
a dnça entre voce e eu
Fandom: romance entre professor e aluna
Criado: 19/08/2026
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O Eco dos Passos no Corredor
A Academia Real de Ballet sempre teve um cheiro específico: uma mistura de resina, madeira polida e o esforço silencioso de centenas de corpos em busca da perfeição. Para Lily Zneimer, aquele cheiro costumava ser o de seus sonhos se realizando. Como bolsista, cada segundo naquelas salas era uma vitória conquistada com suor e calos sangrentos. No entanto, naquela manhã gélida de segunda-feira, o ar parecia subitamente mais pesado, difícil de inspirar.
Lily ajustava as fitas de suas sapatilhas de ponta pela terceira vez, sentada no banco de madeira do corredor principal. Seus dedos tremiam levemente. Ela ouvia os sussurros excitados das outras bailarinas sobre o Recital de Inverno.
— Você ouviu? — Maia, sua única e fiel amiga, sentou-se ao seu lado, os olhos brilhando de entusiasmo. — Ele voltou. Oscar Piastri aterrissou no aeroporto ontem à noite. Disseram que ele veio direto para a reunião com a diretoria.
Lily sentiu o sangue fugir do rosto. Ela manteve a cabeça baixa, deixando que seus cabelos castanhos caíssem como uma cortina sobre o rosto.
— Ele é só um instrutor, Maia. A academia está cheia deles — murmurou Lily, tentando manter a voz estável.
— "Só um instrutor"? Lily, estamos falando do Oscar! Ele é o bailarino mais jovem a ser solista principal na Austrália, ele domina do clássico ao contemporâneo como se fosse uma extensão da própria respiração. E ele vai escolher a parceira para o solo de inverno. Todos sabem que será a Bianca, mas só de estar na mesma sala que ele...
Lily não ouviu o resto. O som de passos firmes e rítmicos ecoou pelo corredor de mármore. Eram passos que ela reconheceria em qualquer lugar do mundo, mesmo depois de dois anos tentando esquecê-los. O ritmo era calmo, mas carregado de uma autoridade natural.
Ela se levantou abruptamente, pegando sua bolsa de dança.
— Eu preciso ir para a sala de ensaio cinco. Esqueci de... de alongar as costas — mentiu Lily, a voz falhando.
— Mas a nossa aula é na sala principal, Lily! Onde você vai? — gritou Maia, confusa.
Lily não respondeu. Ela começou a caminhar na direção oposta, mantendo os olhos fixos no chão, contando os azulejos. Ela só precisava chegar à curva do corredor, dobrar à esquerda e se esconder em qualquer sala vazia até que o turbilhão passasse.
Mas o destino, ou talvez a coreografia cruel da vida, tinha outros planos.
Ao dobrar a esquina com pressa excessiva, Lily colidiu contra algo sólido e quente. O impacto não foi forte, mas o susto foi o suficiente para fazê-la perder o equilíbrio. Duas mãos firmes e grandes seguraram seus antebraços, impedindo-a de cair.
— Cuidado. Você pode acabar se machucando antes mesmo do ensaio começar.
A voz era profunda, calma e carregava aquele sotaque australiano suave que Lily costumava ouvir em seus sonhos mais bonitos e em seus piores pesadelos.
Ela levantou o olhar lentamente. Oscar Piastri estava parado à sua frente. Ele parecia mais alto do que ela se lembrava, ou talvez fosse apenas a aura de prestígio que agora o envolvia. Ele vestia calças de aquecimento pretas e uma blusa de malha fina que delineava seus ombros atléticos. O rosto jovem e de traços suaves mantinha uma expressão de serenidade observadora.
Os olhos claros de Oscar encontraram os dela. Por um segundo, o tempo parou no corredor movimentado. O reconhecimento nos olhos dele foi instantâneo, uma faísca de algo que Lily não soube identificar — saudade, surpresa ou talvez uma determinação silenciosa.
— Lily — disse ele, o nome dela soando como uma nota de violoncelo.
— Com licença, senhor Piastri — ela disse, a voz quase um sussurro, desvencilhando-se do toque dele com uma pressa que beirava o desespero.
Ela tentou passar por ele, mas Oscar deu um passo lateral, bloqueando seu caminho de forma sutil, mas absoluta.
— Você está fugindo de novo — observou ele, sem elevar o tom de voz.
— Eu tenho aula. Estou atrasada — mentiu ela, sentindo o coração martelar contra as costelas. — Por favor, me deixe passar.
Lily não esperou por uma resposta. Ela contornou-o, quase correndo, sentindo o olhar dele queimando em suas costas. Ela entrou na primeira porta que encontrou aberta — uma sala de figurinos desativada, cheia de araras de roupas e o cheiro de tule antigo.
Ela fechou a porta e encostou as costas na madeira, fechando os olhos e tentando controlar a respiração. "Ele não pode estar aqui", pensava ela. "Ele deveria estar em turnê em Londres ou Paris. Por que aqui? Por que agora?"
A maçaneta girou. Lily deu um salto para trás, o pânico subindo pela garganta.
Oscar entrou na sala e fechou a porta atrás de si, mergulhando-os em uma penumbra iluminada apenas pela luz fraca que vinha das frestas das janelas altas.
— O que você está fazendo? — ela perguntou, recuando até bater em uma arara de tutus brancos. — Você não pode entrar aqui. Alguém pode ver.
— Deixe que vejam — disse Oscar, caminhando calmamente em direção a ela. Ele não parecia o instrutor intimidador que todos esperavam; ele parecia apenas o Oscar que ela conhecera antes da fama mundial, antes de tudo dar errado. — Você passou os últimos seis meses me ignorando, Lily. Não respondeu às minhas cartas, não atendeu às minhas ligações.
— Eu mudei de vida, Oscar — ela disse, tentando soar firme, apesar do tremor nas mãos. — Eu consegui a bolsa. Eu estou aqui para dançar, não para... para o que quer que você queira.
— Eu quero que você pare de se esconder no fundo da sala — ele disse, parando a poucos passos dela. O perfume dele, uma mistura de cítricos e algo amadeirado, preencheu o espaço entre eles. — Eu vi você ensaiando ontem pela fresta da porta. Sua técnica melhorou, mas você está dançando com medo. Como se estivesse pedindo desculpas por ocupar espaço.
— Eu sou uma bolsista. Eu não sou a Bianca. Eu não sou perfeita.
Oscar soltou um riso curto e sem humor, um som raro para quem o conhecia apenas de longe.
— A Bianca é um metrônomo, Lily. Ela é precisa, ela é técnica, mas ela é vazia. Ela dança para os espelhos. Você... — ele deu mais um passo, diminuindo a distância até que Lily pudesse sentir o calor emanando de seu corpo — ... você dança como se sua vida dependesse de cada nota. É isso que o Recital de Inverno precisa. É disso que eu preciso.
Lily balançou a cabeça, sentindo as lágrimas arderem em seus olhos. A proximidade dele era inebriante e dolorosa. Ela se lembrava de como era ser segurada por aquelas mãos em uma cozinha pequena na Austrália, longe dos palcos e da pressão, antes de ele partir para se tornar o melhor do mundo e ela ficar para trás, lidando com suas próprias inseguranças.
— Não faça isso — ela pediu em um soluço sufocado. — Não me escolha por causa do passado. Eu não quero sua caridade.
Oscar estendeu a mão, mas hesitou antes de tocar o rosto dela, deixando os dedos a milímetros de sua pele.
— Não é caridade, Lily. É visão. Eu sou o instrutor este ano, e eu decido quem tem a alma necessária para o solo.
— Todos esperam a Bianca — ela insistiu. — Se você me escolher, vão dizer que...
— Deixe que digam — interrompeu ele, sua voz assumindo um tom de autoridade que ele usava nos palcos. — No momento em que a música começar e você der o primeiro passo, ninguém vai se lembrar da Bianca. Eles só vão ver você.
Lily olhou para cima, encontrando os olhos de Oscar. Havia uma intensidade ali que a assustava, uma promessa de que ele não a deixaria se esconder mais.
— Por que voltou, Oscar? — ela perguntou, a voz quebrada. — Você podia estar em qualquer lugar.
Oscar finalmente encurtou a distância, tocando levemente o queixo dela, forçando-a a manter o contato visual.
— Eu voltei porque deixei algo inacabado nesta academia — ele disse suavemente. — E porque passei tempo demais dançando sozinho pelo mundo.
O silêncio na sala de figurinos era absoluto, quebrado apenas pela respiração descompassada de Lily. Por um momento, ela quis se inclinar para frente, quer encostar a testa no peito dele e esquecer a técnica, as bolsas de estudo e a rivalidade. Mas o medo de se machucar novamente era uma âncora pesada.
— Eu não sei se consigo fazer isso — ela admitiu.
— Você consegue — afirmou Oscar com uma convicção inabalável. — Eu vou estar lá. Eu serei sua base, seu suporte. Eu não vou deixar você cair, Lily. Nunca mais.
Antes que ela pudesse responder, o som de um sinal estridente ecoou pelos corredores, anunciando o início da assembleia geral no auditório principal, onde os anúncios seriam feitos.
Oscar se afastou lentamente, recuperando sua postura profissional e impecável. Ele ajeitou o casaco e caminhou até a porta, mas parou antes de sair.
— Coloque suas melhores sapatilhas, Lily Zneimer. O mundo está prestes a descobrir o que eu já sei há anos.
Ele saiu, deixando-a sozinha entre os tules e as sombras. Lily levou a mão ao coração, sentindo-o bater de forma selvagem. Ela sabia que, a partir daquele momento, sua vida na academia mudaria para sempre. Ela não seria mais a bolsista invisível. Ela seria a parceira de Oscar Piastri.
E o ódio de Bianca, a confusão de Maia e o julgamento dos outros professores seriam um preço pequeno a pagar pelo direito de dançar novamente nos braços do homem que ela nunca deixou de amar, por mais que tentasse mentir para si mesma.
Lily respirou fundo, limpou uma lágrima solitária que escapara e caminhou em direção ao auditório. O inverno estava chegando, e com ele, uma dança que nenhum deles jamais esqueceria.
