Fanfy
.studio
Imagem de fundo

Gagsjgs

Fandom: Anna Karenina (2012),

Criado: 17/08/2026

Tags

HistóricoDramaAngústiaRomanceEstudo de PersonagemDiscriminaçãoDismorfia CorporalRecontar
Índice

O Eco de um Desejo Silencioso

A luz do luar filtrava-se pelas pesadas cortinas de veludo azul da propriedade dos Vronsky, lançando sombras longas e distorcidas sobre o tapete persa. Clara sentia o coração martelar contra as costelas, um ritmo frenético que parecia ecoar a ansiedade que a consumia. Ela sabia que não deveria estar ali, no corredor que levava aos aposentos privados do Conde Alexei Vronsky, mas o convite dele — um sussurro apressado durante o baile daquela noite — fora como um ímã para sua alma faminta.

Clara sempre soubera o seu lugar. Como filha da amiga mais próxima da Condessa Vronskaya, ela era uma presença constante, porém invisível, nos círculos da alta sociedade de São Petersburgo. Ela não possuía a elegância esguia de Anna Karenina ou a vivacidade juvenil de Kitty Shcherbatskaya. Clara era, como as fofocas maldosas diziam pelas costas, "abundante demais". Suas curvas eram generosas, seu rosto redondo demais para os padrões aristocráticos, e sua insegurança era uma armadura pesada que ela carregava todos os dias.

Mas ela o amava. Amava o brilho de seus olhos azuis, a arrogância charmosa com que ele montava seus cavalos e a maneira como ele parecia iluminar qualquer sala em que entrasse. Para Vronsky, Clara era apenas a "doce e gordinha Clara", uma amiga de infância, alguém inofensiva. Ele, um homem que colecionava conquistas como quem coleciona medalhas militares, nunca a vira como uma mulher. Até aquela noite.

A porta do quarto estava entreaberta. Quando ela entrou, o cheiro de tabaco caro e colônia de sândalo a envolveu. Vronsky estava de pé junto à janela, a túnica militar desabotoada, revelando a camisa de linho branco.

— Você veio — disse ele, a voz profunda vibrando no ar parado.

— Você me pediu para vir, Alexei — respondeu Clara, a voz trêmula. Ela apertava as mãos à frente do corpo, tentando esconder a silhueta que tanto a envergonhava.

Vronsky virou-se, um sorriso de soslaio brincando em seus lábios. Ele se aproximou lentamente, cada passo carregado de uma confiança que Clara nunca possuiria. Ele a analisou, não com o desdém que ela esperava, mas com uma curiosidade nova, quase predatória.

— Eu nunca tinha notado como sua pele brilha sob a luz da lua, Clara — murmurou ele, parando a poucos centímetros dela.

— Não zombe de mim, por favor — pediu ela, baixando os olhos. — Eu sei que não sou como as outras mulheres que você frequenta.

Vronsky estendeu a mão, tocando o queixo dela e forçando-a a olhar para ele.

— Talvez seja exatamente isso que me atrai hoje. A maciez. A entrega.

Naquela noite, o impensável aconteceu. Nos braços de Vronsky, Clara sentiu-se, pela primeira vez, desejada. Ele a tocou com uma fome que ela confundiu com paixão, explorando cada curva de seu corpo com uma intensidade que a deixou sem fôlego. Para ela, era a união de duas almas; para ele, era uma descoberta sensorial inesperada, um prazer diferente, mas que não mudava em nada seus planos de vida. Ele nunca cogitou casar-se com ela. Clara não era o troféu que um homem de sua posição exibia, mas era, ele descobriu, um refúgio incrivelmente confortável.

As semanas que se seguiram transformaram-se em um ciclo vicioso e secreto.

— Você virá hoje à noite? — perguntou Vronsky, inclinando-se sobre ela no jardim da propriedade, enquanto os outros convidados tomavam chá a uma distância segura.

— Alexei, as pessoas vão começar a notar — sussurrou Clara, embora seus olhos brilhassem de esperança. — Minha mãe já pergunta por que ando tão distraída.

— Deixe que notem — mentiu ele, deslizando a mão por baixo da mesa para apertar a coxa dela. — Você é a única que entende o peso que carrego. Só nos seus braços encontro paz.

Clara florescia sob aquelas palavras. Ela acreditava que, a cada encontro, ele se aproximava mais de um pedido formal. Ela imaginava o dia em que ele enfrentaria a sociedade para tê-la como esposa. Enquanto isso, Vronsky desfrutava da adoração absoluta que ela lhe devotava. Ele sabia que Clara o amava com uma pureza que ele não encontrava em suas amantes habituais. Ele usava esse amor como uma chave, abrindo a porta do quarto dela sempre que o tédio ou o desejo o atingiam.

No entanto, a realidade da aristocracia russa é feita de espelhos e sussurros.

Certa tarde, Clara estava na biblioteca, escondida atrás de uma estante de carvalho, procurando um volume de poesias francesas. As vozes do outro lado da sala a fizeram congelar. Eram Vronsky e o Capitão Yashvin, seu confidente mais próximo.

— E a pequena Clara? — riu Yashvin, o som áspero ecoando entre os livros. — Dizem que você tem passado muito tempo na ala dos hóspedes.

— Ela é uma delícia de se ter, Yashvin — respondeu Vronsky, e o tom de sua voz fez o sangue de Clara gelar. Era o tom de quem fala de um bom vinho ou de um cavalo de raça. — Tão grata, tão desesperada para agradar.

— Você vai acabar tendo que se casar com ela se continuar assim — advertiu o capitão. — A mãe dela não é mulher de aceitar desonra.

— Casar? — Vronsky soltou uma gargalhada curta e seca. — Por favor, meu amigo. Eu gosto de conforto, mas não sou cego. Clara é... bem, ela é vasta demais para o altar da Catedral de Santo Isaac. Eu a aprecio na penumbra, onde sua devoção compensa a falta de forma. Mas casar? Eu pretendo encontrar algo mais... refinado para o nome Vronsky.

Clara sentiu como se o chão tivesse desaparecido. Suas mãos tremiam tanto que ela teve que se apoiar na estante para não cair. Cada palavra dele era um punhal cravado em sua insegurança mais profunda.

— Mas ela te ama, Alexei — disse Yashvin, com um resquício de piedade.

— Exatamente — retrucou Vronsky. — E é por isso que ela nunca dirá não. Enquanto eu sussurrar as palavras certas, ela será minha. É um arranjo perfeito.

O silêncio que se seguiu na biblioteca foi quebrado apenas pelo som dos passos dos homens se afastando. Clara permaneceu ali, nas sombras, as lágrimas escorrendo silenciosamente pelo rosto redondo. A dor não era apenas pela rejeição, mas pela percepção da própria cegueira. Ela fora usada, não pela beleza que não acreditava ter, mas pelo amor que oferecera tão livremente.

Naquela noite, Vronsky apareceu na porta dela, como de costume. Ele entrou sem bater, a confiança de quem é dono do território.

— Clara, querida — disse ele, aproximando-se da cama onde ela estava sentada, ainda vestida. — Tive um dia exaustivo. Preciso de você.

Ele tentou beijar o pescoço dela, mas Clara se esquivou. O movimento foi tão brusco que Vronsky parou, surpreso.

— O que houve? — perguntou ele, franzindo a testa.

— Você me acha vasta, Alexei? — perguntou ela, a voz baixa, mas estranhamente firme.

Vronsky hesitou, seus olhos vacilando por um breve segundo.

— Do que você está falando?

— Eu estava na biblioteca hoje — disse ela, levantando-se e encarando-o. Pela primeira vez, ela não tentou murchar sob o olhar dele. — Ouvi você falar sobre como eu sou "útil" na penumbra. Sobre como meu amor garante que eu nunca diga não.

— Clara, você entendeu errado... — começou ele, tentando usar o tom sedutor que sempre funcionava.

— Não — interrompeu ela. — Eu entendi perfeitamente. Eu era o seu segredo confortável. A mulher que você usa para se sentir um deus, porque sabe que eu te adoro. Mas você tem vergonha de mim sob a luz do sol.

Vronsky endireitou a postura, a máscara de amante caindo para dar lugar à arrogância do aristocrata.

— Você sabia quem eu era, Clara. Eu nunca lhe prometi um anel.

— Você me prometeu com os olhos, com os toques e com as mentiras sobre a sua "paz" — rebateu ela, sentindo uma força que nunca soubera que possuía. — Você usou meu coração para alimentar seu ego.

— E o que você vai fazer agora? — desdenhou ele, cruzando os braços. — Gritar para o mundo? Arruinar sua própria reputação?

— Não — disse Clara, caminhando até a porta e abrindo-a. — Eu vou fazer algo muito pior para você, Alexei. Vou parar de te amar. E sem o meu amor, você é apenas um homem comum, vazio e terrivelmente sozinho em sua própria vaidade.

Vronsky olhou para ela, e por um instante, viu algo que nunca tinha notado: a dignidade de uma mulher que não precisava mais da aprovação dele para existir. Ele saiu do quarto sem dizer uma palavra, o eco de seus passos no corredor soando, pela primeira vez, como uma derrota.

Clara fechou a porta e encostou a testa na madeira fria. O peso em seu peito ainda estava lá, mas não era mais o peso da insegurança. Era a leveza agridoce de quem finalmente enxergava a própria luz, mesmo que tivesse que atravessar a escuridão para encontrá-la. Em São Petersburgo, o inverno estava chegando, mas dentro de Clara, algo começava, finalmente, a descongelar.

Índice

Quer criar seu próprio fanfic?

Cadastre-se na Fanfy e crie suas próprias histórias!

Criar meu fanfic