
O diário de uma princesa adolescente
Fandom: Ribbon no kishi/osamu tezuka
Criado: 22/08/2026
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O Desabrochar da Rosa de Prata
O sol da manhã filtrava-se pelas pesadas cortinas de veludo do quarto real, mas Safiri já estava acordada há horas. Em cima de sua cama, repousavam tesouros que, para qualquer outra pessoa, seriam comuns, mas que para ela representavam a liberdade de sua própria alma. Um diário de capa de couro macio, um par de sapatos de cetim delicados e brincos de pérolas que brilhavam como gotas de orvalho.
Eram presentes de sua mãe, a Rainha, entregues na calada da noite, longe dos olhos vigilantes de Lorde Duralumínio e do Barão Náilon. Por um momento, Safiri esqueceu-se da espada, da capa pesada e do dever de fingir ser o príncipe herdeiro da Terra de Prata. Ela calçou os sapatos, sentindo a leveza que seus pés nunca conheceram nas botas de montaria, e prendeu os brincos. No reflexo do espelho, não estava o Cavaleiro de Fita, mas uma jovem de olhos brilhantes e doçura genuína.
— Ah, Tink! — exclamou ela, girando pelo quarto. — Veja como eles brilham! Eu me sinto... eu mesma.
O pequeno anjo, que flutuava mastigando uma maçã invisível, deu uma cambalhota no ar.
— Você está linda, Safiri! Mas cuidado, se alguém entrar e vir o "Príncipe" de brincos, teremos um problema maior do que as travessuras que eu fazia no céu!
Safiri aproximou-se da janela. Lá embaixo, no vilarejo que cercava o castelo, ela via jovens da sua idade caminhando em grupos. Meninas rindo com seus vestidos coloridos e rapazes carregando livros. O desejo de pertencer àquele mundo, de aprender e viver como uma garota comum — ou pelo menos como uma nobre que não precisasse esconder sua natureza — queimava em seu peito.
Para sua surpresa, o Rei e a Rainha, movidos pela melancolia nos olhos da filha, haviam tomado uma decisão arriscada. Para manter as aparências e ainda assim satisfazer o desejo de Safiri, ela seria matriculada na prestigiada Academia de Jovens Nobres de Goldland, uma instituição neutra onde filhos de reis e duques estudavam as artes e a política. O disfarce de príncipe continuaria, mas pela primeira vez, ela estaria fora das paredes sufocantes do castelo.
— Lembre-se, Safiri — disse o Rei momentos antes da partida —, na escola, você deve ser o Príncipe Safiri. Mas o conhecimento que você adquirir lá será a força da Rainha que você se tornará um dia.
O primeiro dia na Academia foi uma explosão de cores e sons. O prédio de mármore branco parecia um templo ao saber. Safiri, vestindo seu uniforme de gala e sua inseparável fita, sentia o coração bater forte. Ela possuía dois corações, o de um menino corajoso e o de uma menina gentil, e ambos estavam acelerados.
— Mantenha a calma, Safiri — sussurrou Tink, escondido dentro do chapéu da princesa. — Eu estou aqui para te proteger. Se alguém desconfiar, eu dou uma flechada invisível neles!
— Não faça nada disso, Tink! — repreendeu ela em voz baixa, enquanto caminhava pelo corredor principal.
Foi então que ela o viu. No centro do pátio, cercado por outros estudantes, estava um jovem de cabelos claros e um sorriso que parecia iluminar todo o ambiente. Era o Príncipe Franz, de Goldland. Safiri sentiu um calor súbito no rosto. Ela já o conhecera brevemente em bailes oficiais, mas ali, sob a luz do sol e sem a pressão da corte, ele parecia diferente. Mais real.
— Ora, se não é o valente Príncipe Safiri! — exclamou Franz, aproximando-se com um passo elegante. — Fiquei sabendo que a Terra de Prata finalmente decidiu enviar seu maior tesouro para estudar conosco.
Safiri fez uma reverência, tentando manter a voz firme.
— É uma honra estar aqui, Príncipe Franz. Espero que possamos ser bons companheiros de estudo.
— Companheiros? — Franz riu, um som melodioso que fez o coração feminino de Safiri palpitar. — Eu esperava que pudéssemos ser amigos. Ou talvez rivais na esgrima? Ouvi dizer que sua espada é imbatível.
Antes que Safiri pudesse responder, uma gargalhada aguda e carregada de deboche ecoou pelo pátio. Uma jovem de cabelos escuros e olhos que brilhavam com uma inteligência maliciosa surgiu por entre as colunas. Ela vestia roupas elegantes, mas havia algo de selvagem e mágico em sua aura. Era Hécate, a filha do bruxo Mefistófeles.
— Amigos? Rivais? Que tédio! — disse Hécate, aproximando-se de Safiri e circulando-a como um predador observa uma presa curiosa. — Há algo de muito estranho em você, "Príncipe". Um perfume que não combina com o aço da sua espada.
Safiri recuou um passo, sentindo o suor frio. Hécate tinha um faro para segredos, e o fato de ser uma bruxa a tornava perigosa.
— Não sei do que está falando, senhorita — respondeu Safiri, recuperando sua postura de cavaleiro. — Sou apenas um estudante buscando conhecimento.
— Veremos — sibilou Hécate, lançando um olhar de soslaio para Franz. — Goldland está ficando interessante. Eu detesto coisas doces, e você, Safiri, exala uma doçura que me dá vontade de... transformar em algo bem mais amargo.
— Deixe-o em paz, Hécate — interveio Franz, colocando-se casualmente entre as duas. — Não assuste o nosso convidado no primeiro dia.
Hécate deu de ombros, soltando uma última risada antes de se afastar, mas seus olhos permaneceram fixos em Safiri até desaparecer no corredor.
— Não ligue para ela — disse Franz, voltando-se para Safiri. — Hécate é... peculiar. Mas diga-me, Safiri, por que você parece tão radiante hoje? Há algo diferente em seu olhar.
Safiri tocou instintivamente o lóbulo da orelha, onde o furo do brinco, agora escondido, ainda formigava. Ela pensou no diário escondido em sua mala e nos sapatos de cetim que guardaria para as noites de solidão.
— É apenas a alegria de estar aqui, Franz — disse ela, sorrindo com a doçura que não conseguia esconder totalmente. — Pela primeira vez, sinto que posso descobrir quem eu realmente sou.
Franz olhou-a por um longo momento, uma expressão de curiosidade e algo mais profundo cruzando seu rosto.
— Então, vamos descobrir juntos. O sinal vai bater, e não queremos chegar atrasados para a aula de história das nações.
Enquanto caminhavam lado a lado, Tink espiou por baixo da aba do chapéu.
— Isso vai ser complicado, Safiri — sussurrou o anjinho. — Um príncipe bonitão que te faz suspirar e uma bruxa que quer descobrir seus segredos. Tem certeza de que prefere a escola ao castelo?
Safiri olhou para o céu azul, sentindo o vento balançar sua fita. A coragem de seu coração masculino preparava-a para a luta, mas a gentileza de seu coração feminino ansiava pelo amor e pela amizade.
— Tenho certeza, Tink. A vida é um desafio, seja no campo de batalha ou nos corredores de uma escola. E eu não vou fugir de nenhum deles.
Naquela noite, em seu novo quarto na ala dos estudantes, Safiri abriu o diário pela primeira vez. A caneta deslizou pelo papel branco, registrando não as vitórias de um cavaleiro, mas os sonhos de uma garota que, entre duelos e feitiços, acabara de encontrar o primeiro rastro de seu próprio destino. O caminho seria difícil, com Hécate observando cada passo e Franz despertando sentimentos novos e perigosos, mas Safiri, o Cavaleiro de Fita, estava pronta para escrever sua própria história.
