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Meu Mundo

Fandom: Skate e influêncer

Criado: 20/08/2026

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O Equilíbrio Entre o Eixo e o Algoritmo

A luz do sol de fim de tarde em São Paulo refletia no concreto da pista, criando sombras longas que pareciam perseguir Rayssa Leal a cada manobra. O som era o de sempre: o estalar seco do shape batendo no chão, o rodar metálico dos rolamentos e o vento batendo no rosto. Era o único momento em que o mundo parecia fazer sentido, longe das notificações incessantes e das expectativas esmagadoras que vinham com o título de "Fadinha".

Rayssa parou na borda da bowl, limpando o suor da testa com as costas da mão. Ela pegou o celular para checar a hora, mas se arrependeu instantaneamente. Havia centenas de menções no Twitter discutindo sua última performance em uma competição na Europa. "Ela está perdendo o foco?", dizia um comentário. "Rayssa precisa treinar mais e postar menos", dizia outro.

— Eles nunca estão satisfeitos, não é? — Uma voz suave e levemente divertida surgiu às suas costas.

Rayssa se virou, assustada. Duda Wilken estava ali, encostada em uma grade, segurando um estabilizador com uma câmera profissional e um sorriso que parecia iluminar o ambiente mais do que o próprio sol. Duda era uma das influenciadoras e criadoras de conteúdo mais em ascensão do momento, conhecida por transformar a vida de atletas em narrativas visuais quase poéticas.

— Ah, oi, Duda. — Rayssa forçou um sorriso, guardando o celular no bolso da calça larga. — Eu nem vi você chegar. Estava... bom, você sabe. Vendo o que o tribunal da internet decidiu sobre mim hoje.

Duda se aproximou, deixando a câmera de lado por um momento e sentando-se no concreto quente ao lado de Rayssa.

— O tribunal da internet é um júri sem diploma, Rayssa. — Duda olhou para a pista, observando os outros skatistas. — Se você der ouvidos a cada comentário, vai acabar esquecendo como se equilibra no skate. Eu vim aqui justamente para tentar mudar essa narrativa.

Rayssa suspirou, sentindo o peso nos ombros diminuir apenas um milímetro.

— Minha equipe disse que você ia fazer uns vídeos comigo para a nova campanha. Mas, honestamente, eu não sei se estou com cabeça para fingir que está tudo perfeito na frente das câmeras.

Duda riu, um som leve que fez Rayssa olhar para ela com curiosidade.

— Mas quem disse que eu quero que você finja? — Duda pegou a câmera e apontou para o horizonte. — Eu quero o real. Quero o tombo, o suor, a cara de frustração quando o flip não sai perfeito. As pessoas te amam porque você é um prodígio, mas elas vão te respeitar porque você é humana.

Rayssa ficou em silêncio por alguns segundos, observando o perfil de Duda. A influenciadora tinha um jeito calmo de falar, uma confiança que não parecia arrogante, mas sim acolhedora.

— Tudo bem. — Rayssa subiu no skate novamente. — O que você quer que eu faça?

— Apenas ande. Esqueça que eu estou aqui. — Duda já estava com o olho no visor, ajustando o foco. — Me mostre por que você começou a fazer isso quando era apenas uma criança com asas de fada.

As horas seguintes passaram de uma forma que Rayssa não esperava. Duda não era como os outros fotógrafos ou cinegrafistas que a pressionavam a repetir a mesma manobra dez vezes até ficar "esteticamente perfeita". Duda corria pela pista, agachava-se, subia em muretas, sempre acompanhando o ritmo de Rayssa.

Em um momento, Rayssa tentou um kickflip sobre um degrau alto e acabou perdendo o equilíbrio, caindo sentada. Ela soltou um palavrão baixo, sentindo a ardência no quadril.

— Essa foi feia! — gritou Rayssa, esperando que Duda parasse de gravar.

— Foi linda! — rebateu Duda, sem baixar a câmera. — A forma como você tentou se recuperar no ar foi incrível. Continua, Rayssa! Não para!

Rayssa sentiu um calor diferente no peito. Não era a adrenalina da competição, mas uma sensação de estar sendo vista de verdade, não como uma marca ou um ícone, mas como uma garota de dezesseis anos que amava o que fazia.

Quando o sol finalmente se pôs e as luzes da pista se acenderam, as duas estavam exaustas. Elas se sentaram no banco da praça, dividindo uma garrafa de água mineral.

— Deixa eu ver como ficou? — pediu Rayssa, aproximando-se de Duda.

Duda inclinou a tela da câmera para que as duas pudessem ver. As imagens eram granuladas, com cores quentes e um movimento fluido. Rayssa parecia estar voando, mas também parecia estar lutando. Era cru. Era bonito.

— Uau... — sussurrou Rayssa. — Eu não pareço... eu não pareço a "garota propaganda".

— Você parece a Rayssa. — Duda olhou para ela, e por um momento, o contato visual durou mais do que o necessário. — Você tem uma força que pouca gente entende, Leal. Eles veem as medalhas. Eu vejo o esforço.

Rayssa sentiu o rosto esquentar e desviou o olhar para suas mãos calejadas.

— Obrigada, Duda. De verdade. Eu precisava disso hoje. A pressão... às vezes parece que eu vou sufocar. Todo mundo espera que eu seja a melhor do mundo todos os dias.

Duda colocou a mão gentilmente sobre o ombro de Rayssa. O toque foi breve, mas deixou um rastro de eletricidade na pele da skatista.

— Ninguém é o melhor do mundo todos os dias. — Duda guardou o equipamento na mochila. — Amanhã a gente continua? Quero pegar a luz do amanhecer no Ibirapuera.

— Amanhã? Tão cedo? — Rayssa fez uma careta de brincadeira.

— Se quiser que o vídeo fique épico, sim. — Duda piscou para ela, levantando-se. — Passo para te pegar às seis?

— Estarei pronta. — Rayssa sorriu, observando Duda se afastar em direção ao estacionamento.

Naquela noite, deitada em sua cama, Rayssa não abriu o Twitter. Ela não buscou seu nome no Google. Em vez disso, ela ficou olhando para o teto, lembrando-se do jeito que Duda olhava pelo visor da câmera. Havia algo na influenciadora que a fascinava — uma mistura de sensibilidade artística com uma compreensão profunda do que significava viver sob os holofotes.

O despertador tocou às cinco e meia da manhã. Rayssa, que costumava enrolar para levantar quando não era dia de campeonato, pulou da cama. Ela escolheu sua melhor camiseta larga e prendeu o cabelo com cuidado.

Quando saiu do hotel, o carro de Duda já estava lá. A influenciadora usava um moletom grande e tinha um copo de café em cada mão.

— Bom dia, campeã. — Duda entregou um dos copos para ela. — Café preto, sem açúcar, como você disse que gosta.

— Você lembrou? — Rayssa pegou o copo, surpresa.

— Eu presto atenção nos detalhes. É o meu trabalho. — Duda sorriu, abrindo a porta do carro para ela.

O trajeto até o parque foi preenchido por uma conversa leve sobre música e filmes. Rayssa descobriu que Duda adorava bandas independentes e que tinha um medo irracional de aranhas, o que fez Rayssa rir alto pela primeira vez em dias.

No Ibirapuera, o clima era calmo. Poucas pessoas circulavam, e a neblina baixa dava um ar cinematográfico ao lugar.

— Hoje eu quero algo mais introspectivo — explicou Duda, posicionando Rayssa perto do monumento às Bandeiras. — Apenas deslize. Como se você estivesse sozinha no mundo.

Rayssa obedeceu. Ela começou a andar, sentindo o asfalto liso sob as rodas. Ela esqueceu as marcas, esqueceu as Olimpíadas, esqueceu os patrocinadores. Ela era apenas uma skatista.

Duda, por sua vez, parecia dançar ao redor dela com a câmera. Em um momento de distração, Rayssa olhou para Duda e percebeu a expressão de concentração absoluta no rosto da outra garota. Duda mordia o lábio inferior, os olhos brilhando com a luz da manhã, completamente imersa na criação daquela arte.

Rayssa sentiu um frio estranho na barriga, um que não tinha nada a ver com o frio da manhã de São Paulo. Ela vacilou na manobra e quase caiu, mas recuperou o equilíbrio no último segundo.

— Tudo bem aí? — perguntou Duda, baixando a câmera com uma expressão preocupada.

— Tudo! — respondeu Rayssa, rápido demais. — Só... o asfalto está meio úmido.

— Quer dar uma pausa? — Duda caminhou até ela. — A gente já tem material incrível.

— Pode ser. — Rayssa sentou-se em um banco de madeira, o coração batendo forte.

Duda sentou-se ao lado dela e começou a passar as imagens na pequena tela da câmera.

— Olha essa aqui. — Duda apontou para uma imagem onde Rayssa aparecia de perfil, com os cabelos ao vento e uma expressão de paz absoluta. — Você parece estar em outro planeta.

— Eu me sinto assim às vezes. — Rayssa olhou para Duda. — Obrigada por me lembrar disso, Duda. Eu ando tão preocupada em ser o que os outros querem que eu seja, que esqueço de ser quem eu sou.

Duda olhou para Rayssa, e o silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi um silêncio carregado de algo novo, algo que Rayssa ainda não conseguia dar nome.

— Você é incrível, Rayssa Leal. — Duda disse em voz baixa, sua mão roçando levemente a de Rayssa no banco. — Com ou sem skate. Com ou sem seguidores.

Rayssa sentiu o rosto queimar novamente. Ela sempre lidou bem com a pressão das câmeras de TV e dos estádios lotados, mas a proximidade de Duda a deixava desarmada.

— Você também é... — Rayssa começou, mas a voz falhou. — Você também é incrível no que faz.

Duda sorriu, um sorriso largo e sincero que fez os olhos dela se fecharem um pouco.

— Sabe, eu trabalho com muita gente famosa. Atletas, atores, modelos. — Duda inclinou a cabeça. — Mas pouca gente tem a verdade que você tem. Não deixa o mundo apagar isso, tá?

— Eu vou tentar. — prometeu Rayssa.

— Ótimo. — Duda se levantou, batendo na calça para tirar a poeira. — Agora, vamos terminar isso? Acho que se pegarmos você descendo aquela ladeira com o sol batendo de lado, a internet vai quebrar. E dessa vez, pelos motivos certos.

Rayssa riu e pegou seu skate. Ela sentia uma leveza que não sentia há meses. Enquanto seguia Duda pela pista, ela percebeu que, embora a pressão externa ainda existisse, o mundo parecia um pouco menos assustador quando havia alguém que olhava para ela e via além do ícone.

Ela ainda não sabia, mas aquele era o começo de algo que mudaria sua vida muito mais do que qualquer medalha de ouro. A admiração profissional estava lentamente, manobra por manobra, transformando-se em algo que nem mesmo a skatista mais rápida do mundo conseguiria evitar.

— Ei, Duda! — chamou Rayssa, antes de subir no skate.

Duda se virou, a câmera pronta.

— O quê?

— Depois daqui... você quer tomar um café de verdade? Sem câmeras?

Duda sorriu, e desta vez, não havia nada de profissional naquele olhar. Era apenas Duda Wilken olhando para Rayssa Leal.

— Eu adoraria, Rayssa.

Rayssa deu um impulso forte no chão, sentindo o vento no rosto. O mundo podia continuar cobrando, mas ali, naquele momento, ela só precisava acertar o próximo movimento. E ela sabia que, independentemente do que acontecesse, Duda estaria lá para registrar não apenas sua vitória, mas também sua essência.

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