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Fandom: Avatar

Criado: 22/08/2026

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O Reflexo das Águas e o Fogo da Floresta

A maresia era diferente do cheiro de terra úmida e folhas em decomposição da floresta de Pandora. Para Kuro Hatake, o ar ali parecia mais leve, porém carregado de um sal que grudava na pele azul e nos cabelos brancos repicados, uma herança de sua vida anterior como humano que ele insistia em manter, mesmo em seu corpo de Avatar. Ele caminhava logo atrás de Neteyam e Lo’ak, sentindo o peso dos olhares dos Metkayina sobre eles.

Kuro não era um Omaticaya de sangue, mas desde que sua consciência fora transferida definitivamente para seu corpo de Avatar aos treze anos, ele não conhecia outra família que não fossem os Sully. Com seus cinco dedos nas mãos — uma característica que compartilhava apenas com Jake — ele se sentia um eterno estrangeiro, mas sua atitude debochada e seu espírito livre costumavam mascarar qualquer insegurança.

A recepção não fora exatamente calorosa. Após a conversa tensa entre os adultos, os jovens foram encarregados de mostrar a vila de Awa'atlu para os recém-chegados. Tsireya, a filha do Olo’eyktan, era a única que parecia realmente feliz em vê-los, lançando olhares gentis para Lo’ak que faziam Kuro segurar o riso. Já seu irmão, Aonung, e o amigo dele, Rotxo, pareciam prontos para uma briga a qualquer momento.

Eles caminhavam pela enseada, onde as águas cristalinas lambiam as raízes das árvores gigantescas que sustentavam as habitações de palha.

— Olhem para as caudas deles — zombou Rotxo, apontando para a cauda fina de Neteyam. — Como esperam nadar com isso? São como pequenos vermes na água.

Neteyam parou, os ombros tensos, os dentes levemente à mostra. Kuro deu um passo à frente, cruzando os braços e exibindo um sorriso cínico que raramente indicava algo bom.

— Bem, a gente compensa a falta de cauda com cérebro e agilidade — disse Kuro, passando a mão pelos cabelos brancos. — Mas se você quiser testar quem é mais rápido na terra, eu adoraria te mostrar como a gente caça na floresta.

Aonung se aproximou, encarando Kuro de cima. O Metkayina era robusto, adaptado para o mar, mas Kuro era alto e tinha a malícia de quem cresceu entre dois mundos.

— Você nem é um Na'vi de verdade — sibilou Aonung, olhando para os cinco dedos de Kuro. — É um homem do céu em pele azul. Um mestiço.

— E você é o quê? Um peixe que aprendeu a falar? — rebateu Kuro, dando um passo invasivo no espaço pessoal de Aonung. — Cuidado, peixinho, eu costumo fritar o que eu pesco.

— Chega! — Tsireya interveio, colocando-se entre eles. — Aonung, pare com isso! Eles são nossos convidados. E vocês, por favor, ignorem meu irmão. Ele não sabe o que diz.

Kiri, que até então estava em silêncio observando a areia, revirou os olhos e bufou.

— Eles são idiotas, Tsireya. Não precisa se desculpar pela burrice alheia.

A tensão era palpável. Lo’ak parecia pronto para pular no pescoço de Aonung, e Neteyam mantinha a mão no ombro do irmão mais novo para contê-lo. O grupo continuou andando pela orla, o silêncio sendo quebrado apenas pelo som das ondas e pelos resmungos baixos de Rotxo.

Conforme contornavam uma formação rochosa que se abria para uma parte mais calma e isolada da enseada, o cenário mudou. A água ali era tão rasa que mal batia nos joelhos, e a superfície estava coberta por pequenas flores aquáticas luminescentes que flutuavam como estrelas caídas.

No centro daquele pequeno santuário, uma figura estava ajoelhada.

Ela tinha longos cabelos pretos ondulados que caíam como uma cascata até a cintura, contrastando com a pele azul-ciano clara, típica dos Metkayina. Ela estava imóvel, com as mãos mergulhadas na água, movendo-as tão lentamente que parecia estar em transe.

— Tatsuyo! — chamou Tsireya, sua voz suavizando instantaneamente.

A garota se virou devagar. Ela parecia ter uns quinze anos, um pouco mais nova que o restante do grupo, mas havia uma aura de serenidade ao redor dela que a fazia parecer mais velha e, ao mesmo tempo, incrivelmente pura. Seus olhos eram grandes e brilhantes, cheios de uma curiosidade inocente.

Kuro, que estava prestes a soltar mais uma piada ácida sobre o cheiro de peixe de Aonung, simplesmente travou. Suas mãos caíram ao lado do corpo e sua boca se abriu levemente. Ele nunca tinha visto nada parecido. Se as outras Na'vi eram como o fogo ou o vento, aquela garota era como o orvalho da manhã.

— Irmã, o que está fazendo aqui sozinha? — perguntou Aonung, embora seu tom com ela fosse muito mais brando.

— As flores estão cantando hoje — respondeu Tatsuyo, com uma voz doce e melodiosa que parecia vibrar no peito de Kuro. — Elas sentiram a chegada de gente nova. A energia da Grande Mãe mudou.

Ela se levantou com uma elegância natural, a água escorrendo por seu corpo. Seus olhos vagaram pelo grupo até pousarem em Kuro. Ela inclinou a cabeça para o lado, observando-o com uma franqueza que o deixou desconcertado.

— Você tem cabelos de nuvem — disse ela, aproximando-se dele sem qualquer hesitação ou medo.

Kuro, o cara que sempre tinha uma resposta rápida e um comentário atrevido, sentiu o rosto esquentar.

— É... er... — Ele pigarreou, tentando recuperar a postura. — É o estilo da floresta, gracinha. Gostou?

Tatsuyo piscou, confusa.

— "Gracinha"? É um nome de flor?

Tsireya deu um risinho abafado, enquanto Aonung rosnou baixo.

— Não dê atenção a ele, Tatsuyo. Ele é um esquisito da floresta.

— Eu não achei esquisito — disse Tatsuyo, estendendo a mão para tocar uma das mechas brancas de Kuro. Ele ficou estático, sentindo o toque suave dos dedos dela. — É diferente. Tudo em você é diferente.

Kuro sentiu um impulso familiar de fazer uma brincadeira audaciosa, mas algo na inocência do olhar dela o impediu. Em vez disso, ele abriu um sorriso de lado, tentando parecer charmoso.

— Diferente é o meu segundo nome. O primeiro é Kuro. E você deve ser a princesa das águas que caiu do céu, certo?

Tatsuyo soltou uma risada cristalina, sem entender a cantada, mas achando a forma como ele falava engraçada.

— Eu sou Tatsuyo, filha de Ronal. Eu ajudo minha mãe com as preces a Eywa. Você fala de um jeito engraçado, Kuro da Nuvem.

— Ele é um idiota, Tatsuyo — cortou Lo’ak, passando por eles e dando um tapa na nuca de Kuro. — Não incentive, ou ele não vai calar a boca.

— Ei! — reclamou Kuro, mas seus olhos logo voltaram para a garota ciano. — Não liga para eles, Tatsuyo. Eles estão com inveja porque eu encontrei a pessoa mais interessante desse recife.

Tatsuyo sorriu, um sorriso tão puro que desarmou até Neteyam, que observava a cena com um ar de diversão.

— Você quer ver as flores de perto? — perguntou ela, pegando a mão de Kuro.

Kuro olhou para a própria mão de cinco dedos envolta pela mão de quatro dedos dela. O contraste era evidente, mas ela não pareceu se importar ou sequer notar. Ela o puxou para o meio da água rasa.

— Elas se fecham se você for bruto — explicou ela, baixando a voz como se contasse um segredo. — Mas se você for gentil, elas brilham para você.

Kuro se ajoelhou ao lado dela, ignorando os protestos de Aonung ao fundo. Ele observou Tatsuyo aproximar a mão de uma pequena flor flutuante. Assim que seus dedos chegaram perto, a flor pulsou em um rosa vibrante.

— Tenta você — incentivou ela, olhando para ele com expectativa.

Kuro estendeu a mão desajeitadamente. Ele estava acostumado a derrubar árvores, a lutar com ikrans e a correr entre galhos. Gentileza não era exatamente sua especialidade, a menos que fosse para conseguir o que queria. Mas, sob o olhar de Tatsuyo, ele moveu os dedos com uma leveza que nem sabia que possuía.

A flor brilhou. Um azul profundo, da cor da pele dele.

— Viu? — Tatsuyo bateu palminhas, encantada. — Ela gostou de você!

Kuro olhou para a garota, a luz da bioluminescência refletida nos olhos dela, e sentiu algo estranho no estômago. Não era a fome que sentira durante a viagem, nem a adrenalina da briga com Aonung.

— É... — ele murmurou, a voz subitamente rouca. — Eu acho que também estou começando a gostar desse lugar.

— O que ela está fazendo? — sussurrou Rotxo para Aonung, um pouco mais afastado. — Ela está dando atenção para aquele... demônio de cinco dedos?

— Ela é inocente demais — rosnou Aonung, cruzando os braços. — Não vê maldade em nada. Vou tirar ela de perto dele antes que ele a contamine com essas ideias da terra.

Aonung caminhou até eles, interrompendo o momento.

— Tatsuyo, a mãe está te chamando para os preparativos da noite. Vamos.

A garota se levantou, parecendo um pouco decepcionada, mas obedeceu prontamente.

— Tenho que ir, Kuro da Nuvem. Espero que Eywa te dê bons sonhos na sua primeira noite no mar.

Ela deu um passo à frente e, para a surpresa de todos — especialmente de Kuro —, tocou levemente o ombro dele com a testa, um gesto de carinho e respeito que ela costumava ver os adultos fazerem, mas que ela distribuía com a pureza de uma criança.

Kuro ficou parado na água, observando-a se afastar com Aonung e Tsireya.

— Cara, você tá babando — disse Lo’ak, aproximando-se e cutucando o ombro do amigo.

— Cala a boca, Lo’ak — respondeu Kuro, sem desviar o olhar das costas de Tatsuyo.

— Ela é filha da Tsahìk, Kuro — avisou Neteyam, com um tom de aviso fraternal. — Se você tentar suas gracinhas de "tarado da floresta" com ela, o Tonowari te joga para os tubarões antes do pôr do sol.

Kuro finalmente se virou para os irmãos Sully, abrindo um sorriso largo e travesso, embora seus olhos ainda brilhassem com algo novo.

— Vale a pena o risco, Neteyam. Vocês viram o jeito que ela sorriu? Aquela garota é um anjo. E eu... bem, eu sempre tive uma queda por perigo.

Kiri passou por ele, balançando a cabeça.

— Ela é pura demais para você, Kuro. Não a estrague.

— Eu não vou estragar nada, Kiri — disse ele, seguindo o grupo enquanto o sol começava a se pôr no horizonte, pintando o céu de laranja e roxo. — Eu só vou... mostrar para ela que a floresta também tem suas belezas. E que um avatar de cinco dedos pode ser muito mais interessante do que um peixe rabugento como o irmão dela.

Enquanto caminhavam de volta para as maruis, Kuro Hatake já estava traçando planos em sua mente. O mar podia ser um ambiente hostil para um habitante da floresta, mas com Tatsuyo como seu guia espiritual, ele sentia que poderia aprender a nadar, a mergulhar e, quem sabe, a conquistar o coração da futura Tsahìk dos Metkayina.

Afinal, para quem já tinha morrido como humano e renascido como Na'vi, conquistar uma garota doce na beira da praia não deveria ser tão difícil. Ou assim ele pensava, sem imaginar que a inocência de Tatsuyo seria o maior desafio que ele já enfrentara.

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