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Fandom: Nenhum
Criado: 19/08/2026
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O Eco do Silêncio e o Sangue das Rosas
O ar na mansão dos Albuquerque estava saturado com o perfume pesado de lírios e o aroma de um assado requintado, mas para Eduarda, o ambiente parecia sufocante. Ela se encolheu um pouco mais em seu vestido de seda bege, uma peça fluida que costumava fazê-la se sentir leve, mas que hoje parecia pesar toneladas sobre seus ombros magros. Aos vinte anos, a estudante de História da Arte sempre fora o ponto de suavidade naquele trio, a nota baixa e doce que equilibrava a intensidade vibrante de Sara e a rigidez pragmática de Emanuel.
No entanto, desde a visita àquela mulher na trilha — a "bruxa", como Emanuel a chamava com desprezo —, algo dentro de Eduarda havia mudado. A timidez ainda estava lá, mas agora vinha acompanhada de uma teimosia silenciosa, uma resistência que emanava de seus ossos.
Do outro lado da sala de estar, Emanuel estava sentado no braço da poltrona onde Sara repousava. A cena era quase uma pintura renascentista de proteção e opulência. Sara, aos quatro meses de gestação, exibia uma barriga que já começava a marcar o tecido justo de seu vestido de grife esmeralda. Ela irradiava uma confiança absoluta, a mão de Emanuel repousando possessivamente sobre seu ventre, onde Valentina crescia.
— Você precisa beber mais água, Sara. — A voz de Emanuel era baixa, tingida por aquela autoridade cuidadosa que ele exercia tão bem. — O médico disse que a hidratação é fundamental nesta fase.
— Eu sei, meu amor. — Sara sorriu, uma expressão de pura satisfação, inclinando a cabeça para trás para receber um beijo na testa. — Não seja tão mandão. Valentina está ótima, eu sinto.
Eduarda desviou o olhar, sentindo uma pontada de algo que não era ciúme — ela amava Sara, amava a forma como a loira a acolhera sem reservas —, mas sim uma solidão profunda. Desde a briga feia que tivera com Emanuel há dois dias, o tatuador mal olhava em seus olhos. Ele estava furioso pela sua "aventura" na floresta, furioso pelas marcas de arranhões que ainda cicatrizavam em suas pernas e, acima de tudo, furioso porque ela o desafiara.
— Eduarda, querida, você mal tocou no seu vinho — comentou Dona Beatriz, a mãe de Emanuel, aproximando-se com um olhar analítico que fez a jovem se encolher.
— Eu não estou com muita sede, Dona Beatriz — respondeu Eduarda, a voz saindo pequena.
— E nem com apetite, pelo que vi nos aperitivos — acrescentou a tia de Emanuel, Margareth, juntando-se ao círculo. Ela estreitou os olhos, observando as maçãs do rosto de Eduarda, que pareciam mais pálidas, e o brilho incomum em seus olhos escuros. — Emanuel, você tem cuidado dessa menina? Ela está com uma cara...
Emanuel levantou o olhar, finalmente focando em Eduarda. O olhar dele era frio, uma barreira de gelo que escondia a preocupação latente.
— Ela tem sido teimosa, tia. Anda se esforçando demais na faculdade e fazendo trilhas que não deveria.
— Não é cansaço de trilha, Emanuel — disse Dona Beatriz, cruzando os braços e sorrindo de um jeito que fez o estômago de Eduarda dar um nó. — Eu conheço esse brilho. É o mesmo que a Sara teve logo nas primeiras semanas. Eduarda, você está com cara de grávida.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Sara parou de acariciar a própria barriga e olhou para Eduarda com curiosidade genuína, sem qualquer traço de malícia. Emanuel, por outro lado, levantou-se lentamente, a postura rígida, a tensão acumulada em seus ombros largos tornando-se evidente.
— Isso é impossível — disse Eduarda, a voz trêmula, mas firme. — Eu... eu estou menstruando. Tive meu ciclo na semana passada. É apenas o estresse das provas finais.
— Algumas mulheres continuam tendo escapes, querida — insistiu Margareth, dando um passo à frente. — E esse seu jeito, está mais manhosa, mais sensível. Emanuel, você não percebeu?
— Ela está sempre manhosa — retrucou Emanuel, embora seus olhos estivessem agora escaneando Eduarda com uma intensidade clínica, como se tentasse ler as células sob sua pele. — Mas ela diz que é impossível. E Eduarda não mentiria sobre isso. Mentiria?
Eduarda sentiu o peso da pergunta. A verdade era que ela se sentia estranha. Seus seios, normalmente macios, estavam doloridos e pareciam mais pesados sob o sutiã de renda. Havia um cansaço que não passava com o sono, e certos cheiros — como o do estúdio de tatuagem de Emanuel que antes ela amava — agora a faziam querer correr para o banheiro. Mas admitir isso era admitir a derrota. Era dar a Emanuel mais um motivo para trancá-la em uma redoma de vidro, assim como ele estava fazendo com Sara.
— Eu não estou mentindo — declarou ela, levantando o queixo, um gesto de obstinação que não combinava com sua aparência delicada. — Eu não vou fazer teste nenhum porque não há necessidade.
— Duda, meu bem — Sara interveio, sua voz melodiosa e calma —, se houver a menor chance, seria bom saber. Por precaução. Imagine se Valentina tiver um irmãozinho ou irmãzinha a caminho? Seria perfeito.
— Não há chance, Sara — Eduarda insistiu, sentindo as lágrimas picarem seus olhos. — Por favor, parem de me olhar assim.
Emanuel deu um passo em direção a ela, sua presença dominando o espaço. Ele era um homem rico, poderoso, acostumado a controlar impérios de tinta e negócios, mas diante da fragilidade obstinada de Eduarda, ele parecia à beira de uma explosão.
— Se as minhas tias e minha mãe estão notando algo, Eduarda, o mínimo que você deve fazer é tirar a dúvida. Você tem agido de forma irresponsável ultimamente. Aquela caminhada na mata... se você estivesse grávida e caísse...
— Mas eu não estou! — ela gritou, sua voz ecoando pelo salão de jantar, silenciando até os criados ao fundo. — Você quer controlar tudo, Emanuel! Quer controlar o que eu sinto, por onde eu ando e agora quer controlar até o meu corpo! Eu não sou um dos seus estúdios que você gerencia por planilha!
O rosto de Emanuel escureceu. A veia em sua têmpora saltou, um sinal claro de que sua paciência lógica havia chegado ao fim.
— Nós vamos para casa — disse ele, a voz perigosamente baixa. — Agora.
O trajeto no carro foi um deserto de palavras. Emanuel dirigia com as mãos apertando o volante até os nós dos dedos ficarem brancos. Sara, no banco de trás, mantinha uma mão no ombro de Eduarda, tentando oferecer um conforto que a jovem não conseguia absorver.
Ao chegarem na cobertura de luxo, Emanuel não esperou. Ele foi direto para a suíte principal, abrindo a gaveta do banheiro onde guardavam medicamentos básicos. Ele voltou para a sala com uma caixa pequena, lacrada.
— Faça. Agora — ordenou ele, colocando o teste de gravidez sobre a mesa de centro de mármore.
— Não — Eduarda sussurrou, recuando. — Você não pode me obrigar.
— Eduarda, por favor — pediu Sara, sentando-se no sofá com um suspiro cansado. — É apenas para acalmar os nervos dele. Você sabe como o Emanuel fica quando sente que perdeu o controle da segurança da família.
— Eu não sou parte de um experimento! — Eduarda explodiu, as lágrimas finalmente caindo. — Eu tive sangue, Emanuel! Eu vi! Como eu poderia estar grávida?
— Existem hematomas subcoriônicos, Eduarda. Eu li sobre isso assim que a Sara engravidou — Emanuel respondeu, a lógica fria retornando, embora sua voz ainda estivesse carregada de irritação. — O fato de você estar sangrando não exclui a possibilidade. E se você estiver, cada minuto que você passa se recusando a ver a realidade é um risco para a criança.
Eduarda olhou para o teste e depois para o homem que amava. Ela via o protetor, o pilar de sua vida, mas também via o carcereiro de seus desejos. Em sua mente, uma imagem surgiu: um campo de flores silvestres e dois nomes que ecoavam como um sussurro constante desde que voltara daquela trilha mística. Amélie. Benício.
Ela balançou a cabeça, tentando afastar os pensamentos. Eram apenas nomes. Eram apenas fantasias de uma mente exausta.
— Eu não vou fazer — repetiu ela, a voz agora gélida. — E se você tentar me forçar, eu saio por aquela porta e não volto.
Emanuel paralisou. A ameaça de Eduarda, a menina que sempre buscava seu colo, que sempre pedia permissão silenciosa para tudo, o atingiu como um soco no estômago. Ele viu, pela primeira vez, que a doçura dela tinha um limite, e que ele havia acabado de cruzá-lo.
— Tudo bem — disse ele, recuando um passo, as mãos levantadas em sinal de rendição momentânea. — Não faça o teste hoje. Mas amanhã, nós vamos ao médico. Para um check-up geral. Se você não está grávida, então está doente, porque você não é a mesma Eduarda de um mês atrás.
— Talvez eu só tenha crescido, Emanuel — ela retrucou, antes de se virar e correr para o quarto de hóspedes, trancando a porta atrás de si.
Sara aproximou-se de Emanuel, passando os braços pela cintura dele.
— Você foi duro demais, querido. Ela está assustada.
— Ela está agindo como uma criança irresponsável, Sara. — Emanuel enterrou o rosto nas mãos. — Se ela estiver carregando um filho meu... e continuar subindo montanhas ou se recusando a comer direito... eu vou enlouquecer.
— Ela está grávida — afirmou Sara com uma certeza absoluta, encostando a cabeça no peito dele. — Eu sinto isso. E não é apenas um, Emanuel. Há algo de diferente na energia dela. É duplo. É forte.
Emanuel olhou para a porta trancada, o conflito interno rasgando sua máscara de controle. Ele era um homem de fatos, de ciência, de negócios. Mas, naquela noite, enquanto o silêncio caía sobre o apartamento, ele não pôde deixar de sentir que o caos estava apenas começando.
Dentro do quarto, Eduarda estava encolhida na cama, as mãos pressionadas contra o ventre ainda plano. Ela sentia uma pulsação ali. Não um, mas dois batimentos rítmicos, quase imperceptíveis, que pareciam zombar de sua negação.
— Amélie... Benício... — sussurrou ela no escuro, as palavras saindo como uma prece ou uma maldição.
Ela sabia. No fundo de sua alma, onde a intuição emocional que Emanuel tanto desprezava residia, ela sabia. Ela estava carregando gêmeos. Um menino e uma menina. E o medo de perder sua recém-descoberta liberdade para o instinto esmagador de proteção de Emanuel era a única coisa que a impedia de gritar a verdade para o mundo.
A "bruxa" havia dito que ela encontraria seu caminho através da dor. Eduarda só não sabia que a dor seria o segredo que agora crescia dentro dela, alimentado pelo sangue que ela insistia em dizer que era apenas o fim de um ciclo, quando na verdade, era o início de uma tempestade que mudaria a vida daquele trio para sempre.
