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Fandom: Avatar
Criado: 22/08/2026
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Sangue, Azul e o Peso do Destino
A fumaça densa das explosões ainda ardia nos pulmões de Kuro, um lembrete constante de que, apesar de ter nascido em Pandora, aquele mundo ainda tentava matá-lo a cada respiração. Ele ajustou a máscara de oxigênio, sentindo o plástico suado contra o rosto, e olhou para o lado. Tatsuyo estava agachada ao seu lado entre as raízes gigantescas de uma árvore Hometree caída, os olhos pretos dilatados pelo medo, mas as mãos firmes enquanto checava o cartucho de sua arma.
— Kuro, eles estão recuando — sussurrou Tatsuyo, a voz abafada pelo respirador. — Mas o Jake não vai deixar isso passar. Você viu o que aconteceu lá no trilho magnético.
Kuro passou a mão pelo cabelo branco curto e repicado, agora sujo de fuligem e terra. Ele deu um sorriso torto, tentando dissipar a tensão que vibrava no ar.
— É, eu vi. E vi você derrubando aquele drone com um tiro certeiro no sensor. Se a gente sobreviver a isso, vou ter que admitir que você é o cérebro e a mira da equipe, e eu sou só o rostinho bonito e musculoso.
Tatsuyo revirou os olhos, mas um pequeno sorriso surgiu no canto de seus lábios.
— Menos, Hatake. Bem menos.
Eles não eram Na'vi. Eram os "filhos do pecado" da RDA, órfãos de cientistas e soldados que haviam ficado para trás ou morrido na primeira guerra. Jake Sully os acolhera, talvez por culpa, talvez por ver neles o que ele próprio fora um dia: um estranho em uma terra sagrada. Mas Neytiri... para ela, eles eram apenas lembretes ambulantes da destruição.
O retorno para a aldeia Omatikaya foi tenso. O ataque dos "Povo do Céu" havia mudado tudo. A segurança da floresta fora violada. Quando chegaram ao acampamento principal, viram Neteyam, Lo'ak e Kiri reunidos em volta de Jake e Neytiri. O clima era de funeral, mas a decisão já havia sido tomada. Eles precisavam partir.
— Nós vamos para o recife. Para o clã Metkayina — anunciou Jake, sua voz de Olo'eyktan ecoando pela clareira.
O silêncio que se seguiu foi quebrado pelo olhar gélido de Neytiri, que se voltou imediatamente para Kuro e Tatsuyo.
— Eles não podem ir — disse ela, a voz carregada de um veneno antigo. — São humanos. Sangue do céu. Eles vão nos atrasar, vão precisar de tanques, de filtros, de cuidados que não teremos no mar. Eles pertencem aos seus, Jake.
Neteyam deu um passo à frente, seus dezoito anos trazendo uma autoridade que começava a rivalizar com a do pai.
— Eles são nossos irmãos, mãe. Kuro lutou ao meu lado hoje. Tatsuyo salvou Kiri de um estilhaço. Eles não são "eles". São nós.
— Eles não respiram o nosso ar! — sibilou Neytiri, aproximando-se de Neteyam. — Eles são frágeis. O mar os engolirá.
Kuro sentiu um nó na garganta. Ele olhou para Tatsuyo e viu a mesma dor refletida nos olhos dela. Eles amavam Pandora. Amavam Kiri e suas estranhezas, Lo'ak e suas rebeldias, a doçura de Tuk. Eles não conheciam a Terra. A Terra era um mito morto.
— Há uma forma — disse Kiri, sua voz calma cortando a discussão. Ela olhou para o pai. — As unidades de link... e os corpos. Os avatares que foram cultivados nos laboratórios antigos. Estão prontos há anos, pai. Você sabe disso. Norm disse que a compatibilidade genética era quase perfeita porque foram feitos usando o DNA dos pais deles como base.
Jake suspirou, esfregando o rosto com a mão grande de quatro dedos.
— É uma transferência permanente, Kiri. Não é um link de sono. É o ritual de Eywa. É perigoso. Pode matá-los.
Kuro deu um passo à frente, ignorando o rosnado baixo de Neytiri.
— Prefiro morrer tentando me tornar um de vocês do que ser deixado para trás para ser capturado pela RDA. Eu não vou voltar para uma cela de metal, Jake.
Tatsuyo segurou a mão de Kuro, os dedos entrelaçados com força.
— Eu também não. Se o nosso destino é o mar, queremos ir como Na'vi.
O processo começou naquela mesma noite, nas profundezas das cavernas onde os antigos equipamentos científicos ainda funcionavam, alimentados por geradores improvisados. Norm e Max estavam frenéticos, ajustando os parâmetros. Dois tanques de suspensão brilhavam com uma luz azulada, contendo os corpos altos, esguios e azuis que esperavam por suas almas.
— Escutem bem — disse Norm, a expressão séria. — O que vamos fazer é projetar a consciência de vocês permanentemente para os corpos Avatar através da Árvore das Almas, enquanto usamos a tecnologia para estabilizar a ponte. Vai doer. Vai doer como se cada nervo do seu corpo estivesse sendo arrancado e costurado de volta.
— Ótimo — murmurou Kuro, tentando manter o tom brincalhão apesar do suor frio. — Eu sempre quis saber como é ser um churrasco elétrico.
Tatsuyo olhou para ele através do vidro do tanque ao lado.
— Kuro... se não der certo...
— Vai dar certo, Tats. A gente sobreviveu a dezesseis anos sendo os únicos macacos sem pelo dessa floresta. Isso aqui é só um upgrade.
Eles foram deitados nas macas de conexão. A voz de Jake começou a entoar as preces a Eywa, e a conexão foi ativada.
A dor não foi imediata. Primeiro, veio o frio. Um frio absoluto, como se o espaço sideral tivesse entrado em suas veias. E então, a explosão.
Kuro sentiu seu cérebro ser esticado por quilômetros. Ele viu cores que não existiam, ouviu o som das estrelas colidindo. Cada fibra de seus músculos humanos parecia estar sendo desintegrada. Ele queria gritar, mas não tinha mais pulmões. Ele era apenas uma centelha de pensamento sendo empurrada através de um funil estreito de energia pura.
Ao longe, ele ouviu o grito de Tatsuyo. Não um grito de medo, mas de agonia física pura. Ele tentou alcançá-la mentalmente. Segura a minha mão, Tats! Não solta!
A escuridão o engoliu.
Quando Kuro abriu os olhos, a primeira coisa que sentiu foi o peso. O mundo parecia diferente. Maior. Mais vibrante. Ele tentou levar a mão ao rosto e sentiu algo bater na sua testa.
— Devagar, Kuro. Respira — era a voz de Max, mas parecia vir de muito longe.
Kuro puxou o ar. O ar de Pandora. Não havia o gosto de plástico da máscara. Não havia o chiado do filtro. Era puro, doce, com cheiro de terra úmida e flores noturnas. Ele inspirou profundamente, sentindo o peito se expandir de uma forma que nunca sentira antes.
Ele se sentou na maca, sentindo-se estranhamente coordenado, apesar do novo tamanho. Olhou para as mãos. Eram azuis, longas, com veias bioluminescentes que brilhavam suavemente sob a pele. Mas, ao contar os dedos, parou.
Um, dois, três, quatro... cinco.
Cinco dedos. Um lembrete de sua origem humana, assim como Jake, assim como Lo'ak.
— Tatsuyo? — Sua voz saiu mais profunda, com uma ressonância que vibrava em seu peito.
Ao lado dele, a figura azul se mexeu. Tatsuyo sentou-se com dificuldade, os cabelos pretos ondulados caindo sobre os ombros azuis. Quando ela abriu os olhos, Kuro prendeu a respiração. Diferente da maioria dos Na'vi, que tinham olhos amarelos ou dourados, os olhos de Tatsuyo permaneciam negros como a noite mais profunda de Pandora, brilhando como obsidiana polida.
— Eu estou... respirando — sussurrou ela, as lágrimas escorrendo pelo rosto azul. — Kuro, eu consigo sentir o vento na minha pele.
Kuro soltou uma risada curta, uma mistura de alívio e euforia. Ele se levantou, sentindo os 1,80m de sua forma humana serem substituídos por quase três metros de altura e puro músculo Na'vi. Ele ainda tinha o cabelo branco, curto e espetado, criando um contraste marcante com a pele azul e as listras mais escuras.
— Olha só para você — disse Kuro, aproximando-se dela. — Continua baixinha comparada a mim, mas agora pelo menos não precisa de uma lata de oxigênio para discutir comigo.
Tatsuyo deu um soco leve no braço dele, surpresa com a força que agora possuía.
— Cala a boca, Hatake.
A porta da câmara se abriu e os irmãos Sully entraram correndo. Tuk foi a primeira, abraçando as pernas de Tatsuyo com entusiasmo.
— Vocês conseguiram! Vocês são azuis!
Kiri aproximou-se, tocando o braço de Kuro com curiosidade.
— A energia de vocês... mudou. Está mais forte. Eywa aceitou vocês.
Lo'ak deu um tapinha nas costas de Kuro, rindo.
— Bem-vindos à família, oficialmente. Agora, pelo menos, você tem uma cauda para eu puxar quando você contar piada ruim.
Kuro olhou para trás, surpreso ao ver o apêndice longo e musculoso chicoteando levemente.
— Ah, cara. Isso vai levar um tempo para acostumar.
No entanto, o clima de celebração foi interrompido pela entrada de Jake e Neytiri. Jake sorriu, um sorriso de verdadeiro pai, orgulhoso e aliviado. Neytiri, porém, permaneceu em silêncio. Ela observou os dois novos Avatares. Viu os cinco dedos. Viu os olhos negros de Tatsuyo e o cabelo branco de Kuro.
— Eles ainda carregam a marca do Povo do Céu — disse ela, embora o tom não fosse mais de puro ódio, mas de uma aceitação amarga.
— Eles carregam a nossa marca agora, Neytiri — rebateu Jake suavemente.
— O tempo urge — disse Neteyam, colocando a mão no ombro de Kuro. — Temos que partir para o mar antes do amanhecer. A RDA não vai parar.
Kuro olhou para Tatsuyo. Eles haviam deixado sua humanidade para trás em uma maca fria de laboratório. O que eram agora? Nem humanos, nem totalmente Na'vi. Eram algo novo.
— Preparada para aprender a nadar, gênio? — perguntou Kuro, oferecendo a mão a ela.
Tatsuyo aceitou, sentindo a força e o calor da pele azul contra a sua.
— Desde que você não se afogue tentando se exibir, eu estou pronta para qualquer coisa.
Eles saíram da caverna para a noite de Pandora. Pela primeira vez na vida, Kuro não sentiu o peso da máscara. Ele sentiu a conexão com a terra, o pulsar da floresta e, acima de tudo, a liberdade. Eles eram filhos de Pandora agora, e o oceano os esperava.
— Vamos lá — disse Jake, liderando o caminho em direção aos Ikrans. — Temos um longo caminho até os Metkayina.
Kuro olhou para o céu estrelado, sentindo a brisa noturna bagunçar seu cabelo branco. Ele sabia que a guerra estava longe de acabar, e que ser um Avatar não os tornava invencíveis. Mas, pela primeira vez, ele sentia que pertencia àquele mundo.
— Ei, Tats — chamou ele, enquanto se preparava para montar em seu Ikran.
— O que foi?
— O azul combina com você. Mas os olhos pretos... eles ainda dão um pouco de medo quando você está brava.
Tatsuyo sorriu, um sorriso que brilhou na penumbra.
— Ótimo. É bom que você não esqueça disso.
Com um grito de guerra que ecoou pelas montanhas flutuantes, o grupo partiu, deixando para trás as cinzas de sua antiga vida e voando em direção ao horizonte desconhecido do Grande Recife. A jornada de Kuro e Tatsuyo estava apenas começando, e Pandora, em toda a sua beleza e perigo, finalmente os chamava de filhos.
