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Fandom: estilhaça-me

Criado: 24/08/2026

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RomanceDistopiaAngústiaDramaAçãoFicção CientíficaEstudo de PersonagemPós-ApocalípticoDor/Conforto
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O Eco do Silêncio em Tons de Cinza

A neve caía sobre o Setor 45 como se tentasse esconder as atrocidades cometidas sob o comando do Restabelecimento. Para Clara, no entanto, o frio nunca fora o problema. O problema era o calor que emanava do homem parado à sua frente, um calor que ela sabia que deveria evitar, mas que a atraía como uma mariposa para a chama.

Clara ajustou o uniforme cinza, sentindo o tecido apertado em seus braços fortes. Ela nunca fora como as outras garotas que Castle abrigara no Ponto Ômega. Ela era robusta, tinha curvas que a faziam se sentir deslocada e uma força física que muitas vezes a assustava. Sendo a filha adotiva de Castle, a pele alva e os traços europeus sempre geravam olhares confusos quando estavam juntos, mas o laço entre eles era inquebrável. Ele a salvara quando ela era apenas um bebê, e ela morreria por ele.

Mas agora, após um ano e meio infiltrada no coração do inimigo, Clara não tinha certeza de quem ela era.

— Você está distraída hoje — a voz de Aaron Warner cortou o silêncio do escritório.

Clara sobressaltou-se, apertando os dedos contra as palmas das mãos. Aaron estava sentado atrás de sua mesa de mogno, a postura impecável, os olhos verdes afiados como lâminas. Ele era o monstro que o mundo temia, o líder cruel que não hesitava em torturar para obter o que queria. Mas, para Clara, ele era o homem que, nas sombras da noite, a tocava como se ela fosse feita de vidro.

— Apenas o cansaço, senhor — respondeu ela, tentando manter a voz firme.

Aaron levantou-se, contornando a mesa com a elegância de um predador. Ele parou a poucos centímetros dela. O perfume dele — algo cítrico misturado com o cheiro metálico de armas — invadiu os sentidos de Clara.

— Quantas vezes eu preciso dizer que, quando estamos sozinhos, não sou seu "senhor"? — Ele estendeu a mão, tocando o rosto dela com uma delicadeza que ninguém mais no mundo conhecia. — Você é a única coisa real neste lugar de plástico, Clara.

Clara fechou os olhos, lutando contra a culpa que corroía seu estômago. Ela era uma espiã. Ela estava ali para passar informações a Kenji, que também estava infiltrado em outro setor da base. Ela deveria odiar Warner. Mas como odiar o homem que olhava para o corpo dela — o corpo que ela sempre odiara e tentara esconder — com uma adoração quase religiosa?

— Eu não deveria estar aqui — sussurrou ela.

— Eu sei — respondeu Aaron, aproximando o rosto do dela. — Mas eu não permitiria que você estivesse em nenhum outro lugar.

O beijo deles foi desesperado, um segredo trancado entre paredes de aço. Aaron a apertou contra si, as mãos firmes em sua cintura, e Clara sentiu, por um momento, que o mundo exterior não existia. Não havia resistência, não havia Castle, não havia o Restabelecimento. Havia apenas a respiração pesada de Aaron e o modo como ele a fazia se sentir poderosa, em vez de insegura.


Horas depois, Clara caminhava pelos corredores frios da ala leste, o coração ainda disparado. Ela precisava encontrar Kenji. As coisas estavam ficando perigosas; o Restabelecimento estava planejando um ataque coordenado a uma das células rebeldes, e ela tinha os mapas.

Ela dobrou a esquina e quase colidiu com um soldado. O coração saltou na garganta, mas o sorriso familiar e insolente sob o capacete a acalmou.

— Você está atrasada, "C" — sussurrou Kenji, puxando-a para um nicho escuro entre os dutos de ventilação.

— Ele não me deixava sair — respondeu Clara, entregando um pequeno chip de memória. — Kenji, isso está ficando insustentável. Ele confia em mim. Ele me conta coisas que não deveria.

Kenji suspirou, a expressão perdendo a diversão habitual. Ele era o único, além de Castle, que sabia sobre o envolvimento dela com Warner. No início, ele achou que era uma tática de sedução para obter informações, mas logo percebeu que Clara estava perdendo o coração para o inimigo.

— Castle está preocupado, Clara. Ele quer você fora daqui. A Juliette... uma garota que eles capturaram... ela vai chegar em breve. As coisas vão explodir. Você precisa sair antes que o Warner descubra quem você realmente é.

— Ele não vai descobrir — disse ela, embora sua voz tremesse.

— Ele é o Warner! — Kenji exclamou em um sussurro alto. — Ele descobre tudo. E quando ele descobrir que a mulher que ele ama é a filha do líder da resistência, ele vai destruir você ou vai destruir o mundo. Provavelmente os dois.

Clara desviou o olhar. Ela sabia que Kenji tinha razão. Mas a ideia de deixar Aaron, de deixá-lo naquela solidão fria que ele chamava de vida, partia sua alma em pedaços.


O desastre aconteceu três dias depois.

Um alarme estridente ecoou por toda a base militar. Luzes vermelhas giravam, banhando as paredes de concreto em uma cor de sangue. Clara estava em seu quarto quando a porta foi arrombada. Não era Aaron. Eram soldados da guarda pessoal de Anderson, o pai de Aaron.

— Clara Smith? — o soldado rosnou. — Você está sob custódia por traição e espionagem.

O mundo de Clara desabou. Ela lutou, usando a força que Castle a ensinara a canalizar, derrubando dois soldados antes de ser atingida por uma coronhada na nuca.

Quando acordou, ela estava em uma cela de contenção, mas a porta estava aberta. Kenji estava lá, ofegante, com o uniforme sujo de fuligem.

— Temos que ir. Agora! — ele disse, puxando-a pelo braço. — Eles pegaram o chip. Anderson sabe de tudo. Ele deu a ordem para te executarem antes mesmo do Warner saber.

— Onde está o Aaron? — Clara perguntou, a voz falhando.

— Ele está em uma missão na fronteira. Ele não sabe o que está acontecendo aqui. Se ficarmos, ele vai chegar e ver o seu cadáver, ou pior, ele vai ter que escolher entre você e o pai dele. Vamos, Clara! Pelo seu pai!

O pensamento em Castle deu a Clara o impulso que ela precisava. Eles correram pelos túneis de serviço, escapando por pouco das patrulhas. Enquanto cruzavam a cerca perimetral sob uma chuva de tiros, uma explosão destruiu parte do quartel-general.

Clara olhou para trás uma última vez. As chamas subiam ao céu, e ela sentiu um vazio profundo. Para todos os efeitos, a espiã Clara Smith morrera naquela explosão.


Seis meses depois.

O Ponto Ômega fervilhava com a chegada de Juliette Ferrars. A garota era o centro das atenções, a arma que Castle esperava usar contra o Restabelecimento. Mas, em um canto isolado da base subterrânea, Clara observava tudo em silêncio.

Ela estava mais magra, o rosto marcado por uma melancolia que nem mesmo os abraços constantes de Castle conseguiam curar.

— Você precisa comer algo, querida — disse Castle, aproximando-se da filha. Ele colocou uma mão reconfortante em seu ombro. — Eu sei o que você está sentindo.

— Não, pai, você não sabe — Clara respondeu, a voz rouca. — Eu o deixei lá. Ele acha que eu morri. Kenji me disse que ele ficou... pior.

— Ele é um monstro, Clara — Castle disse suavemente, embora seus olhos mostrassem que ele sofria pela dor da filha.

— Ele não era um monstro comigo — sussurrou ela.

Kenji entrou na sala, a expressão séria. Ele olhou para Clara com uma mistura de pena e hesitação.

— Tenho notícias do Setor 45 — disse ele. — Warner... ele perdeu o controle. Desde a explosão no quartel, ele não poupa ninguém. Ele está caçando todos os envolvidos na resistência com uma fúria que nunca vimos. Ele não dorme, ele mal come. Ele está destruindo tudo o que encontra.

Clara sentiu uma lágrima escorrer. Ela sabia o que aquilo significava. Aaron não estava apenas sendo cruel; ele estava sofrendo. Ele estava queimando o mundo porque a única luz que ele tinha se apagara.

— Ele encontrou o pingente? — perguntou Clara.

Kenji assentiu, tirando um relatório de inteligência do bolso.

— Os nossos informantes dizem que ele carrega um pedaço de metal retorcido no pescoço. O pingente de prata que você deixou cair perto da saída do túnel. Ele acha que é tudo o que restou de você.

Clara cobriu a boca com a mão, abafando um soluço. O pingente tinha a gravação de uma pequena fênix, um presente de Castle. Para Aaron, era a prova da morte dela.

— Eu preciso falar com ele — disse Clara, levantando-se abruptamente.

— Você enlouqueceu? — Kenji bloqueou o caminho dela. — Se você aparecer agora, ele vai te prender em uma cela e nunca mais te soltar. Ou ele vai te matar por ter mentido para ele por um ano e meio!

— Ele está morrendo por dentro, Kenji! — gritou ela, a força de sua voz ecoando pelas paredes de metal. — Eu sinto isso. Eu sinto a dor dele daqui!

— Clara, ouça-me — Castle interveio, segurando as mãos da filha. — Você é minha filha. Eu te criei para ser forte, para lutar por um mundo melhor. O que você teve com Aaron Warner foi um momento de humanidade em meio à guerra, mas agora a guerra é real. Se você voltar, você não será apenas a mulher que ele ama. Você será a filha do homem que ele jurou destruir.

Clara olhou para o pai, depois para Kenji. Ela viu a preocupação deles, o amor e o medo. Ela sabia que eles tinham razão. Mas, ao fechar os olhos, ela ainda conseguia sentir o toque de Aaron e ouvir sua voz sussurrando em seu ouvido que ela era a única coisa real.

— Ele vai vir atrás de nós — disse Clara, limpando as lágrimas com as costas da mão. — Ele não vai parar até encontrar quem causou a "morte" da mulher que ele amava. E quando ele descobrir que o Ponto Ômega está por trás disso... a Juliette não será o maior problema dele. Eu serei.

Kenji trocou um olhar preocupado com Castle.

— O que você quer dizer com isso? — perguntou Kenji.

Clara endireitou os ombros, a insegurança dando lugar a uma determinação sombria.

— Se ele quer um monstro para amar, ele vai descobrir que eu sou muito mais do que a garota gordinha e doce que ele conheceu. Eu sou uma rebelde. E se ele vier para nos destruir, eu serei a única pessoa capaz de pará-lo.

Naquele momento, Clara entendeu que seu romance proibido não terminara na explosão. Ele apenas mudara de forma. O amor se transformara em um fantasma que assombrava ambos, e o reencontro, quando acontecesse, não seria feito de beijos e promessas, mas de fogo e sangue.

Aaron Warner achava que tinha perdido tudo. Ele não sabia que sua maior inimiga era, na verdade, a razão pela qual ele ainda respirava. E Clara, a filha do Ponto Ômega, sabia que o coração dele era o único campo de batalha onde ela não tinha certeza se queria vencer.

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