
Barretos
Fandom: Rincon
Criado: 18/08/2026
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O Brilho da Seda e a Poeira de Barretos
O jato particular cortou as nuvens sobre o interior de São Paulo com a suavidade que apenas o luxo extremo podia proporcionar. No interior da cabine, Karen ajustou a máscara de seda nos olhos, tentando ignorar o leve latejar em suas têmporas. Ela havia passado os últimos sete dias em uma maratona exaustiva em Paris; flashes, ajustes de última hora em vestidos que valiam o preço de uma mansão e o perfume inebriante da Chanel ainda pareciam impregnados em sua pele clara e impecável.
Karen era a definição de alta costura. Sua beleza era uma mistura rara de delicadeza e imponência; a pele negra de tom claro reluzia sob as luzes da cabine, e o cabelo estava preso em um coque perfeitamente alinhado. Ela era educada, falava três idiomas fluentemente e sabia exatamente qual talher usar em um jantar com a realeza. Mas, por trás da fachada de modelo internacional e influenciadora de elite, batia um coração intensamente territorialista.
Ela abriu os olhos e encarou o anel de noivado em seu dedo. Rincon. Seu noivo, o homem que dominava o agronegócio e as redes sociais com a mesma facilidade com que montava um cavalo premiado. Eles se casariam no final do ano, o evento que pararia o país. Mas, antes disso, havia Barretos. Onze dias de poeira, música sertaneja, camarotes lotados e, infelizmente, "amigas" que ela preferia manter a quilômetros de distância.
Ao desembarcar, o calor do Brasil a abraçou. Rincon a esperava no pé da escada do jato. Ele estava impecável: uma camisa de linho entreaberta, o chapéu de feltro levemente inclinado e aquele sorriso que fazia as pernas de Karen vacilarem, mesmo depois de anos juntos.
— Você demorou uma eternidade, minha rainha — disse Rincon, envolvendo a cintura dela com braços fortes e puxando-a para um beijo profundo.
— Paris é longe, Rincon — ela respondeu, sorrindo contra os lábios dele, mas logo seus olhos varreram o pátio ao redor. — E Barretos parece estar mais barulhenta do que o normal este ano.
— É a maior de todas as edições — ele exclamou, guiando-a para a caminhonete de luxo que os aguardava. — O setor de empreendedorismo está bombando, e meus novos investimentos estão no centro de tudo.
Karen sentou-se no banco de couro perfumado, cruzando as pernas longas. Ela sabia do sucesso do noivo, orgulhava-se dele, mas a menção a "novos investimentos" trouxe à tona uma memória amarga.
— Por falar em investimentos... — Karen começou, a voz suave como veludo, mas com um toque de aço. — Como está a parceria da Dodge Ram?
Rincon hesitou por uma fração de segundo, o suficiente para o radar de Karen apitar.
— Está indo bem. A campanha com a Mari Mezes e a Ana Castela trouxe números absurdos para a marca.
Karen sentiu um nó no estômago. Mari Mezes. O nome soava como estática em seus ouvidos. Ela não suportava a forma como Mari agia, sempre com aquele jeito de "menina do interior" que, na visão de Karen, escondia uma ambição desmedida e um interesse nada sutil em Rincon. Ana Castela ela até tolerava, afinal, a menina era um fenômeno e tinha talento, mas Mari? Mari era sonsa. E Karen detestava gente sonsa.
— Imagino que sim — disse Karen, retirando os óculos escuros e encarando o noivo. — Espero que a parceria se limite aos cavalos de potência dos carros, Rincon. Porque eu cheguei, e não estou com paciência para encenações de "melhores amigas" no camarote.
Rincon soltou uma risada curta, tentando aliviar a tensão.
— Você sabe que eu só tenho olhos para você, Karen. Mari é apenas uma influenciadora que entrega o que o público quer.
— O público quer circo, Rincon. Eu entrego classe — ela retrucou, voltando a olhar para a paisagem que passava pela janela. — Vamos logo para o hotel. Preciso de um banho e de um vestido que mostre a essas meninas a diferença entre ser famosa e ser icônica.
O Parque do Peão estava fervendo. O cheiro de churrasco, o som dos berrantes e a batida do sertanejo criavam uma atmosfera eletrizante. Quando o casal entrou no camarote VIP, o mundo pareceu parar por um instante. Rincon, o magnata do agro, e Karen, a musa da Chanel. Eles eram o "power couple" definitivo.
Não demorou muito para que o círculo social se fechasse ao redor deles. E, como um ímã para o caos, Mari Mezes surgiu entre a multidão, segurando um copo personalizado e exibindo um sorriso largo demais.
— Karen! Que bom que você chegou! — exclamou Mari, aproximando-se para um abraço que Karen retribuiu com a rigidez de uma estátua de mármore. — Paris deve ter sido um sonho, mas nada como o cheiro da nossa terra, né?
— Certamente, Mari — respondeu Karen, desvencilhando-se com elegância. — Embora a poeira de Barretos exija um cuidado dobrado com a pele. Nem todos os filtros do Instagram conseguem esconder os danos do sol, não é mesmo?
O sorriso de Mari vacilou por um milésimo de segundo.
— Ah, com certeza. Mas a gente se vira como pode. Rincon, a Dodge Ram quer fazer aquela foto oficial agora, você vem?
Karen sentiu o sangue ferver. A forma como Mari pronunciou o nome dele, com uma intimidade desnecessária, foi o estopim. Ela apertou o braço de Rincon, as unhas perfeitamente feitas cravando-se levemente no linho da camisa dele.
— Ele vai em um minuto, Mari — interveio Karen, antes que Rincon pudesse responder. — Primeiro, meu noivo vai me acompanhar até a nossa mesa. Tivemos uma semana longa e ele sentiu muito a minha falta. Não foi, amor?
Rincon olhou de Karen para Mari, sentindo o campo de força que sua noiva havia erguido.
— Com certeza. Mari, nos encontramos lá em dez minutos.
Quando Mari se afastou, rebolando um pouco mais do que o necessário, Karen virou-se para Rincon.
— Se ela encostar no seu braço naquela foto como se fosse a dona da caminhonete, eu juro que cancelo o contrato de publicidade dela com a minha agência de influência antes do amanhecer.
— Karen, você está sendo exagerada — sussurrou Rincon, embora houvesse um brilho de admiração nos olhos dele. Ele amava aquele fogo dela.
— Eu não sou exagerada, Rincon. Eu sou atenta — ela corrigiu, ajeitando a gola dele. — Ana Castela está ali, veja. Ela é autêntica, canta, tem o brilho dela. Eu respeito isso. Mas a Mari... a Mari é uma sombra que tenta brilhar com a luz dos outros. E eu não permito sombras perto do meu futuro marido.
Mais tarde, no lounge reservado, o encontro com Ana Castela foi mais ameno. A cantora cumprimentou Karen com respeito, reconhecendo a autoridade que a modelo impunha.
— Karen, que prazer te ver. O pessoal da Chanel mandou uns mimos pra mim por causa da sua indicação, obrigada! — disse Ana, sincera.
— Você merece, Ana. Tem estilo e, mais importante, tem verdade — respondeu Karen, lançando um olhar de soslaio para onde Mari tentava puxar assunto com um grupo de investidores. — Continue assim e Barretos será pequena para você.
A noite avançava entre taças de champanhe e conversas sobre negócios. Rincon circulava como o mestre de cerimônias que era, mas seus olhos sempre voltavam para Karen. Ela era o seu norte. No entanto, o ciúme de Karen não era infundado. Ela via as olhadas, os sussurros e a forma como certas mulheres se posicionavam quando Rincon passava.
Em um momento em que Rincon se afastou para falar com o governador, Mari Mezes se aproximou de Karen novamente, desta vez sem a plateia masculina.
— Você não precisa me marcar tão de perto, Karen — disse Mari, o tom de voz agora mais ácido. — Rincon e eu temos uma sintonia ótima de trabalho. Ele gosta da minha energia.
Karen tomou um gole lento de seu drink antes de responder. Ela se aproximou de Mari, ficando a poucos centímetros do rosto da influenciadora. A diferença de altura e a postura de modelo faziam Karen parecer uma gigante diante da outra.
— Escute bem, menina — disse Karen, a voz baixa e perigosamente calma. — Você é uma peça de marketing. Uma peça que pode ser substituída por qualquer outra que tenha um milhão de seguidores e saiba sorrir para uma lente. Eu sou a mulher que divide a vida com ele. Eu sou a mulher que assina os contratos que você implora para conseguir. Não confunda "sintonia de trabalho" com brecha. Rincon gosta de beleza, mas ele venera a lealdade e a classe. Coisas que você ainda está tentando aprender o que são.
Mari abriu a boca para retrucar, mas as palavras pareceram morrer em sua garganta diante do olhar gélido de Karen.
— Agora, se me der licença — continuou Karen —, vou buscar o meu noivo. A poeira de Barretos já está começando a me dar tédio, e eu tenho um casamento de milhões para planejar.
Karen caminhou em direção a Rincon com a graça de uma pantera. Ela deslizou a mão pelas costas dele, reivindicando seu lugar.
— Tudo bem por aqui, meu amor? — perguntou Rincon, percebendo a expressão vitoriosa da noiva.
— Tudo perfeito — ela respondeu, encostando a cabeça no ombro dele. — Só estava lembrando a algumas pessoas que, em Barretos ou em Paris, a rainha nunca perde a coroa.
Rincon riu, abraçando-a com força. Ele sabia que os próximos dez dias seriam intensos. Barretos podia ser o reino do sertanejo, mas ali, naquele camarote, quem ditava as regras era Karen. E ele não queria que fosse de nenhum outro jeito.
Enquanto a música explodia na arena e os fogos de artifício iluminavam o céu do interior, Karen olhou para a multidão. Ela era a elite, a elegância em meio ao caos rústico. E, enquanto estivesse ao lado de Rincon, nenhuma "amiga" ou parceria comercial seria capaz de ofuscar o brilho da mulher que ele escolheu para ser sua esposa.
— Vamos para casa? — sussurrou ela no ouvido dele. — Paris me deixou cansada, mas estar com você me deu uma energia nova.
— Seus desejos são ordens, Karen — respondeu Rincon, guiando-a para fora do camarote sob os olhares invejosos e admirados de todos os presentes.
A temporada de Barretos estava apenas começando, mas para Karen, a batalha já estava ganha. Ela era a única estrela que realmente importava naquela constelação de poeira e luxo.
