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Jogadas do Coração

Fandom: Futebol, Flamengo

Criado: 20/08/2026

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A Nova Ordem do Ninho

O sol do Rio de Janeiro não brinca em serviço, mas o calor dentro do CT do Ninho do Urubu parecia ainda mais carregado naquela manhã. Eu estava sentado no banco do vestiário, terminando de ajustar as faixas no meu tornozelo. O clima entre os caras estava o de sempre: Arrascaeta e De La Cruz conversando baixo sobre alguma jogada, Léo Pereira fazendo alguma piada que ninguém ria, e o Carrascal... bom, o Carrascal estava mais elétrico do que o normal.

Hermano, você não está entendendo — Carrascal disse, sentando ao meu lado e me dando um tapa no ombro que quase me fez errar a pressão da faixa. — A paz acabou. O sargento chegou.

Eu levantei o olhar, terminando o nó. Eu não sou de falar muito, todo mundo sabe. Prefiro observar. Fico na minha, calado, só guardando a energia para quando o juiz apita e eu preciso mostrar quem manda no meio-campo. Mas o sorriso do Carrascal estava estranho.

— De que estás falando, Jorge? — perguntei, deixando meu sotaque chileno escapar mais forte, o que sempre acontecia quando eu estava com preguiça de forçar o português. — Quem chegou?

— A nova fisio. A que veio de São Paulo.

— Ah, a substituta do Dr. Tannure na transição? — Dei de ombros. — Espero que seja boa. Meus tendões estão pedindo socorro.

Cuidado con lo que dices — ele riu, uma risada de quem sabia de algo que eu não sabia. — É minha irmã, Erick. A Gabi.

Arqueei as sobrancelhas. Eu sabia que o Carrascal tinha uma irmã, ele falava dela de vez em quando, mas sempre com um tom de "ela é o meu tesouro, ninguém toca". Sabia que ela trabalhava com futebol, mas achei que ela estaria presa no Corinthians para sempre.

— Ela é marrenta, Erick. Pior que eu — ele continuou, levantando-se para pegar a camisa de treino. — E se algum de vocês engraçadinhos começar com gracinha, eu juro que o réu primário cai hoje.

— Fica tranquilo, weón — respondi, levantando meus 1,88m e sentindo meus ossos estalarem. — Ninguém aqui quer problema com você. Muito menos eu.

Saímos para o campo. O Tite já estava lá, com aquela postura séria dele, e ao lado dele, uma figura que eu nunca tinha visto por aqui.

De longe, a primeira coisa que notei foi a altura. Ela era pequena, batia no máximo no meu ombro, talvez menos. 1,64m, chutei. Mas a presença dela... Dios mio. Ela tinha cabelos cacheados escuros que desciam em cascatas até a cintura, balançando conforme ela gesticulava com as mãos. Era morena, com um corpo que, mesmo sob o uniforme oficial de treino do Flamengo — que geralmente não favorece ninguém —, deixava claro que ela tinha curvas perigosas.

— Atenção, grupo! — a voz do Tite ecoou. — Quero apresentar a nova integrante da nossa comissão de saúde. Gabriela Carrascal. Ela veio somar com a gente, e espero o maior respeito e profissionalismo de todos.

Ela deu um passo à frente. Os olhos eram escuros, quase pretos, intensos. Ela não parecia intimidada por estar cercada por trinta marmanjos tatuados e milionários. Pelo contrário, ela olhava para a gente como se estivesse analisando cada articulação, cada músculo cansado.

— Bom dia, pessoal — ela disse. A voz era doce, mas tinha uma firmeza que me fez endireitar a postura sem perceber. — Como o professor disse, sou a Gabriela. Já conheço alguns de vocês de longa data, mas para os que não conheço: meu trabalho é garantir que vocês não quebrem. E aviso logo, sou chata. Se eu disser que não joga, não joga. Se eu disser que o gelo é por trinta minutos, são trinta minutos. Entendido?

— Ih, o Carrascal de saia chegou brava! — gritou o Léo Pereira, já correndo para abraçar ela.

— Gabi! Que saudade, baixinha! — Arrascaeta também foi, seguido pelo Pedro e pelo Luiz Araújo.

Parecia uma reunião de família. Todos cercaram a garota, abraçando, brincando, tratando ela com um carinho que eu raramente via ali dentro, a menos que fosse entre nós mesmos. Ela ria, retribuía os abraços, mas mantinha aquele olhar atento. Dava para ver que ela era o "xodó" dos caras.

Eu fiquei mais atrás, com as mãos na cintura, observando a cena. Tentei manter minha cara de poucos amigos, a cara que eu uso para intimidar os atacantes rivais.

— Erick, vem cá! — Carrascal me chamou, acenando.

Caminhei lentamente. Cada passo parecia pesado. Quando parei na frente deles, a diferença de altura ficou ridícula. Tive que olhar para baixo, e ela teve que inclinar a cabeça para trás para encontrar meus olhos.

— Gabi, esse aqui é o Erick Pulgar. Meu melhor amigo aqui dentro — Carrascal disse, colocando o braço em volta dos ombros dela de um jeito possessivo que não passou despercebido por mim. — Erick, essa é a minha irmãzinha. A melhor fisio do Brasil, infelizmente flamenguista doente, o que só melhora o currículo dela.

Ela estendeu a mão para mim. As unhas estavam bem feitas, mas a mão parecia firme.

— Prazer, Pulgar — ela disse, e eu senti um tom de ironia ali. — Já ouvi muito falar de você. Principalmente sobre a sua coleção de cartões amarelos.

Senti um leve repuxar no canto da minha boca. Ela era sarcástica. Gostei disso.

Mucho gusto, Gabriela — respondi, minha voz saindo mais grave do que o normal. Apertei a mão dela, sentindo a pele macia contra a minha, calejada e seca. — Espero que não tenha que visitar sua sala com frequência.

— Se você parar de se jogar nos tornozelos dos outros como se fosse um caminhão desgovernado, talvez a gente se veja pouco — ela rebateu, com um sorriso de lado que me deixou meio sem chão por um segundo. — Mas, pelo que vi nos vídeos, acho que vamos passar muito tempo juntos. Suas panturrilhas parecem dois pedaços de rocha tensionada. Isso é um perigo.

— Ela é direta, não é? — Carrascal riu, mas o olhar dele para mim era de "estou de olho".

— Eu sou profissional, Jorge — ela disse, dando um tapinha no peito do irmão. — Agora, vão treinar. Pulgar, depois do treino, quero você na maca 3. Vou fazer uma avaliação funcional básica em você e no De La Cruz.

— Sim, senhora — murmurei, ainda processando a marra daquela morena.

O treino seguiu, mas minha mente estava estranha. Eu sou um cara focado, não me distraio fácil. Mas toda vez que eu corria para a lateral, meus olhos buscavam a figura pequena de cabelos cacheados conversando com a equipe médica. Ela parecia tão calma, tão no lugar dela. E ao mesmo tempo, quando o Gerson deu uma entrada mais forte no treino e o Cebolinha caiu reclamando, ela foi a primeira a chegar, mandando todo mundo se afastar com um gesto de mão que não aceitava réplicas.

Mandona. Cuidadosa. Uma mistura perigosa.

Quando o treino acabou, eu estava exausto. O Rio não perdoa. Fui para a sala de fisioterapia, tirando a camisa de treino e jogando-a no ombro. Entrei na sala e ela já estava lá, organizando alguns cremes e aparelhos.

— Você está atrasado cinco minutos — ela disse, sem se virar.

— O Tite prendeu a gente para uma conversa tática — respondi, caminhando até a maca 3. — E eu não sabia que fisioterapeutas usavam cronômetro para recepção.

Ela se virou, e por um momento, o silêncio dominou a sala. Eu estava sem camisa, exibindo todas as minhas tatuagens que cobrem quase cada centímetro do meu tronco e braços. Ela passou o olhar por elas, não com desejo escancarado como algumas mulheres faziam, mas com uma curiosidade quase clínica.

— Muitas histórias escritas na pele, hein? — ela comentou, aproximando-se. — Deita de barriga para baixo. Preciso checar essa lombar e as cadeias posteriores.

Eu obedeci. O contato das mãos dela com a minha pele foi como um choque elétrico. Eram mãos pequenas, mas a pressão era perfeita. Ela sabia exatamente onde doía, onde o músculo estava encurtado.

— Você é muito tenso, Erick — ela murmurou, concentrada. — Relaxa um pouco. Se você ficar assim o tempo todo, vai ter um estiramento antes do próximo clássico.

— É meu jeito — respondi contra o estofado da maca. — Não sei relaxar.

— Pois vai ter que aprender. Comigo as coisas são no meu ritmo — ela disse, e eu podia sentir o sorriso na voz dela. — Sou um amor de pessoa, mas se você não seguir meu protocolo, eu te coloco de castigo no banco de reservas com uma palavra para o Tite. E ele me escuta.

— Você é muito convencida para quem chegou hoje — provoquei, virando o rosto para olhá-la.

Ela estava inclinada sobre mim, o cabelo caindo um pouco sobre o ombro, os olhos escuros brilhando com um desafio silencioso.

— Não é convencimento, Pulgar. É competência — ela rebateu, cravando o polegar em um ponto de gatilho na minha escápula.

Eu soltei um gemido de dor e surpresa.

¡Mierda! — exclamei.

— Olha a boca, chileno. Aqui na minha sala, a única pessoa que pode gritar sou eu — ela disse, sarcástica.

Ficamos naquele vai e vem por uns vinte minutos. Ela era rápida nas respostas, não se deixava intimidar pela minha fama de "maluco" ou pelo meu tamanho. E, estranhamente, eu me senti confortável. Eu, que sou o cara mais calado do vestiário, me vi querendo falar mais só para ouvir o que ela tinha para responder.

— Pronto — ela disse, dando dois tapinhas leves nas minhas costas. — Por hoje é só. Amanhã, antes do treino, quero você aqui de novo. E vê se traz uma camisa limpa, essa aqui está um horror de suor.

Eu me sentei na maca, vestindo minha camisa devagar.

— Obrigado, Gabriela.

— Gabi — ela corrigiu, guardando o material. — Só meus pacientes chatos me chamam de Gabriela.

— E eu sou um paciente chato? — perguntei, levantando-me e ficando a poucos centímetros dela.

Ela olhou para cima, sustentando meu olhar. A química ali era algo que eu não sabia explicar. Era como se o ar tivesse ficado mais denso de repente.

— Você ainda não decidiu o que quer ser, Pulgar — ela respondeu, com a voz um pouco mais baixa. — Mas tem potencial para ser o mais difícil de todos.

Ela deu as costas e foi atender o Nico De La Cruz, que entrava na sala. Eu saí de lá com a cabeça a mil.

No estacionamento, Carrascal me parou perto do meu carro.

— E aí? Como foi a sessão com a "general"?

— Ela sabe o que faz — respondi, tentando parecer indiferente. — Mas é brava.

— Eu avisei — ele riu, mas depois ficou sério, colocando a mão no meu peito. — Mas ó, Erick... é minha irmã. De verdade. Se eu souber que algum de vocês está olhando demais ou tentando gracinha...

— Relaxa, Jorge — cortei, abrindo a porta do carro. — Eu respeito a família.

Mas, enquanto eu dirigia para casa, a imagem dela não saía da minha cabeça. Aquela marra, aquele jeito mandona, a forma como ela me enfrentou sem piscar... e o jeito que ela sorria para os outros meninos, como se fossem irmãos dela. Eu não queria ser tratado como um irmão.

Eu sempre fui um cara de poucas ideias, de resolver as coisas no campo, na força. Mas com a Gabi, eu sentia que o jogo seria diferente. Ela era flamenguista, era intensa, era linda de um jeito que doía olhar. E tinha aquele sotaque carioca misturado com uma confiança que me desarmava.

Cheguei em casa, joguei as chaves na mesa e me olhei no espelho. Eu era um homem de 32 anos, cheio de cicatrizes e histórias. Ela tinha 25, estava começando uma fase nova. Sete anos de diferença. O irmão dela era meu melhor amigo. Tudo indicava que eu deveria ficar longe.

Mas eu nunca fui de fugir de uma dividida.

Gabi... — sussurrei para o vazio da sala, testando o nome na minha língua.

O sotaque chileno fez o nome dela soar como uma promessa. Uma promessa perigosa que, eu sabia, ia me dar muito mais trabalho do que qualquer atacante do campeonato. E o pior? Eu estava ansioso para a próxima sessão na maca 3.

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