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Olhos De Vidro

Fandom: Zumbi

Criado: 24/08/2026

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O Eco do que Restou

O mundo era um borrão de cinzas e silêncio. Para ela, não havia frio, embora o vento de inverno cortasse as árvores secas com lâminas invisíveis. Não havia calor, mesmo quando o sol do meio-dia batia contra sua pele pálida, tingida de um tom doentio de verde musgo. Ela simplesmente existia.

Seus dedos, cujas unhas eram sujas e quebradas, acariciaram um objeto redondo e prateado que encontrara no chão de um posto de gasolina abandonado. Era uma tampa de metal. Ela não sabia para que servia, mas o reflexo distorcido de seus próprios olhos — globos negros com pupilas brancas e estáticas — a intrigava. Com um movimento lento e descoordenado, ela abriu a bolsa de lona que carregava a tiracolo e depositou a tampa junto com um pente sem dentes, três pilhas descarregadas e um botão cor-de-rosa.

Ela tentou lembrar o nome daquela cor. Rosa. A palavra flutuou em sua mente como uma bolha de sabão antes de estourar.

Caminhando com passos pesados e arrastados, calçada com botas altas que já tinham visto dias melhores, ela passou por um grupo de "outros". Eles eram como ela, mas diferentes. Eles rosnavam. Eles tinham fome. Eles se moviam com uma urgência violenta quando sentiam cheiro de vida. Um deles, um homem alto cuja mandíbula pendia frouxa, roçou o ombro contra o dela. Ele não a atacou. Ele sentia o cheiro de morte nela. O vírus a reivindicara, mas o processo parara no meio do caminho, deixando-a em um limbo onde a fome não rugia e a consciência era apenas um sussurro distante.

Ela era um eco de algo que um dia fora humano.


A quilômetros dali, o som de um motor falhando era o único ruído que competia com o vento.

— Se essa caminhonete morrer agora, eu juro que vou chutar a cara do próximo errante que aparecer até meus dedos sangrarem — rosnou Alex, apertando o volante com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos.

Sentada no banco do passageiro, Renata retocou o batom rosa claro usando o espelho do quebra-sol, ignorando deliberadamente o mau humor do companheiro. Ela usava uma saia rodada e sapatilhas que, milagrosamente, permaneciam limpas.

— Não seja tão dramático, Alex. O Diego disse que o radiador só precisa de um descanso. E olhe pelo lado positivo: a nova base está a menos de cinco quilômetros. O mapa diz que é um antigo observatório. É alto, seguro e longe das hordas maiores.

No banco de trás, Diego levantou os olhos de um caderno de anotações cheio de diagramas complexos sobre a fisiologia viral. Suas mãos, marcadas pelas manchas claras do vitiligo, seguravam uma caneta com delicadeza.

— Renata tem razão — disse Diego, sua voz calma agindo como um bálsamo contra a tensão de Alex. — Mas precisamos ter cuidado. Esta área não foi mapeada recentemente. O comportamento dos espécimes aqui pode ser diferente.

Alex soltou um suspiro pesado, seus olhos azuis intensos fixos na estrada quebrada à frente. Seu cabelo mullet balançava levemente com a vibração do carro. Cada vez que ele via um daqueles monstros na beira da estrada, seu estômago dava um nó de puro ódio. Ele ainda conseguia ouvir os gritos de sua irmãzinha, Sarah. Ainda conseguia ver a pele pálida e os dentes afiados que a levaram dele.

— Para mim, zumbi é tudo igual — Alex disse, a voz carregada de veneno. — Coisas mortas que esqueceram de cair. Se eu ver um, eu mato. Sem perguntas, sem hesitação.

— Você é tão radical — comentou Renata, guardando o batom na bolsa. — Às vezes eu acho que você odeia eles mais do que ama a sua própria vida.

— Eles não são pessoas, Renata. São vírus com pernas.

A caminhonete deu um último solavanco e o motor morreu com um suspiro metálico. O silêncio que se seguiu foi imediato e opressor. Eles estavam em uma estrada cercada por florestas densas, a poucos quilômetros do seu destino.

— Ótimo — resmungou Alex, pegando seu rifle no banco de trás. — Vamos a pé. Diego, pegue o kit médico. Renata, tente não tropeçar nessas sapatilhas.

— Elas são antiderrapantes, querido — retrucou ela, pegando um bastão de metal reforçado.

O grupo começou a caminhar pela estrada. Alex liderava, cada sentido alerta, o dedo roçando o gatilho. Ele era um estrategista nato, seus olhos escaneavam a linha das árvores em busca de qualquer movimento.

Cerca de vinte minutos depois, eles chegaram a uma clareira onde ficava um antigo parquinho de descanso. E foi lá que a viram.

Ela estava sentada no topo de um escorregador enferrujado, alheia ao mundo. Não estava rosnando. Não estava tentando caçar. Ela segurava um pequeno espelho de mão quebrado, movendo-o para lá e para cá, observando como a luz do sol refletia no metal.

Alex congelou, apontando o rifle instantaneamente para a cabeça da criatura.

— Parados — sussurrou ele. — Tem um logo ali.

Renata e Diego pararam logo atrás. Diego franziu a testa, ajustando os óculos.

— Espere, Alex. Olhe para ela.

— Eu estou olhando. É um alvo perfeito — respondeu Alex, a voz fria.

— Não, olhe de verdade — insistiu Diego, dando um passo à frente, apesar do gesto de advertência de Alex. — Ela não percebeu a nossa presença. E ela... ela está brincando com alguma coisa?

A zumbi no escorregador inclinou a cabeça para o lado. Seus cabelos pretos e curtos estavam uma bagunça total. Ela soltou um som baixo, não um rosnado, mas um murmúrio confuso, quase como um suspiro. Ela guardou o espelho na bolsa e começou a descer o escorregador de costas, de um jeito desajeitado, como uma criança que ainda está aprendendo a usar o corpo.

— Que roupas são aquelas? — perguntou Renata, a curiosidade superando o medo. — Polainas? E aquela regata... ela parece ter sido uma adolescente comum.

— Ela é um monstro, Renata! — Alex sibilou, sem baixar a arma. — Olhe para os olhos dela. Olhe para a pele.

Nesse momento, a zumbi pisou no chão e se virou. Ela viu os três humanos.

Alex tencionou o músculo do dedo. Ele estava pronto para o ataque, pronto para o avanço feroz que sempre vinha. Mas ele não veio.

A zumbi apenas parou. Ela inclinou a cabeça para o outro lado, os olhos brancos fixos neles. Ela não rosnou. Ela não babou. Em vez disso, ela esticou a mão e apontou para a bolsa de Renata, que tinha um chaveiro de pelúcia pendurado.

— Ela... ela quer o seu chaveiro? — Diego perguntou, chocado.

— Saiam da frente — disse Alex, a voz trêmula de raiva e algo que ele não queria admitir ser confusão. — Eu vou acabar com isso.

— Alex, não! — Renata segurou o braço dele. — Ela não está atacando. Veja, ela está calma.

— Eles nunca estão calmos! É um truque, ou ela está doente demais para correr. De qualquer forma, é um perigo.

A zumbi deu um passo à frente. Suas botas pesadas bateram no asfalto. Ela não parecia sentir a ameaça da arma apontada para ela. Ela simplesmente não entendia o que era uma arma. Ela se aproximou mais alguns centímetros e, com um movimento lento, abriu sua bolsa e tirou a tampa de metal prateada que encontrara antes.

Ela estendeu a mão, oferecendo a tampa para eles.

— O que ela está fazendo? — Diego murmurou, fascinado. — Isso é... troca? Comportamento social?

— Isso é impossível — disse Alex, mas, pela primeira vez, sua mira vacilou.

A zumbi soltou um som gutural, tentando formar uma palavra que não vinha. Suas cordas vocais estavam atrofiadas, sua mente era um labirinto de salas trancadas, mas algo lá dentro, uma faísca de humanidade que se recusara a apagar, brilhou por um segundo.

— Ro... sa... — ela tentou dizer, olhando para o detalhe no vestido de Renata.

Renata soltou um suspiro audível, levando a mão à boca.

— Ela falou? Diego, ela tentou falar!

— Alex, abaixe a arma — ordenou Diego, sua voz de enfermeiro assumindo o controle. — Isso é um caso clínico único. Ela não é como os outros. O vírus... parece estar em estado de dormência, ou a transformação foi interrompida. Ela não tem hostilidade.

— Eu não confio nela — Alex insistiu, embora seu coração estivesse batendo forte contra as costelas. — Ela matou alguém. Todos eles mataram.

— Ela parece que nem sabe como morder, Alex — disse Renata, sentindo uma onda súbita de pena. — Olhe para esse cabelo... está um horror. E essas roupas... ela precisa de alguém que cuide dela.

— Você quer cuidar de um zumbi? Ficou louca? — Alex finalmente baixou a arma, mas não a guardou.

— Ela não é um zumbi qualquer — Diego disse, aproximando-se da criatura com cautela. — Ela é algo novo. Ou algo velho que sobrou.

A zumbi permaneceu imóvel enquanto Diego chegava a dois metros de distância. Ela não recuou, nem avançou. Apenas observava com aquela curiosidade infantil e vazia. Diego notou um corte profundo no braço dela, uma ferida antiga que não cicatrizava, mas que também não infeccionava da maneira comum.

— Ela está ferida — observou Diego. — As células estão estagnadas. Se eu puder estudar isso... se pudermos ajudá-la...

— Ajudá-la? — Alex riu, um som seco e sem humor. — Nós estamos tentando sobreviver e vocês querem adotar um bicho de estimação que pode nos comer enquanto dormimos?

— Ela não vai nos comer, Alex. Ela nem sequer está olhando para o seu pescoço, ela está olhando para o seu relógio — apontou Renata.

De fato, a zumbi parecia fascinada pelo brilho do relógio de pulso de Alex. Ela deu mais um passo, seus dentes afiados à mostra, mas não em um rosnado, apenas porque seus lábios estavam levemente retraídos pela desidratação da pele.

— Fica longe — avisou Alex, recuando um passo.

A zumbi parou. Ela pareceu processar o tom de voz dele. A agressividade era algo que ela reconhecia. Ela baixou a mão com a tampa de metal, os ombros caindo levemente. Um lampejo de algo parecido com tristeza passou por seus olhos brancos, embora ela não tivesse a capacidade de chorar.

Ela se virou lentamente, pronta para voltar para a floresta e continuar sua coleta solitária de bugigangas inúteis.

— Espera! — gritou Renata.

A zumbi parou e olhou por cima do ombro.

— Nós... nós temos uma base. Perto daqui — Renata olhou para Alex, desafiando-o a interromper. — Tem comida, e roupas limpas. E eu tenho maquiagem. E pentes.

A zumbi não entendeu todas as palavras, mas entendeu o gesto de Renata, que estendeu a mão de forma acolhedora.

— Você está maluca — Alex repetiu, mas ele não levantou o rifle novamente. Ele olhou para a criatura — aquela coisa que deveria ser seu inimigo mortal — e viu apenas um ser perdido, sem nome, sem dor e sem lugar no mundo.

— Ela vem conosco, Alex — Diego disse com firmeza. — Como médico, eu não posso deixar um paciente assim para trás. E como cientista, ela é a chave para entendermos o que aconteceu com o mundo.

Alex olhou para o céu, buscando paciência. Ele pensou em sua irmã. Pensou que, se Sarah tivesse tido uma chance, mesmo que fosse uma chance estranha e pálida como aquela, ele gostaria que alguém tivesse estendido a mão.

— Se ela tentar morder alguém — Alex disse, apontando o dedo para a zumbi —, eu mesmo acabo com isso. Entendido?

A zumbi apenas inclinou a cabeça, curiosa com o dedo apontado.

— Vamos dar um nome a ela? — perguntou Renata, já se aproximando para tentar ajeitar uma mecha do cabelo bagunçado da criatura, que não reagiu ao toque, apenas piscou lentamente.

— Ela não precisa de nome — resmungou Alex, começando a caminhar na direção do observatório. — Ela é só... o Problema.

— Eu vou chamar ela de Hope — decidiu Renata, sorrindo.

A zumbi, agora batizada de Hope por uma garota que amava rosa, seguiu o grupo. Ela não sentia o cansaço da subida, nem a ansiedade do que viria a seguir. Ela apenas abriu sua bolsa e guardou a tampa de metal novamente, sentindo que, de alguma forma, aquele dia tinha lhe dado algo muito mais valioso para sua coleção do que um pedaço de lixo brilhante.

Ela tinha encontrado outros ecos. E, pela primeira vez em muito tempo, o silêncio em sua mente não parecia tão vazio.

Alex caminhava na frente, o coração ainda cheio de ódio, mas os olhos agora vigiando não apenas o que estava à frente, mas também a figura estranha que os seguia, tropeçando em suas próprias botas altas, carregando uma bolsa cheia de passado e um futuro que nenhum deles conseguia prever.

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