
Equilíbrio Frágil sob a Tempestade
O estúdio de tatuagem de Emanuel, localizado no andar superior de um de seus empreendimentos mais luxuosos, exalava o cheiro característico de tinta, álcool e couro. Era o seu santuário, o lugar onde o caos do mundo exterior costumava ser domado pela precisão de suas agulhas. No entanto, naquela manhã, a tensão não vinha de um desenho complexo, mas do peso das responsabilidades que carregava nos ombros.
Emanuel limpou as mãos em um pano descartável, observando o reflexo no espelho. Aos 25 anos, ele construíra um império, mas sentia-se constantemente como um malabarista tentando manter duas joias raras no ar sem que nenhuma caísse. De um lado, Sara, sua namorada oficial perante a sociedade, uma mulher de presença avassaladora, curvas esculpidas e uma personalidade que oscilava entre o sarcasmo ácido e a paixão desenfreada. Agora, ela carregava o fruto de um mês de gestação, o que elevava o instinto protetor de Emanuel a níveis quase doentios.
Do outro lado, Eduarda. Duda. Sua pequena bailarina de vinte anos, estudante de História da Arte, que parecia feita de porcelana e brisa matinal. Ela era o seu porto seguro, a doçura que equilibrava a intensidade de Sara.
A porta do estúdio se abriu e o som de saltos altos anunciou a chegada de Sara. Ela usava um vestido justo de seda vermelha que deixava pouco para a imaginação, realçando o silicone e a postura de quem era dona do mundo.
— Onde está a minha formiguinha? — perguntou Sara, a voz carregada de uma ironia afetuosa. Ela não via Eduarda como uma ameaça; para ela, a menina era como um bicho de estimação precioso que ambos compartilhavam.
Emanuel suspirou, aproximando-se para beijar a testa de Sara, antes de levar a mão à barriga dela, ainda plana.
— Duda está na cozinha com a minha mãe — respondeu ele, a voz rouca. — Estão tramando algo que eu não gosto nada.
Nesse momento, Eduarda entrou no recinto. Ela vestia uma saia de tule leve e uma regata de algodão cru, os cabelos castanhos presos em um coque frouxo de bailarina. Seus olhos expressivos brilharam ao ver os dois. Ela se aproximou de Emanuel, encostando a cabeça em seu peito de forma manhosa, buscando o calor que só ele provia.
— Emanuel... — murmurou ela, a voz suave. — Sua mãe quer me levar para visitar a Dona Zoraide.
Emanuel travou imediatamente. Ele conhecia a fama da tal mulher. Uma senhora que vivia isolada na mata, cercada por lendas de bruxaria e ervas medicinais. O caminho até lá era uma trilha íngreme, perigosa para alguém tão delicada quanto Duda.
— Nem pensar — disse ele, a voz ficando rígida, o tom de controle assumindo o comando. — Aquela trilha é péssima, Duda. Você é professora de ballet, vive cansada dos ensaios. E minha mãe não tem juízo. É perigoso.
Sara soltou uma risada curta, sentando-se em uma das macas de couro com as pernas cruzadas.
— Deixe a menina ir, Emanuel. Ela precisa de um pouco de aventura, não pode viver guardada em uma redoma de vidro só porque você quer ser o guarda-costas 24 horas por dia.
— Não é redoma, Sara, é segurança — rebateu ele, irritado. — E você também deveria estar descansando. Um mês de gravidez é um período sensível.
Eduarda fez um biquinho, apertando a camisa de Emanuel entre os dedos pequenos.
— Eu vou, Emanuel. Eu quero ir. A Dona Zoraide conhece ervas que ajudam na circulação, eu pensei que poderia trazer algo para a Sara não ter tantos enjoos... e para o bebê crescer forte.
O argumento de Eduarda desarmou Emanuel por um segundo, mas a teimosia dele era vasta.
— Eu disse que não. É minha última palavra.
Eduarda se afastou dele, cruzando os braços. A timidez habitual deu lugar a uma pirraça silenciosa, mas evidente. Ela não gritava, apenas ficava quieta, com o olhar fixo no chão e os lábios comprimidos.
— Se você me proibir, eu vou ficar sem falar com você o final de semana todo — declarou ela, com uma coragem que raramente demonstrava.
Sara assobiou, achando graça da situação.
— Olha só, a bonequinha tem garras. Eu gosto disso.
Emanuel passou a mão pelo rosto, sentindo o estresse pulsar em suas têmporas. Ele amava as duas de formas diferentes, mas igualmente profundas. O que ele mais queria era que elas estivessem seguras. A ideia de Duda se machucando em uma trilha ou de Sara ter qualquer complicação o deixava à beira de um colapso.
— Façam o que quiserem — rosnou ele, saindo do estúdio para buscar um copo de água, a paciência esgotada.
No dia seguinte, a expedição aconteceu. A mãe de Emanuel, uma mulher energética e mística, guiou Eduarda pela mata fechada. A trilha era, de fato, muito mais pesada do que a jovem bailarina imaginava. Galhos arranhavam seus braços finos, pedras soltas faziam seus tornozelos de bailarina trabalharem em dobro para manter o equilíbrio, e o solo úmido a fez escorregar mais de uma vez.
Quando Eduarda retornou para a mansão de Emanuel no final da tarde, ela parecia ter passado por uma batalha.
Emanuel estava na sala, revisando planilhas de suas lojas de roupas e estúdios, enquanto Sara lixava as unhas, usando um conjunto de lingerie de renda e um robe transparente. O clima de tranquilidade foi quebrado quando a porta se abriu.
Emanuel se levantou de um salto ao ver Eduarda.
— Meu Deus, Duda!
A menina estava pálida, mas sorria. Suas pernas e braços estavam repletos de manchas roxas e pequenos cortes. A pele clara e delicada evidenciava cada marca deixada pela natureza bruta.
— Eu estou bem... — disse ela, a voz um pouco trêmula pelo cansaço físico. — Foi lindo, Emanuel. A Dona Zoraide é uma pessoa incrível.
Emanuel se aproximou, pegando-a no colo sem cerimônia. Ele a levou até o sofá, ignorando os protestos baixos dela.
— Eu avisei — disse ele, a voz vibrando de uma mistura de raiva e preocupação extrema. — Olhe para você. Está cheia de hematomas. Se você tivesse quebrado um tornozelo, Eduarda? Como seria com suas aulas de ballet?
Sara se aproximou, olhando as marcas com curiosidade, mas sem o pânico de Emanuel. Ela tocou o rosto de Eduarda com as unhas longas e bem feitas.
— Deixe de ser dramático, Emanuel. São só roxos. Ela sobreviveu. Trouxe o que eu pedi, formiguinha?
Duda assentiu, tirando da bolsa de pano um pequeno frasco com um líquido escuro e alguns ramos de ervas secas.
— É para o chá... e um óleo para passar na barriga, para não dar estrias e acalmar o bebê — explicou Duda, olhando para Emanuel com uma expressão pidona. — Não fica bravo, por favor.
Emanuel olhou para o frasco e depois para as duas mulheres à sua frente. Sara, a força indomável e agora o ventre que carregava seu herdeiro; e Eduarda, a fragilidade que, paradoxalmente, enfrentava trilhas perigosas apenas para cuidar de quem amava.
— Eu não consigo ficar bravo com você por muito tempo, e você sabe disso — suspirou ele, ajoelhando-se entre as pernas de Eduarda no sofá. — Mas você vai ficar de repouso. Eu mesmo vou cuidar desses hematomas.
— Ele é tão mandão, não é? — provocou Sara, sentando-se ao lado deles e apoiando a mão no ombro de Emanuel. — Mas no fundo, ele só está morrendo de medo de perder o controle sobre nós.
Emanuel não respondeu. Ele apenas começou a passar um pomada cicatrizante nas pernas de Eduarda, seus dedos de tatuador — acostumados a ferir a pele para criar arte — agora tocando a pele dela com a leveza de uma pluma.
— Eu só quero que vocês entendam que são tudo o que eu tenho — murmurou ele, a guarda finalmente baixando. — Se algo acontece com uma de vocês, o meu mundo para.
Eduarda inclinou-se para frente, beijando o topo da cabeça de Emanuel, enquanto Sara se aninhava nas costas dele. Naquela sala luxuosa, cercados por conflitos de personalidade e pressões externas, os três encontraram um equilíbrio bizarro, mas funcional.
— Nós não vamos a lugar nenhum, Emanuel — disse Sara, com uma suavidade rara. — E o seu filho vai ser tão teimoso quanto você.
— E eu vou ensinar ele a dançar — completou Eduarda, fazendo Emanuel soltar um riso curto, o primeiro em muitos dias.
Ele sabia que a vida com elas nunca seria simples. Entre o temperamento vulcânico de Sara e a manha persistente de Eduarda, ele estaria sempre em estado de alerta. Mas, observando Duda relaxar sob seus cuidados e Sara acariciar a própria barriga com um olhar sonhador, Emanuel percebeu que, pela primeira vez, o controle não importava tanto quanto a entrega.
— Amanhã — começou Emanuel, sem parar o movimento das mãos — eu vou comprar todas as vitaminas que o médico recomendou para a Sara. E para você, Duda, vou contratar um massagista esportivo para tirar essa tensão muscular.
— Eu prefiro que você faça a massagem — retrucou Eduarda, voltando ao seu estado manhoso.
— Eu também quero massagem — interveio Sara, arqueando uma sobrancelha. — Carregar um herdeiro cansa, sabia?
Emanuel olhou para o teto, fingindo exaustão, mas um sorriso discreto brincava em seus lábios. Ele era um homem rico, influente e poderoso, mas ali, entre as marcas de roxo de uma trilha e a promessa de uma nova vida, ele era apenas um homem perdidamente rendido às suas duas mulheres.
A noite caiu sobre a cidade, mas dentro daquele refúgio, o tempo parecia seguir um ritmo próprio. Um ritmo ditado pelo bater do coração de um bebê, pelo deslizar de sapatilhas de ballet e pelo som das agulhas de tatuagem que, em breve, marcariam na pele de Emanuel os nomes das razões de sua existência.
