
Wrong confusion, right love
Fandom: EngLot
Criado: 18/08/2026
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Cicatrizes, Sardas e Som Tam Thai
O som abafado dos graves das caixas de som ainda ecoava nos ouvidos de Engfa Waraha, mesmo que ela já estivesse do lado de fora daquela espelunca enfumaçada que chamavam de clube. O ar da noite de Bangkok estava pesado, carregado com o cheiro de poluição e comida de rua, mas era melhor do que o cheiro de suor e desespero lá dentro.
Aos vinte e dois anos, Engfa já tinha o corpo marcado por cicatrizes que contavam histórias de brigas de rua e uma ficha na polícia que começava a ganhar volume. Ela era o tipo de problema que as pessoas evitavam encarar nos olhos. Mas naquela noite, seus olhos estavam fixos em apenas um alvo: a garota de dezoito anos que acabara de limpar a mesa de apostas com uma habilidade que beirava o sobrenatural. Ou, como Engfa bem notara, com uma trapaça primorosa.
— Você é rápida com as mãos — disse Engfa, encostando-se na parede de tijolos do beco onde a garota contava os bahts.
A jovem de cabelos castanho-claros nem sequer saltou de susto. Ela apenas deslizou o maço de notas para dentro do bolso da jaqueta e lançou um olhar gélido para Engfa.
— E você é rápida em se meter onde não é chamada — rebateu a garota. — O que você quer?
Engfa deu um passo à frente, deixando a luz do poste revelar o sorriso provisório e perigoso em seu rosto.
— Eu vi o que você fez. Aquele último movimento com o ás de ouros... foi bonito. Mas o dono daquela mesa não gosta de ser enganado. Eu poderia contar para ele, ou você poderia dividir esse prêmio comigo. Uma espécie de taxa de silêncio.
A garota, que Engfa descobriria mais tarde se chamar Charlotte Austin, soltou uma risada curta e seca. Ela deu um passo em direção a Engfa, diminuindo a distância entre as duas. De perto, Engfa notou algo que a paralisou por um segundo: uma constelação de sardas salpicava o nariz e as bochechas daquela garota irritante.
— Escuta aqui, "projeto de bandida" — disse Charlotte, a voz destilando sarcasmo —, eu não divido o que eu ganho com o meu esforço. E se você abrir a boca, eu garanto que você vai se arrepender antes mesmo de terminar a frase.
Engfa soltou uma risada anasalada, achando graça da audácia.
— Você é bem abusada para alguém tão pequena.
O estalo foi seco. Antes que Engfa pudesse reagir, a mão de Charlotte atingiu seu rosto com força. O rosto de Engfa virou para o lado, e o calor do tapa começou a latejar em sua pele.
— Não me chame de pequena — sibilou Charlotte, antes de dar as costas e começar a caminhar em direção à avenida principal.
Engfa tocou o canto da boca, sentindo o gosto metálico do sangue. Ela deveria estar furiosa. Seu instinto, moldado por anos apanhando de pais agressivos e batendo em estranhos para sobreviver, dizia para ela revidar. Mas, em vez disso, ela sentiu uma curiosidade avassaladora.
— Ei! — gritou Engfa, correndo para alcançá-la. — Aonde você vai com tanta pressa? Eu ainda não terminei de falar com você!
— Mas eu terminei de falar com você! — Charlotte apressou o passo, os saltos batendo com força no asfalto. — Vai embora, sua idiota!
— Você bate forte — comentou Engfa, caminhando ao lado dela como se fossem velhas amigas. — Gostei disso. Qual é o seu nome?
— Vai pro inferno!
— Esse é um nome meio longo, não acha? — provocou Engfa, abrindo um sorriso largo. — Eu sou Engfa. E eu estou com fome. Você acabou de ganhar uma fortuna trapaceando, o mínimo que pode fazer é me pagar um Som Tam Thai.
Charlotte parou abruptamente e olhou para Engfa como se ela tivesse duas cabeças.
— Você é louca? Eu acabei de te dar um tapa e você quer que eu te pague comida?
— É o preço por eu não ter te entregado para aqueles brutamontes lá dentro — mentiu Engfa descaradamente. Ela nunca a entregaria, mas a companhia daquela garota sarcástica era interessante demais para abrir mão.
Charlotte suspirou, revirando os olhos com uma impaciência que Engfa achou adorável.
— Se eu te pagar a droga do Som Tam, você me deixa em paz?
— Talvez.
Oito anos depois, aquela cena ainda passava pela mente de Engfa como um filme antigo e favorito.
Engfa, agora com trinta anos, estava sentada no sofá do apartamento que dividia com Charlotte. O tempo tinha moldado sua agressividade em uma proteção possessiva. O mundo a via como uma ameaça — a mulher com seis passagens pela polícia, que não pensava duas vezes antes de quebrar o nariz de quem olhasse torto para o que era dela. Mas ali, naquele espaço, ela era apenas Engfa.
A porta do apartamento se abriu e Charlotte entrou, jogando as chaves na mesa de entrada. Ela parecia exausta, o cabelo levemente ondulado um pouco bagunçado pelo vento de Bangkok.
— Que cara é essa, P’Fa? — perguntou Charlotte, percebendo o olhar intenso da mais velha. — Alguém morreu ou você está planejando sua sétima entrada no sistema prisional?
Engfa se levantou e caminhou até ela, envolvendo a cintura de Charlotte com os braços tatuados e cheios de pequenas cicatrizes de brigas recentes. Ela enterrou o rosto no pescoço de Charlotte, inalando o perfume cítrico que tanto amava.
— Só estava pensando no dia em que você me roubou — murmurou Engfa, a voz rouca e manhosa.
Charlotte soltou uma risada, mas não se afastou. Ela passou as mãos pelos cabelos castanhos de Engfa, acariciando a nuca da namorada.
— Eu não te roubei. Eu recebi um pagamento adiantado por ter que aguentar sua inconveniência por duas horas.
— Você levou minha carteira inteira, Charlotte! — Engfa se afastou apenas o suficiente para olhar o rosto da outra. — Eu tive que voltar para casa a pé porque não tinha dinheiro nem para o mototáxi.
— E olha onde estamos agora — disse Charlotte, com um sorriso sarcástico. — Você ainda me segue como um cachorrinho carente.
Engfa apertou o abraço, a possessividade brilhando em seus olhos por um segundo antes de se transformar em pura adoração.
— Porque você é minha.
— Sou? — Charlotte arqueou uma sobrancelha, desafiadora. — Eu não me lembro de ter assinado nenhum contrato de propriedade.
Engfa não respondeu com palavras. Ela inclinou a cabeça e começou a depositar beijos lentos e deliberados sobre as sardas de Charlotte. Era sua maior obsessão. Cada pequeno ponto marrom na pele clara de Charlotte era um tesouro que Engfa sentia a necessidade de proteger do resto do mundo.
— Para com isso — resmungou Charlotte, embora seu corpo estivesse relaxando contra o de Engfa. — Eu estou irritada, tive um dia longo.
— Eu cuido de você, Charlie — murmurou Engfa, subindo os beijos para a têmpora de Charlotte. — Quer colo?
Charlotte tentou manter a pose de independência por mais alguns segundos, mas a verdade é que o mundo lá fora era difícil demais. Ela perdera os pais cedo, aprendera a ser afiada e defensiva para não ser esmagada. Engfa era a única pessoa que conseguia desarmá-la, a única que via além da língua afiada e da inteligência sarcástica.
— Quero — admitiu Charlotte em um sussurro, a voz perdendo a agressividade.
Engfa a guiou de volta para o sofá, sentando-se e puxando Charlotte para o seu colo. A diferença de tamanho não era grande, mas Engfa sempre dava um jeito de envolver Charlotte completamente, como se estivesse criando um escudo contra o universo.
— Você brigou de novo hoje, não foi? — perguntou Charlotte, tocando uma nova marca avermelhada nos nós dos dedos de Engfa.
— Aquele cara no mercado estava sendo desrespeitoso — justificou Engfa, o tom de voz subindo um pouco. — Ele não podia falar daquele jeito com você.
— P’Fa, eu sei me defender sozinha — disse Charlotte, dando um leve tapa no ombro de Engfa. — Eu tenho três passagens pela polícia, esqueceu? Eu não sou uma donzela em perigo.
— Eu sei que não é — Engfa suspirou, encostando a testa na de Charlotte. — Mas eu não consigo evitar. Quando alguém olha para você do jeito errado, eu sinto como se meu sangue estivesse fervendo. Eu quero arrancar os olhos de quem ousa te incomodar.
— Você tem problemas de raiva, isso sim — disse Charlotte, mas havia doçura em seu tom. — Mas eu amo que você seja minha idiota protetora.
— Só sua — reafirmou Engfa.
Elas ficaram em silêncio por um tempo, apenas aproveitando a presença uma da outra. A dinâmica delas era um caos controlado. Duas mulheres que o sistema tentou quebrar, que a vida tratou com dureza, mas que encontraram uma na outra um tipo de paz que não existia nos arquivos policiais ou nas ruas de Bangkok.
— Sabe o que eu estava pensando? — começou Charlotte, brincando com os dedos de Engfa.
— O quê?
— Que eu realmente estava com fome de Som Tam Thai naquele dia. Mas você escolheu o lugar mais barato da cidade.
Engfa deu uma risada vibrante, que fez o peito de Charlotte vibrar junto.
— Era o que o meu dinheiro podia pagar antes de você levar minha carteira!
— Justo — concedeu Charlotte. — Mas hoje, você vai pedir um jantar decente. E nada de brigar com o entregador se ele demorar cinco minutos a mais.
Engfa fez um biquinho, a imagem da "ameaça ambulante" desaparecendo completamente para dar lugar à mulher manhosa que só Charlotte conhecia.
— Só se você prometer que vai ficar aqui abraçada comigo o resto da noite.
Charlotte fingiu considerar a proposta, observando as cicatrizes nos braços de Engfa e depois olhando para o rosto da mulher que a amava com uma intensidade quase assustadora.
— Prometo — disse Charlotte, selando a promessa com um beijo rápido nos lábios de Engfa. — Mas se você começar a ficar possessiva demais porque o entregador sorriu para mim, eu roubo sua carteira de novo.
Engfa sorriu, puxando Charlotte para mais perto, o coração batendo forte contra as costelas.
— Pode roubar, Charlie. Tudo o que é meu já é seu mesmo.
Naquela noite, entre o sarcasmo de uma e a proteção obsessiva da outra, o apartamento no coração de Bangkok tornou-se o único lugar no mundo onde duas "criminosas" podiam finalmente baixar a guarda e ser apenas duas pessoas perdidamente apaixonadas. Engfa continuaria contando as sardas de Charlotte como se fossem estrelas, e Charlotte continuaria sendo a única âncora capaz de manter Engfa Waraha longe do abismo.
— Eu te amo, sua trapaceira — sussurrou Engfa contra o cabelo castanho-claro.
— Eu também te amo, sua inconveniente — respondeu Charlotte, fechando os olhos e deixando-se levar pelo calor daquele abraço que era, e sempre seria, o seu único e verdadeiro lar.
