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My dear

Fandom: Alien stage

Criado: 25/08/2026

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O Vazio entre Dois Olhares

A luz da manhã entrava pelas frestas da persiana do quarto 402, desenhando listras pálidas sobre o lençol branco. O cheiro era o mesmo de sempre: antisséptico, álcool e aquele vazio metálico que parecia impregnar as paredes de um hospital. Mizi estava sentada na poltrona desconfortável ao lado da cama, uma posição que suas costas já haviam decorado nos últimos quatro meses.

Ela segurava a mão de Sua. A pele da namorada estava pálida, quase translúcida, e a temperatura era sempre um pouco mais baixa do que Mizi lembrava dos tempos de escola.

— Sabe, o Till e o Ivan quase foram suspensos ontem — Mizi começou a falar, sua voz suave quebrando o silêncio rítmico dos aparelhos. Ela forçou um sorriso, mesmo que não houvesse ninguém para vê-lo. — O Ivan cismou que o Till estava usando um gloss labial novo e não parou de perseguir ele pelo corredor chamando ele de "princesa do rock". O Till explodiu, claro. Ele jogou o estojo de metal na cabeça do Ivan. O Luka teve que intervir antes que o diretor visse, mas a Hyuna acabou rindo tanto que atraiu a atenção da inspetora.

Mizi soltou um suspiro curto, apertando levemente os dedos de Sua.

— A escola está uma bagunça sem você para colocar ordem naqueles idiotas. Eu queria tanto que você pudesse reclamar de mim de novo. De como eu falo demais, ou de como eu sempre esqueço de devolver suas canetas.

Mizi abaixou a cabeça, deixando a testa encostar na lateral do colchão. O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado com a saudade de quatro meses que pareciam quatro anos. O terceiro ano estava passando, o quarto mês de aula já estava no fim, e o lugar ao seu lado na sala de aula continuava sendo apenas uma cadeira fantasma.

Foi então que ela sentiu.

Um espasmo. Mínimo, quase imperceptível. Mas para quem segurava aquela mão todos os dias, foi como um choque elétrico.

Mizi levantou a cabeça rapidamente. Seus olhos dourados se fixaram nos dedos de Sua. Eles se moveram novamente, um roçar lento contra a palma de Mizi.

— Sua? — Mizi sussurrou, o coração martelando contra as costelas.

As pálpebras de Sua tremeram. Houve um esforço visível, uma luta contra o peso do sono profundo que a mantinha cativa. Lenta e pesadamente, os olhos roxos se abriram.

Por um segundo, o mundo de Mizi parou. O brilho daquelas íris, que ela temia nunca mais ver, estava de volta.

— Sua! Meu Deus, você acordou! — Mizi se levantou num salto, as lágrimas já inundando sua visão. Ela apertou o botão de chamada dos enfermeiros freneticamente. — Calma, está tudo bem. Eu estou aqui.

Sua não respondeu. Seus olhos vagaram pelo teto, depois para as máquinas, e finalmente pousaram na garota de cabelos rosa e pontas azuis que chorava e sorria ao mesmo tempo à sua frente.

Não havia brilho de reconhecimento. Havia apenas um vazio profundo e aterrorizante.


O quarto logo se encheu de médicos e enfermeiros. Mizi foi afastada para o canto, observando com o coração na boca enquanto faziam testes de reflexo e checavam as pupilas de Sua. A garota na cama parecia um animal acuado. Ela seguia os movimentos dos médicos com uma confusão crescente, o corpo rígido sob os lençóis.

— Ela está estável — disse o médico chefe, virando-se para Mizi —, mas o estado de confusão mental é severo. Precisamos que você tenha paciência.

Mizi se aproximou da cama assim que eles deram espaço.

— Sua? — chamou baixinho, tentando controlar o tremor na voz. — Consegue me ouvir?

Sua olhou para ela. A expressão era de pura estranheza. Mizi tentou sorrir, aproximando-se para tocar seu ombro.

— Sou eu, a Mizi. Você está no hospital, mas está segura agora.

Sua continuou em silêncio. Ela abriu a boca, as cordas vocais tentando formular algo, mas apenas um arfar silencioso saiu. Uma expressão de pânico cruzou seu rosto pálido. Ela tentou de novo, forçando a garganta, os olhos se arregalando quando percebeu que som nenhum era produzido.

Ela levou a mão à garganta, apertando a pele com força, o peito subindo e descendo em respirações curtas.

— Calma, calma! — Mizi pediu, segurando as mãos dela para impedir que se machucasse. — Não tenta forçar, Sua. Está tudo bem.

Sua olhou para Mizi, e pela primeira vez, Mizi viu medo nos olhos da namorada. Um medo direcionado a ela, como se Mizi fosse uma estranha qualquer tentando tocá-la.


Os exames preliminares foram brutais.

— Qual o seu nome? — perguntou o médico.

Sua apenas olhou para ele, confusa.

— Você sabe que ano é este? Sabe quem é o presidente? Sabe onde você estuda?

Sua balançou a cabeça negativamente para cada pergunta. Ela parecia não saber sequer o próprio nome. Quando Mizi se aproximou e perguntou, com a voz embargada: "Você lembra de mim? Lembra de nós?", Sua apenas a encarou com uma indiferença dolorosa, antes de desviar o olhar para a janela.

Mizi sentiu como se o chão tivesse desaparecido. Ela saiu do quarto por um momento, encostando as costas na parede fria do corredor e deixando as lágrimas caírem. Sua estava viva. Ela tinha acordado. Mas a Sua que Mizi amava parecia ter ficado para trás, em algum lugar nas sombras do coma.

Ela pegou o celular e, com os dedos trêmulos, mandou uma mensagem no grupo dos amigos.

"Ela acordou. Por favor, venham."


Não demorou vinte minutos para que o corredor do hospital fosse invadido por passos apressados. Hyuna foi a primeira a chegar, praticamente correndo, seguida por Luka, que tentava manter a calma apesar da palidez no rosto. Logo atrás, Till vinha com as mãos nos bolsos da jaqueta, visivelmente tenso, e Ivan, que estranhamente não estava fazendo nenhuma piada.

— Ela acordou mesmo? — Hyuna perguntou, segurando os ombros de Mizi. — Como ela está?

— Ela está... — Mizi engoliu em seco — ...acordada. Mas ela não lembra de nada, Hyuna. De nada mesmo.

O grupo entrou no quarto em silêncio. Sua estava sentada, apoiada em alguns travesseiros. Ela segurava um bloco de notas e uma caneta que a enfermeira havia deixado. Quando a porta abriu e os cinco entraram, ela se encolheu levemente, os olhos roxos percorrendo cada rosto com cautela.

— Oi, Sua — disse Luka, com sua voz calma e educada. Ele parou a uma distância respeitável. — É bom ver você acordada.

Sua inclinou a cabeça, observando Luka. Ela não fez menção de conhecê-lo.

Hyuna se aproximou, o sorriso vibrante vacilando por um segundo.

— Ei, garota. Você deu um susto na gente, hein? Você lembra de mim? Sou a Hyuna. A gente costumava matar aula no terraço, lembra?

Sua olhou para Hyuna, depois para Mizi, e balançou a cabeça negativamente.

Till ficou parado perto da porta, bufando de forma nervosa.

— Isso é bizarro — ele resmungou, embora seus olhos verdes estivessem úmidos. — Ela não pode simplesmente esquecer tudo.

Ivan, que estava encostado na parede, deu um passo à frente. O sorriso de canto, aquele que ele sempre usava para irritar Sua e Till, estava ali, mas não chegava aos olhos.

— Então você finalmente acordou da sua soneca de beleza — disse Ivan, o tom provocador de sempre. — Já estava ficando chato não ter ninguém para ignorar minhas piadas. Você não lembra de mim, Sua? Do seu vizinho de carteira favorito?

Sua olhou para Ivan. Por um momento, Ivan sustentou o olhar, esperando o habitual revirar de olhos ou o sinal de mão ofensivo que ela sempre lhe dava. Mas nada veio. Sua apenas o encarou como se ele fosse um ruído de fundo, uma peça de mobília sem importância.

O sorriso de Ivan desapareceu completamente. Ele desviou o olhar, o maxilar tenso. Till notou a reação do amigo e, pela primeira vez, não disse nada para provocá-lo. O silêncio no quarto era sufocante.

Sua então começou a escrever no papel. O som da caneta arranhando a folha era o único ruído no ambiente. Ela terminou e virou o bloco para eles.

"Por que eu não consigo falar?"

Mizi sentiu um aperto no peito. Ela se aproximou da cama e sentou-se na beirada, tentando encontrar o olhar de Sua.

— Sua... você nunca falou — explicou Mizi, com a voz mais doce que conseguiu. — Você é muda. Desde que a gente se conhece.

Sua arregalou os olhos. Ela olhou para o papel, depois para a própria garganta, e então para as próprias mãos. Ela parecia horrorizada, como se tivesse acabado de descobrir uma deficiência que não deveria estar ali.

— Você falava com a gente por sinais — continuou Mizi, começando a mover as mãos com agilidade, fazendo o sinal para "amigos" e "amor". — Eu te ensinei alguns, e você aprendeu o resto nos livros. Você lembra disso?

Sua observou as mãos de Mizi com uma curiosidade distante, mas seus olhos permaneciam nublados. Ela não entendia os sinais. Ela havia esquecido a própria língua, a forma como sua alma se comunicava com o mundo.

— Ela não lembra dos sinais — sussurrou Hyuna, cobrindo a boca com a mão. — Mizi, ela esqueceu como falar com a gente.

Mizi sentiu as lágrimas voltarem, mas ela as engoliu. Ela não podia desabar agora. Ela estendeu a mão e, com hesitação, tocou a mão de Sua. Desta vez, Sua não recuou, mas também não retribuiu o aperto. Ela apenas olhava para Mizi com uma confusão profunda, como se estivesse tentando resolver um quebra-cabeça cujas peças não se encaixavam.

— Tá tudo bem — mentiu Mizi, forçando um sorriso enquanto uma lágrima solitária escapava e escorria pelo seu rosto. — A gente vai aprender tudo de novo. Eu vou te ensinar tudo de novo.

Sua olhou para Mizi por um longo tempo. Ela parecia notar a dor nos olhos dourados da garota de cabelo rosa, e por um breve segundo, houve um lampejo de empatia, se não de memória.

Ela voltou a escrever no papel, os movimentos lentos e incertos. Quando terminou, mostrou o bloco para o grupo.

"Quem são vocês?"

A pergunta, simples e direta, pairou no ar como uma sentença. Mizi olhou para os amigos. Hyuna estava com os olhos vermelhos; Luka mantinha a mão no ombro da namorada, com uma expressão solene; Till chutava o próprio tênis, incapaz de encarar a cena; e Ivan olhava fixamente para a janela, as mãos enfiadas nos bolsos, mais silencioso do que Mizi jamais o vira em toda a vida.

Eles eram sua família. Eram as pessoas que tinham contado os dias, as horas e os minutos para que ela abrisse os olhos. Eram o suporte de Mizi e a memória viva de quem Sua era.

Mas para a garota pálida na cama de hospital, eles eram apenas estranhos em um quarto iluminado demais.

Mizi respirou fundo, limpando o rosto com as costas da mão. Ela olhou para Sua, tentando ver além do vazio, buscando a centelha da garota que amava ler poesia e que tinha o sorriso mais discreto e lindo do mundo.

— Nós somos seus amigos — disse Mizi, a voz firme apesar de tudo. — E eu... eu sou a pessoa que não vai sair do seu lado até você se lembrar de quem você é.

Sua não respondeu. Ela apenas olhou para cada um deles, uma última vez, antes de baixar os olhos para o papel em branco, esperando por uma história que ela não conseguia mais ler.

O capítulo da vida delas antes do acidente havia sido encerrado abruptamente. E ali, naquele quarto silencioso, as páginas em branco começavam a ser escritas, mas com uma tinta que Sua ainda não reconhecia como sua.

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