
Nerd
Fandom: Alien stage
Criado: 22/08/2026
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O Eco do Silêncio nos Corredores de Vidro
A luz da manhã entrava pelas janelas altas do Colégio Anakt, mas para Mizi, era apenas um lembrete irritante de que o dia seria longo. Ela bocejou, sentindo o peso das pálpebras. Seus cabelos rosa, com as pontas tingidas de um azul desbotado, estavam presos em duas marias-chiquinhas meio frouxas. Ela ajeitou os óculos de armação grossa no rosto — não que precisasse deles para enxergar, mas a lente servia como um escudo, uma barreira entre ela e o resto daquele colégio insuportável.
Mizi era o que todos chamavam de "nerd invisível". O uniforme estava impecável, abotoado até o último botão, a saia no comprimento exato exigido pelas normas. Enquanto os outros alunos tentavam customizar suas roupas para parecerem descolados, ela preferia a segurança do anonimato. Ou, pelo menos, a tentativa dele.
— Que porra, mais um dia nessa merda — resmungou Mizi baixinho, encostando a cabeça na mesa da biblioteca antes mesmo da primeira aula começar.
Ela não tinha amigos. Não por falta de habilidade social, mas por pura falta de interesse. As pessoas eram barulhentas, dramáticas e, na maioria das vezes, burras. Mizi preferia o sarcasmo de seus próprios pensamentos e as horas de sono que conseguia roubar entre uma aula e outra.
Do outro lado do campus, no pátio principal, o clima era completamente diferente. O grupo que dominava as atenções — mesmo sem querer — estava reunido perto dos armários.
— Eu juro por Deus, se o professor de física vier com aquele papo de 'vetores' de novo, eu taco a mesa nele — Till rosnou, ajeitando a mochila no ombro. Seu cabelo cinza estava mais bagunçado que o normal, e a camiseta de uma banda de rock desconhecida aparecia por baixo da jaqueta do uniforme.
— Relaxa, Till. Você vai acabar sendo expulso antes do intervalo se continuar com essa vibe de "revoltado sem causa" — Hyuna riu, dando um tapinha nas costas dele. Ela era a personificação do descolado: pele morena, cabelos castanhos longos e um sorriso que parecia iluminar o corredor.
Luka, que estava encostado no armário ao lado, apenas sorriu de canto, observando Hyuna. Ele era alto, loiro e tinha aquele ar de inteligência superior que irritava alguns, mas encantava outros.
— O Till só precisa de um pouco mais de disciplina — Luka comentou, a voz calma e polida. — E talvez de um vocabulário menos... colorido.
— Ah, cala a boca, Luka! — Till rebateu, revirando os olhos. — Nem todo mundo nasceu com um dicionário enfiado na bunda igual a você.
Ivan, que até então estava em silêncio, soltou uma risada anasalada. Ele se aproximou de Till, invadindo seu espaço pessoal com aquele sorriso insuportável que sempre carregava.
— Ora, Till... não desconte sua frustração intelectual no Luka. Todo mundo sabe que você só está irritado porque não conseguiu decorar a fórmula de ontem.
— Sai de perto de mim, Ivan! — Till o empurrou, mas Ivan nem se moveu, apenas manteve o sorriso, seus olhos pretos brilhando com a diversão de provocar o outro.
Sua, que estava sentada em um banco próximo com um livro de poesia russa no colo, soltou um suspiro pesado. Ela era pequena, pálida, com uma franja reta que quase cobria seus olhos roxos e melancólicos.
— Vocês são exaustivos — Sua disse, sem tirar os olhos da página. — Podem, por favor, gritar em uma frequência que não destrua meus neurônios?
— A Sua tá certa, gente. Vamos logo pra sala que o sinal vai bater — Hyuna chamou, começando a andar.
Luka a seguiu imediatamente, mantendo um passo ao lado dela. Ele sabia que Hyuna percebia seus olhares, mas a dinâmica entre eles era um jogo silencioso que ele ainda não tinha coragem de transformar em palavras.
Enquanto o grupo dos cinco se dirigia para a sala do 3º ano A, Mizi caminhava lentamente para a sala do 3º ano B. Ela nunca tinha falado com nenhum deles. Para Mizi, eles eram apenas parte da paisagem barulhenta da escola. E para eles, Mizi sequer existia.
O problema de ser invisível, porém, é que você se torna um alvo fácil para quem gosta de caçar no escuro.
No meio do corredor, três garotas do grupo das "populares" cercaram Mizi. A líder, uma garota de cabelos perfeitamente ondulados chamada Maria, bloqueou o caminho.
— Olha só se não é a nossa esquisita favorita — Maria disse, com um sorriso cruel. — Onde você pensa que vai com essa cara de sono, sua idiota?
Mizi nem levantou o olhar.
— Para a aula. É o que as pessoas fazem na escola, sabia? Ou o excesso de laquê corroeu o que restava do seu cérebro?
O sarcasmo de Mizi foi como um gatilho. Maria a empurrou contra os armários com força. O som do metal batendo nas costas de Mizi ecoou pelo corredor vazio.
— Você se acha muito esperta, né? — Maria rosnou, agarrando uma das marias-chiquinhas de Mizi e puxando com força. — Só porque usa esses óculos ridículos e tira nota boa. Você é um lixo, Mizi. Ninguém gosta de você. Ninguém nem sabe que você respira.
Mizi sentiu a dor aguda no couro cabeludo, mas manteve o rosto impassível, embora o coração estivesse acelerado.
— E ainda assim, você está aqui gastando seu tempo comigo — Mizi retrucou, a voz falhando levemente. — Deve ser triste não ter nada melhor pra fazer.
O primeiro tapa veio rápido. O óculos de Mizi voou longe, caindo no chão de granito. O segundo golpe foi um soco no estômago que a fez perder o ar e cair de joelhos.
— Vamos ensinar ela a fechar a boca — Maria ordenou para as outras duas.
O que se seguiu foi uma rotina cruel que Mizi já conhecia. Chutes, puxões de cabelo e insultos sussurrados como veneno. Ela se encolheu, protegendo a cabeça com os braços, esperando passar. O sangue começou a escorrer de um corte em seu supercílio, manchando o colarinho branco e impecável de seu uniforme.
Enquanto isso, na sala ao lado, a aula de literatura corria normalmente.
— ...e é por isso que o romantismo foca tanto na morte — explicava o professor.
Till estava desenhando caveiras no caderno, completamente alheio. Ivan o observava de soslaio, pensando em qual seria a próxima frase para tirar o cinzento do sério. Luka anotava cada palavra do professor, ocasionalmente olhando para Hyuna, que parecia perdida em pensamentos, tamborilando os dedos na mesa. Sua, por sua vez, estava quase escondida atrás de seu livro, alheia ao mundo exterior.
Nenhum deles ouviu os abafados sons de impacto no corredor. Nenhum deles sabia que, a poucos metros dali, uma garota estava sendo quebrada.
Minutos depois, as agressoras saíram rindo, deixando Mizi caída no chão. Ela ficou ali por um tempo, respirando com dificuldade. Suas mãos tremiam enquanto ela tateava o chão em busca de seus óculos. Quando os encontrou, uma das lentes estava trincada.
— Que porra... — ela sussurrou, limpando o sangue do rosto com a manga do uniforme. — Minha mãe vai me matar por causa dessa camisa.
Ela se levantou com dificuldade, as pernas bambas. Mizi não chorava. Ela tinha decidido há muito tempo que aquelas pessoas não mereciam suas lágrimas. Com um esforço doloroso, ela caminhou até o banheiro, limpou-se o melhor que pôde e seguiu para a sala de aula.
Ao passar pela porta da sala do 3º ano A para chegar à sua, ela cruzou por um momento o olhar com Ivan, que estava sentado perto da porta.
Ivan arqueou uma sobrancelha, notando o estado deplorável da garota: o cabelo bagunçado, o corte no rosto, o uniforme sujo. Por um segundo, a expressão de deboche dele vacilou, substituída por uma curiosidade passageira.
— Ei, Till — Ivan sussurrou, inclinando-se para trás. — Olha aquela nerd da outra sala. Parece que passou por um moedor de carne.
Till olhou de relance, vendo apenas as costas de Mizi sumindo pelo corredor.
— E o que eu tenho a ver com isso? — Till resmungou, voltando aos seus desenhos. — Todo mundo nessa escola é maluco ou idiota.
— Verdade — concordou Ivan, o sorriso voltando ao rosto. — Mas ela pareceu... interessante.
— Ivan, cala a boca e presta atenção na aula — Sua interveio, sem levantar a voz, mas com um tom que não admitia réplicas.
O grupo voltou às suas bolhas. Hyuna e Luka trocaram um olhar rápido, ela sorrindo para ele, que corou levemente e desviou o rosto para o quadro negro. Eles tinham seus próprios dramas, suas próprias paixões e conflitos internos.
Mizi, na sala ao lado, sentou-se na última fileira, abriu seu caderno e apoiou o rosto na mão, sentindo a pulsação da dor em seu rosto. Ela olhou pela janela, observando os pássaros lá fora.
— Escola é uma merda — ela pensou, fechando os olhos por um segundo.
Ela estava sozinha. Eles estavam juntos. E, naquele momento, nenhum deles tinha ideia de que o destino, com seu senso de humor distorcido, estava prestes a colidir seus mundos de uma forma que nenhum deles poderia prever.
A manhã continuou cinzenta, o silêncio de Mizi se perdendo no barulho da elite da escola, enquanto o sangue seco em seu uniforme era o único testemunho de uma guerra invisível que estava apenas começando.
