cair alguns graus quando Ivan passou por Till.
— Cuidado para não tropeçar nos próprios pés, Till. Você parece meio... tenso hoje — disse Ivan, com aquele sorriso calmo e provocador que fazia o sangue de Till ferver instantaneamente.
— Vai tomar no cu, Ivan — rebateu Till, parando bruscamente e encarando os olhos pretos e profundos do outro.
— Nossa. Você lembra meu nome. Fico lisonjeado — Ivan deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Till com uma naturalidade perturbadora. — Por que está me evitando tanto essa semana?
— EU VOU TE MATAR, SEU MERDA! — Till gritou, sentindo a veia do pescoço saltar. — Sai da minha frente antes que eu perca a pouca paciência que me resta!
Ivan apenas soltou uma risada curta, um som quase melódico, e continuou andando como se nada tivesse acontecido. Ele não estava irritado. Pelo contrário, parecia revigorado. "Você fica engraçado quando tá puto", pensou Ivan, guardando aquela imagem mental de Till — os olhos verdes faiscando, o cabelo cinza bagunçado — para revisar mais tarde, no silêncio de seu quarto, onde ele mantinha registros que ninguém jamais deveria ver.
Mizi, que observava a cena de longe, revirou os olhos dourados.
— Ah, claro. Porque essa merda obviamente vai funcionar, Ivan. Você é um idiota — disse ela, chutando uma latinha vazia no corredor.
— Ele gosta da atenção, Mizi. Só ainda não percebeu — Luka comentou calmamente, caminhando ao lado dela. Ele olhou para Hyuna, que estava a alguns metros de distância, e deu um aceno de cabeça quase imperceptível.
Hyuna sentiu um calafrio. Ela odiava o modo como o simples olhar de Luka parecia desarmá-la, como se ele estivesse lendo todas as suas inseguranças e as catalogando para uso futuro. "Eu sei como ele é", ela repetia para si mesma como um mantra. "Então por que caralho eu ainda gosto dele?"
Enquanto isso, escondida atrás de um pilar perto da saída, Sua observava. Seus olhos roxos estavam fixos em Mizi. Ela notou como Mizi ajeitou a alça da mochila no ombro esquerdo — o ombro que ela costumava massagear quando estava cansada. Ela notou o modo como o sorriso de Mizi não chegava aos olhos quando o assunto da conversa pendia para algo mais sério.
Sua sabia que Mizi detestava o silêncio excessivo, mas também sabia que, às vezes, Mizi ficava estranhamente quieta, um vazio súbito que a transformava em uma estátua de porcelana prestes a quebrar. Sua tinha cadernos cheios de observações assim. Ela sabia a marca do hidratante que Mizi usava, o trajeto exato que ela fazia para casa e o fato de que ela sempre evitava olhar para os carros pretos que passavam em alta velocidade.
Para Sua, era cuidado. Para qualquer outra pessoa, seria um pesadelo.
— Você está fazendo de novo — uma voz baixa e fria surgiu atrás dela.
Sua não se assustou. Ela reconheceria o tom de Ivan em qualquer lugar.
— E você também — respondeu Sua, sem desviar os olhos de Mizi, que agora atravessava o portão. — O Till quase teve um aneurisma lá dentro. Você é doente, Ivan.
— Somos dois, querida Sua — Ivan se encostou na parede ao lado dela, o sorriso nunca vacilando. — A diferença é que eu gosto de ver o fogo queimar. Você prefere ficar nas sombras, adorando o seu ídolo de longe. É patético, de certa forma.
— Não é obsessão. É proteção — mentiu Sua, embora sentisse o peso da própria hipocrisia.
— Claro. E eu sou um santo — Ivan soltou um suspiro teatral. — Luka está manipulando a morena de novo. Você viu? Ele é bom nisso. Quase me dá inveja.
— Ele é perigoso — disse Sua, finalmente olhando para Ivan. — Mas você é pior. O que você quer com o Till, afinal?
Ivan inclinou a cabeça, os olhos pretos brilhando com uma intensidade que beirava a loucura.
— Eu quero tudo. Quero que ele me odeie tanto que não consiga pensar em mais nada. Quero ser o único ruído na cabeça dele. E você? O que quer da Mizi?
Sua apertou as alças de sua bolsa.
— Eu só quero que ela nunca me deixe.
Mizi caminhava um pouco à frente de Luka e Ivan, sentindo o vento bater em seu rosto. O sol da tarde era quente, mas ela sentia um frio persistente no peito. O sarcasmo era sua armadura preferida, a maneira mais fácil de manter o mundo à distância.
— Ei, Mizi — chamou Luka, alcançando-a. — O que você acha de irmos por aquele atalho perto da avenida principal? É mais rápido.
Mizi estacou. O som da palavra "avenida" e o barulho distante dos pneus no asfalto fizeram seus ouvidos zumbirem.
— Nem fodendo — respondeu ela rápido demais, a voz saindo mais aguda do que pretendia. Ela forçou uma risada sarcástica logo em seguida. — Aquela rua é um lixo, cheia de gente feia. Prefiro o caminho longo, valeu.
Luka a observou com atenção. Ele notou a palidez súbita, o modo como os dedos dela se fecharam em punhos. Ele sabia que havia algo ali, um ponto cego na história de Mizi que ela protegia com unhas e dentes.
— Tudo bem — disse Luka, suavemente. — O caminho longo é mais bonito, afinal. Você sabe que não precisa se apressar.
Mizi sentiu um aperto na garganta. Ela odiava como Luka parecia ler através de suas mentiras.
Na mente dela, a imagem de sete anos atrás voltou como um flash de luz cegante. O cheiro de couro do carro, o som da voz da mãe gritando, a discussão fútil sobre um brinquedo ou uma nota na escola... Mizi lembrava de ter gritado de volta. Lembrava de ter apontado para algo fora da janela, distraindo a mãe por um segundo. Um segundo foi o suficiente. O metal retorcido, o silêncio que se seguiu ao estrondo, e o corpo inerte ao lado dela.
"Eu matei minha mãe", ela pensou, o peso daquela frase esmagando seus pulmões. "Se eu tivesse ficado quieta... se eu não fosse tão irritante..."
— Mizi? — Ivan tocou seu ombro levemente.
— O que foi, porra? — ela disparou, recuperando a máscara de descontraída. — Estava só pensando no que vou comer. Durmam menos e pensem mais, vocês dois são muito lentos.
— Você dorme doze horas por dia, não venha falar de lentidão — Ivan brincou, mas seus olhos trocaram um olhar cúmplice com Luka. Eles sabiam que ela estava mentindo.
Do outro lado da rua, o grupo de Hyuna seguia em direção à biblioteca. Till chutava cada pedra que encontrava no caminho, ainda processando a interação com Ivan.
— Aquele cara é um psicopata — resmungou Till. — Ele sorri o tempo todo. Quem sorri o tempo todo? Só gente que esconde corpo no porão.
— Ele só quer te irritar, Till — disse Hyuna, embora ela mesma estivesse perdida em seus pensamentos. — Não dê a ele o que ele quer.
— Ele não quer me irritar, Hyuna. Ele quer me ver louco! — Till parou e olhou para ela. — E você? Vai continuar fingindo que o Luka não está tentando entrar na sua cabeça? Eu vi o jeito que você olhou para ele.
Hyuna sentiu o rosto esquentar.
— Não é da sua conta.
— É da minha conta porque você é minha amiga, caralho! — Till exclamou, sua lealdade transparecendo através da grosseria. — Aquele loiro é um manipulador de merda. Ele faz todo mundo dançar conforme a música dele.
— Eu sei! — Hyuna gritou, parando no meio da calçada. — Eu sei exatamente o que ele é, Till! Eu vejo as cordas, eu vejo como ele escolhe cada palavra para me fazer sentir pequena ou especial conforme a conveniência dele.
Sua, que até então estava em silêncio absoluto, olhou para Hyuna com uma frieza melancólica.
— Então por que você ainda vai atrás dele? — perguntou Sua. A voz dela era baixa, mas cortante.
Hyuna baixou a cabeça, os cabelos castanhos escondendo seu rosto.
— Porque... porque às vezes a manipulação parece a única forma de atenção que eu recebo. E eu me odeio por isso.
O silêncio caiu sobre o trio. Till não sabia o que dizer. Ele era impulsivo e explosivo, mas não sabia lidar com a vulnerabilidade crua de Hyuna. Ele apenas colocou a mão no ombro dela, um gesto desajeitado de apoio.
— A gente é tudo um bando de ferrado, né? — comentou Till, tentando aliviar o clima.
— Pelo menos a gente sabe disso — disse Sua, seus olhos roxos voltando-se para a direção onde o grupo de Mizi havia desaparecido. — Os outros... eles acham que estão no controle. Mas ninguém está.
Naquela noite, as luzes da cidade brilhavam como pequenos pontos de esperança em um mar de escuridão.
Em seu quarto, Mizi encarava o teto, a voz bonita e melodiosa silenciada pela culpa que não a deixava dormir. Ela queria gritar, queria chorar, mas em vez disso, apenas sussurrou para o vazio:
— Foi mal, mãe.
A alguns quilômetros dali, Sua revisava suas fotos e anotações. Ela sabia que Mizi tinha tido um pesadelo, porque a luz do quarto de Mizi se acendera exatamente às 3:14 da manhã, como acontecia em todas as terças-feiras chuvosas.
Ivan, deitado em sua cama, olhava para uma palheta de guitarra que ele havia "pegado emprestado" de Till meses atrás. Ele a girava entre os dedos, um sorriso calmo no rosto, imaginando qual seria a próxima coisa que diria para fazer Till explodir. A obsessão era sua única companhia, e ele a abraçava com prazer.
Till, por sua vez, tentava compor uma música. O som do rock pesado ecoava em seus fones de ouvido, abafando os pensamentos sobre Ivan. Mas, por mais que tentasse, a imagem do sorriso provocador do outro não saía de sua mente.
Luka estava em sua escrivaninha, lendo um livro sobre psicologia comportamental. Ele sabia que Hyuna estava sofrendo, e sabia exatamente qual mensagem enviar no dia seguinte para garantir que ela continuasse gravitando ao redor dele. Ele não era mau, ele apenas gostava de ver como as peças se moviam no tabuleiro.
E Hyuna, olhando-se no espelho, questionava cada sentimento. Ela era a única que via a verdade por trás da máscara de Luka, e talvez fosse essa a sua maior maldição.
Seis vidas entrelaçadas por fios de obsessão, culpa e manipulação. Eles estudavam na mesma sala, respiravam o mesmo ar, mas cada um vivia em sua própria prisão particular, esperando pelo dia em que as paredes finalmente viriam abaixo.
A escola continuaria no dia seguinte. Os insultos seriam trocados, os sorrisos seriam forjados e os segredos continuariam enterrados sob camadas de sarcasmo e silêncio. No palco da vida, todos eram atores, mas nenhum deles conhecia o roteiro completo. E, no final, talvez fosse melhor assim. Porque a verdade, crua e nua, era pesada demais para qualquer um deles carregar sozinho.
