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Fandom: Nenhum

Criado: 18/08/2026

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Entre Laços e Neblina

A neblina característica de Paranapiacaba começava a descer sobre as construções de estilo vitoriano, conferindo à vila ferroviária um ar de mistério que contrastava com o caos barulhento dentro da velha casa de madeira alugada pela família. O ranger das tábuas do assoalho era abafado pelos gritos infantis e pelas risadas altas que vinham da cozinha, onde o cheiro de café fresco e bolo de fubá tentava, sem sucesso, apaziguar os ânimos daquela tarde de domingo.

Emanuel estava encostado no batente da porta da sala, observando a cena com uma mistura de exaustão e fascínio. Ele era um homem de silêncios, moldado pelo barulho das máquinas de tatuagem em seus estúdios e pela responsabilidade de gerir um império que ele mesmo construíra. Aos vinte e cinco anos, ele carregava o peso de quem já viveu décadas, refletido nas olheiras discretas e na postura sempre alerta.

— Emanuel, querido, você vai acabar abrindo um buraco na parede de tanto encarar o nada — a voz de Sara surgiu ao seu lado, carregada de um sarcasmo afetuoso.

Ele sentiu o perfume doce e marcante dela antes mesmo de sentir o toque. Sara era uma força da natureza. Loira, com o corpo esculpido por intervenções estéticas que ela exibia com orgulho em vestidos justos, ela era o oposto da discrição. Naquele dia, usava um conjunto de tricô branco que realçava seu bronzeado e suas curvas, algo que parecia deslocado na simplicidade da serra, mas que nela fazia todo o sentido.

— Só estou garantindo que a casa não caia — respondeu Emanuel, passando o braço pela cintura dela e puxando-a para perto. — As meninas estão agitadas hoje.

— É a neblina. Criança sente a mudança de tempo — Sara deu de ombros, encostando a cabeça no ombro do marido. — Ou é só a genética. Ágata tem o seu gênio difícil e a pequena Maya... bem, a Maya é uma Eduarda em miniatura, só que com a vontade de um trator.

Emanuel sorriu de canto, um gesto raro. Seus olhos vagaram pela sala até encontrarem Eduarda.

Ela estava sentada em um tapete no canto, tentando organizar alguns livros de história da arte para sua monografia enquanto vigiava as bebês. Eduarda era a personificação da delicadeza. Aos vinte anos, ela parecia flutuar pela vida, mesmo carregando o peso de ser mãe solo. O vestido de linho azul claro caía suavemente sobre seu corpo esguio, e os cabelos castanhos estavam presos em um coque frouxo, com algumas mechas emoldurando seu rosto de traços finos.

Para Emanuel, Eduarda era um porto seguro de paz. Ele a via como uma extensão de sua própria alma, uma criatura que precisava de proteção, mas que possuía uma força silenciosa e admirável. O fato de o pai de Maya ter desaparecido assim que soube da gravidez só fez com que o instinto protetor de Emanuel transbordasse. Ele não era apenas o primo; ele era o suporte, o homem que segurava a mão dela nos momentos de pânico e que amava Maya como se o sangue fosse o mesmo.

— Ela está exausta — comentou Emanuel em voz baixa, quase um sussurro para Sara.

— Então vá lá — disse Sara, dando um tapinha leve no peito dele. — Vá ajudar sua protegida. Eu vou ver se sua tia precisa de ajuda na cozinha antes que ela decida colocar veneno no meu café por causa do tamanho da minha saia.

Sara não sentia ciúmes. Ela era inteligente demais para isso e conhecia Emanuel como ninguém. Ele a amava com uma intensidade bruta, carnal e leal. Mas ela também sabia que o coração dele era vasto e que Eduarda ocupava um espaço que não competia com o dela. Sara via Eduarda como uma irmã mais nova, alguém doce demais para o mundo cínico em que viviam. Se Emanuel precisava das duas para se sentir completo, Sara não seria a barreira. Ela seria a ponte.

Emanuel caminhou até o tapete e se agachou ao lado de Eduarda.

— Duda, deixe isso um pouco. Você está lendo a mesma página há dez minutos.

Eduarda deu um leve sobressalto, seus olhos grandes e expressivos encontrando os dele. Um brilho de gratidão e timidez surgiu em seu olhar.

— É que a luz aqui não está muito boa, Manu — ela disse com sua voz mansa, fechando o livro. — E Maya está... inquieta. Acho que ela sente falta de casa.

— Ela está bem. Está com a Ágata — ele estendeu a mão e tocou o rosto de Eduarda, um carinho casto que fez o coração da moça falhar uma batida.

Eduarda não sabia o que fazer com a atenção de Emanuel. Ela o amava, é claro, mas era um amor misturado com reverência e medo de ultrapassar limites. Ele era casado, era rico, era o pilar da família. Ela era apenas a prima bailarina que precisava de ajuda para comprar fraldas.

De repente, um grito agudo cortou o ambiente, seguido de um choro estridente.

No centro da sala, Ágata e Maya estavam em pé de guerra. No chão, entre elas, havia uma boneca de porcelana antiga, uma relíquia da casa alugada que elas haviam encontrado em um baú.

— Minha! — gritou Maya, o rosto ficando vermelho instantaneamente. Ela puxou o braço da boneca com uma força surpreendente para uma criança de um ano.

— Não! Ágata! — a filha de Emanuel rebateu, agarrando a perna do brinquedo e puxando com igual determinação.

— Maya, solta isso, meu amor — Eduarda levantou-se rapidamente, o corpo esguio movendo-se com a graça de uma bailarina, mesmo sob estresse.

— Não! É minha! — Maya desabou no chão, iniciando uma pirraça clássica, batendo os pés e chorando de forma dramática, sem soltar o brinquedo.

Ágata, vendo a reação da prima, começou a chorar também, mas de frustração, olhando para o pai em busca de justiça.

— Já vi que a paz acabou — resmungou Emanuel, aproximando-se das duas.

Ele pegou Ágata no colo com um braço e, com a outra mão, tentou desvencilhar a boneca das mãos firmes de Maya.

— Maya, olhe para mim — disse Emanuel, sua voz assumindo aquele tom firme, porém calmo, que ele usava nos estúdios para acalmar clientes nervosos. — A boneca é da casa. Se vocês quebrarem, ninguém brinca.

Maya olhou para ele, as lágrimas escorrendo pelas bochechas gordinhas, e soltou um soluço manho. Ela esticou os bracinhos para Emanuel, ignorando a boneca e a própria mãe.

— No colo! Manu, colo!

Eduarda suspirou, sentindo-se um pouco envergonhada pela teimosia da filha.

— Desculpe, Manu. Ela está impossível hoje. Vem aqui, Maya, deixe o seu tio.

— Não tem problema, Duda — Emanuel acomodou Ágata em um braço e, com uma facilidade impressionante, pegou Maya com o outro. — Eu dou conta das duas.

Sara apareceu na porta da cozinha, segurando uma taça de vinho, observando a cena com um sorriso enviesado.

— Olhem só para ele. O rei do império das tatuagens, reduzido a um suporte de bebês choronas.

— Não comece, Sara — Emanuel advertiu, mas havia um brilho de diversão em seus olhos.

— Eu não disse nada de errado — ela caminhou até Eduarda e colocou a mão no ombro da moça. — Duda, querida, vá tomar um banho demorado. Eu e o "super-pai" aqui cuidamos das ferinhas. Você está pálida, parece que vai desmaiar.

— Ah, não quero incomodar... — Eduarda começou, mexendo nervosamente na barra do vestido.

— Não é incômodo, é uma ordem — Sara piscou para ela. — E depois vamos conversar sobre aquela loja de roupas que eu comentei. Quero que você selecione umas referências de história da arte para uma estamparia nova que estou pensando. Trabalho remunerado, mocinha. Nada de favores.

Eduarda sorriu, um sorriso genuíno que iluminou seu rosto sensível.

— Obrigada, Sara. De verdade.

Quando Eduarda subiu as escadas, Emanuel ficou observando-a até que ela desaparecesse no corredor do andar superior. O silêncio voltou à sala por alguns segundos, apenas com o som das bebês agora balbuciando uma com a outra no colo dele, a briga pela boneca esquecida tão rápido quanto começara.

— Você olha para ela como se ela fosse feita de vidro, Emanuel — disse Sara, aproximando-se e bebendo um gole do vinho.

Emanuel não desviou o olhar da escada imediatamente. Ele suspirou, sentindo a tensão nos ombros.

— Ela teve uma vida difícil, Sara. Aquele desgraçado a deixou sozinha. Ela é... doce demais para tudo isso.

— Eu sei. E eu gosto dela por isso — Sara tocou o braço dele, a pele coberta por tatuagens intrincadas. — Você não precisa se esconder de mim, lembra? Eu sei o que você sente. E eu não me importo, desde que você continue sendo meu.

Emanuel olhou para a esposa. A confiança de Sara era algo que o desarmava. Ela não era apenas a mulher que ele desejava; ela era sua parceira de vida, a pessoa que conhecia seus abismos.

— Eu sou seu, Sara. Sempre vou ser.

— Eu sei. Mas você também é dela, de um jeito diferente — ela deu de ombros, com uma praticidade que só alguém com formação em administração e uma alma provocadora teria. — E se isso te faz feliz, e se ela nos trouxer essa paz que só ela tem, então que assim seja. Só não espere que eu comece a usar vestidos de camponesa e a falar baixo.

Emanuel riu, uma risada curta e rouca, encostando a testa na de Sara enquanto as duas bebês tentavam puxar seus colares e cabelos.

— Eu nunca pediria isso. Eu gosto da minha loira vulgar exatamente como ela é.

— Vulgar, não. Impactante — corrigiu ela, rindo.

Lá fora, a neblina de Paranapiacaba engoliu a casa por completo, isolando-os do resto do mundo. Dentro daquelas paredes de madeira rangente, um equilíbrio frágil e inusitado começava a se consolidar. Entre fraldas, bonecas de porcelana e olhares trocados à meia-luz, Emanuel percebia que não precisava escolher. O amor, ao contrário da lógica que ele tanto tentava seguir, não era uma conta de subtração, mas uma soma complexa de afetos que ele estava disposto a proteger com toda a sua força.

Eduarda, do topo da escada, observou a cena lá embaixo por um momento antes de entrar no quarto. Ela viu o carinho entre Emanuel e Sara, viu como ele segurava Maya com o mesmo amor que segurava Ágata. Seu coração apertou de um jeito que ela não sabia explicar. Ela se sentia protegida, mas também sentia que algo estava mudando no ar, algo tão denso quanto a neblina lá fora.

Ela não sabia o que o futuro reservava, nem que Sara já havia traçado os planos para que aquela família se tornasse algo muito maior. Por enquanto, ela apenas fechou os olhos e permitiu-se, pela primeira vez em muito tempo, apenas respirar, sabendo que, naquela casa, ela finalmente estava em casa.

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