
uykn7g
Fandom: Anna Karenina
Criado: 17/08/2026
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O Espelho de Vidro e a Sombra do Desejo
O salão de baile da Condessa Vronskaya exalava o perfume pesado de gardênias e o aroma metálico do champanhe caro. Para Clara, no entanto, o ar parecia escasso. Ela se ajustou desconfortavelmente em seu vestido de seda azul-celeste, sentindo como se as costuras estivessem prestes a trair sua forma. Ela não possuía a elegância esguia das damas da sociedade de São Petersburgo, nem a vivacidade cortante de Anna Karenina. Clara era feita de curvas suaves, bochechas coradas e uma insegurança que a fazia querer desaparecer atrás das pesadas cortinas de veludo.
Seus olhos, no entanto, sempre encontravam o mesmo destino: o Conde Alexei Vronsky.
Ele estava do outro lado da sala, a personificação da aristocracia russa. O uniforme militar impecável, o sorriso que nunca chegava totalmente aos olhos e aquela aura de perigo contido que atraía as mulheres como mariposas para a chama. Alexei sempre preferiu as mulheres experientes, as casadas, as que sabiam jogar o jogo da sedução sem pedir nada em troca além de uma noite de prazer. Clara, a filha da amiga de sua mãe, era apenas uma sombra em sua periferia. Uma menina doce, um pouco acima do peso ideal da moda, que ele cumprimentava com uma cortesia distraída.
Até aquela noite.
A neve caía pesada do lado de fora da propriedade rural, criando um isolamento forçado após a festa. O álcool havia soltado as inibições de Vronsky, e o tédio o tornara imprudente. Ele a encontrou na biblioteca, onde Clara buscava refúgio do barulho.
— Você sempre se esconde, Clara — disse ele, a voz grave vibrando no silêncio da sala.
Ela se sobressaltou, derrubando o livro que segurava.
— Eu... eu só queria um pouco de paz, Conde — respondeu ela, sentindo o rosto queimar.
Ele se aproximou. Não era o seu tipo. Ele gostava de ossos da face proeminentes e cinturas que podia envolver com as mãos. Mas, sob a luz fraca das velas, a pele de Clara parecia feita de leite e mel. Havia uma suavidade nela que ele, em seu estado de embriaguez e desejo súbito, achou irresistível.
O que começou com um beijo roubado e desajeitado transformou-se em uma noite que Clara jamais esqueceria. Nos braços dele, ela sentiu-se, pela primeira vez, bonita. Ele a tocou com uma fome que ela interpretou como amor. Ele murmurou palavras de prazer que ela guardou no coração como promessas de um futuro juntos.
Mas para Vronsky, o amanhecer trouxe uma nova e conveniente perspectiva.
Semanas haviam se passado desde aquela noite, e o padrão se estabelecera. Vronsky não a pedia em casamento, nem falava de compromisso. Em vez disso, ele a procurava nos momentos de sombra.
— Clara, venha aqui — chamou ele, fechando a porta da pequena sala de música nos fundos da casa de sua mãe.
Ela sorriu, o coração disparado.
— Alexei, pensei que você estaria no regimento hoje.
Ele se aproximou, ignorando a conversa trivial. Suas mãos desceram pelas costas dela, puxando-a para perto. Ele gostava da forma como ela cedia facilmente. Gostava da maciez do corpo dela contra a rigidez do seu uniforme.
— Eu não conseguia parar de pensar em você — mentiu ele com naturalidade. A verdade era que ele estava entediado e sabia que Clara nunca diria não.
— Você sente o mesmo que eu? — perguntou ela, a voz carregada de uma esperança infantil. — Às vezes eu acho que isso é um sonho.
Vronsky beijou o pescoço dela, sentindo o pulso acelerado da jovem. Ele sabia exatamente o que ela queria ouvir, mas era cuidadoso o suficiente para não dizer as palavras fatais "eu te amo".
— Eu sinto uma necessidade constante de você, Clara — disse ele, desviando da pergunta com a habilidade de um estrategista. — Sua pele é tão macia. Nenhuma outra mulher na cidade tem essa doçura.
Clara fechou os olhos, entregando-se ao abraço. Ela acreditava que a luxúria dele era uma forma de devoção silenciosa. Se ele a procurava com tanta frequência, se ele parecia tão insaciável quando estavam sozinhos, como poderia não ser amor?
— Mas e o nosso futuro? — sussurrou ela, enquanto ele começava a desabotoar o corpete de seu vestido. — Minha mãe já está começando a perguntar por que você me visita tanto.
Vronsky parou por um segundo, os olhos frios por um breve instante antes de retomar a máscara de desejo.
— Por que estragar o que temos com conversas sobre contratos e advogados? — perguntou ele, a voz suave e manipuladora. — O casamento é uma prisão, Clara. O que temos aqui é liberdade. Você não confia em mim?
— Confio — respondeu ela, quase sem fôlego. — Mais do que em qualquer pessoa.
— Então não fale de casamento — concluiu ele, voltando a beijá-la. — Apenas fique comigo. Agora.
Ele a levou para o divã de veludo. Enquanto a possuía, Vronsky sentia uma satisfação cínica. Clara era perfeita para sua situação atual. Ela era devota, apaixonada e, acima de tudo, disponível. Ele não precisava cortejar outras mulheres com jogos complicados e presentes caros. Ele tinha Clara, que o olhava como se ele fosse um deus, e que se contentava com as migalhas de seu tempo.
Para ele, ela era um porto seguro onde ele podia satisfazer seus instintos sem as complicações de um laço legal. Ele sabia que a insegurança dela era sua maior aliada. Clara se achava tão indigna de um homem como ele que aceitaria qualquer migalha de afeto como se fosse um banquete.
Mais tarde, enquanto ela se vestia com as mãos trêmulas, Vronsky observava-a do divã, acendendo um cigarro.
— Você vai ao baile dos Oblonsky amanhã? — perguntou ele, a voz desdenhosa.
— Eu não sei — disse ela, olhando-se no espelho e tentando ajeitar o cabelo bagunçado. — Eu me sinto tão... exposta lá. Como se todos soubessem o meu segredo.
Vronsky soltou uma lufada de fumaça, observando o reflexo dela. Ela parecia uma criança perdida em roupas de mulher.
— Ninguém sabe de nada, Clara. E você deveria ir. Use aquele vestido verde. Ele destaca seus olhos.
— Você vai dançar comigo? — perguntou ela, virando-se com um brilho nos olhos.
Vronsky sorriu, um sorriso que não chegava a ser gentil.
— Talvez uma dança. Não queremos dar o que falar, não é? A discrição é o que mantém nossa paixão viva.
Clara assentiu, embora uma pontada de tristeza tivesse atingido seu peito.
— Sim, claro. A discrição.
— Ótimo — disse ele, levantando-se e vestindo o paletó. — Agora vá. Minha mãe pode chegar a qualquer momento e eu não quero que ela a encontre aqui neste estado.
— Você me ama, Alexei? — A pergunta escapou antes que ela pudesse contê-la.
Vronsky parou à porta. Ele a olhou de cima a baixo, notando a ansiedade em seus olhos, a forma como ela apertava as mãos contra a saia. Ele sentiu uma ponta de irritação, mas a descartou rapidamente. Ele precisava manter o acesso àquele corpo macio.
— Eu estou aqui com você, não estou? — respondeu ele, abrindo a porta. — Isso deveria ser resposta suficiente.
Ele saiu sem olhar para trás, deixando Clara no silêncio da sala de música. Ela tocou os próprios lábios, ainda inchados pelos beijos dele, e sorriu para o vazio.
— Ele me ama — sussurrou para si mesma, tentando convencer o próprio reflexo. — Ele só tem medo de demonstrar na frente dos outros. Ele é um homem de ação, não de palavras.
Enquanto isso, Vronsky caminhava pelos corredores da casa, já pensando no clube e nos jogos de cartas daquela noite. Ele se sentia leve. Tinha o melhor dos dois mundos: a liberdade de um solteiro e a devoção absoluta de uma mulher que nunca ousaria deixá-lo.
Ele sabia que Clara estaria lá, esperando por ele, sempre que ele sentisse o desejo de ser adorado. E para um homem como Vronsky, isso era muito mais valioso do que qualquer anel de noivado.
Os dias se transformaram em semanas, e a dinâmica apenas se aprofundou. Vronsky tornou-se mais exigente, e Clara, mais submissa. Ela começou a recusar outros convites, a se isolar de suas amigas, vivendo apenas para os momentos em que o bilhete dele chegava, marcando um encontro secreto.
Em uma tarde chuvosa, Clara sentou-se à sua penteadeira. Ela notou que seus olhos pareciam mais cansados, mas havia um brilho neles que ela atribuía à felicidade. Sua mãe entrou no quarto, o rosto preocupado.
— Clara, querida, o Conde Vronsky tem sido uma presença constante em nossas vidas, mas ele não tomou nenhuma atitude formal. As pessoas estão começando a comentar.
— Elas não entendem, mamãe — disse Clara, a voz firme apesar da insegurança interna. — Alexei é diferente. Ele não gosta das convenções sociais. Ele me disse que o que temos é especial demais para ser rotulado.
A mãe suspirou, sentando-se na beira da cama.
— Minha filha, um homem que ama verdadeiramente uma mulher deseja protegê-la, não escondê-la. Você é jovem e tem um coração puro. Não deixe que a beleza dele a cegue para a realidade.
— A senhora está enganada! — exclamou Clara, levantando-se. — Ele me procura quase todas as noites. Ele me conta segredos que não conta a ninguém. Ele me deseja de uma forma que... que eu nunca imaginei ser possível.
— Desejo não é compromisso, Clara.
— Para ele é! — mentiu Clara para si mesma. — Ele só precisa de tempo. Ele é um oficial, tem responsabilidades.
A mãe saiu do quarto com um olhar de profunda tristeza, sabendo que as palavras eram inúteis contra a barreira da paixão cega.
Naquela mesma noite, Vronsky apareceu na janela de Clara, como um ladrão na calada da noite. O risco da descoberta parecia apenas aumentar o apetite dele.
— Você demorou — disse ela, abraçando-o com força assim que ele entrou no quarto.
— Tivemos uma reunião no regimento — mentiu ele, tirando as luvas. — Mas aqui estou.
Ele a empurrou para a cama com uma urgência que Clara confundiu com saudade desesperada.
— Alexei, minha mãe falou comigo hoje — começou ela, enquanto ele beijava seu ombro. — Ela está preocupada com minha reputação.
Vronsky parou por um momento, a testa franzida.
— Novamente esse assunto, Clara? Eu pensei que tínhamos superado isso.
— Eu sei, mas... se nos casássemos, não teríamos que nos esconder. Poderíamos estar juntos o tempo todo.
Vronsky sentou-se na beira da cama, dando as costas para ela.
— Você quer ser como todas as outras, então? — perguntou ele, a voz fria. — Quer uma vida de tédio doméstico, discutindo o preço da carne e as fofocas da corte? Eu achei que você era diferente. Achei que você entendia a natureza da nossa conexão.
Clara sentiu um nó na garganta. O medo de perdê-lo era maior do que qualquer desejo de respeitabilidade.
— Não, eu não quis dizer isso... eu só...
— Se você me pressionar, Clara, eu terei que me afastar — disse ele, virando-se para ela com um olhar calculador. — Eu não suporto ser encurralado. Se o que temos não é suficiente para você, então talvez devêssemos parar agora mesmo.
As lágrimas inundaram os olhos de Clara. Ela se ajoelhou na cama, segurando o braço dele.
— Não! Por favor, não diga isso. Eu não quis pressionar você. O que temos é suficiente. Eu juro. Eu só quero estar com você, da maneira que você quiser.
Vronsky suavizou a expressão, sentindo o poder que exercia sobre ela. Ele a puxou para um abraço, acariciando seus cabelos.
— Boa menina — sussurrou ele. — Eu sabia que você entenderia. Você é a única que realmente me conhece, Clara.
Ele a beijou com uma intensidade renovada, e Clara entregou-se novamente, ignorando o vazio que começava a crescer em seu peito. Ela se convenceu de que o sacrifício de sua honra era o preço que devia pagar pelo amor de um homem tão extraordinário.
Enquanto o Conde Vronsky se perdia no prazer que o corpo dela proporcionava, ele já planejava sua viagem para Moscou na semana seguinte. Ele não contaria a ela até o último momento. Afinal, Clara estaria lá quando ele voltasse. Ela sempre estaria lá.
E Clara, deitada sob ele, olhava para o teto, imaginando o dia em que ele finalmente a levaria para o altar. Ela não via as correntes invisíveis que ele enrolava em seu pescoço; ela via apenas as mãos que a tocavam.
No teatro da sociedade russa, Vronsky era o protagonista galante, e Clara era a coadjuvante que ninguém notava. E para Vronsky, o roteiro estava perfeito exatamente daquela maneira.
