
Childhood rivalry
Fandom: EngLot
Criado: 21/08/2026
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Cadeados Rompidos e Mochilas Pesadas
O sol da tarde refletia nos óculos de grau de Engfa Waraha, que estavam perfeitamente equilibrados na ponta de seu nariz enquanto ela analisava o armário no corredor de Artes da faculdade. Ela não deveria estar ali. Seu curso era Administração, dois blocos de distância, mas a vingança não conhecia fronteiras geográficas. Com um grampo de cabelo e uma habilidade questionável que desenvolvera apenas para irritar uma pessoa específica, ela ouviu o estalido familiar.
O cadeado de Charlotte Austin cedeu.
Engfa abriu a porta metálica com um sorriso vitorioso. Dentro, tudo era irritantemente organizado, assim como a dona. Livros de literatura alinhados por altura, um estojo de veludo e o perfume cítrico que parecia impregnar tudo o que Charlotte tocava. Engfa tirou do bolso um bilhete neon, escrito com sua caligrafia mais provocadora, e o colou exatamente na capa do fichário principal.
"Sua nota em Macroeconomia foi um 8.5. Eu tirei 9.2. Tente se esforçar mais, pirralha. — P'Fa."
Satisfeita, ela fechou o armário e caminhou pelo corredor com a confiança de quem acabara de ganhar uma guerra mundial. No entanto, sua satisfação durou exatos dez minutos, o tempo necessário para chegar ao refeitório e sentir uma mão firme puxar a haste de seus óculos, deixando sua visão subitamente borrada.
— Ei! — Engfa protestou, piscando repetidamente enquanto tentava focar na figura alta e ondulada à sua frente.
Charlotte Austin estava parada ali, com os óculos de Engfa pendurados casualmente em seu dedo indicador. O sorriso dela era puro sarcasmo, as sardas em seu nariz parecendo brilhar sob a luz fluorescente.
— Você tem a mania irritante de tocar no que é meu, Waraha — disse Charlotte, sua voz aveludada, mas carregada de autoridade. — Achei justo fazer o mesmo.
— Devolve, Charlotte. Eu tenho aula de estatística agora e não consigo ler os gráficos sem isso.
Charlotte deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Engfa. Ela era alguns centímetros mais alta, uma vantagem que adorava usar para olhar a outra de cima, apesar de ser dois anos mais nova.
— Ah, a pequena gênia precisa de ajuda para enxergar? — Charlotte inclinou a cabeça, os cabelos castanho-claros caindo sobre o ombro. — Que pena. Talvez se você parasse de agir como uma ladra de armários, eu devolvesse. Mas agora? Agora eu decidi que vou ficar com eles. Combinam com o meu look.
Engfa sentiu o sangue ferver. Não era apenas pelos óculos; era a forma como Charlotte a desafiava, como se soubesse exatamente quais botões apertar. Engfa era possessiva com suas coisas, mas era mil vezes mais possessiva em relação à atenção de Charlotte. Ver a garota ali, tão confiante e mandona, despertava nela um misto de fúria e uma admiração que ela jamais admitiria em voz alta.
— Você é insuportável — rosnou Engfa, tentando pegar os óculos, mas Charlotte recuou com agilidade.
— E você é uma trapaceira. Deixar bilhetes sobre notas? Sério? Você sabe que o meu professor de literatura é muito mais rigoroso que o seu de economia. Meu 8.5 vale um 10 seu.
— Nos seus sonhos, Austin! — Engfa rebateu, cruzando os braços. — Um número é um número. Eu venci. Aceite a derrota e me dê meus óculos.
Charlotte deu um sorriso de lado, aquele que Engfa secretamente achava a coisa mais bonita e irritante do mundo.
— Se quiser eles de volta, vai ter que me encontrar no estacionamento às cinco. E já sabe a regra.
Engfa soltou um suspiro pesado, fechando os olhos por um momento.
— Eu não vou carregar a sua mochila, Charlotte.
— Então você vai ter que dirigir para casa no escuro e sem enxergar um palmo na frente do nariz — Charlotte cantarolou, virando as costas e desfilando pelo refeitório. — Até mais tarde, P'!
O resto do dia de Engfa foi um desastre. Ela teve que sentar na primeira fileira da sala, quase colada no quadro negro, e ainda assim saiu com uma dor de cabeça latente. O fato de Charlotte ter feito aquilo na frente de metade do campus só piorava seu orgulho ferido. Ela odiava perder. Odiava como Charlotte parecia sempre ter a última palavra.
Quando o relógio marcou cinco horas, Engfa estava encostada no seu carro, os braços cruzados e a expressão fechada. Charlotte apareceu logo em seguida, caminhando com uma elegância que não pertencia a alguém de dezoito anos. Ela carregava uma mochila que parecia pesar o equivalente a um filhote de elefante.
Sem dizer uma palavra, Charlotte parou na frente de Engfa e estendeu os óculos.
Engfa os pegou rudemente, limpando as lentes na camiseta antes de colocá-los. O mundo voltou ao foco, e a primeira coisa que ela viu foi o rosto vitorioso de Charlotte.
— Agora — disse Charlotte, deixando a mochila escorregar pelo braço e estendendo-a para Engfa —, cumpra seu dever.
— Eu sou dois anos mais velha que você. Sou sua veterana. Por que diabos eu ainda aceito isso? — Engfa resmungou, mas pegou a alça da mochila.
— Porque você é mais velha — Charlotte respondeu, como se explicasse algo óbvio para uma criança. — E porque você me ama. E porque você arrombou meu armário. Quer que eu continue a lista?
Engfa jogou a mochila pesada sobre o ombro, sentindo o peso dos livros de literatura de Charlotte.
— Eu não te amo. Eu te suporto porque nossas mães são amigas.
— Mentirosa — Charlotte disse, entrando no banco do passageiro antes mesmo de Engfa abrir o carro.
O trajeto para casa era uma rotina que elas seguiam há anos. Moravam na mesma rua, frequentavam os mesmos lugares e, apesar das brigas constantes, nunca cogitaram ir para a faculdade separadas. O silêncio no carro durou apenas dois minutos.
— Quem era aquele cara falando com você perto da biblioteca? — Engfa perguntou, tentando manter a voz casual, mas falhando miseravelmente. O tom possessivo estava lá, cortante.
Charlotte, que estava retocando o brilho labial no espelho do quebra-sol, sorriu para o reflexo.
— Um veterano do curso de Direito. O nome dele é Nanon. Ele me pediu um resumo de poética. Por quê? Está com ciúmes, P'Fa?
— Ciúmes? De você? — Engfa soltou uma risada seca, apertando o volante com força. — Eu só acho que você deveria focar nos seus estudos em vez de perder tempo com idiotas que só querem o seu resumo. Você já é lenta o suficiente com as suas notas.
— Ele não é um idiota. Ele é bem gentil, na verdade. E muito bonito.
Engfa freou bruscamente no sinal vermelho, fazendo Charlotte ser jogada levemente para frente.
— Ei! Quer me matar?
— O sinal ficou vermelho — mentiu Engfa. O sinal ainda estava amarelo. — E eu não quero saber se ele é bonito. Você não tem tempo para namorar. Você tem que estudar para me vencer, lembra? O que não vai acontecer, mas você deve tentar.
Charlotte virou-se no banco, encarando o perfil de Engfa. Ela viu a tensão na mandíbula da mais velha, o brilho teimoso atrás das lentes dos óculos. Ela adorava aquilo. Adorava provocar Engfa até que a máscara de "adulta responsável" caísse e a Waraha possessiva aparecesse.
— Você é tão transparente — Charlotte sussurrou, esticando a mão e tocando levemente o braço de Engfa. — Você odeia a ideia de qualquer pessoa chegar perto do que você considera seu.
Engfa olhou para ela, os olhos castanhos escuros encontrando os castanhos claros. A tensão no carro mudou instantaneamente. Não era mais apenas irritação; era algo mais denso, algo que fervilhava entre elas desde a infância e que agora, na vida adulta, tornava-se quase insuportável.
— Você não é minha, Charlotte — Engfa disse, a voz subitamente baixa. — Você é apenas um estorvo que eu sou obrigada a levar para casa.
— Então por que sua mão está tremendo? — Charlotte desafiou, aproximando o rosto.
Engfa não respondeu. Em vez disso, ela acelerou o carro assim que o sinal abriu, dirigindo o restante do caminho em um silêncio carregado. Quando estacionou em frente à casa de Charlotte, ela não entregou a mochila imediatamente.
— O que foi agora? — perguntou Charlotte, a mão na maçaneta.
Engfa tirou os óculos e os colocou no console central. Ela se inclinou na direção de Charlotte, encurralando a garota contra a porta do carro.
— Se eu souber que você deu aquele resumo para o tal Nanon... eu vou trancar você no meu armário na próxima vez.
Charlotte arqueou uma sobrancelha, o coração batendo um pouco mais rápido, embora ela nunca fosse admitir.
— E o que você ganharia com isso?
— Paz — disse Engfa, embora seus olhos estivessem fixos nos lábios de Charlotte. — E a certeza de que você não está desperdiçando sua inteligência com quem não merece.
— Você é uma maníaca possessiva, P'Fa.
— E você é uma pirralha mandona.
Elas ficaram ali, a centímetros de distância, desafiando uma à outra com o olhar. Era uma competição de quem cederia primeiro, de quem demonstraria mais fraqueza. Charlotte, fiel ao seu estilo, foi quem quebrou o impasse, mas não da forma que Engfa esperava. Ela avançou e deixou um beijo rápido e estalado na bochecha de Engfa, perto do canto da boca.
— Obrigada pela carona, P'. Amanhã eu quero que você me busque dez minutos mais cedo. Não se atrase.
Charlotte saiu do carro, pegando sua mochila do banco de trás com uma agilidade surpreendente, deixando Engfa atordoada no banco do motorista.
Engfa tocou o local onde os lábios de Charlotte haviam encostado. Sua pele formigava. Ela colocou os óculos de volta, ajustando-os no rosto, e viu Charlotte acenar da varanda antes de entrar em casa.
— Garota irritante... — Engfa resmungou para o carro vazio, um sorriso involuntário surgindo em seu rosto.
Ela ligou o motor e manobrou para sua própria garagem, três casas abaixo. Enquanto caminhava para dentro, ela já estava pensando em como iria abrir o cadeado de Charlotte no dia seguinte. Talvez ela deixasse um chocolate. Ou talvez um bilhete dizendo que o tal Nanon tinha um gosto péssimo para sapatos.
Afinal, a competição entre elas nunca terminava. E, no fundo, Engfa sabia que, enquanto Charlotte estivesse tentando ganhar dela, e ela estivesse tentando domar Charlotte, o mundo estava exatamente onde deveria estar.
Ao entrar em seu quarto, Engfa jogou a chave na mesa e viu um pequeno papel dobrado que não estava ali antes. Ela o abriu.
"Eu vi você tentando abrir meu cadeado hoje. Você levou 30 segundos. Da última vez foram 20. Você está ficando lenta, P'Fa. Melhore. Com amor (ou não), Char."
Engfa amassou o papel, rindo baixinho.
— Você me paga, Austin.
A guerra continuaria amanhã. E Engfa mal podia esperar para perder — ou ganhar — mais uma vez.
