
Amor no apocalipse
Fandom: The Walking Dead
Criado: 22/08/2026
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O Sangue na Aliança
Kiria havia acabado de sair do banho, o vapor ainda embaçando o pequeno espelho do banheiro em Alexandria. O silêncio da casa era um luxo raro, e ela o aproveitava enquanto vestia sua calça jeans preta e um cropped henley de manga longa, também preto. Por cima, buscou o conforto familiar de um dos casacos quadriculados de Carl; era cinza, com listras brancas e pretas, e ainda mantinha o cheiro dele — uma mistura de pólvora, suor e o ar fresco do lado de fora das muralhas.
Ela calçou as botas pretas, penteou os cabelos médios e escuros, deixando que caíssem sobre os ombros, e então parou. Seus olhos castanhos focaram nos próprios dedos. A aliança de prata, com a pequena pedra brilhante, reluzia sob a luz fraca.
Um sorriso involuntário surgiu em seus lábios, iluminando as sardinhas que pontilhavam seu nariz e bochechas. A lembrança daquela noite era o seu porto seguro.
Lembrança ON
— Estamos quase chegando — disse Carl, a voz baixa e rouca, enquanto as mãos dele cobriam firmemente os olhos de Kiria. Ele a guiava com cuidado por entre os galhos baixos.
— Carl, qual é? — Kiria soltou uma risada, tropeçando levemente em uma raiz, sentindo a proteção imediata do braço dele em sua cintura. Eles pararam. — Chegamos?
Carl tirou as mãos. Kiria piscou, e por um momento, jurou que os olhos azuis dele brilhavam como estrelas na escuridão da floresta. Ele havia organizado um jantar improvisado em uma casa abandonada que encontrara nos arredores de Alexandria. Havia velas — restos de cera recuperados — e uma mesa capenga forrada com um pano limpo.
— Fiz sopa. Foi o mais "chique" — ele fez aspas com os dedos, sorrindo de lado, aquele sorriso que sempre desarmava Kiria — que eu consegui encontrar.
Ele coçou a nuca, um pouco sem graça, o cabelo castanho claro caindo sobre as bandagens que escondiam a cicatriz em seu rosto. Kiria não disse nada; apenas caminhou até ele e selou seus lábios em um beijo suave. Carl a puxou pela cintura, aprofundando o contato por um segundo antes de se separarem.
— Está perfeito assim — sussurrou ela, fazendo o Grimes sorrir abertamente.
— Ah, tem outra coisa. — Ele a soltou, as mãos tateando os bolsos da calça com uma pressa nervosa.
Quando ele estendeu a mão, os dedos estavam trêmulos. Entre eles, brilhava um anel. Não era um aro de latão ou um pedaço de barbante. Era uma aliança de prata, delicada e real. Kiria levou as mãos à boca, sentindo o ar fugir dos pulmões.
— Carl... — sussurrou, as lágrimas já embaçando sua visão. — Onde você conseguiu isso?
— Eu estava pensando nesse dia. Em uma das rondas que fiz com o meu pai, procurei uma zumbi que estivesse usando um anel — ele explicou, a honestidade brutal do novo mundo misturada ao romantismo. — Passei grande parte da ronda procurando. Quando a encontrei, eu a matei e tirei o anel do dedo dela. Trouxe para casa, lavei, fervi... e fiquei esperando o momento certo.
Kiria sorriu entre as lágrimas. Era a coisa mais "The Walking Dead" que alguém poderia fazer, e ela o amava por isso. Carl segurou a mão dela, o metal frio tremendo entre eles.
— Quer namorar comigo? — ele perguntou, o suor frio brilhando em sua testa.
— Sim, sim e mil vezes sim! — ela exclamou.
Carl a ergueu do chão, girando-a no ar enquanto as risadas de ambos ecoavam pelas paredes descascadas da casa abandonada. Quando ele a colocou de volta no chão, segurou seu queixo com delicadeza.
— Você sabe que isso é tecnicamente uma aliança de noivado, né? — perguntou ela, provocando-o com o olhar.
Carl deu de ombros, aproximando o rosto do dela.
— Você vai ser minha noiva de qualquer jeito, Kiria Smith.
Lembrança OFF
— Que saudade desse dia — murmurou Kiria no presente, alisando o aro de prata com o polegar.
Ela desceu as escadas da casa de Alexandria, encontrando Maggie e Enid na cozinha. O clima na comunidade era tenso, mas dentro daquelas paredes, elas tentavam manter a sanidade.
— Oi, oi — cumprimentou Kiria, esticando o braço para pegar um dos cookies que Carol havia deixado no balcão.
— Oi. Estou cortando o cabelo da Maggie — Enid avisou, manuseando a tesoura com concentração.
— Percebi. — Kiria sorriu para Maggie, que agora exibia fios curtos novamente.
— É bom ter o cabelo assim de novo — Maggie comentou, embora seu rosto estivesse pálido. — Mais prático.
As três eram como uma família. Com a gravidez de Maggie, o instinto protetor de Kiria e Enid havia dobrado.
— Vocês viram o Carl? — perguntou Kiria, limpando as migalhas das mãos.
— Estava de vigia na torre com o Rick — respondeu Enid, dando os últimos retoques.
Kiria assentiu e caminhou em direção à porta, mas antes que pudesse tocar a maçaneta, um som abafado a fez congelar.
— Ai... — Maggie murmurou, a mão voando para a barriga. — Ai!
Kiria virou-se a tempo de ver Maggie soltar um grito agudo e desabar no chão. Enid largou a tesoura, aterrorizada. Kiria correu, ajoelhando-se ao lado da amiga e ajudando-a a encostar nos pés da mesa.
— O que foi? O que está sentindo? — Kiria perguntou, a voz subindo uma oitava.
Maggie não conseguia responder. Ela estava branca como papel, o suor frio brotando instantaneamente em sua pele.
— Porra! Enid, segura ela! — ordenou Kiria, levantando-se num salto e escancarando a porta da frente. — Rápido! A Maggie não está bem! Ajudem aqui!
...
O caos se instalou rapidamente. A decisão foi tomada: eles precisavam levar Maggie até Hilltop para que o médico de lá pudesse examiná-la. O trailer foi preparado. Rick, Eugene e Abraham discutiam as rotas do lado de fora.
Kiria entrou correndo em casa para pegar seu coldre. Ao entrar no quarto, encontrou Carl. Ele estava sério, carregando pentes de munição com movimentos mecânicos.
— Oi — sussurrou ela, a adrenalina correndo nas veias.
— Oi, amor. — Carl travou a pistola e a guardou, o olhar azul fixo nela.
Kiria pegou seu coldre na cômoda e começou a ajustá-lo na cintura. Ela sentiu o olhar de Carl queimar em suas costas.
— O que você está fazendo? — ele perguntou, a voz ficando mais firme.
— Me armando — respondeu ela, verificando o carregador de sua própria arma.
— Para quê? — Ele cruzou os braços, a postura defensiva.
— Eu vou com vocês. — Ela guardou a pistola e pegou sua faca de combate.
Carl soltou uma risada sem humor, balançando a cabeça.
— Não, você não vai.
Kiria parou o que estava fazendo e o encarou, imitando a postura dele, de braços cruzados.
— E por que não?
— Porque eu não vou conseguir ter paz sabendo que você está em perigo lá fora — disse ele, começando a descer as escadas, tentando encerrar o assunto. — Você fica.
— Não. — Ela desceu logo atrás dele, a teimosia falando mais alto. — Eu vou, Carl. A Maggie é praticamente uma mãe para mim. Eu não vou deixar ela ir sozinha naquele estado.
— Ela não vai estar sozinha! — Carl pegou o chapéu de xerife sobre o balcão e o ajustou na cabeça, virando-se para ela.
— Carl Grimes, você me entendeu. Eu vou.
Ele suspirou, aproximando-se dela. Segurou o rosto de Kiria com as duas mãos, forçando-a a olhar diretamente em seu olho azul.
— Fica, por favor. Eu não quero perder você — sussurrou ele, a voz falhando por um breve segundo. — Eu tenho medo de não conseguir te proteger se as coisas ficarem feias.
Kiria sentiu o coração apertar. Ela segurou os pulsos dele, depositando um beijo suave em seus lábios.
— Vai ficar tudo bem, Carl. Ok? — Ele negou com a cabeça, mas ela sorriu levemente. — Vai sim.
Ela se soltou e saiu de casa, ignorando Carl gritando seu nome. No caminho para o trailer, Sasha a interceptou.
— Vai com a gente? — perguntou a mulher, carregando um fardo de rifles.
— Vou — respondeu Kiria, tentando manter a calma.
Sasha jogou uma AK-47 em sua direção. Kiria a pegou no ar com precisão.
— Bem-vinda ao time.
Carl apareceu logo atrás, o rosto fechado em uma máscara de frustração e medo. Ele segurou a mão de Kiria, virando-a para um último beijo, mais urgente e carregado de pressentimento.
— Por favor... — ele tentou uma última vez.
— Você não vai me fazer mudar de ideia.
Rick apareceu na porta do trailer, o semblante exausto.
— Pessoal... vamos?
Eles subiram. Kiria foi direto para os fundos, onde Maggie estava deitada em uma maca improvisada. A viagem foi longa e silenciosa, interrompida apenas pelos gemidos de dor de Maggie e pelo som do motor do trailer.
— Se importa se eu ficar aqui a viagem toda? — perguntou Kiria, segurando a mão suada da amiga.
— Não... — sussurrou Maggie. — Estou preocupada com o Glenn.
— Eles estão bem, Maggie. Rick vai encontrá-los.
Mas o otimismo de Kiria morreu quando o trailer parou bruscamente. Pela janela, ela viu o que Rick e os outros estavam encarando: uma barricada de troncos em chamas e um zumbi pendurado, servindo de aviso.
A voz que veio da floresta era fria e confiante.
— Estão tratando bem o seu pessoal? Como se fosse o último dia na terra? — O homem invisível riu. — É melhor vocês irem. Vai ficar mais quente.
Rick deu ré. Eles tentaram outra rota. E outra. Todas bloqueadas. O cerco estava se fechando.
...
A noite caiu, pesada e sem estrelas. O grupo, agora a pé na floresta carregando Maggie em uma maca, avançava com dificuldade. Eugene havia ficado no trailer para servir de distração, um sacrifício que pesava no peito de todos.
Carl e Kiria iam na frente, abrindo caminho. O silêncio da mata foi quebrado pelo primeiro assobio.
Um som agudo, melódico e aterrorizante.
— O que é isso? — sussurrou Kiria, erguendo a pistola.
Os assobios começaram a vir de todos os lados, multiplicando-se.
— Vão! Vão! — gritou Rick.
Eles correram, mas a floresta parecia ter ganhado vida. De repente, luzes de faróis se acenderam, cegando-os. Dezenas de homens armados surgiram do nada, cercando-os em um semicírculo perfeito. O trailer de Eugene já estava lá, capturado.
— Porra... — murmurou Kiria.
Carl se colocou imediatamente à frente dela, mas era inútil. Eles estavam em desvantagem de dez para um.
Um homem de bigode e jaqueta clara saiu da penumbra.
— Conseguiram. Bem-vindos ao lugar para onde estavam indo.
Ele começou a desarmá-los. Quando chegou em Kiria, apontou a arma para o peito dela. Carl rosnou, tentando avançar.
— Deixa ela em paz! — gritou o Grimes.
— Sua namorada? — O homem sorriu, dando um peteleco no chapéu de Carl. — Garoto de sorte.
A ordem veio logo em seguida: todos de joelhos. Rick, o homem que Kiria via como um pilar inabalável, ajoelhou-se, tremendo. Kiria sentiu as pernas fraquejarem e se ajoelhou ao lado de Carl.
Dwight, o homem com o rosto queimado, trouxe o restante do grupo de uma van: Glenn, Michonne, Rosita e Daryl. O desespero de Glenn ao ver Maggie naquele estado quebrou o que restava do coração de Kiria.
— Muito bem! — O homem de bigode bateu na porta do trailer. — Vamos conhecer o homem.
A porta se abriu. Um par de botas de couro pisou no chão, seguido por uma calça cargo e uma jaqueta de couro preta perfeita. O homem carregava um bastão de beisebol enrolado em arame farpado no ombro.
Kiria sentiu o mundo girar. Aquela silhueta. Aquela maneira de inclinar a cabeça.
— Já estão mijando nas calças? — A voz era irônica, vibrante. — Caramba, achei que a gente estava chegando perto.
Ele caminhou até a luz. Kiria sentiu o ar congelar em seus pulmões. Suas sardinhas empalideceram.
— Pai? — O sussurro escapou de seus lábios antes que pudesse conter.
Carl virou o rosto para ela, o choque estampado em seu único olho. O homem, Negan, parou e olhou para baixo.
— Cacete... eu não acredito. — Negan ajoelhou-se na frente de Kiria. — Filha?
— Você sumiu — disse ela, a voz trêmula de ódio e medo.
— Eu procurei você por toda parte! Olha só para você... está linda. — Ele notou a mão dela unida à de Carl e viu a aliança. O sorriso dele se tornou predatório. — É ele? O sortudo?
— Não interessa. Deixa a gente ir embora, por favor.
Negan riu, levantando-se.
— Dwight! Prenda ela ali. Quero que minha princesa veja o show de camarote.
— Não! Me solta! — Kiria lutou, mas foi arrastada e amarrada à maçaneta do trailer. Carl tentou levantar para ajudá-la, mas foi jogado de volta ao chão sob a mira de armas.
Negan começou seu discurso. Ele falou sobre a nova ordem mundial, sobre metade de tudo pertencer a ele. Ele era um showman do apocalipse, e Lucille, seu bastão, era a estrela.
— Escolha um deles para eu matar, Kiria — ele disse, voltando-se para a filha com um sorriso insano.
— Vai para o inferno! — gritou ela, antes de ser amordaçada por Dwight.
Negan começou o "uni-duni-tê". O som do bastão batendo na palma da mão dele ritmava o terror. Ele parou na frente de Abraham. Parou na frente de Carl, ameaçando tirar o outro olho do garoto se alguém se movesse.
— Este... daqui — sentenciou Negan, parando diante do ruivo.
Kiria tentou gritar sob a mordaça, as lágrimas escorrendo sem parar enquanto via Lucille subir.
O primeiro golpe foi seco. O som de crânio se partindo ecoou pela clareira silenciosa.
— Chupa... as minhas... bolas — conseguiu dizer Abraham, heroico até o fim.
Negan não parou. Ele golpeou de novo, e de novo, transformando o homem em uma massa irreconhecível de sangue e osso. Kiria fechou os olhos, mas o som — aquele som úmido e esmagador — ficaria gravado em sua mente para sempre.
Ela olhou para Carl através do borrão das lágrimas. Ele estava paralisado, o rosto salpicado com o sangue de Abraham. Naquele momento, Kiria Smith soube que o mundo que conheciam havia acabado. O pai que ela um dia amou estava morto; em seu lugar, havia apenas o monstro que agora limpava o sangue de Lucille diante de sua nova família.
