
Melhores amigos
Fandom: era o primeiro dia de aula do 2 o fundamental no sexto ano
Criado: 25/08/2026
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O Reflexo nos Olhos Claros
O pátio da escola parecia um oceano de uniformes novos, mochilas pesadas e o cheiro característico de cera de assoalho misturado com ansiedade. Para Prietro, aquele primeiro dia do sexto ano no Ensino Fundamental II tinha um peso diferente. Não era apenas a mudança de prédio ou o fato de ter vários professores em vez de apenas um; era a sensação de que ele estava carregando um segredo que nem ele mesmo sabia nomear direito.
Ele ajeitou os óculos e passou a mão pelos cabelos cacheados, que na época eram uma massa indomável e um pouco ressecada. Prietro ainda não entendia de cremes ou finalizações; apenas lavava e deixava o volume crescer para todos os lados, o que o deixava com um ar constantemente bagunçado, mas genuíno. Seus olhos, levemente puxados, observavam o movimento com uma timidez que ele tentava disfarçar.
Foi no meio daquela confusão que ele a viu.
Isabele estava encostada em uma pilastra, parecendo ainda menor do que realmente era perto dos alunos mais velhos do nono ano que passavam correndo. Ela era muito branca, de uma palidez que quase brilhava sob as luzes fluorescentes do corredor, superando até mesmo o tom de pele de Prietro. Seus cabelos castanhos escuros caíam em ondas perfeitas sobre os ombros, emoldurando um rosto pequeno onde se destacavam olhos castanhos claros, da cor de mel sob o sol.
— Oi. Você também está perdido procurando a sala 204? — A voz dela era suave, mas decidida.
Prietro piscou, surpreso por alguém ter falado com ele primeiro.
— Oi... Eu acho que sim. É a do sexto ano B, né? — Ele deu um sorriso tímido, sentindo o rosto esquentar um pouco.
— Essa mesma. Eu sou a Isabele. Mas pode me chamar de Isa — disse ela, dando um passo à frente. Ela era bem mais baixa que ele, o que o obrigava a olhar um pouco para baixo.
— Eu sou o Prietro. Prazer, Isa.
Naquele momento, enquanto caminhavam lado a lado pelos corredores apertados, nenhum dos dois sabia que aquele era o início de algo que duraria anos. A conexão foi instantânea. Enquanto os outros alunos formavam grupinhos barulhentos baseados em quem jogava futebol ou quem tinha o videogame mais novo, Prietro e Isabele criaram um mundo só deles no fundo da sala de aula.
— Você já reparou que o professor de matemática parece um pouco com um buldogue? — sussurrou Isabele durante a segunda aula, inclinando-se para o lado de Prietro.
Ele soltou uma risadinha abafada, tentando não chamar a atenção.
— Agora que você falou, eu não consigo desver. Só falta ele começar a rosnar quando alguém erra a tabuada.
— Shhh! Ele está olhando! — Isa escondeu o rosto atrás do caderno, os olhos castanhos claros brilhando de diversão.
Os meses passaram e a amizade se tornou o porto seguro de ambos. Prietro era o tipo de garoto que ouvia mais do que falava, e Isabele era a única que parecia entender seus silêncios. À medida que o ano avançava, Prietro começou a mudar. Ele cresceu rápido, ganhando centímetros que o deixavam cada vez mais distante da altura de Isa. Seus cabelos, antes sem corte, começaram a receber mais atenção. Ele aprendeu a usar os produtos certos, e os cachos ganharam definição, tornando-se uma moldura elegante para seu rosto de traços orientais.
Por dentro, porém, a confusão crescia junto com ele. Prietro sentia que não se encaixava nas conversas dos outros meninos sobre as meninas da sala. Havia uma sensibilidade nele que o diferenciava, uma percepção do mundo que pendia para o lado das cores, das artes e de uma atração que ele ainda estava tentando decifrar. Ele sabia que era gay, ou pelo menos começava a aceitar essa palavra em sua mente, mas o mundo lá fora ainda parecia hostil demais para isso.
Exceto com Isabele. Com ela, ele sentia que podia ser qualquer coisa.
— Prietro, você está muito alto! — reclamou ela em uma tarde de quarta-feira, enquanto esperavam o sinal da saída sentados no pátio. — Minha cabeça mal chega no seu ombro agora. O que você está comendo? Fermento?
Ele riu, passando a mão pelos cachos agora bem cuidados.
— Acho que é só a genética, Isa. E você que resolveu parar no tempo.
— Não parei no tempo, sou compacta para facilitar o transporte — rebateu ela, dando um empurrãozinho no braço dele. — Mas falando sério... Seus cachos estão lindos hoje. Você finalmente aprendeu a passar o creme que eu te emprestei?
— Aprendi, professora — ele brincou, olhando-a nos olhos. — Obrigado por cuidar de mim.
Isabele desviou o olhar por um segundo, e Prietro notou um leve rubor nas bochechas dela. Houve um silêncio confortável, mas carregado de algo novo. A amizade deles, que nascera da necessidade de companhia no primeiro dia de aula, estava se transformando em algo mais denso, mais complexo.
Conforme o sexto ano chegava ao fim e os anos seguintes se aproximavam, a dinâmica entre os dois mudou. Eles ainda eram melhores amigos, mas o toque das mãos que se esbarravam por acidente começou a causar eletricidade. Prietro, apesar de suas descobertas internas sobre sua sexualidade, sentia por Isabele um amor profundo que o confundia. Era uma conexão de almas que transcendia rótulos.
— Você acha que a gente vai ser amigo para sempre? — perguntou Isabele, certa vez, quando estavam na biblioteca estudando para a prova final.
Prietro parou de escrever e olhou para ela. Ela parecia tão pequena naquelas cadeiras grandes da escola, mas a força que emanava dela era imensa.
— Eu não consigo imaginar minha vida sem você, Isa — disse ele com sinceridade. — Você foi a primeira pessoa que me viu de verdade naquela escola.
— Eu vi você porque você brilhava, Prietro. Mesmo com aquele cabelo todo bagunçado de três anos atrás.
Eles riram, lembrando-se do primeiro dia.
— E você — continuou ele —, você era a menina mais braquinha e decidida que eu já tinha visto. Parecia uma boneca de porcelana que ia mandar em todo mundo.
— E eu não mando? — Ela arqueou uma sobrancelha, divertida.
— Manda. Especialmente em mim.
O tempo continuou seu curso. Prietro tornou-se um jovem alto, de uma beleza singular, com seus olhos puxados e cachos impecáveis que agora eram sua marca registrada. Isabele continuava a "baixinha" do grupo, mas sua presença preenchia qualquer ambiente.
A tensão entre o que sentiam e o que eram começou a transbordar. Prietro sabia que sua jornada de autodescoberta como homem gay era essencial, mas o sentimento por Isabele era uma âncora de afeto real. Para Isabele, Prietro era o porto seguro, o rapaz que cresceu ao seu lado e que a entendia sem que ela precisasse dizer uma palavra.
Em uma tarde chuvosa, já no final do ensino fundamental, eles ficaram presos na escola esperando a chuva passar. O corredor estava vazio, as luzes estavam baixas e o som da água batendo nas janelas criava uma bolha de isolamento.
— Prietro... — chamou ela, a voz quase um sussurro.
— Oi, Isa.
— Às vezes eu sinto que a gente cresceu tanto que o mundo ficou pequeno.
Ele se aproximou dela, a diferença de altura agora sendo quase cômica, mas a proximidade era intensa.
— O mundo é pequeno, Isa. O que a gente tem é que é grande demais.
Ele tocou o rosto dela, a pele branca contrastando com os dedos dele. Isabele fechou os olhos, sentindo o carinho. Naquele momento, não importava o futuro, as dúvidas ou o que a escola pensava. Eles eram apenas Prietro e Isabele, os dois alunos perdidos do primeiro dia de aula que acabaram encontrando um no outro o lugar onde sempre pertenceram.
— Eu te amo — disse ela, tão baixo que ele quase não ouviu.
Prietro sentiu o coração acelerar. Ele sabia quem ele era, e sabia o que sentia por ela. Eram sentimentos que coexistiam em sua alma jovem e em crescimento.
— Eu também te amo, Isa. Sempre foi você.
A chuva continuou caindo lá fora, mas dentro daquele corredor, o tempo havia parado para os dois melhores amigos que, entre cadernos e brincadeiras, descobriram que o amor tem muitas formas, e a deles era a mais bonita de todas.
