
Miller!! :3
Fandom: Kaatieverse
Criado: 22/08/2026
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O Eco do Olho Azul
O silêncio era absoluto, mas não era o tipo de silêncio pacífico que precede um despertar suave. Era um vácuo pesado, opressor, que parecia pressionar os pulmões de Miller antes mesmo de ele abrir o olho. Quando as pálpebras finalmente pesaram e se ergueram, a única coisa que ele viu foi o nada. Uma escuridão densa, sem luz, sem horizonte, sem chão visível.
Miller tentou se levantar, mas seus sentidos estavam embotados. A última coisa de que se lembrava era de uma luta, o cheiro de pólvora e o som metálico de lâminas colidindo. Agora, o vazio.
— Onde... onde eu estou? — a voz dele soou apenas como um pensamento distante, pois antes que pudesse articular qualquer som real, um ruído metálico e agudo cortou o breu.
De repente, o peso do mundo caiu sobre seus pulsos e tornozelos. Correntes frias, com elos que brilhavam em um tom etéreo, surgiram do nada. Não eram correntes comuns; elas tinham o formato e a aura de seu mati. O design intrincado e místico que ele carregava no colar agora o prendia com uma força sobrenatural.
O puxão foi violento. Miller foi forçado a cair de joelhos, o impacto contra o chão invisível ressoando por todo o seu corpo. Suas botas pretas bateram no nada, e ele rosnou, a raiva fervendo instantaneamente em seu peito.
— Que porra é essa?! — ele rugiu, forçando os músculos dos braços. As cicatrizes em sua pele clara pareciam arder sob a pressão do metal espiritual. — Me soltem! Agora!
Ele puxou com tanta força que seus ombros estalaram, mas as correntes nem sequer oscilaram. Miller era um garoto forjado na agressividade, alguém que resolvia tudo com força bruta e um humor ácido, mas aquela situação estava fugindo do seu controle. A mecha rebelde no topo de sua cabeça balançava conforme ele sacudia o rosto, tentando enxergar quem estava nas sombras.
— Apareça! — ele gritou, o olho direito brilhando com uma intensidade perigosa. — Se você acha que essas correntinhas de merda vão me segurar, você não sabe com quem está mexendo!
Mas a resposta não veio em palavras. Veio em um movimento súbito. Algo frio e pegajoso selou seus lábios. Uma fita verde, de um material que parecia brilhar com uma luz doentia, cobriu sua boca com força, abafando qualquer grito ou insulto que ele pretendesse lançar.
Miller arregalou o olho. O pavor, um sentimento que ele raramente admitia sentir, subiu pela sua espinha. Ele tentou morder a fita, tentou cuspir, mas ela estava grudada como se fizesse parte de sua própria pele.
— Mmmph! Mmm-nnn! — O som saiu abafado, uma mistura de rosnado e desespero.
Ele começou a se debater freneticamente. O cinto de balas em sua cintura tilintava contra o metal das correntes. Suas calças pretas desfiadas roçavam no chão frio enquanto ele tentava encontrar alavancagem para se levantar, mas ele estava pregado ao chão. Cada movimento que fazia parecia drenar um pouco mais de sua energia.
Foi então que o silêncio externo foi substituído por um estrondo interno.
"Você realmente achou que teria o controle para sempre, Miller?"
A voz ecoou dentro de seu crânio. Era a sua própria voz, mas desprovida de sua agressividade habitual. Era fria, calculista e carregada de um eco que parecia vir de séculos atrás.
Miller parou de se debater por um segundo, seu olho direito tremendo.
"Olhe para você. Tão pequeno. Tão cheio de cicatrizes que nem consegue lembrar de onde vieram todas elas," a voz continuou, zombando dele.
— Mmmph! — Miller tentou gritar dentro de sua mente, uma negação furiosa. Ele sentiu o calor começando a subir pelo seu pescoço.
A raiva, sua velha amiga, começou a se transformar em algo mais potente. O olho direito de Miller, normalmente escuro e atento, começou a sofrer uma mutação. A cor mudou drasticamente para um tom de azul profundo, quase elétrico. E então, a chama começou a emanar.
Uma chama azul clara, fria ao toque mas devastadora em poder, brotou de sua órbita ocular. Ela se assemelhava à forma do mati, dançando no ar e iluminando a escuridão ao redor com um brilho espectral.
"Isso... use isso," a voz em sua mente sussurrou, agora com um tom de antecipação. "Queime as correntes. Queime tudo. Mas saiba que, quanto mais você usa esse poder, menos de 'você' sobra."
Miller não se importava. Ele nunca se importou com as consequências. A jaqueta preta com mangas rasgadas começou a flutuar levemente com a aura de energia que ele emanava. Ele forçou os pulsos para fora novamente, e desta vez, o metal espiritual das correntes começou a chiar sob o calor da chama azul.
— MMMM-NNNNGH! — Ele deu um solavanco final, colocando cada gota de seu ódio e de sua vontade de liberdade naquele movimento.
O som de metal se partindo ecoou como um tiro de canhão. As correntes que prendiam seus pulsos se desfizeram em fagulhas azuis. Miller, ainda com a boca selada, levou as mãos às pernas e, com um golpe violento de sua energia, destruiu os grilhões nos tornozelos.
Ele se levantou, cambaleando. O suor escorria por seu rosto, misturando-se com a marca da fita verde. Ele levou as mãos à boca e puxou a fita com um movimento brusco.
— Aaargh! — O grito de dor e alívio finalmente saiu de sua garganta. Ele cuspiu no chão invisível, limpando o resíduo pegajoso dos lábios. — Que tipo de truque mental barato é esse?
Ele olhou ao redor, a chama em seu olho ainda queimando, servindo como uma tocha naquele vazio.
— Quem está aí? — Miller rugiu, a voz rouca. — Eu vou te estraçalhar! Eu vou garantir que não sobre nada além de cinzas!
"Você está gritando com o espelho, Miller," a voz respondeu, parecendo vir de todos os lados agora. "Este lugar não é uma prisão externa. É o que resta de você quando o ódio não é o suficiente para preencher o vazio."
— Cale a boca! — Miller avançou para a escuridão, desferindo um soco no nada. — Eu sou real! Eu sinto a dor, eu sinto a raiva! Isso é o que eu sou!
Ele parou, ofegante. O rabo de cavalo baixo estava desfeito, os cabelos pretos e longos caindo sobre os ombros e cobrindo ainda mais as cicatrizes de seu rosto. Ele tocou o colar de mati em seu pescoço. O pingente estava quente, pulsando no mesmo ritmo que seu coração acelerado.
De repente, a escuridão começou a se retorcer. Formas começaram a surgir — vultos de pessoas que ele tinha enfrentado, rostos borrados de seu passado, e a silhueta de sua própria imagem, mas com os dois olhos visíveis e sem cicatrizes.
Miller recuou um passo, as botas batendo com força.
— Fique longe de mim — ele rosnou, a chama azul em seu olho aumentando de tamanho até cobrir metade de seu rosto. — Eu não sou esse garoto fraco que você está tentando me mostrar.
— Miller... — Uma voz diferente, mais suave, mas igualmente dolorosa, ecoou.
— Não diga meu nome! — Ele sacou uma pequena faca que mantinha escondida no cinto, os nós dos dedos brancos de tanto apertar o cabo. — Eu vou destruir este lugar! Eu vou destruir tudo!
Ele começou a correr. Não havia direção, não havia norte, mas ele corria. A cada passo, a chama azul deixava um rastro no chão, como se ele estivesse queimando a própria realidade. Ele queria sair dali. Ele precisava do mundo real, do caos que ele conhecia, das brigas de rua e do cheiro de asfalto molhado.
"Você não pode fugir de si mesmo," a voz em sua mente riu, um som seco e sem vida. "Você é a chama que consome o pavio. E o pavio está acabando."
Miller parou subitamente quando viu algo à frente. Não era uma saída, mas um espelho flutuante, feito de estilhaços de luz azul. Ele se aproximou, hesitante, a faca ainda em punho.
No reflexo, ele não viu o garoto agressivo de jaqueta rasgada. Ele viu apenas a chama. O mati ocupava todo o espaço onde seu rosto deveria estar. Era uma imagem de puro poder, mas também de absoluta solidão.
— É isso que você quer? — Miller perguntou para o reflexo, sua voz falhando pela primeira vez. — Que eu seja apenas uma arma?
O reflexo não respondeu. Em vez disso, a mão do reflexo saiu do espelho e agarrou o pescoço de Miller.
Ele não conseguia respirar. A mão era feita de energia pura, fria e paralisante. Miller tentou esfaquear o braço que o prendia, mas a lâmina passou através dele como se fosse fumaça.
— Solte... me... — ele engasgou, a visão começando a escurecer novamente.
A chama azul em seu olho começou a se expandir, não mais como uma ferramenta de ataque, mas como algo que o estava devorando de dentro para fora. Ele sentiu o calor intenso em seu crânio, uma dor excruciante que parecia querer rachar seus ossos.
"Aceite o vazio, Miller. Aceite que você é apenas a sombra de algo muito maior," a voz sussurrou, agora diretamente em seu ouvido, embora não houvesse ninguém ali.
— Nunca... — Miller forçou as palavras, o olho azul brilhando com uma última centelha de rebeldia. — Eu... eu sou o dono da minha própria desgraça.
Com um esforço sobre-humano, Miller não tentou lutar contra a mão. Em vez disso, ele a agarrou e puxou para si, forçando a energia a entrar em seu próprio peito. Se aquele poder era dele, ele iria tomá-lo de volta, mesmo que isso o matasse.
Uma explosão de luz azul obliterou a escuridão.
Miller sentiu seu corpo ser arremessado através de dimensões, o som de mil correntes se quebrando ao mesmo tempo ensurdecendo seus ouvidos. Ele sentiu o vento, sentiu o cheiro de poeira e, finalmente, sentiu o impacto duro do chão de concreto.
Ele abriu o olho.
Ele estava de volta. O beco estava escuro e sujo, exatamente como ele gostava. A chuva fina começava a cair, resfriando sua pele febril. Ele tossiu, arrancando os restos imaginários da fita verde de sua boca, embora não houvesse nada lá.
Miller sentou-se, encostando as costas em uma parede de tijolos pichada. Suas mãos tremiam levemente. Ele levou os dedos ao olho direito. A chama havia sumido, mas a área ainda estava quente ao toque. O azul havia voltado ao seu tom normal, mas ele sabia que a cor escura e profunda ainda estava lá, escondida sob a superfície.
— Que merda foi essa? — ele murmurou para a noite, sua voz voltando ao tom áspero e mal-humorado de sempre.
Ele limpou o sangue que escorria de um corte em sua testa — uma cicatriz nova para a coleção. Ele se levantou, ajeitando a jaqueta rasgada e verificando o cinto de balas. O colar de mati pendia pesadamente em seu peito, parecendo mais frio do que o normal.
Miller olhou para o final do beco, onde as luzes da cidade piscavam de forma indiferente. Ele estava exausto, irritado e com uma dor de cabeça que parecia que alguém tinha martelado pregos em seu cérebro.
— Se alguém estiver assistindo... — ele disse em voz alta, apontando o dedo para o nada. — Da próxima vez, use correntes mais fortes. Essas foram fáceis demais.
Ele começou a caminhar, mancando levemente, mas com a cabeça erguida. A agressividade era sua armadura, e ele a vestia melhor do que qualquer jaqueta. O vazio tinha tentado engoli-lo, mas Miller era um monstro que não aceitava ser devorado por nada, nem mesmo por si mesmo.
A mecha rebelde em sua cabeça balançou quando ele virou a esquina, desaparecendo nas sombras da cidade, deixando para trás apenas o eco de seus passos pesados e o brilho residual de uma chama azul que se recusava a apagar.
Ele ainda podia ouvir a voz, bem lá no fundo, mas agora ela estava em silêncio, esperando. E Miller, com seu mau humor característico, estava pronto para gritar com ela novamente assim que ela ousasse falar.
Afinal, no Kaatieverse, a sobrevivência não era para os fracos de coração, e Miller tinha um coração feito de cicatrizes e fogo.
— Próxima parada... — ele resmungou, chutando uma lata vazia no caminho. — Alguém vai ter que pagar pelo meu tempo perdido.
Ele desapareceu na névoa, um garoto quebrado, mas nunca derrotado, carregando consigo o peso de um poder que ele ainda não compreendia totalmente, mas que estava mais do que disposto a usar para queimar o mundo se fosse necessário. O silêncio da noite foi a única resposta que ele recebeu, e para Miller, isso era o suficiente por enquanto.
