Fanfy
.studio
Imagem de fundo

por que voce me trata assim

Fandom: pai ausente, mas novo recomeço

Criado: 18/08/2026

Tags

DramaAngústiaDor/ConfortoFatias de VidaRealismoEstudo de PersonagemTragédia
Índice

Onde o Silêncio se Torna Lar

As janelas da pequena casa em um subúrbio cinzento de Londres estavam sempre limpas, mas o brilho que emanava delas era apenas um reflexo pálido do sol que raramente aparecia. Dentro daquelas paredes, Anna Williams, agora com nove anos, movia-se com a sutileza de um fantasma e a graça de uma mulher feita. Aos sete, o mundo dela havia desmoronado em tons de branco hospitalar e o cheiro metálico de remédios que não podiam curar o incurável.

A pequena Anna estava sentada à mesa da cozinha, os pés balançando a alguns centímetros do chão, enquanto observava o bule de chá soltar fumaça. Ela aprendeu a fazer o chá exatamente como Hannah gostava — com um toque de mel e uma rodela de limão. Às vezes, por um segundo de distração, ela ainda esperava que a mãe entrasse pela porta, com o rosto pálido, mas o sorriso vibrante, dizendo que tudo ficaria bem.

Mas Hannah não voltaria. E a razão de sua partida precoce tinha um nome, um sobrenome e uma conta bancária recheada que nunca foi usada para salvá-la.

A porta da frente se abriu com um rangido familiar.

— Anna, querida? Sou eu! — A voz de Tia Milla ecoou pelo corredor, trazendo consigo o aroma de sabão de lavar roupa e o cansaço de quem carregava o mundo nas costas.

Anna saltou da cadeira, um sorriso genuíno iluminando seu rosto doce.

— Estou aqui na cozinha, tia Milla. O chá está pronto.

Milla entrou na cozinha, deixando sua bolsa pesada sobre o balcão. Ela olhou para a sobrinha e sentiu um aperto no peito. Anna era a imagem cuspida de Hannah: os mesmos olhos gentis, a mesma alma entregue. A guarda da menina fora um processo doloroso, mas necessário. Milla tinha quatro filhos em um apartamento apertado; trazer Anna para lá seria sufocá-la ainda mais. Por isso, o arranjo agridoce: Anna morava na casa que fora da mãe, e Milla vinha todos os dias, cuidando da limpeza, da comida e garantindo que a solidão não engolisse a pequena de vez.

— Você não deveria estar mexendo no fogão sozinha, pequena — disse Milla, aproximando-se para beijar o topo da cabeça de Anna.

— Eu tomei cuidado, eu juro — respondeu Anna, abraçando a cintura da tia. — Eu não queria que você tivesse que fazer tudo quando chegasse. Você já trabalha tanto.

Milla suspirou, acariciando os cabelos da menina. Era isso que mais a machucava. Anna não agia como uma criança de nove anos. Ela agia como alguém que entendia cedo demais que o apoio é um recurso escasso.

— Você é um anjo, Anna. Hannah estaria tão orgulhosa...

O nome da mãe pairou no ar, trazendo consigo a sombra do homem que as destruiu.

— Ela estaria orgulhosa de você, tia. Não dele.

Milla ficou em silêncio. Ela sabia a quem Anna se referia. Liam Williams. O homem que, quando a esposa começou a definhar pela leucemia, não ofereceu a mão, mas as costas. O homem que revelou, com uma frieza cirúrgica, que já tinha outra vida, outra mulher e, o mais importante para o seu ego inflado, um filho homem.

— Ele ligou de novo? — perguntou Milla, a voz baixa.

— Não — respondeu Anna, os olhos fixos na xícara de chá. — E eu espero que não ligue. Ele tem o dinheiro dele, o filho dele e a vida dele. Nós temos o nosso silêncio. É melhor assim.

Enquanto isso, do outro lado da cidade, em uma cobertura de vidro e aço que parecia tocar as nuvens, Liam Williams observava a chuva bater contra a vidraça. Ele segurava um copo de uísque caro, o líquido âmbar refletindo a luz dos lustres de cristal. Ao fundo, o som de risadas infantis vinha do quarto de brinquedos, onde seu filho, o herdeiro que ele sempre desejou, brincava com carrinhos eletrônicos que custavam mais do que o aluguel anual de Milla.

Liam era um homem de sucessos. Ele construíra um império. Mas, às vezes, no silêncio da noite, a imagem de Hannah, magra e frágil, implorando por uma chance de tratamento, invadia seus pensamentos. Ele a deixara morrer porque era mais fácil recomeçar do que consertar o que estava quebrado. E Anna... Anna era um lembrete vivo de seu maior fracasso moral.

— Liam? — A voz de sua atual esposa, elegante e alheia à dor do passado, o chamou. — Você está pensando naquela menina de novo? Já conversamos sobre isso. Você manda o dinheiro da pensão mínima que o advogado estipulou. É o suficiente.

— Eu sei — respondeu Liam, a voz desprovida de emoção. — Ela está com a tia. Milla sempre foi sentimental demais, vai cuidar dela.

— Exatamente. Não estrague o que temos aqui por causa de um erro do passado.

Liam assentiu, mas o peso em seu peito não diminuiu. Ele não era um homem bom, e sabia disso. Ele preferia o luxo da sua ignorância à realidade do sofrimento que causara.

De volta à pequena casa, a noite caía. Milla já havia partido para cuidar de seus próprios quatro filhos, após garantir que Anna estivesse alimentada e segura. A menina estava em seu quarto, folheando um álbum de fotos antigo.

Havia uma foto específica que ela evitava, mas que hoje parecia chamá-la. Nela, Liam segurava Anna nos braços quando ela era apenas um bebê. Ele sorria para a câmera, mas Anna, agora mais velha e com os olhos abertos pela dor, conseguia ver a falsidade naquele brilho.

— Você não faz falta — sussurrou ela para a foto.

Subitamente, o telefone fixo na sala começou a tocar. O som estridente cortou o silêncio da casa. Anna hesitou. Ninguém ligava àquela hora, a menos que fosse uma emergência.

Ela desceu as escadas lentamente e atendeu.

— Alô?

Houve um silêncio do outro lado. Uma respiração pesada, hesitante.

— Anna? — A voz era profunda, masculina, e carregada de uma hesitação que ela reconheceria em qualquer lugar.

O coração de Anna disparou, mas não de alegria. Foi uma descarga de adrenalina e ressentimento.

— O que você quer, Liam? — A voz dela saiu firme, desprovida da doçura que ela reservava para Milla.

— Eu... eu sou seu pai, Anna. Você não deveria me chamar pelo nome.

— Um pai é alguém que fica — rebateu a menina, as mãos apertando o fio do telefone. — Um pai é alguém que ajuda a pagar os remédios da mãe. Você é apenas o homem que nos deixou no escuro.

— As coisas são complicadas, Anna. Você é pequena demais para entender o mundo dos negócios, as responsabilidades...

— Eu entendi o suficiente para saber que você preferiu comprar brinquedos novos para um filho que nem conhecia a mãe, enquanto ela morria de dor. Eu entendi que o seu dinheiro vale mais do que a nossa vida.

— Não fale assim! — A voz de Liam subiu de tom, a arrogância habitual voltando à tona. — Eu estou ligando para dizer que vou enviar uma caixa com algumas coisas. Roupas, talvez um computador. Meu filho ganhou modelos novos e...

Anna sentiu uma náusea subir pela garganta.

— Não queremos suas sobras, Liam. Dê para alguém que precise, ou jogue no lixo, que é onde você coloca as pessoas quando se cansa delas.

— Anna, escute...

— Não. Escute você — interrompeu ela, uma lágrima solitária escorrendo, mas sua voz permanecendo estável. — A tia Milla me ama. Ela não tem um centavo sobrando, mas ela tem um coração. Você tem milhões, mas é vazio por dentro. Não ligue mais para cá.

Ela desligou o telefone. O silêncio voltou a reinar na casa, mas desta vez, parecia mais leve.

Anna subiu para o quarto e abriu a janela. O ar frio da noite londrina tocou seu rosto. Ela olhou para as estrelas, imaginando que Hannah estava em algum lugar ali, cuidando dela.

— Eu vou ficar bem, mamãe — prometeu ela em voz baixa. — Nós não precisamos dele.

Naquela noite, Anna Williams não chorou pelo pai que a abandonou. Ela dormiu com a certeza de que a riqueza não se media pelo que se tinha no banco, mas por quem ficava ao seu lado quando as luzes se apagavam. E, enquanto Liam Williams se afogava em seu uísque e em sua culpa mascarada de orgulho, a pequena Anna recomeçava, tijolo por tijolo, a construir um futuro onde o amor era a única moeda que importava.

O recomeço era difícil, morar "sozinha" com a supervisão da tia era um desafio para uma criança, mas Anna era uma Williams de sangue, e uma sobrevivente de coração. Ela tinha a doçura de Hannah e a força que Liam nunca teria a coragem de possuir.

A manhã seguinte trouxe um sol tímido. Anna acordou, arrumou sua cama com perfeição e desceu para preparar o café. Quando Tia Milla chegou, encontrou a menina regando as flores que Hannah tanto amava no jardim da frente.

— Bom dia, tia Milla! — exclamou Anna, correndo para abraçá-la.

— Bom dia, meu amor. Você parece... diferente hoje. Mais radiante.

Anna sorriu, um sorriso que alcançava os olhos e dissipava as sombras do passado.

— Eu só percebi que a gente tem tudo o que precisa bem aqui.

Milla não entendeu completamente, mas apertou a mão da sobrinha. Elas entraram na casa, deixando para trás o fantasma de um homem rico que, no fim das contas, era o mais pobre de todos.

Índice

Quer criar seu próprio fanfic?

Cadastre-se na Fanfy e crie suas próprias histórias!

Criar meu fanfic