
Miller
Fandom: Kaaatieverse
Criado: 22/08/2026
Tags
Sombras e Cinzas: O Despertar do Mati
A escuridão não era apenas a ausência de luz; era uma presença física, pesada e sufocante que pressionava as pálpebras de Miller antes mesmo de ele conseguir abri-las. O primeiro sentido a retornar foi o tato, mas não trouxe conforto. Ele sentiu o aperto frio e implacável de cordas ásperas contra seus pulsos e tornozelos, a textura rígida do couro pressionando suas bochechas e o gosto metálico e sintético da mordaça de bola que preenchia sua boca, forçando sua mandíbula a uma abertura desconfortável.
Miller abriu o olho direito. A mecha rebelde de seu cabelo preto caía sobre o rosto, mas não conseguia esconder a confusão que rapidamente se transformou em uma fúria incandescente. Ele tentou puxar os braços, um reflexo instintivo de quem está acostumado a resolver problemas com violência, mas o movimento só serviu para fazer as cordas queimarem a pele já marcada por cicatrizes.
— Mmmph! Mmm-nnn! — O som saiu abafado, uma vibração gutural que morreu contra o couro da mordaça.
Ele sacudiu a cabeça, o rabo de cavalo baixo chicoteando o pescoço. Seus olhos vasculharam a sala preta. Não havia janelas, nem portas visíveis, apenas um vácuo de escuridão que parecia engolir a pouca luz que emanava de algum lugar indefinido no teto. Miller rosnou internamente. Ele era o tipo de garoto que causava medo, não o que sentia. As mangas rasgadas de sua jaqueta preta revelavam os braços musculosos e cheios de marcas de batalhas passadas, mas ali, imobilizado em uma cadeira invisível na penumbra, ele se sentia como um animal enjaulado.
O pânico começou a borbulhar, mas Miller o converteu em agressividade pura. Ele forçou o corpo para frente, as veias de seu pescoço saltando, tentando tombar a cadeira ou romper as amarras. O cinto de balas em sua cintura tilintou fracamente, um lembrete irônico de sua periculosidade agora neutralizada.
Foi então que ele sentiu uma corrente de ar frio.
Miller baixou o olhar para seus pés. O choque percorreu sua espinha mais rápido do que qualquer dor. Suas botas pretas, pesadas e confiáveis, tinham sido removidas. Seus pés estavam nus, expostos contra o chão frio e liso da sala escura. Para alguém tão defensivo e fechado quanto Miller, aquela vulnerabilidade era pior do que um soco no estômago.
Um rubor intenso subiu por seu pescoço, atingindo suas bochechas pálidas. A humilhação ardeu mais do que as cordas. Ele se debateu com uma energia renovada, quase maníaca.
— MMMMM-NNNNNN! — Ele gritou contra a mordaça, o som sendo uma mistura de ódio e um pedido desesperado de socorro que ele jamais admitiria ser um pedido.
O olho direito de Miller começou a brilhar. A íris, normalmente escura, começou a transitar para um tom profundo e elétrico de azul. Uma pequena chama, fria e etérea, começou a emanar do canto do olho, lembrando o formato do amuleto mati que ele costumava carregar. A energia do mati reagia ao seu estado emocional volátil, a agressividade transbordando como plasma.
— Ora, ora... parece que o nosso convidado finalmente acordou — uma voz distorcida ecoou pelas paredes, parecendo vir de todos os lugares ao mesmo tempo.
Miller parou de se debater por um segundo, o olho azul brilhando intensamente na escuridão, iluminando levemente as cicatrizes em seu rosto.
— Mmph? — Ele rosnou, a pupila dilatada, procurando a origem da voz.
— Não adianta tentar gritar, Miller — continuou a voz, carregada de um tom divertido e cruel. — Ninguém no Kaaatieverse pode ouvir você aqui embaixo. Você está em um vácuo de silêncio. E devo dizer, você parece muito menos ameaçador sem aquelas botas e com essa... coisa na boca.
Miller sentiu o sangue ferver. A provocação atingiu o alvo. Ele se jogou para o lado com tanta força que a cadeira rangeu violentamente. Ele não era uma vítima. Ele era o perigo. O problema era que, naquele momento, o perigo estava amarrado e descalço.
— Mmm-nnn-ghaaa! — Ele forçou a voz, tentando articular palavras através do couro, mas apenas sons distorcidos e úmidos escapavam.
— O quê? Não entendi — a voz zombou. — Você quer que eu tire a mordaça? Ou talvez esteja preocupado com o fato de estar tão... exposto?
Miller fechou o olho com força, a chama azul oscilando violentamente. Ele tentou se concentrar na dor dos pulsos para não pensar na vergonha de sua situação. Ele se lembrou de cada briga de rua, de cada cicatriz que ganhou defendendo seu território. Ele não ia se quebrar ali.
De repente, um foco de luz branca e fria acendeu diretamente acima dele, revelando a extensão de sua prisão. O chão era de metal escuro, refletindo o brilho azul de seu olho. Ele viu suas botas jogadas a alguns metros de distância, fora de seu alcance.
— Você é persistente, eu admito — a voz agora soava mais próxima, embora Miller ainda não visse ninguém. — Mas sua agressividade é sua fraqueza. Quanto mais você luta, mais as cordas apertam. É um mecanismo simples, Miller. Como você.
Miller soltou um suspiro pesado pelo nariz, tentando acalmar o ritmo cardíaco. Ele precisava pensar. Se o mati estava reagindo, talvez ele pudesse usar essa energia para queimar as cordas, ou pelo menos para sinalizar para alguém lá fora. Mas a chama azul era instável, alimentada apenas por seu ódio.
Ele olhou para cima, tentando ver através da parte obscurecida de seu rosto, o olho direito fixo no vazio.
— Mmmph... — ele murmurou, desta vez mais baixo, quase como um desafio.
— O que foi isso? Um pedido de clemência? — A sombra de uma figura começou a se materializar na borda da luz.
Miller rosnou, um som profundo que vibrou em seu peito. Ele não pedia clemência. Ele nunca pedia. Ele forçou seus pés contra o chão, tentando encontrar tração, mas a superfície era escorregadia. O contraste entre sua jaqueta preta de mangas rasgadas e a pele clara e marcada pelas cordas criava uma imagem de resistência desesperada.
— Você tem algo que eu quero, Miller — a figura deu um passo para dentro do círculo de luz. Era uma silhueta alta, cujas feições permaneciam borradas, como se a própria realidade ao redor dela estivesse corrompida. — Esse poder que brilha no seu olho... o mati não pertence a um garoto de rua com problemas de temperamento.
Miller inclinou a cabeça, a mecha rebelde caindo sobre o olho azul. Ele deu um sorriso por baixo da mordaça, um movimento que só foi percebido pelo leve franzir de seus olhos. Se a figura queria o mati, ela teria que vir buscar. E Miller não entregaria nada sem uma luta, mesmo que estivesse preso.
— Mmm-nnn! — Miller exclamou, e desta vez, a chama azul explodiu em tamanho, envolvendo o lado direito de seu rosto.
— Ah, então é assim? — A figura riu, um som seco e sem vida. — Você prefere sofrer a ceder. Eu esperava exatamente isso de você.
A figura estendeu a mão, e Miller sentiu uma pressão invisível apertar sua garganta, sobrepondo-se ao desconforto da mordaça. Ele lutou por ar, os sons abafados tornando-se mais agudos e urgentes. Seus pés se contraíram contra o metal frio, os dedos se curvando em agonia. O rubor de humilhação foi substituído por uma palidez mortal, exceto pelo brilho azul que agora era a única coisa visível na sala.
— Vamos ver quanto tempo sua raiva consegue sustentar esse fogo — disse a voz, agora fria como gelo.
Miller sentiu a consciência oscilar. As cicatrizes em seus braços pareciam queimar em sincronia com o mati. Ele pensou em sua jaqueta, em seu cinto de balas, em tudo o que o definia como um lutador. Ele não era apenas um garoto amarrado em uma sala escura. Ele era Miller. E Miller nunca caía sem levar alguém junto.
Com um esforço final e sobre-humano, Miller não tentou puxar as cordas para fora, mas sim para dentro. Ele concentrou toda a energia azul em seus pulsos. O cheiro de corda queimada começou a preencher o ar.
— O quê? — A figura recuou um passo, surpresa.
Miller soltou um rugido abafado, a mordaça de couro esticando-se ao limite enquanto ele canalizava o calor do mati. Ele não estava tentando pedir ajuda. Ele estava tentando se libertar para matar quem quer que estivesse naquela sala.
— Mmm-aaaaa-ghhh! — As cordas em seus pulsos finalmente cederam, desfiando-se sob a intensidade da chama azul.
Mas antes que ele pudesse soltar as mãos, a figura estalou os dedos.
A gravidade na sala pareceu dobrar. Miller foi pressionado contra o chão, a cadeira tombando com ele. Ele caiu de lado, o rosto atingindo o metal frio, a mordaça ainda firme, os pés nus esticados e vulneráveis. A dor foi imediata, mas a fúria era maior.
— Tentativa interessante — disse a figura, caminhando até ele e colocando o pé sobre o ombro de Miller, prendendo-o no chão. — Mas você esqueceu que, aqui, as regras são minhas.
Miller olhou para cima, o olho azul faiscando de ódio puro. Ele estava caído, amarrado, amordaçado e descalço, mas o fogo em seu olho dizia que a luta estava longe de terminar.
— Você vai se arrepender disso — ele tentou dizer, mas o que saiu foi apenas um rosnado abafado que ecoou pelo vácuo escuro.
— Talvez — respondeu a figura, inclinando-se para mais perto. — Mas, por enquanto, você é apenas um brinquedo quebrado.
A luz acima deles começou a piscar e se apagar, mergulhando Miller de volta no abismo de sua própria raiva, enquanto o brilho azul de seu olho iluminava fracamente as correntes que agora começavam a surgir do chão para substituir as cordas. O pesadelo estava apenas começando.
