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Finge que me odeia

Fandom: Jão

Criado: 23/08/2026

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RomanceDramaAngústiaFatias de VidaDor/ConfortoEstudo de PersonagemSongfic
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O Eco do Silêncio nas Paredes de Som

O corredor da faculdade de Publicidade e Propaganda parecia encolher sempre que João Vitor cruzava com Pedro. Para quem via de fora, João era apenas um rapaz de 1,85m, com óculos de armação fina que lhe davam um ar intelectual e um talento nato para criar campanhas. Mas, por dentro, João era um caos de inseguranças. E Pedro... Pedro era o detentor do seu maior segredo.

João passou a língua pelos lábios, um tique nervoso que surgia sempre que a ansiedade subia. Ele apertou a alça da mochila, apressando o passo ao ver Malu acenando perto da lanchonete. Ao lado dela, para seu total infortúnio, estava Lucas. E onde Lucas estava, Pedro Tófani estava logo atrás.

— João! Finalmente! — Malu exclamou, puxando-o para um abraço rápido. — A gente estava combinando de ir para a festa da República da FAU hoje à noite. Você vai, né?

João olhou de soslaio para Pedro. O garoto, um centímetro ou dois mais baixo que ele, mantinha as mãos ocupadas, roendo a pele ao redor da unha do polegar, um hábito que João já tinha notado ser constante. Pedro desviou o olhar assim que seus olhos castanhos se encontraram.

— Não sei, Malu. Tenho muita coisa para entregar de Redação Publicitária — mentiu João, a voz saindo mais ríspida do que pretendia.

— Ah, qual é, Jão? — Lucas interveio, passando o braço pelos ombros de Malu. — Até o Pedro vai. E olha que ele odeia aglomeração tanto quanto você odeia... bom, seja lá o que você odeia ultimamente.

João sentiu o sangue ferver. Ele sabia exatamente o que odiava. Odiava o fato de que, há duas semanas, em um momento de vulnerabilidade no estúdio vazio da faculdade, ele tinha se deixado levar. Ele tinha cantado. Uma composição própria, algo cru, sobre o medo de ser pequeno demais para o mundo. E, ao abrir os olhos, viu Pedro na fresta da porta. Pedro o vira ser ele mesmo. E, desde então, o silêncio de Pedro era como uma arma engatilhada contra o peito de João.

— Eu vou — disse João, agindo antes de pensar, apenas para não parecer covarde. — Mas não vou ficar até tarde.


A festa estava barulhenta, cheia de luzes neon e o cheiro característico de cerveja barata e perfume doce. João estava no seu terceiro copo de algo que ele esperava ser apenas energético. Ele buscava Malu com o olhar, mas ela e Lucas tinham desaparecido em algum canto escuro da casa.

Ele se afastou da pista, procurando um pouco de ar no jardim dos fundos. O ar gelado da noite bateu em seu rosto, e ele tirou os óculos para limpá-los na camiseta. Foi quando o viu.

Pedro estava sentado em um banco de madeira, longe das luzes, encolhido sob um casaco pesado. Ele apertava os próprios dedos com tanta força que as juntas estavam brancas. O medo do escuro de Pedro era algo que João sabia por alto, através de conversas aleatórias de Malu, mas vê-lo ali, lutando contra a própria ansiedade para não "estragar" a noite do amigo, mexeu com algo dentro de João. Algo que ele tentou abafar com raiva.

— O que foi? Veio aqui para ver se descobre mais algum segredo meu para contar para todo mundo? — João disparou, a voz carregada de veneno.

Pedro deu um pulo, assustado. Ele olhou para João com os olhos arregalados, a respiração curta.

— Eu não contei nada para ninguém, João — disse Pedro, a voz baixa e educada, como sempre. — Eu nunca faria isso.

— Então por que você fica me seguindo com esse olhar de pena? — João se aproximou, a altura intimidando, mas por dentro ele se sentia minúsculo. — Você me viu lá. Viu o que eu faço quando acho que ninguém está olhando. Agora você tem o que queria, né? Um motivo para rir de mim. "O João quer ser cantor, que piada".

Pedro se levantou, as mãos tremendo. Ele sempre pensava muito antes de agir, sempre tentava agradar, mas o cansaço de ser odiado sem motivo aparente transbordou.

— Por que você é assim comigo? — perguntou Pedro, a voz embargada. — Eu não quero rir de você. Eu achei... eu achei a música linda. Eu só não soube o que dizer porque eu não queria te assustar. Eu passo a vida tentando não decepcionar as pessoas, tentando não ser um incômodo, e você me trata como se eu fosse um monstro.

— Você é um perigo, Pedro! — João gritou, gesticulando bruscamente. — Você é a única pessoa que sabe que eu sou um fracassado que sonha com coisas que nunca vai ter. Eu odeio que você saiba disso!

— Eu não acho que você seja um fracassado! — Pedro deu um passo à frente, a insegurança dando lugar a uma urgência desesperada de ser compreendido. — Eu me afasto das pessoas porque eu tenho medo de que elas vejam o quanto eu sou quebrado por dentro. Meus pais me cobram ser perfeito, Lucas espera que eu seja o cara legal... e você... você simplesmente decidiu me odiar porque eu vi um pedaço da sua alma que é a coisa mais bonita que eu já vi nessa faculdade toda!

O silêncio que se seguiu foi pesado, preenchido apenas pelo som abafado da música vindo de dentro da casa. João parou, a respiração pesada. Ele passou a língua pelos lábios, os olhos fixos em Pedro. A vulnerabilidade do outro garoto era um espelho da sua própria.

— Você... você achou bonita? — João perguntou, a voz falhando, a armadura de raiva caindo por terra.

— Foi a coisa mais honesta que eu já ouvi — Pedro confessou, abaixando a cabeça, voltando a apertar os dedos. — Eu me senti menos sozinho ouvindo você cantar. Eu me culpei por ter interrompido, por ter feito você parar. Eu achei que você me odiava porque eu tinha estragado o seu momento.

João sentiu uma pontada de culpa no peito. Ele agira antes de pensar, projetando em Pedro todos os seus medos de rejeição. Ele se aproximou mais, desta vez sem a intenção de intimidar.

— Eu não te odeio, Pedro — admitiu João, a voz mal saindo da garganta. — Eu só tenho medo. De tudo.

— Eu também — sussurrou Pedro, olhando para cima.

A proximidade era perigosa. João conseguia ver o brilho dos olhos castanhos de Pedro sob a luz fraca da lua. Ele via a pele clara, os lábios levemente machucados de tanto serem mordidos. A insegurança de ambos flutuava no ar, criando uma ponte onde antes havia um muro.

— Desculpa por ser um idiota — João disse, a mão hesitando antes de tocar o ombro de Pedro.

— Tudo bem. Eu já estou acostumado a achar que a culpa é minha de qualquer forma — Pedro deu um sorriso triste, que quebrou o coração de João.

— Não é. Nunca foi.

João não pensou. Se tivesse pensado, teria fugido. Mas ele era o garoto que agia antes de refletir, e naquele momento, o impulso era a única coisa que importava. Ele inclinou a cabeça, diminuindo a distância.

Pedro congelou por um segundo, o coração batendo contra as costelas como um pássaro enjaulado. Mas ele não se afastou. Pela primeira vez, ele não tentou agradar ninguém além de si mesmo.

O beijo foi um encontro de inseguranças. Começou casto, quase um pedido de desculpas, mas logo se transformou em algo mais profundo. João sentiu o gosto de Pedro, o calor de sua pele, e a sensação de que, talvez, o segredo não fosse mais um fardo se fosse compartilhado com ele.

Quando se separaram, as testas ainda encostadas, João sentiu que o ar estava mais leve.

— Você ainda vai me odiar amanhã? — Pedro perguntou, a voz trêmula, mas com um brilho de esperança.

João sorriu, um sorriso verdadeiro que raramente mostrava, e passou a língua pelos lábios antes de responder.

— Acho que vou estar ocupado demais tentando te convencer a me ouvir cantar de novo.

Pedro riu, um som suave que fez João perceber que, naquela faculdade barulhenta e cheia de expectativas, ele finalmente tinha encontrado um lugar onde não precisava se esconder.

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