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Sombras do Passado

Fandom: Miraculous As Aventuras de Ladybug e Cat Noir

Criado: 17/08/2026

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O Eco do Silêncio Carmesim

O aroma de pães recém-assados e canela flutuava pela padaria Dupain-Cheng, um perfume que, para qualquer outra pessoa, seria o ápice do conforto. Para Marinette, no entanto, era apenas o pano de fundo de uma melancolia que atravessava séculos. Enquanto ela organizava as bandejas de croissants com uma precisão quase mecânica, suas mãos tremiam levemente.

Ela era uma Ômega Lúpus. Na hierarquia dos instintos e das almas, isso deveria significar uma conexão profunda com a natureza, uma sensibilidade aguçada e, acima de tudo, a promessa de um vínculo inquebrável. Mas, para Marinette, ser uma Lúpus era uma maldição disfarçada de dom. Ela não possuía apenas o olfato apurado; ela possuía a memória.

Enquanto seus pais, Tom e Sabine, conversavam alegremente na cozinha, Marinette via flashes. Ela via Adrien em trajes vitorianos, virando as costas para ela em um baile de máscaras. Ela o via com armadura medieval, jurando lealdade a uma mulher que tinha o sorriso de serpente de Lila Rossi. Ela sentia o peso de mil rejeições em mil vidas diferentes. Em todas elas, ela o amava. Em todas elas, ele escolhia a mentira.

— Marinette, querida, você está bem? — A voz doce de Sabine cortou o transe. A mãe se aproximou, ajeitando o avental branco sobre o qipao floral. Seus olhos azuis-escuros transbordavam preocupação. — Você está tão pálida hoje.

— Estou bem, mamãe. Só não dormi muito bem — mentiu Marinette, forçando um sorriso que não alcançava seus olhos claros.

— É o Adrien de novo, não é? — Tom Dupain surgiu de trás do balcão, limpando as mãos sujas de farinha. Seu porte físico largo ocupava quase todo o corredor, mas sua voz era suave. — Se aquele garoto não enxerga a joia que tem na frente dele, eu mesmo vou ter uma conversa de homem para homem com ele!

— Papai, não! — Marinette riu, uma risada curta e nervosa. — É apenas... a escola. E o desfile que o Sr. Agreste está organizando.

A verdade era muito mais dolorosa. Naquela tarde, haveria um ensaio geral para a nova coleção de Gabriel Agreste. E Marinette sabia, pelo cheiro acre de manipulação que sentia no ar toda vez que Lila Rossi se aproximava, que o ciclo estava se repetindo. Adrien, o Alfa que sua alma reconhecia como parceiro desde o início dos tempos, estava novamente sob o encanto de uma soulmate falsa.

Ao chegar ao local do ensaio, o clima estava tenso. Gabriel Agreste, alto e gélido em seu terno impecável, observava cada movimento como um falcão. Adrien estava no centro do palco, a luz dos refletores refletindo em seus cabelos loiros. Ele parecia um anjo, mas seu olhar estava fixo em Lila, que estava sentada na primeira fila, fingindo uma lesão no tornozelo para atrair atenção.

— Oh, Adrien, dói tanto... — Lila suspirou, a voz carregada de uma falsa fragilidade que fazia o estômago de Marinette revirar. — Mas não se preocupe comigo, foque no seu trabalho. O Príncipe de Mônaco me disse uma vez que a dedicação é a maior virtude de um modelo.

— Você precisa de gelo, Lila? — Adrien perguntou, a voz cheia daquela gentileza excessiva que era sua maior força e sua maior fraqueza. — Posso pedir para alguém buscar.

Alya, que estava ao lado de Marinette com o celular na mão pronta para gravar para o Ladyblog, revirou os olhos.

— Sério, Marinette, eu não sei como você aguenta — sussurrou Alya, ajeitando os óculos. — Ela diz que conhece o Príncipe de Mônaco, mas nem sabe apontar o país no mapa. E o Adrien acredita em cada palavra!

— Ele não acredita por malícia, Alya — disse Marinette, sentindo a dor latejante em seu peito, o lugar onde o vínculo de alma deveria estar florescendo, mas estava apenas sangrando. — Ele acredita porque quer ver o bem em todos.

Nino, com os fones de ouvido no pescoço, aproximou-se das duas, parecendo desconfortável.

— Cara, o Adrien está estranho. Ele diz que o cheiro da Lila "combina" com o dele. Mas eu sou um Beta e até eu sinto que tem algo errado. Cheira a perfume barato e... desespero?

Marinette fechou os olhos. Ela sabia o que era. Lila estava usando supressores químicos e feromônios sintéticos para imitar o aroma de uma soulmate. Como Adrien era mantido isolado pelo pai, sua percepção instintiva era confusa. Ele estava sendo caçado, e não sabia.

— Olá, Marinette! — A voz de Chloe Bourgeois ecoou pelo salão, carregada de sarcasmo. Ela desfilou até eles, o rabo de cavalo alto balançando. — Veio ver o desastre de perto? Honestamente, esse visual "camponesa desajeitada" não combina com o brilho do Adrien. E aquela ali... — Chloe apontou com o queixo para Lila. — É uma amadora. Pelo menos eu sou genuinamente superior, ela só finge ser.

Antes que Marinette pudesse responder, Luka Couffaine apareceu, trazendo consigo uma aura de calma. Ele carregava seu violão, e suas pontas de cabelo azul-turquesa brilhavam sob a luz. Ele olhou para Marinette e, imediatamente, seus olhos se suavizaram.

— Sua música está muito alta hoje, Marinette — disse Luka em voz baixa, aproximando-se o suficiente para que apenas ela ouvisse. — É uma melodia de perda. De algo que se repete.

Marinette sentiu vontade de chorar. Luka, com sua sensibilidade, era o único que chegava perto de entender a carga que ela carregava.

— É um disco riscado, Luka — respondeu ela, a voz embargada. — A mesma música, em séculos diferentes.

— Talvez você precise mudar o tom — sugeriu ele, tocando uma nota suave nas cordas do violão. — Ou quebrar o disco.

O ensaio começou formalmente. Kagami Tsurugi estava lá também, observando tudo com sua disciplina habitual. Ela se aproximou de Adrien no intervalo, a postura ereta de uma esgrimista.

— Adrien, você está perdendo o foco — disse Kagami, direta como uma lâmina. — Seus movimentos estão hesitantes. Você está agindo como se estivesse preso a uma âncora, não a uma parceira.

— Eu só estou preocupado com a Lila, Kagami — respondeu Adrien, limpando o suor da testa. — Ela é minha soulmate. Eu sinto que preciso protegê-la.

— Soulmate? — Kagami arqueou uma sobrancelha. — A honra não vem de proteger uma mentira, mas de enxergar a verdade. Olhe para trás de você, Adrien.

Adrien se virou e seus olhos verdes encontraram os azuis de Marinette. Por um breve segundo, o tempo parou. A memória da vida passada — aquela em que eles eram apenas dois jovens em uma Paris coberta de neve — brilhou nos olhos dela. Adrien franziu a testa, uma pontada de dor atingindo sua têmpora.

— Marinette? — ele chamou, dando um passo em direção a ela.

— Adrien! — Lila gritou, fingindo um tropeço dramático da cadeira. — Minha pressão baixou! Acho que é por causa daquela viagem que fiz ao Saara, o calor afetou meu sistema permanentemente!

Como um autômato, Adrien desviou o olhar de Marinette e correu para o lado de Lila.

Max, observando de longe com seu relógio inteligente, comentou com Rose e Juleka:

— A probabilidade de uma viagem ao Saara causar uma queda de pressão súbita em um ambiente climatizado de 22 graus Celsius é de 0,004%.

— Ela é tão corajosa por aguentar tudo isso — suspirou Rose, as mãos juntas no peito. Juleka apenas murmurou algo inaudível, escondendo o rosto atrás do cabelo roxo, claramente duvidando da cena.

Marinette não aguentou mais. Ela saiu do salão, correndo pelos corredores frios do prédio da marca Agreste. Ela precisava de ar. Ela precisava de silêncio para não gritar.

Ela parou em uma varanda que dava para os jardins internos. O céu de Paris estava tingido de laranja e roxo.

— Por que eu me lembro? — ela sussurrou para o nada. — Por que eu tenho que carregar o amor de dez vidas se ele não consegue se lembrar de uma única tarde?

— Porque você é a guardiã do que é real, Marinette.

Ela se virou e viu Gabriel Agreste parado nas sombras da porta. Ele parecia mais uma estátua do que um homem. Seus olhos frios analisaram a garota.

— O senhor... o senhor sabe, não sabe? — perguntou Marinette, a voz trêmula.

Gabriel deu um passo à frente, a luz revelando o cansaço em seu rosto severo.

— Eu sei que meu filho é cego para o que é essencial. E sei que Rossi é uma ferramenta útil para mantê-lo sob controle. Mas também sei que o sangue Lúpus não mente. Você é uma anomalia, senhorita Dupain-Cheng.

— Eu o amo — disse ela, com uma coragem que não sabia que possuía. — Em todas as vidas. E o senhor o mantém em uma gaiola de mentiras, seja através da Lila ou da sua própria frieza.

Gabriel soltou um riso seco, sem humor.

— O amor é a emoção mais perigosa de todas. Ele destrói impérios. Se Adrien descobrir quem você realmente é para ele, eu perderei o controle sobre o único legado que me resta.

— O senhor admite — disse Marinette, horrorizada. — O senhor sabe que ela é uma farsa e permite isso.

— Eu permito o que é necessário. Agora, volte para lá e faça o seu trabalho de costureira. Deixe o destino para quem sabe manipulá-lo.

Marinette sentiu uma onda de poder percorrer suas veias. O instinto da Lúpus, a força de quem já sobreviveu ao fogo e à espada, despertou.

— Desta vez não — sussurrou ela.

Ela voltou para o salão. O ensaio estava terminando. Lila estava agarrada ao braço de Adrien, sorrindo vitoriosa para todos. Ivan e Mylène estavam ajudando a recolher os equipamentos, ambos parecendo desconfortáveis com a aura pesada que emanava de Lila.

Marinette caminhou até o centro do palco. Ela não tropeçou. Ela não gaguejou. Ela caminhou com a elegância de uma rainha que lembrava de cada coroa que já usara.

— Adrien — chamou ela. Sua voz não era alta, mas cortou o barulho do salão como um trovão.

Todos pararam. Adrien olhou para ela, confuso.

— Marinette? O que foi? A Lila não está se sentindo bem, nós já estamos saindo...

— A Lila está mentindo — disse Marinette, e o silêncio que se seguiu foi absoluto.

— O quê? — Lila começou a soluçar, lágrimas de crocodilo escorrendo. — Como você pode ser tão cruel, Marinette? Logo eu, que sempre te defendi...

— Você nunca me defendeu, Lila. Você nunca conheceu o Príncipe de Mônaco, você não tem uma doença rara e, acima de tudo... — Marinette deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal de Adrien. — Você não é a soulmate dele.

— Marinette, chega — disse Adrien, embora sua voz soasse incerta. — Isso é... é uma acusação séria.

— Sinta o cheiro, Adrien — ordenou Marinette, seus olhos azuis brilhando com uma intensidade sobrenatural. — Pare de ouvir as mentiras dela e sinta. O que a sua alma diz?

Marinette liberou, pela primeira vez em séculos, a essência pura de sua alma Ômega Lúpus. Não era um perfume, era uma sensação. Era o cheiro de chuva em terra seca, de pão quente de manhã, de flores de cerejeira em um jardim chinês e de esperança.

Adrien cambaleou. As mentiras de Lila, o aroma sintético que ela usava, tudo desmoronou como um castelo de cartas. Ele soltou o braço de Lila como se tivesse sido queimado.

Imagens começaram a inundar a mente de Adrien. Não eram memórias desta vida. Ele viu Marinette — ou alguém que se parecia exatamente com ela — segurando sua mão enquanto o sol se punha em uma Paris que não existia mais. Ele sentiu a dor de perdê-la repetidas vezes.

— Marinette... — ele sussurrou, a voz quebrada. — O que está acontecendo? Por que eu sinto que te perdi mil vezes?

Lila, percebendo que perdia o controle, tentou intervir.

— Adrien, ela está te hipnotizando! É um truque! Meu pai, o embaixador, me avisou sobre pessoas assim!

— Cale a boca, Lila — disse Alya, aproximando-se com o celular gravando tudo. — Acho que o seu "tornozelo quebrado" acabou de curar milagrosamente, já que você está de pé sem apoio.

De fato, na confusão, Lila havia se levantado e estava perfeitamente equilibrada.

Adrien não olhava para Lila. Ele não olhava para o pai, que observava das sombras com uma expressão de fúria contida. Ele olhava apenas para Marinette.

— É você — disse ele, as lágrimas finalmente caindo. — Sempre foi você.

Marinette sentiu o ciclo se quebrar. A dor das vidas passadas não desapareceu, mas tornou-se um alicerce, não mais um fardo.

— Sim, Adrien — respondeu ela, estendendo a mão. — E desta vez, eu não vou deixar você esquecer.

Adrien pegou a mão dela. O toque enviou uma onda de choque pelo salão, um reconhecimento de almas que silenciou até a mais ácida das reclamações de Chloe.

Lila Rossi recuou, seu rosto transformando-se em uma máscara de ódio puro. Ela sabia que aquela batalha estava perdida, mas, para alguém como ela, a guerra nunca terminava. Ela saiu do salão sem dizer uma palavra, a promessa de vingança emanando de cada passo.

Gabriel Agreste deu as costas para a cena, desaparecendo na escuridão dos bastidores. Ele havia perdido o controle sobre o filho, mas a peça ainda tinha muitos atos.

No centro do palco, cercados por seus amigos — Nino que sorria aliviado, Alya que limpava uma lágrima, Luka que tocava uma melodia de vitória no violão —, Marinette e Adrien permaneceram unidos.

— Eu sinto muito — sussurrou Adrien, puxando-a para um abraço que parecia durar séculos. — Por ter demorado tanto. Por ter te deixado sozinha com essas memórias.

Marinette enterrou o rosto no peito dele, sentindo o perfume de Alfa que finalmente, finalmente, estava em harmonia com o dela.

— O importante não é quanto tempo levou — disse ela, fechando os olhos e sentindo o calor do presente. — O importante é que, nesta vida, o final será diferente.

Pela primeira vez em mil anos, a Ômega Lúpus não estava mais sozinha. A música de suas almas, antes um lamento, agora era uma sinfonia. E Paris, lá fora, parecia brilhar com uma luz que nenhuma mentira poderia apagar.

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